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Atlas de Oftalmologia • Órbita

Enfisema orbitário

Ar na órbita • orbital emphysema

Presença de ar nos tecidos da órbita e das pálpebras, quase sempre por uma fratura que comunica a órbita com um seio paranasal — e que piora quando o paciente assoa o nariz. Na maioria é benigno e regride em dias, mas o ar pode ficar preso por um mecanismo de válvula e causar síndrome compartimental com perda visual.

Tipo
Achado traumático
Definição
Ar nos tecidos orbitários
Mecanismo
Fratura + seio paranasal
Pista no exame
Crepitação palpebral
7–9 min de leitura Atualizado em outubro de 2026

Reconheça o achado

Compare a fotografia com o esquema. Uma fratura entre a órbita e o seio cria uma passagem; quando a pressão no nariz sobe (assoar, espirrar, Valsalva), o ar é empurrado para dentro da órbita e das pálpebras — e às vezes não consegue voltar.

Imagem clínica

Figura 1. Enfisema orbitário e palpebral: edema súbito, macio, com crepitação à palpação, após assoar o nariz. Avalie a tensão da órbita, a visão e a pupila.

Roteiro de observação
  1. 1
    HistóriaTrauma facial recente e edema que surgiu de repente ao assoar o nariz, espirrar ou tossir.
  2. 2
    PalpaçãoCrepitação ("estalinhos" ou sensação de bolhas) nas pálpebras e na face.
  3. 3
    TensãoPálpebras tensas e globo resistente à retropulsão sugerem ar sob pressão.
  4. 4
    FunçãoAcuidade, DPAR e PIO: baixa visual muda tudo.

O que é

Enfisema orbitário é o ar nos tecidos moles da órbita. A causa mais comum é uma fratura da parede medial (lâmina papirácea, comunicação com as células etmoidais) ou do assoalho (seio maxilar). O ar entra quando a pressão nas vias aéreas sobe — tipicamente ao assoar o nariz.

Também ocorre após cirurgias dos seios e da órbita, barotrauma, ventilação com pressão positiva, procedimentos dentários com turbina de ar e, raramente, infecções por germes produtores de gás. Na maior parte dos casos o ar é reabsorvido em poucos dias a 2 semanas.

Sinais de alerta

Proptose tensa, baixa visual, DPAR ou PIO muito elevada indicam ar sob tensão comprimindo o nervo óptico ou a artéria central da retina: é emergência de descompressão (punção com agulha e/ou cantotomia lateral).

Enfisema ou hemorragia orbitária?

Ambos surgem após trauma e podem causar proptose. A crepitação, o início súbito ao assoar o nariz e o aspecto "fofo" do edema favorecem enfisema; equimose intensa e quemose hemorrágica favorecem sangue. A TC distingue com facilidade: ar é preto, sangue é hiperdenso.

AchadoO que éComo diferenciar
Hemorragia orbitária
O que éSangue na órbita
Como diferenciarEquimose, sem crepitação; coleção hiperdensa na TC.
O que éCausa mais comum do enfisema
Como diferenciarDefeito ósseo na TC; diplopia, hipoestesia V2.
O que éAr sem trauma
Como diferenciarFebre, sinais infecciosos; urgência.

Quatro apresentações do enfisema

Relacione o aspecto clínico com a localização do ar na tomografia.

Edema súbito após assoar o nariz

Pálpebras inchadas de forma abrupta, macias, com pouca equimose e crepitação à palpação. A história de "inchou na hora em que assoei o nariz" é quase diagnóstica.

Assoar o narizCrepitaçãoPálpebras

TC: ar na órbita e fratura medial

Bolhas pretas (densidade de ar) na gordura orbitária e no subcutâneo, junto a uma fratura da lâmina papirácea. Procure também a fratura do assoalho e o nível no seio.

TCLâmina papiráceaAr

Enfisema sob tensão

Proptose tensa, pálpebras rígidas e, na TC, grande coleção de ar deformando o globo. Com baixa visual, é indicação de descompressão imediata.

Síndrome compartimentalProptoseUrgência

Enfisema palpebral isolado

Ar restrito ao subcutâneo da pálpebra, sem proptose nem alteração visual: evolução benigna, com reabsorção em dias.

SubcutâneoBenignoObservação

Pergunte sempre se o edema surgiu ao assoar o nariz, espirrar ou tossir, palpe à procura de crepitação e examine a função do nervo óptico.

