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Atlas de Histologia • Tecido Epitelial

Carcinoma basocelular

CBC • epitelioma basocelular • basal cell carcinoma

O câncer mais comum do ser humano: tumor maligno de células basaloides da epiderme e do folículo piloso, ligado à radiação ultravioleta e à via Hedgehog. Cresce devagar e raramente dá metástase, mas invade e destrói localmente. Na lâmina: ninhos basaloides com paliçada periférica.

Epiderme e folículo pilosoRadiação ultravioletaPaliçada periféricaCirurgia curativa
16–20 min de leitura Atualizado em outubro de 2026

Reconheça a lesão

O carcinoma basocelular imita a camada basal e o germe do folículo piloso: suas células são pequenas, escuras e se organizam em ninhos com a borda em paliçada.

Histopatologia

Figura 1. Carcinoma basocelular nodular em HE, pequeno aumento: ninhos arredondados de células basaloides na derme, alguns ainda ligados à epiderme. Na periferia dos ninhos, núcleos em paliçada; entre o tumor e o estroma, fendas claras de retração.

Principais achados
  1. 1
    Ninhos, ilhas ou cordões de células basaloides na derme
  2. 2
    Núcleos ovais, hipercromáticos, com pouco citoplasma
  3. 3
    Paliçada periférica dos núcleos na borda dos ninhos
  4. 4
    Fendas de retração entre o ninho e o estroma
  5. 5
    Estroma fibromixoide (mucinoso) próprio do tumor
  6. 6
    Mitoses e corpos apoptóticos; conexão com a epiderme ou o folículo

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O essencial de visão geral

  1. Câncer mais comum do ser humano; origem em células basais da epiderme e do folículo piloso.
  2. Ligado à radiação UV e a mutações da via Hedgehog (PTCH1, SMO).
  3. Lâmina: ninhos basaloides, paliçada periférica, fendas de retração e estroma mucinoso.
  4. Metástase muito rara; o problema é a invasão local (úlcera roedora).

O que é o carcinoma basocelular

É uma neoplasia epitelial maligna de crescimento lento. Diferente da maioria dos carcinomas, depende muito do estroma que o acompanha — por isso quase nunca sobrevive à distância e as metástases são raríssimas.

O que o torna perigoso é a invasão local: sem tratamento, cresce em profundidade e pode destruir cartilagem, osso, pálpebra e órbita. A antiga expressão "úlcera roedora" descreve bem esse comportamento.

CBC = basaloide + paliçada periférica + fenda de retração. Maligno pela invasão local, mas raramente metastatiza.

Quem tem e fatores de risco

É mais comum em adultos mais velhos de pele clara e em regiões de alta radiação solar, como o Brasil. A maioria surge em cabeça e pescoço.

Radiação UV

Exposição intensa e intermitente, queimaduras solares na infância, bronzeamento artificial.

Pele clara

Fototipos I e II, cabelos e olhos claros, sardas.

Imunossupressão

Transplantados e outros imunossuprimidos têm mais CBC (e muito mais carcinoma espinocelular).

Síndromes genéticas

Síndrome de Gorlin (PTCH1) e xeroderma pigmentoso: múltiplos CBC desde jovem.

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O essencial de fisiopatologia

  1. A via Hedgehog fica ligada de forma permanente na quase totalidade dos CBC.
  2. O defeito mais comum é a perda do PTCH1, que deixa de frear o SMO.
  3. Mutações de TP53 com assinatura de UV são frequentes.
  4. O tumor depende do estroma: isso explica a raridade das metástases.

A via Hedgehog

Na pele normal, a via Hedgehog controla o crescimento do folículo piloso. O receptor PTCH1 inibe a proteína SMO; quando o ligante Hedgehog se liga ao PTCH1, o SMO é liberado e os fatores de transcrição GLI ativam genes de proliferação.

  1. PTCH1

    Normalmente freia o SMO.

  2. Mutação

    Perda do PTCH1 ou SMO ativado.

  3. SMO livre

    Sinaliza sem ligante.

  4. GLI

    Liga genes de proliferação.

  5. Tumor

    Células basaloides crescem.

