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Atlas de Oftalmologia • Cristalino

Catarata em girassol

Depósito de cobre sob a cápsula anterior do cristalino, com um disco central e raios que lembram as pétalas de um girassol. Aparece na doença de Wilson (degeneração hepatolenticular) e na calcose (corpo estranho intraocular com cobre). Não costuma reduzir a visão e pode regredir com o tratamento quelante.

Tipo
Opacidade metabólica
Localização
Subcapsular anterior, central
Mecanismo
Depósito de cobre na cápsula
Pista no exame
Disco + raios, cor esverdeada
7–9 min de leitura Atualizado em outubro de 2026

Reconheça o achado

O cobre se acumula na face interna da cápsula anterior. O padrão segue a anatomia do cristalino: um disco central no eixo e raios finos que se estendem para a periferia, com tom verde-acinzentado, dourado ou acastanhado e brilho iridescente.

Imagem clínica

Figura 1. Catarata em girassol na lâmpada de fenda: disco central esverdeado sob a cápsula anterior, com raios periféricos. Melhor vista com a pupila dilatada e iluminação direta.

Roteiro de observação
  1. 1
    ProfundidadeNo corte óptico, o depósito está logo abaixo da cápsula anterior — não no núcleo nem no córtex profundo.
  2. 2
    PadrãoDisco central + pétalas radiais; o centro pode ser mais denso.
  3. 3
    CorVerde, dourado ou castanho, com reflexo metálico ou iridescente.
  4. 4
    CórneaProcure o anel de Kayser-Fleischer na periferia da córnea (Descemet).

Em 30 segundos

O essencial de visão geral

  1. Opacidade subcapsular anterior em disco e raios, por cobre.
  2. Doença de Wilson ou corpo estranho de cobre (calcose).
  3. Bem menos frequente que o anel de Kayser-Fleischer.
  4. Em geral não reduz a visão e pode regredir com quelantes.

O que é

Não é uma catarata no sentido habitual, de proteínas desnaturadas: é um depósito de cobre que tinge a região subcapsular anterior. Estudos de microscopia eletrônica mostram grânulos de cobre na cápsula anterior.

A frequência descrita na doença de Wilson varia muito entre as séries — de cerca de 1–2% a 20% —, sempre bem abaixo do anel de Kayser-Fleischer. Quase sempre coexiste com o anel e reflete doença com acometimento neurológico ou de longa data.

Um sinal reversível

Com o tratamento da doença de Wilson (quelantes como penicilamina ou trientina, ou zinco), a catarata em girassol pode clarear ao longo de meses a anos, assim como o anel de Kayser-Fleischer.

Girassol ou outra catarata?

AchadoAspectoComo diferenciar
AspectoRaios brancos da periferia para o centro
Como diferenciarOpacidade branca no córtex, sem disco central colorido; idoso.
Catarata em árvore de Natal
AspectoCristais policromáticos
Como diferenciarDistrofia miotônica; cristais no córtex, não um disco subcapsular.
AspectoPonto branco na cápsula
Como diferenciarBranca, sem raios; congênita.
Siderose
AspectoDepósitos castanho-alaranjados
Como diferenciarCorpo estranho de ferro; heterocromia e pontos de ferrugem subcapsulares.
Anel de Vossius
AspectoAnel de pigmento iriano
Como diferenciarApós contusão; anel castanho do tamanho da pupila, sem raios.

Galeria

Procure a combinação de disco central + raios e confirme o plano subcapsular anterior no corte óptico. Depois, olhe para a córnea.

Padrão em girassol

Disco central verde-acinzentado com pétalas radiais finas na pupila dilatada. Repare no brilho metálico — diferente do branco opaco das cataratas comuns.

WilsonSubcapsular anterior

Corte óptico

O feixe fino mostra a opacidade logo sob a cápsula anterior, com córtex e núcleo transparentes atrás. Explica por que a visão costuma ser preservada.

Corte ópticoProfundidade

Anel de Kayser-Fleischer associado

Faixa castanho-dourada na periferia da córnea, mais evidente nos polos superior e inferior. Quase sempre presente quando há catarata em girassol.

Kayser-FleischerCórnea

Calcose por corpo estranho

Olho com corpo estranho intraocular de liga de cobre: catarata em girassol unilateral e, às vezes, anel corneano. A história de trauma e a imagem orbitária fazem o diagnóstico.