Exame passo a passo

  1. História

    Trauma facial, cirurgia de seios ou órbita, barotrauma (mergulho, avião), procedimentos dentários; momento do início do edema.

  2. Palpação

    Crepitação nas pálpebras, na região malar e no pescoço (pode haver enfisema subcutâneo extenso).

  3. Função visual

    Acuidade, cores, teste da lanterna alternante (DPAR).

  4. PIO e tensão orbitária

    Tonometria; resistência à retropulsão; tensão palpebral.

  5. Motilidade

    Diplopia pode vir do ar, do edema ou de restrição pela fratura.

  6. TC de órbitas e face

    Confirma o ar e mostra a fratura. Não atrasar a descompressão se houver perda visual.

Como registrar

Modelo de registro

Edema palpebral E de início súbito ao assoar o nariz, 2 dias após trauma facial. Crepitação palpável em pálpebras superior e inferior E. AV 20/20 AO, sem DPAR. PIO 16/18 mmHg. Proptose leve E (Hertel 17/19 mm), sem resistência à retropulsão. Motilidade preservada. TC: ar em subcutâneo palpebral e gordura extraconal medial E, fratura da lâmina papirácea E.

Modelo didático: registre a função do nervo óptico em cada reavaliação.

Causas

Qualquer comunicação entre uma cavidade aérea e a órbita, associada a aumento de pressão, pode gerar enfisema.

Fratura orbitária

Parede medial (etmoide) e assoalho (maxilar) — a causa mais comum. Assoar o nariz é o gatilho clássico.

Iatrogênica

Cirurgia endoscópica dos seios, cirurgia orbitária, dacriocistorrinostomia, procedimentos dentários com ar comprimido.

Barotrauma

Mergulho, voo, manobras de Valsalva vigorosas.

Vias aéreas

Ventilação com pressão positiva, pneumomediastino com extensão cervicofacial.

Infecção por germe produtor de gás

Rara; ar sem trauma, com febre e sinais de celulite — urgência.

Espontânea

Espirro ou tosse intensos com parede orbitária fina; rara.

A maioria só precisa de orientação e observação. O que muda a conduta é a função do nervo óptico.

Para onde cada cenário leva

CenárioConduta
Enfisema sem alteração visualNão assoar o nariz, evitar Valsalva, espirrar de boca aberta; compressas frias; reavaliação. Regride em dias.
Com fratura orbitáriaConduta da fratura; descongestionante nasal e antibiótico conforme o serviço (ver fratura blow-out).
Proptose tensa, baixa visual, DPAR ou PIO muito altaEmergência: descompressão — aspiração do ar com agulha e/ou cantotomia lateral com cantólise.
Ar sem trauma, com febreInvestigar infecção por germe produtor de gás: TC, antibiótico IV, avaliação cirúrgica.

Quando é urgência

  • Baixa visual ou DPAR.
  • Proptose tensa com resistência à retropulsão.
  • PIO muito elevada.
  • Sinais de oclusão da artéria central da retina.

Referências bibliográficas

  1. 1
    Livro-texto2025
    American Academy of Ophthalmology. Basic and Clinical Science Course (BCSC), Section 7: Oculofacial Plastic and Orbital Surgery. San Francisco: AAO; 2024–2025.
  2. 2
    Livro-texto2022
    The Wills Eye Manual: Office and Emergency Room Diagnosis and Treatment of Eye Disease. 8. ed. Wolters Kluwer; 2022.
  3. 3
    Artigo2009
    Lima V, Burt B, Leibovitch I, Prabhakaran V, Goldberg RA, Selva D. Orbital compartment syndrome: the ophthalmic surgical emergency. Surv Ophthalmol. 2009;54(4):441–449.
  4. 4
    Livro-texto2020
    Bowling B. Kanski’s Clinical Ophthalmology: A Systematic Approach. 9. ed. Elsevier; 2020.
  5. 5
    Revisão online2026
    EyeWiki — American Academy of Ophthalmology. Orbital Emphysema. Acesso em 2026.

Fontes das imagens

As imagens deste atlas têm finalidade educacional e foram produzidas a partir de referências clínicas reais e de representações anatômicas didáticas.

Parte delas pode ter sido editada ou aprimorada digitalmente para destacar as estruturas e os achados descritos no texto.

Aviso importante

Material educacional. Não substitui a avaliação oftalmológica, os protocolos institucionais nem a consulta às bulas.

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