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Atlas de Histologia • Tecido Nervoso

Neuroma de Morton

Metatarsalgia de Morton • neuroma interdigital • fibrose perineural • Morton’s neuroma

Espessamento não neoplásico do nervo digital plantar comum, quase sempre no terceiro espaço intermetatarsal. Apesar do nome, não é tumor: é uma lesão de compressão e atrito, com fibrose perineural e endoneural, arteríolas espessadas e perda de axônios. Causa dor em queimação no antepé que piora com sapato apertado.

AntepéNervo periféricoFibrose perineuralCompressão crônica
14–18 min de leitura Atualizado em outubro de 2026

Reconheça a lesão

Num corte transversal, o nervo do neuroma de Morton tem fascículos envolvidos por um perineuro muito espesso, em lâminas concêntricas de colágeno, e um endoneuro pálido, pobre em axônios.

Histopatologia

Figura 1. Neuroma de Morton, corte transversal, HE, 100x: fascículo nervoso cercado por espessa fibrose perineural em camadas concêntricas; endoneuro fibrosado e edemaciado, com poucos axônios; arteríola intraneural de parede espessada e hialina. Em volta, tecido conjuntivo denso e adiposo do espaço intermetatarsal.

Principais achados
  1. 1
    Espessamento fusiforme do nervo digital plantar comum
  2. 2
    Fibrose perineural concêntrica, densa, em "casca de cebola" de colágeno
  3. 3
    Fibrose e edema endoneural, às vezes com degeneração mucoide
  4. 4
    Arteríolas intraneurais com parede espessada e hialinizada
  5. 5
    Perda de fibras mielínicas; células de Schwann sem proliferação
  6. 6
    Tecido conjuntivo perineural com deposição de fibras elásticas; bursa intermetatarsal adjacente

Em 30 segundos

O essencial de visão geral

  1. Lesão de compressão crônica do nervo digital plantar comum, sob o ligamento metatarsal transverso profundo.
  2. Local típico: terceiro espaço intermetatarsal (entre o 3º e o 4º dedos); depois, o segundo.
  3. Não é neoplasia: fibrose perineural e endoneural, arteríolas hialinizadas, degeneração axonal.
  4. Mais comum em mulheres de 40 a 60 anos que usam calçado apertado e de salto.

O que é o neuroma de Morton

É uma neuropatia compressiva focal do antepé. A cada passo, o nervo digital plantar comum é pressionado contra a borda do ligamento metatarsal transverso profundo e atritado entre as cabeças dos metatarsos.

O nome "neuroma" é histórico e enganoso: a lesão é uma reação fibrosa do nervo, não um tumor. Por isso muitos patologistas preferem descrevê-la como fibrose perineural.

Neuroma de Morton = fibrose perineural por compressão crônica, não neoplasia. Na lâmina, há mais colágeno e menos nervo, sem proliferação de células de Schwann.

Quem tem e por quê

Os fatores de risco aumentam a carga sobre o antepé ou estreitam o espaço entre as cabeças dos metatarsos.

Mulheres de meia-idade

Bem mais frequente que em homens, sobretudo entre 40 e 60 anos.

Calçado

Bico estreito comprime lateralmente; salto alto joga o peso para o antepé e estira o nervo.

Impacto repetido

Corrida, dança e esportes com apoio no antepé.

Anatomia

No 3º espaço, o nervo recebe ramos dos plantares medial e lateral: é mais grosso e menos móvel.

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O essencial de fisiopatologia

  1. Compressão e atrito repetidos sob o ligamento metatarsal transverso profundo.
  2. Isquemia do nervo: arteríolas espessadas e edema endoneural.
  3. Fibroblastos depositam colágeno no perineuro e no endoneuro.
  4. Axônios degeneram; o nervo fica grosso, mas funciona menos.

Do sapato ao nervo fibrosado

A teoria mais aceita combina compressão mecânica e isquemia. Na fase de impulsão da marcha, os dedos se estendem e o nervo é tracionado sobre a borda do ligamento.

  1. Carga no antepé

    Salto alto e bico estreito.

  2. Compressão

    Nervo contra o ligamento transverso.

  3. Isquemia e edema

    Vasa nervorum lesados.

  4. Fibrose

    Colágeno no perineuro e endoneuro.

  5. Degeneração axonal

    Menos fibras mielínicas.

O que acontece com cada envoltório

A lesão afeta as camadas do nervo de fora para dentro. Relacionar cada achado à estrutura normal ajuda a reconhecer a lâmina.

ComponenteNormalNo neuroma de Morton
EpineuroConjuntivo denso com vasos e adipócitosFibrose e aderência ao tecido vizinho; às vezes bursa ao lado
PerineuroPoucas camadas finas de células perineuraisMuito espessado por colágeno em lâminas concêntricas
EndoneuroConjuntivo frouxo delicado entre as fibrasEdema, fibrose, degeneração mucoide
VasosArteríolas de parede finaParede espessada e hialinizada, luz estreita
Fibras nervosasMuitos axônios mielínicosPerda de axônios e de mielina; corpos de Renaut

Corpos de Renaut: nódulos hialinos, em espiral, no endoneuro ou sob o perineuro — achado comum em nervos submetidos a pressão.

