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Atlas de Oftalmologia • Íris

Melanoma de íris

Melanoma uveal anterior • iris melanoma

Tumor maligno dos melanócitos da íris, o menos frequente e o de melhor prognóstico entre os melanomas uveais. Costuma ser visível a olho nu — e por isso diagnosticado mais cedo. O desafio é separá-lo do nevo: crescimento documentado, vasos próprios, ectrópio uveal e glaucoma são os sinais de alarme.

ÍrisTumor malignoCrescimento documentadoUBM + fotografia seriada
15–18 min de leitura Atualizado em outubro de 2026

Reconheça o achado

Imagem clínica

Massa pigmentada elevada na íris inferior, com distorção da pupila. Toque para ampliar.

Principais achados
  1. 1
    Massa pigmentada (ou amelanótica) elevada, em geral na íris inferior
  2. 2
    Vasos intrínsecos na lesão
  3. 3
    Distorção da pupila (corectopia) e ectrópio uveal
  4. 4
    Glaucoma secundário unilateral
  5. 5
    Sementes tumorais no ângulo ou na superfície da íris
  6. 6
    Hifema espontâneo (raro)

Em 30 segundos

O essencial de visão geral

  1. Melanoma de íris representa cerca de 5% dos melanomas uveais.
  2. Mais comum em pessoas de pele e íris claras; pico entre a 4ª e a 6ª década.
  3. Formas: circunscrita (nodular), difusa e em tapioca.
  4. Prognóstico bem melhor que o de coroide e corpo ciliar.

O que é

O trato uveal (íris, corpo ciliar e coroide) é o local mais comum de melanoma primário dentro do olho no adulto. Os melanomas da íris são minoria (cerca de 5%), mas são os mais fáceis de ver: costumam ser notados pelo paciente ou num exame de rotina, ainda pequenos.

A maioria tem células fusiformes, de baixo grau, e cresce devagar. Isso, junto com o diagnóstico precoce, explica o prognóstico favorável. Ainda assim, é um câncer: pode invadir o ângulo, causar glaucoma de difícil controle e, em uma minoria, metastatizar — sobretudo para o fígado.

Na íris, a grande pergunta é nevo ou melanoma? A resposta vem do crescimento documentado e dos fatores de risco, não de uma única foto.

Epidemiologia e fatores de risco

Fenótipo claro

Pele e íris claras; muito mais comum em brancos.

Idade

Pico na meia-idade; pode ocorrer em jovens.

Nevo prévio

Parte surge de nevos preexistentes.

Localização inferior

Predomínio na metade inferior, possivelmente pela exposição solar.

Melanocitose oculodérmica

Nevo de Ota aumenta o risco de melanoma uveal.

Síndrome BAP1

Predisposição hereditária a melanoma uveal e outros tumores.

Em 30 segundos

O essencial de quadro clínico

  1. Muitas vezes assintomático; notado como mancha ou mudança de cor.
  2. Circunscrito: nódulo pigmentado bem delimitado, em geral inferior.
  3. Difuso: escurecimento progressivo da íris (heterocromia adquirida) e glaucoma.
  4. Tapioca: nódulos amelanóticos na superfície, como "grãos de tapioca".

Formas clínicas

A morfologia muda a forma de suspeitar e de tratar. O tipo difuso é o mais traiçoeiro: não forma massa, apenas escurece e espessa a íris, e muitas vezes se apresenta como glaucoma unilateral.

Mais comum

Circunscrito

Nódulo pigmentado elevado, bem delimitado, com vasos próprios; pode distorcer a pupila e causar ectrópio uveal.

Traiçoeiro

Difuso

Espessamento e escurecimento de grande parte da íris, perda das criptas, heterocromia adquirida e glaucoma.

Raro

Em tapioca

Múltiplos nódulos amelanóticos ou pouco pigmentados na superfície da íris.

Sinais associados

Corectopia

Pupila puxada ou deformada em direção ao tumor.

Ectrópio uveal

Epitélio pigmentar evertido na margem pupilar junto à lesão.

Glaucoma

Por invasão do ângulo, sementes pigmentadas ou neovasos.

Vasos intrínsecos

Vasos dentro da lesão, visíveis à lâmpada de fenda.

Hifema

Sangramento espontâneo da lesão (raro).

Catarata setorial

Opacidade do cristalino junto ao tumor que o toca.

Nevo que vira melanoma: guia ABCDEF

Numa série de 1.611 olhos com nevo de íris (Shields et al., 2013), cerca de 4% cresceram para melanoma em 5 anos, 8% em 10 anos e 11% em 15 anos. Seis fatores, resumidos no acrônimo ABCDEF, aumentaram o risco.

