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Atlas de Histologia • Tecido Conjuntivo

Cicatriz queloide

Queloide • keloid

Cicatriz que cresce além dos limites da lesão original e não regride. Fibroblastos hiperativos depositam colágeno em excesso, que na lâmina forma feixes grossos, hialinos e vítreos dispostos ao acaso na derme.

Reparo exageradoFibroblastos hiperativosColágeno queloidianoLóbulo da orelha, tórax, ombros
14–17 min de leitura Atualizado em outubro de 2026

Reconheça a lesão

No queloide a derme normal é trocada por uma massa de colágeno hialino. Compare com a derme reticular normal, de feixes ondulados entremeados por anexos.

Histopatologia

Figura 1. Queloide em HE, médio aumento. Feixes de colágeno largos, homogêneos e intensamente eosinófilos (colágeno queloidiano), entrecruzados ao acaso, com fibroblastos dispersos e matriz levemente basofílica. Epiderme achatada no topo; nenhum folículo ou glândula na área.

Principais achados
  1. 1
    Feixes de colágeno largos, hialinos e eosinófilos (colágeno queloidiano)
  2. 2
    Arranjo desordenado, em redemoinhos e nódulos
  3. 3
    Fibroblastos numerosos entre os feixes; matriz mucoide
  4. 4
    Borda que avança em "língua" sob a derme normal
  5. 5
    Ausência de anexos cutâneos (folículos e glândulas)
  6. 6
    Epiderme sobrejacente achatada, sem cristas

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O essencial de visão geral

  1. Queloide = cicatriz que ultrapassa os limites da ferida e não regride.
  2. Fibroblastos hiperativos, com excesso de colágeno (sobretudo tipo I) e de sinalização por TGF-β.
  3. Marca histológica: feixes de colágeno grossos, hialinos e vítreos, desordenados.
  4. Predomina em pele escura, em áreas de tensão e no lóbulo da orelha; recidiva muito após excisão isolada.

O que é o queloide

Toda ferida que atinge a derme cicatriza com tecido fibroso. No queloide, a fase de remodelação não se completa: os fibroblastos continuam proliferando e produzindo colágeno muito depois de a ferida fechar.

O resultado é um tumor fibroso benigno, que invade a pele vizinha. É uma doença própria da espécie humana e não tem equivalente nos animais de laboratório, o que dificulta seu estudo.

Queloide ultrapassa a ferida e não regride; cicatriz hipertrófica respeita a ferida e regride. Na lâmina, o queloide tem feixes hialinos grossos; a hipertrófica, nódulos de fibras finas paralelas à pele.

Quem tem e onde aparece

A predisposição é genética: há famílias com vários afetados. Os locais preferidos são os de maior tensão na pele e o lóbulo da orelha.

Pele escura

Mais comum em afrodescendentes e asiáticos; história familiar frequente.

Idade

Pico entre a puberdade e os 30 anos; raro em crianças pequenas e idosos.

Locais

Região pré-esternal, ombros, dorso superior, lóbulo da orelha, mandíbula.

Gatilhos

Furo de brinco, acne, queimadura, vacina, cirurgia com tensão, infecção da ferida.

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O essencial de fisiopatologia

  1. A cicatrização normal tem três fases: inflamação, proliferação e remodelação.
  2. No queloide, a proliferação não "desliga": fibroblastos resistem à apoptose e respondem demais ao TGF-β.
  3. Síntese de colágeno aumentada e degradação insuficiente.
  4. Tensão mecânica e inflamação persistente da derme reticular alimentam o crescimento.

Cicatrização normal em três fases

Cada fase tem um tecido característico na lâmina. O queloide é um erro da passagem da fase proliferativa para a de remodelação.

  1. Inflamação

    Coágulo, neutrófilos e depois macrófagos (dias 1–5).

  2. Proliferação

    Tecido de granulação: fibroblastos, capilares, colágeno tipo III.

  3. Remodelação

    Colágeno III troca por tipo I; células e vasos diminuem.

  4. Cicatriz madura

    Pálida, plana, pouco celular.

O fibroblasto do queloide

Os fibroblastos do queloide são diferentes mesmo em cultura: proliferam mais, vivem mais e produzem várias vezes mais colágeno do que fibroblastos da pele normal.

TGF-β em excesso

Mais TGF-β1 e β2 e mais receptores: estímulo contínuo à síntese de colágeno e fibronectina.

Menos apoptose

Os fibroblastos não morrem ao fim do reparo, como deveriam.

Pouca degradação

Desequilíbrio entre metaloproteinases e seus inibidores: o colágeno se acumula.

Tensão e inflamação

Queloides crescem mais onde a pele é estirada a cada movimento (tórax, ombros) e muitas vezes na direção da tensão, com forma de borboleta ou halteres. A derme reticular mantém inflamação crônica com mastócitos e linfócitos — o que explica o prurido e a resposta a corticoide.

Por que coça

Os mastócitos estão aumentados no queloide e liberam histamina e mediadores que também estimulam os fibroblastos.

