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Atlas de Oftalmologia • Córnea

Úlcera de Mooren

Mooren’s ulcer • ceratite ulcerativa periférica idiopática

Úlcera corneana periférica, extremamente dolorosa e progressiva, de origem autoimune, que avança em círculo ao redor do limbo e depois para o centro, com uma borda escavada característica. É um diagnóstico de exclusão: só se fala em Mooren depois de afastar infecção e doenças sistêmicas (artrite reumatoide, vasculites). Exige imunossupressão escalonada.

Córnea periféricaAutoimuneDor intensaTratamento escalonado
15–18 min de leitura Atualizado em outubro de 2026

Reconheça o achado

Imagem clínica

Úlcera de Mooren: úlcera periférica em crescente com borda central escavada, avançando ao redor do limbo. Toque para ampliar.

Principais achados
  1. 1
    Úlcera periférica em crescente, a partir do limbo
  2. 2
    Borda central escavada (solapada) e infiltrada
  3. 3
    Progressão circunferencial e depois central
  4. 4
    Vascularização e cicatriz atrás da borda que avança
  5. 5
    Esclera poupada (sem esclerite)
  6. 6
    Dor intensa, fotofobia e lacrimejamento

Em 30 segundos

O essencial de visão geral

  1. Ceratite ulcerativa periférica autoimune, idiopática e muito dolorosa.
  2. Borda central escavada; avança em círculo e depois para o centro.
  3. Não acomete a esclera e não tem doença sistêmica associada.
  4. Diagnóstico de exclusão; tratamento imunossupressor escalonado.

O que é

A úlcera de Mooren é uma forma rara de ceratite ulcerativa periférica (PUK) que não se associa a doença sistêmica nem a esclerite. Gatilhos descritos incluem trauma, cirurgia ocular, infecções (hepatite C, helmintos) — que poderiam expor antígenos corneanos e desencadear autoimunidade.

É responsável por parte importante das PUK sem causa sistêmica. A doença é muito mais frequente e agressiva em algumas regiões da África e da Ásia.

Úlcera periférica + dor intensa + esclera poupada + investigação sistêmica negativa = Mooren. Esclerite associada aponta para vasculite sistêmica.

Formas clínicas

A divisão clássica separa uma forma limitada, de idosos, de uma forma agressiva, de jovens. Watson (1997) propôs três tipos com base na angiografia do segmento anterior e na resposta ao tratamento.

Limitada (tipo 1)

  • Unilateral, idosos
  • Dor intensa, progressão mais lenta
  • Responde melhor ao tratamento

Agressiva (tipo 2)

  • Bilateral, adultos jovens
  • Progressão rápida, perfuração
  • Exige imunossupressão sistêmica

Bilateral indolente (Watson)

  • Idosos, bilateral
  • Pouca inflamação
  • Afinamento periférico progressivo

Em 30 segundos

O essencial de quadro clínico

  1. Dor intensa, fotofobia e lacrimejamento.
  2. Úlcera começa na periferia e avança em crescente.
  3. Borda central escavada; área percorrida fica fina e vascularizada.
  4. Pode envolver 360° e depois o centro.

Sinais e sintomas

Dor intensa

Constante, desproporcional, piora à noite.

Fotofobia

Importante.

Hiperemia

Conjuntival e límbica no setor da úlcera.

Úlcera em crescente

Borda central solapada e infiltrada.

Progressão

Circunferencial e depois central.

Baixa visual

Astigmatismo, envolvimento central, irite.

Como a úlcera evolui

  1. Infiltrado periférico

    Opacidade cinzenta na periferia, perto do limbo, com dor.

  2. Úlcera em crescente

    Epitélio se rompe; a borda central fica escavada.

  3. Avanço circunferencial

    A úlcera percorre o limbo; atrás dela, a área cicatriza fina e vascularizada.

  4. Avanço central

    Pode cobrir toda a córnea ou perfurar.

Em 30 segundos

O essencial de diagnóstico

  1. Diagnóstico clínico e de exclusão.
  2. Raspado e cultura para afastar infecção.
  3. Investigação sistêmica completa para afastar PUK de doença autoimune.
  4. Avaliar a esclera: esclerite exclui Mooren.

Investigação

  1. Biomicroscopia

    Extensão em horas de relógio, profundidade, borda escavada, afinamento, Seidel; esclera adjacente.

  2. Microbiologia

    Raspado com Gram, fungos e culturas; herpes quando suspeito.

  3. Reumatológico

    Hemograma, VHS, PCR, fator reumatoide, anti-CCP, FAN, ANCA (c e p), complemento, função renal e urina (vasculite).

  4. Infecções sistêmicas

    Hepatite C, sífilis, tuberculose; parasitológico de fezes em regiões endêmicas.

  5. Imagem

    Radiografia de tórax (granulomatose com poliangiite, sarcoidose, tuberculose).