LetraFator de riscoSignificado
A — AgeIdade jovem≤ 40 anos ao diagnóstico
B — BloodSangueHifema
C — Clock hourPosição inferiorEntre 4 e 9 horas
D — DiffuseConfiguração difusaLesão plana e extensa, sem margem nítida
E — EctropionEctrópio uvealEpitélio pigmentar evertido
F — FeatheryMargens "em pena"Bordas desfiadas, mal definidas

Shields CL et al., Ophthalmology 2013. Mais fatores = mais risco; a decisão de tratar se apoia em crescimento documentado.

Em 30 segundos

O essencial de diagnóstico

  1. Fotografia de alta qualidade e medidas na primeira consulta: base para comparar.
  2. Gonioscopia: sementes e invasão do ângulo.
  3. UBM: espessura e extensão ao corpo ciliar (atrás da íris).
  4. Biópsia por agulha fina ou excisional nos casos duvidosos ou antes de radioterapia.

Avaliação

  1. Biomicroscopia

    Extensão em horas de relógio, diâmetro e espessura estimados, cor, vasos, ectrópio uveal, sementes.

  2. Fotografia seriada

    Mesma iluminação e aumento a cada consulta; é a ferramenta para documentar crescimento.

  3. Gonioscopia

    Invasão do ângulo, pigmento e sementes tumorais; extensão ao corpo ciliar.

  4. Tonometria

    Glaucoma secundário.

  5. UBM e OCT de segmento anterior

    Espessura, margens, extensão posterior ao corpo ciliar; UBM vê através do pigmento.

  6. Transiluminação e fundo de olho

    Sombra do tumor; excluir melanoma de corpo ciliar/coroide que se estende para a íris.

Estadiamento (AJCC 8ª edição) — íris

O sistema TNM da AJCC tem categorias próprias para a íris. Resumo simplificado:

Categoria TExtensão
T1Limitado à íris (T1a: ≤ 3 horas de relógio; T1b: > 3 horas; T1c: com glaucoma secundário)
T2Confluente com o corpo ciliar e/ou a coroide, ou estendendo-se a eles
T3Como T2, com extensão escleral
T4Extensão extraescleral

AJCC Cancer Staging Manual, 8ª ed. (2017). N = linfonodos regionais; M = metástase (fígado é o principal sítio). Consultar o manual para subcategorias completas.

Estadiamento sistêmico (exame de imagem do fígado e testes de função hepática) é feito em todo melanoma uveal confirmado, com seguimento periódico.

Diagnóstico diferencial

CondiçãoAchado-chaveComo diferenciar
Achado-chaveLesão pigmentada estável
Como diferenciarPlana ou pouco elevada; sem crescimento, sem vasos, sem glaucoma.
Achado-chaveAbaulamento liso
Como diferenciarUBM: lesão oca de parede fina.
Melanocitoma de íris
Achado-chaveLesão negra, aveludada
Como diferenciarPigmento muito escuro; pode semear pigmento; biópsia se dúvida.
Achado-chavePontos planos pigmentados
Como diferenciarSem relevo e sem efeito sobre a íris.
Achado-chaveMassa atrás da íris que a invade
Como diferenciarUBM e transiluminação; vasos sentinela episclerais.
Heterocromia de outras causas
Achado-chaveÍris de cores diferentes
Como diferenciarCongênita, Horner, Fuchs, siderose, colírios de prostaglandina.
Metástase na íris
Achado-chaveMassa amelanótica de crescimento rápido
Como diferenciarCâncer conhecido (mama, pulmão); sementes e hipópio.

Galeria oftalmológica

Para cada lesão, procure as pistas de malignidade: espessura, vasos, ectrópio uveal, deformação da pupila e sinais no ângulo.

Melanoma circunscrito da íris inferior

Nódulo castanho-escuro elevado na íris inferior, distorcendo a pupila em sua direção. A posição inferior é um dos fatores de risco do guia ABCDEF.

CircunscritoCorectopia

Vasos intrínsecos e ectrópio uveal

Lesão com vasos próprios na superfície e eversão do epitélio pigmentar na margem pupilar — sinais que pesam a favor de melanoma.

VasosEctrópio uveal

Melanoma difuso com heterocromia

Uma íris mais escura e espessada que a outra, sem nódulo definido. Associado a glaucoma unilateral, é a apresentação clássica do melanoma difuso.

DifusoHeterocromia adquirida

Nevo de íris (comparação)

Mancha pigmentada plana, bem delimitada, sem vasos e sem distorção da pupila. Fotografe e compare no seguimento: estabilidade fala a favor de nevo.

NevoDiferencial

Imagem complementar

UBM

Biomicroscopia ultrassônica

Massa sólida de refletividade média na íris, com medida de espessura; avalia se o tumor alcança a raiz da íris e o corpo ciliar.