Os fármacos vismodegibe e sonidegibe bloqueiam o SMO — terapia-alvo nascida diretamente dessa via.

O papel da radiação ultravioleta

A radiação UVB forma dímeros de pirimidina no DNA. Se não forem reparados, geram mutações típicas (troca C→T), encontradas no PTCH1 e no TP53 dos tumores. Por isso pacientes com xeroderma pigmentoso, que não reparam esses danos, têm CBC precoces e múltiplos.

Síndrome de Gorlin

Também chamada síndrome do nevo basocelular, é autossômica dominante, por mutação germinativa do PTCH1. A segunda mutação (somática) em cada célula basta para formar um tumor — modelo clássico do "duplo golpe".

  • Múltiplos CBC desde a adolescência.
  • Ceratocistos odontogênicos na mandíbula.
  • Depressões puntiformes em palmas e plantas.
  • Calcificação da foice do cérebro; meduloblastoma na infância.

Por que quase não metastatiza

O CBC cresce junto com um estroma próprio, mucinoso, que parece fornecer sinais de sobrevivência. Células que se soltam e caem em vasos não encontram esse ambiente à distância. Metástases ocorrem sobretudo em tumores enormes, negligenciados ou recorrentes, para linfonodos regionais, pulmão e osso.

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O essencial de quadro clínico

  1. Pápula ou nódulo perolado com telangiectasias e borda enrolada.
  2. Ulceração central com crosta, sangramento fácil: "ferida que não cicatriza".
  3. Forma superficial no tronco: placa eritematosa descamativa que lembra eczema.
  4. Forma esclerodermiforme: placa branca, cicatricial, de limites mal definidos — a mais traiçoeira.

Formas clínicas

O aspecto clínico acompanha o padrão histológico: ninhos grandes formam nódulos; ninhos presos à epiderme formam placas; cordões finos em estroma fibroso formam placas cicatriciais.

Nodular

Mais comum. Pápula perolada, translúcida, com telangiectasias; pode ulcerar no centro.

Superficial

Tronco e membros; placa rósea descamativa, de borda fina perolada, crescimento lateral.

Esclerodermiforme

Placa branco-amarelada, endurecida, que parece cicatriz; limites clínicos subestimam a extensão.

Pigmentado

Pontos ou áreas castanhas a pretas; diferencial com melanoma.

Comportamento local

Tumores negligenciados ou recidivados em áreas de fusão embrionária da face (nariz, região periocular, orelha) podem invadir em profundidade pelos planos teciduais.

  • Destruição de cartilagem nasal e auricular.
  • Invasão da órbita a partir do canto medial.
  • Invasão perineural em subtipos agressivos.
  • Recidiva após tratamento com margem comprometida.

Dermatoscopia

A dermatoscopia aumenta muito a acurácia do exame clínico. Os achados correspondem a estruturas histológicas: vasos dilatados na derme papilar e ninhos de tumor pigmentados.

Achado dermatoscópicoCorrespondência na lâmina
Vasos arboriformes nítidosVasos dilatados sobre os ninhos tumorais
Ninhos ovoides azul-acinzentadosNinhos de tumor com melanina na derme
Áreas em folha de bordo e em roda de carroçaNinhos ligados à epiderme (CBC superficial pigmentado)
Ulceração e áreas brancas brilhantesPerda de epiderme; fibrose do estroma

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O essencial de histopatologia e diagnóstico

  1. Biópsia confirma o diagnóstico e define o subtipo, que determina o risco de recidiva.
  2. Baixo risco: nodular e superficial.
  3. Alto risco: infiltrativo, micronodular, esclerodermiforme e basoescamoso.
  4. Imuno-histoquímica (BerEP4) ajuda a separar de carcinoma espinocelular basaloide.

A lâmina, aumento a aumento

Comece pela arquitetura (forma e tamanho dos ninhos, relação com a epiderme) e termine nas células e no estroma. A paliçada e a fenda são pistas; a combinação das duas com células basaloides é diagnóstica.

