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Atlas de Oftalmologia • Órbita

Miosite orbitária

Miosite orbitária idiopática • orbital myositis

Inflamação de um ou mais músculos extraoculares, em geral idiopática — a forma muscular da inflamação orbitária não específica. Causa dor que piora ao mover o olho, diplopia e hiperemia sobre a inserção do músculo. Na imagem, o músculo está espessado incluindo o tendão.

Músculos extraocularesInflamatóriaTC / RMCorticoide / AINE
14–17 min de leitura Atualizado em outubro de 2026

Reconheça o achado

Imagem clínica

Miosite orbitária: hiperemia sobre a inserção do músculo inflamado e dor ao mover o olho. Toque para ampliar.

Principais achados
  1. 1
    Dor periocular aguda que piora ao mover o olho
  2. 2
    Diplopia e limitação da motilidade
  3. 3
    Hiperemia e quemose sobre a inserção do músculo
  4. 4
    Edema palpebral e ptose leve
  5. 5
    Proptose discreta ou ausente
  6. 6
    Músculo e tendão espessados na imagem

Em 30 segundos

O essencial de visão geral

  1. Inflamação de músculo(s) extraocular(es), em geral idiopática.
  2. Dor que piora com a movimentação ocular + diplopia; mais em mulheres jovens.
  3. Músculo espessado com o tendão na TC/RM (a tireoide poupa o tendão).
  4. Responde ao corticoide, mas recidiva com frequência.

O que é

Miosite orbitária é a inflamação primária de um ou mais músculos extraoculares. Na maioria dos casos é idiopática, considerada a forma muscular da inflamação orbitária não específica (pseudotumor). Em parte dos pacientes, porém, ela é a manifestação de uma doença sistêmica ou de uma infecção.

Qualquer músculo pode ser afetado; nas séries publicadas, os retos medial e superior estão entre os mais acometidos. O quadro costuma ser unilateral e envolver um único músculo, mas pode ser bilateral e multifocal.

Dor que piora ao mover o olho + diplopia + músculo espessado incluindo o tendão = miosite orbitária até prova em contrário.

Causas e associações

Revisões recentes propõem separar a miosite idiopática das miosites "específicas", em que se identifica uma causa. Essa distinção muda o tratamento.

Idiopática

A maioria; diagnóstico de exclusão.

Doença relacionada à IgG4

Músculos aumentados, às vezes com nervo infraorbitário espessado.

Doenças sistêmicas

Sarcoidose, lúpus, GPA, doença de Crohn, artrite reumatoide.

Infecções

Pós-viral (inclusive descrita após covid-19), herpes-zóster, doença de Lyme, cisticercose.

Fármacos

Relatos com inibidores de checkpoint imunológico, entre outros.

Simuladores

Linfoma, metástases e rabdomiossarcoma no músculo.

Em 30 segundos

O essencial de quadro clínico

  1. Início agudo ou subagudo, com dor periocular intensa.
  2. A dor piora ao olhar em direções específicas.
  3. Diplopia por restrição (o músculo inflamado não relaxa) ou por fraqueza.
  4. Crônica ou recorrente: pensar em doença sistêmica e em fibrose.

Sinais e sintomas

O padrão de motilidade ajuda a localizar o músculo. Um músculo inflamado e rígido limita o olhar para o lado oposto à sua ação (restrição); se está fraco, limita o olhar na direção da sua ação. Os dois padrões podem coexistir.

Dor

Aguda, periocular, piora com movimentos; pode irradiar para a fronte.

Diplopia

Pior na direção do campo de restrição.

Injeção localizada

Hiperemia e quemose sobre a inserção do músculo.

Edema palpebral

Leve a moderado; ptose discreta.

Restrição

Ducção forçada pode ser positiva.

Visão

Normalmente preservada; perda visual sugere ápice ou outra doença.

Qual músculo?

MúsculoAção principalDor/restrição típica
Reto medialAduçãoDor e limitação na abdução
Reto lateralAbduçãoDor e limitação na adução
Reto superiorElevaçãoDor e limitação no olhar para baixo
Reto inferiorDepressãoDor e limitação no olhar para cima
Oblíquo superiorDepressão em adução, intorsãoDor na região troclear; pode simular trocleíte

Padrões típicos de restrição; um músculo também pode estar fraco, limitando o olhar na direção da sua ação.

Aguda × crônica

Miosite aguda

  • Dor intensa e súbita
  • Sinais inflamatórios evidentes
  • Resposta rápida ao corticoide
  • Geralmente 1 músculo, unilateral

Miosite crônica/recorrente

  • Episódios repetidos ou evolução arrastada
  • Vários músculos, às vezes bilateral
  • Investigar doença sistêmica e biopsiar
  • Risco de fibrose e restrição permanente

Em 30 segundos

O essencial de diagnóstico

  1. TC ou RM com contraste: músculo e tendão espessados, gordura adjacente borrada.
  2. Diferencial principal: orbitopatia tireoidiana (poupa o tendão, indolor).
  3. Exames para tireoide, IgG4, doenças autoimunes e infecções conforme o caso.
  4. Biópsia muscular se atípico, refratário ou recorrente (excluir linfoma e metástase).

Imagem

Os cortes coronais mostram o calibre de cada músculo; os axiais mostram se o tendão está espessado até a inserção. Na RM, o músculo inflamado tem hipersinal em T2 e realce intenso. Massa nodular, erosão óssea ou aumento muscular indolor e progressivo pedem biópsia.

Achado característico

Tendão espessado

Na miosite o espessamento se estende até a inserção escleral; na orbitopatia tireoidiana o ventre aumenta e o tendão permanece fino ("garrafa de Coca-Cola").

TC axial — toque para ampliar.