CalcoseTraumaUnilateral

Examine na lâmpada de fenda com a pupila dilatada: o disco central fica escondido atrás da pupila miótica.

Exame passo a passo

  1. Iluminação difusa

    Visão geral do padrão em disco e raios e da cor.

  2. Corte óptico

    Confirmar que está sob a cápsula anterior.

  3. Retroiluminação

    Os raios aparecem como sombras finas contra o reflexo vermelho.

  4. Córnea e gonioscopia

    Anel de Kayser-Fleischer; a gonioscopia revela anéis incipientes.

  5. Bilateral ou unilateral?

    Bilateral: Wilson. Unilateral: pensar em corpo estranho de cobre (radiografia/TC de órbita).

Modelo de registro

Biomicroscopia AO sob midríase: opacidade subcapsular anterior central em disco, com raios periféricos, coloração esverdeada e brilho metálico (catarata em girassol). Córtex e núcleo transparentes. Anel de Kayser-Fleischer completo AO. Acuidade corrigida 20/20 AO.

Modelo didático; registre também a acuidade e compare com exames anteriores durante o tratamento.

Causas

São só duas causas clássicas, e ambas envolvem cobre. Na suspeita de Wilson, a avaliação é sistêmica e conduzida com hepatologista e neurologista.

Doença de Wilson

Autossômica recessiva (ATP7B). Hepatopatia, distúrbios do movimento, sintomas psiquiátricos; em geral entre 5 e 35 anos. Ceruloplasmina baixa, cobre urinário de 24 h elevado.

Calcose (chalcosis)

Corpo estranho intraocular com cobre. Ligas com menos cobre causam calcose crônica (girassol, Kayser-Fleischer); cobre quase puro causa inflamação aguda grave, semelhante a endoftalmite.

ExameNa doença de Wilson
Ceruloplasmina séricaGeralmente baixa
Cobre urinário de 24 hElevado
Teste genético ATP7BConfirma o diagnóstico
Ressonância de crânioAlterações nos núcleos da base nas formas neurológicas

Os escores diagnósticos (como o de Leipzig) combinam anel de Kayser-Fleischer, exames laboratoriais, genética e quadro clínico.

A catarata em girassol raramente precisa de cirurgia. O que importa é diagnosticar e tratar a causa.

Para onde cada achado leva

CenárioConduta
Bilateral, sem traumaInvestigar doença de Wilson com hepatologia/neurologia; tratamento com quelantes (penicilamina, trientina) ou zinco.
Wilson em tratamentoAcompanhar o anel e a catarata como marcadores de resposta; regressão esperada em meses a anos.
Unilateral com história de traumaRadiografia/TC de órbita (não RM antes de excluir metal ferromagnético); remoção do corpo estranho pelo retinólogo.
Baixa visual significativaRara; avaliar outras causas antes de indicar facectomia.

Referências bibliográficas

  1. 1
    Artigo2016
    Langwińska-Wośko E, Litwin T, Dzieżyc K, Członkowska A. The sunflower cataract in Wilson’s disease: pathognomonic sign or rare finding? Acta Neurol Belg. 2016;116(3):325–328.
  2. 2
    Artigo2022
    Schilsky ML, Roberts EA, Bronstein JM, et al. A multidisciplinary approach to the diagnosis and management of Wilson disease: 2022 Practice Guidance on Wilson disease from the American Association for the Study of Liver Diseases. Hepatology. 2022.
  3. 3
    Revisão online2026
    EyeWiki — American Academy of Ophthalmology. Wilson’s Disease/Kayser Fleischer Ring. Acesso em 2026.
  4. 4
    Livro-texto2025
    American Academy of Ophthalmology. Basic and Clinical Science Course (BCSC), Section 11: Lens and Cataract. San Francisco: AAO; 2024–2025.
  5. 5
    Livro-texto2020
    Bowling B. Kanski’s Clinical Ophthalmology: A Systematic Approach. 9. ed. Elsevier; 2020.

Fontes das imagens

As imagens deste atlas têm finalidade educacional e foram produzidas a partir de referências clínicas reais e de representações anatômicas didáticas.

Parte delas pode ter sido editada ou aprimorada digitalmente para destacar as estruturas e os achados descritos no texto.

Aviso importante

Material educacional. Não substitui a avaliação oftalmológica, os protocolos institucionais nem a consulta às bulas.

Atlas MedFoco de Oftalmologia • Conteúdo para educação médica. O diagnóstico e a conduta dependem da avaliação clínica individual.
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