Diagnóstico diferencial

CondiçãoAchado-chaveComo diferenciar
PUK por artrite reumatoide
Achado-chaveÚlcera periférica + artrite
Como diferenciarFrequentemente com esclerite; FR/anti-CCP positivos; marcador de vasculite sistêmica.
Granulomatose com poliangiite
Achado-chavePUK + sinusite, rins, pulmões
Como diferenciarc-ANCA (PR3); esclerite necrosante.
Achado-chaveInfiltrado com secreção
Como diferenciarCultura positiva; responde a antimicrobiano.
Achado-chaveAfinamento superior com lipídio
Como diferenciarIndolor, epitélio íntegro, progressão em anos.
Achado-chaveInfiltrado periférico com faixa clara
Como diferenciarPouca dor, sem escavação, blefarite.
Achado-chaveInflamação escleral profunda
Como diferenciarMooren não envolve a esclera.

Galeria oftalmológica

Observe a borda central escavada, a extensão em horas de relógio e a esclera vizinha.

Úlcera em crescente

Úlcera periférica acompanhando o limbo, com borda central branca e escavada. A conjuntiva adjacente está hiperemiada, mas a esclera não está inflamada.

CrescenteBorda escavada

Fluoresceína

A área ulcerada cora; repare que o corante "entra" sob a borda solapada.

FluoresceínaDefeito epitelial

Envolvimento extenso

A úlcera percorreu grande parte da circunferência; atrás dela, córnea fina e vascularizada.

CircunferencialVascularização

Após ressecção conjuntival

Esclera exposta junto ao limbo no setor da úlcera, após ressecção da conjuntiva: retira a fonte de células inflamatórias e enzimas.

CirurgiaRessecção conjuntival

Em 30 segundos

O essencial de tratamento

  1. Degrau 1: corticoide tópico intenso + ciclosporina tópica; proteger contra infecção.
  2. Degrau 2: ressecção da conjuntiva adjacente (± membrana amniótica).
  3. Degrau 3: corticoide oral e imunossupressores (metotrexato, micofenolato, ciclofosfamida, biológicos).
  4. Degrau 4: cola, enxerto lamelar ou tectônico; ceratoprótese em casos terminais.

Escada terapêutica

Não há ensaios randomizados (revisão Cochrane). O tratamento segue a abordagem em degraus descrita em revisões recentes: sobe-se um degrau quando a úlcera continua avançando. Antibiótico tópico profilático, cicloplégico, lubrificação e oral (anticolagenase) acompanham todos os degraus.

  1. Tópico

    Corticoide frequente e ciclosporina; antibiótico profilático.

  2. Ressecção conjuntival

    Conjuntiva adjacente removida até a esclera nua, estendendo-se além das bordas da úlcera; pode ser repetida.

  3. Sistêmico

    Corticoide oral, depois poupadores (metotrexato, micofenolato, azatioprina, ciclofosfamida), biológicos (infliximabe, adalimumabe, rituximabe).

  4. Cirúrgico

    Cola de cianoacrilato, membrana amniótica, enxerto lamelar em crescente ou tectônico; ceratoprótese em casos terminais.

Rotas de tratamento

Doses de referência da literatura recente (Ou et al., 2025) e de Kanski. Imunossupressão sistêmica deve ser conduzida com reumatologista/uveíta e monitoramento laboratorial.

Em 30 segundos

O essencial de prognóstico

  1. Forma limitada: boa resposta ao tratamento escalonado.
  2. Forma agressiva bilateral: alto risco de perfuração e perda visual.
  3. Recidivas são frequentes, inclusive em enxertos.
  4. Seguimento prolongado é obrigatório.

Evolução

A doença costuma "apagar" depois de percorrer a córnea, deixando-a fina, vascularizada e opaca. O controle precoce preserva a visão central. Transplantes ópticos devem esperar a doença inativa por longo tempo, sob imunossupressão.

Referências bibliográficas

  1. 1
    Artigo2025
    Ou S, Zhang Y, Feng Y, et al. Mooren’s ulcer: a multifactorial autoimmune peripheral ulcerative keratitis and current treatment protocols. Front Med (Lausanne). 2025;12:1630585. doi:10.3389/fmed.2025.1630585.
  2. 2
    Artigo2014
    Alhassan MB, Rabiu M, Agbabiaka IO. Interventions for Mooren’s ulcer. Cochrane Database Syst Rev. 2014;(1):CD006131.
  3. 3
    Livro-texto2025
    American Academy of Ophthalmology. Basic and Clinical Science Course (BCSC), Section 8: External Disease and Cornea. San Francisco: AAO; 2024–2025.
  4. 4
    Livro-texto2020
    Bowling B. Kanski’s Clinical Ophthalmology: A Systematic Approach. 9. ed. Elsevier; 2020.
  5. 5
    Artigo1997
    Watson PG. Management of Mooren’s ulceration. Eye (Lond). 1997;11(Pt 3):349–356.
  6. 6
    Revisão online2026
    EyeWiki (American Academy of Ophthalmology). Mooren’s Ulcer. Revisão online; acesso em 2026.

Fontes das imagens

As imagens deste atlas têm finalidade educacional e foram produzidas a partir de referências clínicas reais e de representações anatômicas didáticas.

Parte delas pode ter sido editada ou aprimorada digitalmente para destacar as estruturas e os achados descritos no texto.

Aviso importante

Material educacional. Não substitui a avaliação oftalmológica, os protocolos institucionais nem a consulta às bulas. Imunossupressão sistêmica deve ser prescrita e monitorada por especialista, com exames laboratoriais periódicos.

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