Em 30 segundos

O essencial de tratamento

  1. Lesão suspeita sem crescimento: observação com fotografia e UBM seriadas.
  2. Crescimento documentado ou sinais de malignidade: tratamento em centro de oncologia ocular.
  3. Circunscrito pequeno: iridectomia ou iridociclectomia.
  4. Difuso, com sementes ou maior: braquiterapia com placa ou prótons; enucleação nos extensos.

Opções por cenário

Não há tratamento farmacológico para o tumor primário. A escolha depende do tamanho, da extensão para o ângulo e o corpo ciliar, da presença de sementes e da visão do olho.

CenárioTratamentoObservações
Lesão suspeita, estávelObservaçãoFoto e UBM a cada 6–12 meses
Circunscrito, ≤ 3–4 horas, sem sementesIridectomia setorial (ou iridociclectomia se toca o corpo ciliar)Confirma o diagnóstico histológico; pode causar fotofobia e diplopia monocular
Difuso, com sementes no ângulo ou maiorBraquiterapia com placa (ex.: iodo-125) ou radioterapia com prótonsTrata toda a íris/ângulo; risco de catarata, olho seco e glaucoma
Extenso, glaucoma intratável, olho cego e dolorosoEnucleaçãoTambém quando há extensão extraescleral importante
Doença metastáticaOncologia clínicaTebentafusp (HLA-A*02:01), imunoterapia, terapias dirigidas ao fígado

Cirurgia local

Remove a lesão com margem; o defeito pode ser corrigido com lente de contato com íris pintada ou prótese de íris.

Radioterapia

Placa episcleral ou prótons; controle local alto, preservando o olho na maioria.

Glaucoma

Tratado com colírios; cirurgias filtrantes são evitadas pelo risco de disseminação extraocular.

Seguimento

Após o tratamento: exame ocular periódico (recidiva local, glaucoma, catarata, efeitos da radiação) e vigilância sistêmica, sobretudo hepática, por muitos anos.

Em 30 segundos

O essencial de prognóstico

  1. Melhor prognóstico entre os melanomas uveais.
  2. Metástase: ~3% em 5 anos, ~5% em 10 anos, ~10% em 20 anos.
  3. Pior com invasão do corpo ciliar, glaucoma, extensão extraescleral e células epitelioides.

Por que o prognóstico é melhor

Os melanomas de íris são, em geral, diagnosticados pequenos (são visíveis), e a maioria é formada por células fusiformes de baixo grau. Quando o tumor envolve o corpo ciliar, o comportamento passa a se aproximar do melanoma de corpo ciliar, com maior risco de metástase.

≈ 5%dos melanomas uveais estão na íris
≈ 5%Metástase em 10 anos
4% → 11%Nevos que viram melanoma em 5 → 15 anos

Referências bibliográficas

  1. 1
    Artigo2013
    Shields CL, Kaliki S, Hutchinson A, et al. Iris nevus growth into melanoma: analysis of 1611 consecutive eyes: the ABCDEF guide. Ophthalmology. 2013;120(4):766–772.
  2. 2
    Artigo2012
    Shields CL, Kaliki S, Shah SU, Luo W, Furuta M, Shields JA. Iris melanoma: features and prognosis in 317 children and adults. J AAPOS. 2012;16(1):10–16.
  3. 3
    Livro-texto2017
    Amin MB, Edge SB, Greene FL, et al., eds. AJCC Cancer Staging Manual. 8. ed. Springer; 2017.
  4. 4
    Livro-texto2025
    American Academy of Ophthalmology. Basic and Clinical Science Course (BCSC), Section 4: Ophthalmic Pathology and Intraocular Tumors. San Francisco: AAO; 2024–2025.
  5. 5
    Livro-texto2020
    Bowling B. Kanski’s Clinical Ophthalmology: A Systematic Approach. 9. ed. Elsevier; 2020.
  6. 6
    Artigo2021
    Nathan P, Hassel JC, Rutkowski P, et al. Overall survival benefit with tebentafusp in metastatic uveal melanoma. N Engl J Med. 2021;385(13):1196–1206.
  7. 7
    Revisão online2026
    EyeWiki — American Academy of Ophthalmology. Iris Melanoma. Acesso em 2026.

Fontes das imagens

As imagens deste atlas têm finalidade educacional e foram produzidas a partir de referências clínicas reais e de representações anatômicas didáticas.

Parte delas pode ter sido editada ou aprimorada digitalmente para destacar as estruturas e os achados descritos no texto.

Aviso importante

Material educacional. Não substitui a avaliação oftalmológica, os protocolos institucionais nem a consulta às bulas. Lesões suspeitas devem ser avaliadas em centro de oncologia ocular.

Atlas MedFoco de Oftalmologia • Conteúdo para educação médica. O diagnóstico e a conduta dependem da avaliação clínica individual.
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