Por que não é um tumor

Uma neoplasia da bainha do nervo prolifera a partir de células de Schwann ou perineurais. No neuroma de Morton não há essa proliferação: o volume vem do colágeno depositado por fibroblastos e do edema.

Neuroma de Morton

  • Reação à compressão
  • Colágeno e hialinização
  • Poucas células, poucos axônios
  • Arquitetura do nervo preservada

Tumor da bainha (schwannoma)

  • Neoplasia de células de Schwann
  • Áreas Antoni A e B
  • Corpos de Verocay
  • S-100 difuso e intenso

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O essencial de quadro clínico

  1. Dor em queimação ou choque no antepé, irradiada para dois dedos vizinhos.
  2. Piora com calçado apertado e ao caminhar; melhora ao descalçar e massagear.
  3. Dormência nas faces vizinhas do 3º e do 4º dedos.
  4. Bilateral ou em dois espaços no mesmo pé em parte dos casos.

Sintomas e exame

O território da dor corresponde aos ramos digitais próprios do nervo afetado: as faces que se olham de dois dedos vizinhos.

Dor neuropática

Queimação, choque ou formigamento na planta do antepé, irradiando para os dedos.

Relação com o calçado

Sensação de pedra no sapato; alívio ao descalçar.

Dor à palpação

Pressão plantar no espaço intermetatarsal reproduz a dor; cabeças dos metatarsos indolores.

Sinal de Mulder

Compressão lateral das cabeças dos metatarsos com pressão plantar: estalo palpável e doloroso.

Outras causas de dor no antepé

Metatarsalgia tem muitas causas. Dor sobre a cabeça do metatarso ou a articulação aponta para o osso ou a cápsula; dor entre as cabeças, com sintomas neuropáticos, aponta para o nervo.

  • Sinovite ou instabilidade da metatarsofalângica (lesão da placa plantar).
  • Fratura de estresse do metatarso.
  • Doença de Freiberg (osteonecrose da cabeça do 2º metatarso).
  • Artrite reumatoide do antepé e bursite intermetatarsal.
  • Neuropatia periférica difusa e radiculopatia L5–S1.

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O essencial de histopatologia e diagnóstico

  1. Diagnóstico clínico; ultrassonografia ou RM quando há dúvida ou antes da cirurgia.
  2. A histologia vem da peça de neurectomia e confirma a fibrose perineural.
  3. Achados-chave: perineuro espessado, endoneuro fibrosado, arteríolas hialinizadas, axônios escassos.
  4. Não há atipia nem proliferação celular: isso afasta tumor da bainha.

Nervo normal × neuroma de Morton

Compare um fascículo normal com o do neuroma no mesmo aumento. No normal, o perineuro é uma linha fina e o endoneuro está cheio de axônios; no neuroma, o perineuro vira uma faixa grossa de colágeno e o endoneuro fica claro e vazio.

Nervo digital normal

  • Perineuro fino
  • Endoneuro com muitos axônios
  • Arteríolas de parede fina
  • Fascículos de tamanho regular

Neuroma de Morton

  • Perineuro espesso, concêntrico
  • Endoneuro fibrosado e edemaciado
  • Arteríolas hialinizadas
  • Poucos axônios e pouca mielina

Colorações úteis

O HE mostra a fibrose; colorações especiais confirmam o que se perdeu e o que se depositou.

ColoraçãoO que mostra
HEFibrose perineural rosada em camadas, endoneuro pálido, arteríolas hialinas
Tricrômico de MassonColágeno em azul ou verde ocupando perineuro e endoneuro
Luxol fast blue / Klüver-BarreraRedução da mielina
Impregnação argêntica ou neurofilamentoRedução de axônios
Verhoeff (elástica)Deposição de fibras elásticas no tecido perineural

Como se faz o diagnóstico

Na maioria dos casos a história e o exame bastam. A imagem confirma a lesão, mede o tamanho e procura outras causas de metatarsalgia.

  1. História típica

    Dor neuropática no antepé ligada ao calçado.

  2. Exame

    Dor à pressão no espaço intermetatarsal, sinal de Mulder, dormência nos dedos vizinhos.

  3. Ultrassonografia

    Massa ovoide hipoecoica entre as cabeças dos metatarsos, em continuidade com o nervo; boa para guiar infiltração.

  4. Ressonância magnética

    Lesão em gota, hipointensa em T1 e T2, plantar ao ligamento transverso; avalia bursa e diferenciais.

  5. Bloqueio anestésico

    Alívio após anestésico no espaço reforça a origem neural da dor.

Exame físico

Sinal de Mulder

Uma mão comprime lateralmente as cabeças dos metatarsos; o polegar da outra pressiona o espaço pela planta. O nervo espessado escorrega entre as cabeças e produz um estalo palpável, doloroso.

Diagnóstico diferencial na lâmina

Lesões que espessam nervos periféricos se separam pelo tipo de célula que cresce e pela presença ou não de proliferação axonal.