Predisposição genética

A herança é complexa, sem gene único. A maior frequência em pele escura e os casos familiares indicam forte componente genético; síndromes raras do conjuntivo também cursam com queloides.

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O essencial de quadro clínico

  1. Placa ou nódulo elevado, firme, liso e brilhante, róseo a violáceo ou hiperpigmentado.
  2. Ultrapassa a borda da ferida, com prolongamentos em "garra".
  3. Prurido e dor ao toque são comuns.
  4. Surge de semanas a meses após o trauma e não regride.

Aspecto da lesão

A lesão é endurecida à palpação, de superfície lisa e brilhante, sem pelos nem poros. As bordas costumam estar mais ativas (vermelhas e elevadas) que o centro.

Consistência

Firme a pétrea; aderida à derme, móvel sobre planos profundos.

Cor

Rósea ou eritematosa quando ativa; hiperpigmentada em pele escura.

Forma

Nodular na orelha; em placa, borboleta ou halteres no tórax e ombros.

Sintomas

Prurido, dor, hiperestesia; limitação se cruzar articulação.

Queloide ou cicatriz hipertrófica?

É a dúvida mais comum, e muda o prognóstico: a cicatriz hipertrófica tende a melhorar sozinha.

CritérioQueloideCicatriz hipertrófica
LimitesUltrapassa a feridaRestrita à ferida
InícioSemanas a meses, às vezes anosPrimeiras semanas
EvoluçãoCresce; não regrideRegride parcialmente em 1–2 anos
LocaisLóbulo da orelha, pré-esternal, ombrosÁreas de tensão e articulações; queimaduras
ContraturaRaraComum
Recidiva após excisãoMuito alta sem adjuvanteBaixa

Quando desconfiar de outra coisa

  • Sem trauma prévio ou em local incomum.
  • Crescimento rápido, ulceração ou sangramento.
  • Recidiva diferente da lesão original.
  • Nódulos múltiplos que se fundem num tumor firme no tronco (dermatofibrossarcoma).

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O essencial de histopatologia e diagnóstico

  1. Diagnóstico clínico; a biópsia confirma em casos atípicos.
  2. Achado-chave: colágeno queloidiano — feixes largos, hialinos, vítreos, desordenados.
  3. Cicatriz hipertrófica: nódulos de fibras finas, paralelas à pele, com vasos verticais e miofibroblastos.
  4. Cuidado: biópsia de queloide pode estimular novo crescimento; só quando necessária.

Aumento a aumento

Comece pelo pequeno aumento para ver a forma da lesão e a pele vizinha; depois procure os feixes queloidianos.

  1. Pequeno aumento (40x)

    Massa nodular na derme, mal delimitada, sem anexos. Epiderme achatada. Faixa horizontal de fibrose sob a epiderme; a lesão avança em "língua" sob a derme normal.

  2. Médio aumento (100x)

    Feixes de colágeno em redemoinhos e direções variadas; áreas de matriz pálida, levemente basofílica.

  3. Grande aumento (400x)

    Feixes largos, homogêneos e vítreos (colágeno queloidiano), com fibroblastos de núcleo alongado entre eles e mastócitos dispersos.

Queloide × cicatriz hipertrófica na lâmina

As duas são cicatrizes exuberantes e às vezes se sobrepõem. O colágeno hialino grosso é o critério mais útil para o queloide.

Queloide

  • Feixes grossos, hialinos, eosinófilos
  • Arranjo desordenado
  • Poucos vasos no centro
  • Pouca actina de músculo liso (α-SMA)

Cicatriz hipertrófica

  • Fibras finas, onduladas
  • Nódulos com fibras paralelas à pele
  • Vasos verticais bem formados
  • Muitos miofibroblastos α-SMA+

Colorações especiais

ColoraçãoNa derme normalNo queloide
HEFeixes ondulados, anexos presentesFeixes hialinos grossos, sem anexos
Tricrômico de MassonColágeno azul em feixes frouxosAzul intenso, compacto, em nódulos
Orceína ou VerhoeffRede de fibras elásticasFibras elásticas escassas ou ausentes
Alcian bluePouca substância fundamentalMatriz mucoide entre os feixes
Azul de toluidinaPoucos mastócitosMastócitos metacromáticos aumentados

Diagnóstico diferencial

Outras lesões fibrosas da derme podem imitar o queloide; a biópsia separa a maioria.

CondiçãoAchado-chaveComo diferenciar
Cicatriz hipertrófica
Achado-chaveRestrita à ferida, regride
Como diferenciarNódulos de fibras finas paralelas à superfície; miofibroblastos α-SMA+; vasos verticais.
Achado-chaveEsclerose dérmica sem trauma
Como diferenciarColágeno espessado e homogêneo em toda a derme, anexos aprisionados, infiltrado linfoplasmocitário perivascular.
Dermatofibrossarcoma protuberans
Achado-chaveTumor maligno de baixo grau
Como diferenciarCélulas fusiformes em padrão estoriforme, infiltrando o tecido adiposo em "favo de mel"; CD34+.
Dermatofibroma
Achado-chaveNódulo pequeno, firme, sinal da covinha
Como diferenciarFibroblastos e histiócitos que aprisionam feixes de colágeno na periferia; epiderme hiperplásica.
Achado-chaveFeixes organizados
Como diferenciarColágeno ordenado, sem hialinização nem matriz mucoide.