Investigação dirigida

ExamePara quê
TSH, T4 livre, TRAb/TSIOrbitopatia tireoidiana (pode coexistir)
IgG4 séricaDoença relacionada à IgG4
ANCA, FAN, ECA, PCR/VHSVasculites, colagenoses, sarcoidose
Sorologias conforme o contextoLyme, sífilis, herpes, infecções recentes
CK e avaliação neuromuscular, se indicadoMiopatias sistêmicas; miastenia entra no diferencial da diplopia

Diagnóstico diferencial

CondiçãoAchado-chaveComo diferenciar
Orbitopatia tireoidiana
Achado-chaveRetração palpebral, proptose, pouca dor
Como diferenciarVentre aumentado poupando o tendão; inferior e medial; bilateral.
Achado-chaveFebre, sinusite
Como diferenciarSinusite na TC, leucocitose.
Achado-chaveInflamação de vários compartimentos
Como diferenciarGordura e glândula também acometidas.
Achado-chaveTodos os músculos aumentados, vasos em saca-rolhas
Como diferenciarVeia oftálmica superior dilatada; sopro.
Linfoma / metástase muscular
Achado-chaveAumento muscular indolor e progressivo
Como diferenciarBiópsia; resposta incompleta ao corticoide.
Miastenia gravis ocular
Achado-chaveDiplopia e ptose flutuantes, sem dor
Como diferenciarImagem normal; fatigabilidade, teste do gelo, anticorpos.

Galeria clínica e de imagem

Procure a hiperemia localizada, o padrão de limitação nas versões e, na imagem, o tendão. Toque para ampliar.

Injeção sobre a inserção do reto medial

Hiperemia e discreta quemose concentradas no setor nasal, sobre a inserção do reto medial. Esse sinal localizado aponta o músculo inflamado antes mesmo da imagem.

Reto medialHiperemia setorialInserção

Limitação dolorosa da abdução

Nas versões, o olho acometido não abduz completamente e o paciente refere dor ao tentar. Músculo medial inflamado e rígido limita o olhar para o lado oposto à sua ação.

MotilidadeRestriçãoDiplopia

TC coronal: um músculo aumentado

Compare o calibre dos quatro retos nos dois olhos: apenas um músculo está aumentado e com contornos borrados. Na tireoide o aumento costuma ser bilateral e simétrico.

TC coronalUnilateralUm músculo

RM: realce do músculo e do tendão

T1 pós-contraste com supressão de gordura: realce intenso do ventre e do tendão até a inserção, com borramento da gordura ao redor.

RMTendãoRealce

Em 30 segundos

O essencial de tratamento

  1. Casos leves: AINE oral com reavaliação em poucos dias.
  2. Maioria: prednisona ~1 mg/kg/dia com desmame lento (semanas).
  3. Recidivas: rever o diagnóstico e usar poupadores (metotrexato, outros).
  4. Fibrose e diplopia persistente: prismas ou cirurgia de estrabismo após estabilização.

Rotas de tratamento

Esquemas de referência; dose e duração são individualizadas. Cada nome abre a ficha do medicamento.

Diplopia residual

Depois de meses de doença inativa, a diplopia que persiste por fibrose muscular pode ser tratada com prismas ou cirurgia de estrabismo. Operar com doença ativa aumenta o risco de resultado imprevisível.

Em 30 segundos

O essencial de prognóstico

  1. Resolução completa na maioria dos episódios agudos.
  2. Recorrências são frequentes, no mesmo ou em outro músculo.
  3. Cronicidade pode deixar fibrose e diplopia permanente.

Evolução

O seguimento acompanha a dor, a motilidade e os efeitos do corticoide. Cada recidiva é uma oportunidade de reavaliar o diagnóstico: doença relacionada à IgG4, sarcoidose e linfoma podem se manifestar inicialmente como miosite.

  • Recidiva ao reduzir a dose: desmame mais lento e considerar poupador.
  • Músculos bilaterais ou múltiplos: investigar doença sistêmica.
  • Aumento muscular indolor e progressivo: biópsia para excluir neoplasia.

Referências bibliográficas

  1. 1
    Artigo2020
    McNab AA. Orbital myositis: a comprehensive review and reclassification. Ophthalmic Plast Reconstr Surg. 2020;36(2):109–117.
  2. 2
    Livro-texto2025
    American Academy of Ophthalmology. Basic and Clinical Science Course (BCSC), Section 7: Oculofacial Plastic and Orbital Surgery. San Francisco: AAO; 2024–2025.
  3. 3
    Livro-texto2020
    Bowling B. Kanski’s Clinical Ophthalmology: A Systematic Approach. 9. ed. Elsevier; 2020.
  4. 4
    Artigo2003
    Yuen SJ, Rubin PA. Idiopathic orbital inflammation: distribution, clinical features, and treatment outcome. Arch Ophthalmol. 2003;121(4):491–499.
  5. 5
    Revisão online2026
    StatPearls. Orbital Pseudotumor. Treasure Island (FL): StatPearls Publishing; NCBI Bookshelf NBK551576. Acesso em 2026.
  6. 6
    Revisão online2026
    EyeWiki — American Academy of Ophthalmology. Nonspecific Orbital Inflammation (Idiopathic Orbital Inflammation, Orbital Inflammatory Syndrome, Orbital Pseudotumor). Acesso em 2026.

Fontes das imagens

As imagens deste atlas têm finalidade educacional e foram produzidas a partir de referências clínicas reais e de representações anatômicas didáticas.

Parte delas pode ter sido editada ou aprimorada digitalmente para destacar as estruturas e os achados descritos no texto.

Aviso importante

Material educacional. Não substitui a avaliação oftalmológica, os protocolos institucionais nem a consulta às bulas. Doses de imunossupressores são de referência; prescrição e monitoramento cabem ao especialista.

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