  1. Pequeno aumento

    Massas azuladas na derme, ligadas ou não à epiderme. Observe o padrão: ninhos grandes (nodular), brotos da epiderme (superficial), cordões finos (infiltrativo).

  2. Médio aumento

    Núcleos alinhados na borda dos ninhos (paliçada) e espaço claro entre ninho e estroma (fenda de retração). Estroma frouxo, azulado, mucinoso.

  3. Grande aumento

    Células com núcleo oval, hipercromático, pouco citoplasma e limites indistintos; mitoses e apoptoses. Não há pontes intercelulares nem queratinização abundante.

  4. Margens

    Avalie margens laterais e profunda; o laudo informa subtipo, nível de invasão e invasão perineural.

Subtipos histológicos e risco

O subtipo agressivo cresce em cordões finos que se infiltram além do limite visível — por isso exige margens maiores ou cirurgia de Mohs. Muitos tumores são mistos; vale o componente mais agressivo.

SubtipoPadrão na lâminaRisco
NodularNinhos grandes e arredondados, paliçada nítida; pode ter cistosBaixo
SuperficialBrotos basaloides pendentes da epiderme, multifocaisBaixo
MicronodularNinhos pequenos e numerosos, profundosAlto
InfiltrativoCordões irregulares e angulados, paliçada pouco evidenteAlto
EsclerodermiformeCordões finos em estroma denso, colagenizadoAlto
BasoescamosoÁreas basaloides e áreas de diferenciação escamosaAlto

Classificação da OMS de tumores de pele; o pigmentado é uma variante de qualquer padrão com melanina.

CBC × carcinoma espinocelular na lâmina

É a dúvida mais frequente diante de um tumor epitelial cutâneo. A diferenciação define o subtipo celular: basaloide no CBC, escamosa (queratinizante) no CEC.

Carcinoma basocelular

  • Células basaloides pequenas e escuras
  • Paliçada periférica e fenda de retração
  • Estroma mucinoso
  • BerEP4 positivo; EMA negativo
  • Metástase rara

Carcinoma espinocelular

  • Células grandes, eosinofílicas, com pontes
  • Pérolas córneas e disqueratose
  • Estroma desmoplásico com inflamação
  • BerEP4 negativo; EMA positivo
  • Metástase possível

Diagnóstico diferencial

Vários tumores benignos do folículo também são basaloides. A presença de estroma folicular organizado, a ausência de fendas e a simetria favorecem lesões benignas.

CondiçãoAchado-chaveComo diferenciar
Achado-chaveQueratinização, pontes intercelulares
Como diferenciarCélulas eosinofílicas com pérolas córneas; BerEP4 negativo.
Tricoepitelioma / tricoblastoma
Achado-chaveTumor folicular basaloide benigno
Como diferenciarSimétrico, papilas mesenquimais foliculares, fenda dentro do estroma (não entre tumor e estroma).
Melanoma
Achado-chaveLesão pigmentada que cresce
Como diferenciarMelanócitos atípicos (S100, SOX10, Melan-A positivos), sem paliçada basaloide.
Ceratose seborreica
Achado-chaveLesão pigmentada "colada" na pele
Como diferenciarProliferação exofítica de células basaloides com cistos córneos, sem invasão da derme.
Hiperplasia sebácea
Achado-chavePápula amarelada na face, com umbilicação
Como diferenciarLóbulos sebáceos maduros ao redor de um ducto central.

Galeria histopatológica

Em cada imagem, procure as três pistas: célula basaloide, paliçada periférica e fenda de retração.

Paliçada periférica e fenda

HE, 200x. Borda de um ninho nodular: a fileira externa de núcleos ovais se alinha perpendicular à borda, lado a lado, como uma cerca. Entre o ninho e o estroma mucinoso, um espaço claro de retração. No centro, núcleos desordenados.

HEPaliçadaFenda de retração

CBC superficial

HE, 100x. Brotos de células basaloides pendurados na face inferior da epiderme, separados por epiderme normal (aspecto multifocal), com paliçada e fenda. O tumor não ultrapassa a derme papilar.