Galeria

Clínica e lâmina: em cada imagem, procure o limite da lesão, a espessura dos feixes e a presença ou ausência de anexos.

Queloide do lóbulo da orelha

Nódulo firme, liso e brilhante após furo de brinco, muito maior que o orifício original. É o exemplo clássico de queloide que ultrapassa a ferida. A compressão após a excisão é especialmente útil nesse local.

ClínicaOrelhaFuro de brinco

Pequeno aumento: massa sem anexos

HE, 40x. Nódulo dérmico mal delimitado, sem folículos nem glândulas, sob epiderme achatada. Na borda, a lesão avança em "língua" sob a derme normal, que ainda tem anexos.

HE40xArquitetura

Colágeno queloidiano

HE, 400x. Feixes largos, homogêneos e intensamente eosinófilos, de aspecto vítreo, cruzando em várias direções, com fibroblastos alongados entre eles. É o achado mais específico do queloide.

HE400xAchado-chave

Cicatriz hipertrófica para comparar

HE, 100x. Nódulos de fibras colágenas finas, dispostas paralelamente à superfície, com vasos verticais bem formados e muitos fibroblastos/miofibroblastos. Não há feixes hialinos grossos.

HE100xDiferencial

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O essencial de tratamento

  1. Prevenção em quem tem histórico: evitar cirurgias e piercings eletivos; silicone precoce nas cicatrizes.
  2. Corticoide intralesional é a primeira linha para reduzir volume, prurido e dor.
  3. Excisão isolada recidiva na maioria; sempre associar corticoide, radioterapia ou compressão.
  4. O tratamento é longo e combinado; o objetivo é controle, não cura garantida.

Estratégia em etapas

Lesões pequenas e recentes respondem bem ao tratamento local. Lesões grandes ou antigas costumam precisar de excisão com adjuvante. A escolha leva em conta local, tamanho, sintomas e tratamentos prévios.

  1. Silicone e compressão

    Gel ou placa de silicone por várias horas ao dia, por meses; brinco de pressão no lóbulo da orelha.

  2. Corticoide intralesional

    Aplicações seriadas até achatar a lesão; pode associar crioterapia antes da injeção.

  3. Outros agentes

    5-fluorouracil intralesional, isolado ou com corticoide, em casos resistentes.

  4. Excisão + adjuvante

    Retirada com sutura sem tensão, seguida de corticoide intralesional ou radioterapia precoce.

Rotas de tratamento

Esquema consagrado de corticoide intralesional. A concentração depende do local e da espessura da lesão; o nome do medicamento abre a ficha.

Outras opções e seu papel

OpçãoComo ageObservação
Silicone (gel ou placa)Hidratação e oclusão da cicatrizPrevenção e lesões pequenas; uso diário por meses
CompressãoIsquemia relativa e menor síntese de colágenoMuito usada no lóbulo da orelha
CrioterapiaLesão vascular e necrose do tecidoLesões pequenas; risco de hipopigmentação
5-fluorouracilInibe a proliferação de fibroblastosCasos resistentes, muitas vezes com corticoide
Radioterapia pós-excisãoInibe fibroblastos no leito cirúrgicoLogo após a cirurgia; reduz muito a recidiva
Laser vascularReduz vasos e eritemaAdjuvante para cor e sintomas

Referências bibliográficas

  1. 1
    Livro-texto2021
    Kumar V, Abbas AK, Aster JC. Robbins & Cotran Patologia: bases patológicas das doenças. 10. ed. Rio de Janeiro: Elsevier; 2021.
  2. 2
    Livro-texto2023
    Junqueira LC, Carneiro J. Histologia Básica. 14. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan; 2023.
  3. 3
    Livro-texto2021
    Ross MH, Pawlina W. Histologia: texto e atlas — correlações com biologia celular e molecular. 8. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan; 2021.
  4. 4
    Artigo2014
    Gold MH, Berman B, Clementoni MT, et al. Updated international clinical recommendations on scar management. Dermatol Surg. 2014.
  5. 5
    Artigo2017
    Ogawa R. Keloid and hypertrophic scars are the result of chronic inflammation in the reticular dermis. Int J Mol Sci. 2017.

Fontes das imagens

As imagens deste atlas têm finalidade educacional e foram produzidas a partir de lâminas histológicas reais e de representações didáticas.

Parte delas pode ter sido editada ou aprimorada digitalmente para destacar as estruturas e os achados descritos no texto.

Aviso importante

Material educacional. Não substitui o laudo anatomopatológico, a avaliação clínica, os protocolos institucionais nem a consulta às bulas. Concentração e volume de corticoide intralesional devem ser definidos pelo médico conforme o local, a espessura e a resposta da lesão.

Atlas Astrenmed de Histologia • Conteúdo para educação médica. O diagnóstico e a conduta dependem da avaliação clínica individual.
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