CondiçãoAchado-chaveComo diferenciar
Achado-chavePerineuro fino, muitos axônios
Como diferenciarSem fibrose concêntrica nem arteríolas hialinizadas.
Neuroma traumático (de amputação)
Achado-chaveMicrofascículos desorganizados
Como diferenciarProliferação de axônios em brotamento com células de Schwann e perineuro em feixes caóticos, dentro de cicatriz.
Schwannoma
Achado-chaveAntoni A e B; corpos de Verocay
Como diferenciarNeoplasia encapsulada de células de Schwann, S-100 difuso; empurra o nervo para o lado.
Neurofibroma
Achado-chaveCélulas fusiformes onduladas em matriz mixoide
Como diferenciarMistura de células de Schwann, fibroblastos e mastócitos, com axônios atravessando a lesão.

Galeria histopatológica

Em cada imagem, localize o perineuro e avalie quanto do fascículo ainda é nervo e quanto virou colágeno.

Peça de neurectomia

Segmento do nervo digital plantar comum com espessamento fusiforme, branco-acinzentado e firme, logo antes da bifurcação nos ramos digitais próprios. A bifurcação em "Y" ajuda a orientar a peça.

MacroscopiaCirurgia

Fibrose perineural concêntrica

HE, 100x. Fascículos cercados por faixas grossas de colágeno em camadas, como casca de cebola. Note o endoneuro claro e pobre em núcleos e o tecido adiposo do espaço intermetatarsal em volta.

HEPerineuroFibrose

Arteríolas hialinizadas

HE, 400x. Arteríola intraneural com parede espessa, homogênea e eosinofílica, luz estreita. É o marcador da isquemia crônica do nervo. Ao lado, endoneuro edemaciado e fibroso.

HEVasa nervorumIsquemia

Colágeno no tricrômico

Tricrômico de Masson, 100x. O colágeno aparece azul ocupando o perineuro e invadindo o endoneuro; as poucas fibras nervosas restantes ficam em vermelho. Compare a área azul com a área nervosa.

Tricrômico de MassonColágeno

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O essencial de tratamento

  1. Começa sempre pelo conservador: calçado largo e de salto baixo, palmilha com apoio retrocapital.
  2. Infiltração com corticoide e anestésico, de preferência guiada por ultrassom, alivia parte dos pacientes.
  3. Persistência dos sintomas: neurectomia (excisão do segmento doente) ou liberação do ligamento.
  4. Após a neurectomia, dormência entre os dois dedos é esperada; neuroma de coto é a principal complicação.

Tratamento em etapas

A lógica é reduzir a compressão do nervo. Só se avança de etapa quando a anterior falha após algumas semanas a meses.

  1. Calçado e palmilha

    Bico largo, salto baixo, sola rígida; apoio metatarsal logo atrás das cabeças, que as afasta e alivia o nervo.

  2. Analgesia e atividade

    Analgésicos simples por curto período; reduzir impacto no antepé.

  3. Infiltração

    Corticoide com anestésico local no espaço intermetatarsal. Repetições limitadas: atrofia do coxim gorduroso e lesão da placa plantar.

  4. Cirurgia

    Neurectomia por via dorsal ou plantar; alternativa: liberação do ligamento metatarsal transverso profundo, preservando o nervo.

Neurectomia: o que esperar

A maioria dos pacientes operados relata melhora importante da dor. O segmento retirado vai para exame histológico, que confirma a fibrose perineural e afasta tumor.

Esperado

  • Alívio da dor neuropática
  • Dormência nas faces vizinhas dos dedos
  • Retorno ao calçado comum em semanas

Complicações

  • Neuroma de coto (recidiva da dor)
  • Infecção e cicatriz dolorosa
  • Ressecção insuficiente
Neuroma de coto

Quando o coto proximal do nervo cortado fica em área de carga, os axônios brotam e formam um neuroma traumático verdadeiro — uma lesão diferente do Morton na lâmina, com microfascículos desorganizados.

Referências bibliográficas

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    Kumar V, Abbas AK, Aster JC. Robbins & Cotran Patologia: bases patológicas das doenças. 10. ed. Rio de Janeiro: Elsevier; 2021.
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    Livro-texto2021
    Ross MH, Pawlina W. Histologia: texto e atlas — correlações com biologia celular e molecular. 8. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan; 2021.
  3. 3
    Livro-texto2023
    Junqueira LC, Carneiro J. Histologia Básica: texto e atlas. 14. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan; 2023.
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    Livro-texto2022
    Gartner LP. Tratado de Histologia. 5. ed. Rio de Janeiro: Elsevier; 2022.
  5. 5
    Livro-texto2019
    Suvarna SK, Layton C, Bancroft JD. Bancroft’s Theory and Practice of Histological Techniques. 8. ed. Elsevier; 2019.

Fontes das imagens

As imagens deste atlas têm finalidade educacional e foram produzidas a partir de lâminas histológicas reais e de representações didáticas.

Parte delas pode ter sido editada ou aprimorada digitalmente para destacar as estruturas e os achados descritos no texto.

Aviso importante

Material educacional. Não substitui o laudo anatomopatológico, a avaliação clínica, os protocolos institucionais nem a consulta às bulas.

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