HEBaixo riscoTronco

CBC esclerodermiforme

HE, 100x. Cordões finos e angulados de poucas células basaloides, sem paliçada nítida, perdidos em estroma colagenizado e eosinofílico. Lembra cicatriz; a extensão real vai além do que se vê na clínica.

HEAlto riscoInfiltrativo

CBC pigmentado

HE, 100x. Ninhos basaloides nodulares com grânulos de melanina dentro das células tumorais e em melanófagos do estroma. Explica a cor castanha a azulada na clínica e os ninhos azul-acinzentados na dermatoscopia.

HEMelaninaDiferencial com melanoma
Exame clínico

Dermatoscopia do CBC nodular

Vasos arboriformes vermelhos e nítidos que se ramificam sobre fundo branco-rosado translúcido, com ninhos ovoides azul-acinzentados e área de ulceração. Cada achado corresponde a uma estrutura da lâmina.

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O essencial de tratamento

  1. A escolha depende do risco de recidiva: localização, tamanho, limites, subtipo, recidiva e imunossupressão.
  2. Baixo risco: excisão com margem clínica de cerca de 4 mm ou curetagem e eletrocoagulação.
  3. Alto risco ou face central: cirurgia micrográfica de Mohs.
  4. Avançado inoperável ou metastático: inibidor da via Hedgehog.

Como escolher

Diretrizes como as da NCCN e o consenso europeu classificam o CBC em baixo e alto risco. A cirurgia é preferida sempre que possível; as opções não cirúrgicas têm taxas de cura menores e ficam para casos selecionados.

Baixo risco

  • Tronco e membros, tamanho pequeno
  • Limites nítidos, primário
  • Subtipo nodular ou superficial
  • Paciente imunocompetente

Alto risco

  • Face central, pálpebras, nariz, orelhas
  • Limites mal definidos ou recidivado
  • Subtipo agressivo, invasão perineural
  • Imunossupressão; radioterapia prévia

Rotas de tratamento

Cada rota é um cenário de risco. O nome do medicamento abre a ficha; tratamentos sistêmicos são conduzidos pelo oncologista ou dermatologista.

Seguimento e prevenção

Quem teve um CBC tem alto risco de novos tumores de pele. O seguimento dermatológico periódico examina toda a pele e a cicatriz.

  • Fotoproteção diária: protetor solar, chapéu, roupas e evitar sol forte.
  • Autoexame da pele e retorno ao notar lesão nova ou que não cicatriza.
  • Atenção redobrada em transplantados e na síndrome de Gorlin.

Referências bibliográficas

  1. 1
    Livro-texto2021
    Kumar V, Abbas AK, Aster JC. Robbins & Cotran Patologia: bases patológicas das doenças. 10. ed. Rio de Janeiro: Elsevier; 2021.
  2. 2
    Livro-texto2023
    Junqueira LC, Carneiro J. Histologia Básica. 14. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan; 2023.
  3. 3
    Livro-texto2021
    Ross MH, Pawlina W. Histologia: texto e atlas — correlações com biologia celular e molecular. 8. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan; 2021.
  4. 4
    Artigo2018
    Bolognia JL, Schaffer JV, Cerroni L. Dermatology. 4th ed. Elsevier; 2018.
  5. 5
    Diretriz2024
    National Comprehensive Cancer Network. NCCN Clinical Practice Guidelines in Oncology: Basal Cell Skin Cancer. NCCN; 2024.
  6. 6
    Diretriz2023
    Peris K, Fargnoli MC, Kaufmann R, et al. European consensus-based interdisciplinary guideline for diagnosis and treatment of basal cell carcinoma — update 2023. Eur J Cancer. 2023.

Fontes das imagens

As imagens deste atlas têm finalidade educacional e foram produzidas a partir de lâminas histológicas reais e de representações didáticas.

Parte delas pode ter sido editada ou aprimorada digitalmente para destacar as estruturas e os achados descritos no texto.

Aviso importante

Material educacional. Não substitui o laudo anatomopatológico, a avaliação clínica, os protocolos institucionais nem a consulta às bulas. Escolha do tratamento e doses de fármacos sistêmicos devem seguir o especialista, a bula e o protocolo local.

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