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Atlas de Oftalmologia • Órbita

Enoftalmia

Retroposição do globo • enophthalmos

Deslocamento posterior do globo ocular dentro da órbita — o oposto da exoftalmia. É um sinal: aponta para órbita maior (fratura, seio que colapsa), conteúdo menor (atrofia de gordura) ou conteúdo retraído (tumor cirrótico). Antes de investigar, confirme que não é pseudoenoftalmia.

Tipo
Sinal orbitário
Definição prática
Assimetria ≥ 2 mm no Hertel
Mecanismo
Órbita maior ou conteúdo menor
Causa mais comum
Fratura do assoalho orbitário
9–11 min de leitura Atualizado em outubro de 2026

Reconheça o achado

A órbita é um cone ósseo. O globo fica para trás quando o continente cresce (parede fraturada ou abaulada para o seio) ou quando o conteúdo diminui ou se retrai (gordura atrofiada, tecido fibroso). A pista mais visível costuma ser o sulco palpebral superior profundo.

Imagem clínica

Figura 1. Enoftalmia unilateral: o olho afetado parece menor e "afundado", com sulco palpebral superior mais profundo e fenda palpebral mais estreita. O olho normal pode parecer proptótico por comparação.

Roteiro de observação
  1. 1
    De frenteSulco palpebral superior profundo, fenda palpebral menor, pseudoptose, globo mais baixo (hipoglobo)?
  2. 2
    De cima ou de baixoVista superior ou "worm’s eye view" (de baixo para cima, cabeça inclinada para trás): compare a projeção das duas córneas.
  3. 3
    MedirHertel: assimetria ≥ 2 mm entre os olhos é significativa.
  4. 4
    ContextoTrauma, colírio para glaucoma, câncer de mama, sinusite, muda com Valsalva?

O que é enoftalmia

Enoftalmia é a retroposição do globo no eixo anteroposterior da órbita. Na prática, uma diferença de 2 mm ou mais entre os olhos na exoftalmometria de Hertel é considerada significativa; abaixo disso a assimetria costuma passar despercebida.

Na TC a posição do globo pode ser medida em cortes axiais: distância do ápice corneano até a linha que une as margens orbitárias laterais (linha interzigomática). É a forma mais objetiva quando a margem lateral está fraturada e o Hertel não é confiável.

Enoftalmia espontânea em adulto

Enoftalmia sem trauma e sem uso de colírio de prostaglandina merece TC de órbitas e seios. Em mulher com história de câncer de mama, pense em metástase cirrótica: a enoftalmia pode ser o primeiro sinal da recidiva.

Enoftalmia verdadeira ou pseudoenoftalmia?

Muitas vezes o olho só parece afundado. O Hertel e a comparação com fotos antigas resolvem a maioria dos casos.

Pseudoenoftalmia

Hertel simétrico ou explicado por outra causa.

  • Olho pequeno: microftalmia, phthisis bulbi
  • Exoftalmia do olho oposto
  • Ptose palpebral (fenda menor)
  • Retração palpebral do olho oposto
  • Síndrome de Horner (ptose + elevação da pálpebra inferior)
  • Assimetria facial/óssea

Enoftalmia verdadeira

Globo recuado: investigar a órbita.

  • Hertel com assimetria ≥ 2 mm
  • Sulco palpebral superior profundo
  • Hipoglobo associado (fratura, seio silencioso)
  • Achado confirmado na TC

Quatro apresentações de enoftalmia

A história orienta: trauma facial aponta para fratura; colírio de glaucoma em um olho só, para periorbitopatia por prostaglandina; enoftalmia lenta e indolor com olho mais baixo, para seio silencioso.

Enoftalmia após fratura do assoalho

Olho recuado e mais baixo (hipoglobo), sulco palpebral superior profundo e fenda palpebral menor. Observe também limitação da supraversão e hipoestesia da bochecha (nervo infraorbitário).

TraumaHipogloboBlow-out

Worm’s eye view

Paciente com a cabeça inclinada para trás, examinador olhando de baixo para cima: a córnea do lado afetado fica atrás da do lado normal em relação às bochechas e à margem orbitária.

InspeçãoComparaçãoVista inferior

Periorbitopatia por prostaglandina

Sulco palpebral superior profundo, perda de gordura periorbitária e involução da dermatocalase no olho que usa bimatoprosta, latanoprosta ou travoprosta. Assimetria típica quando só um olho é tratado.

PAPGlaucomaAtrofia de gordura

Síndrome do seio silencioso (TC)

TC coronal: seio maxilar opacificado e de volume reduzido, com teto (assoalho da órbita) abaulado para baixo e paredes retraídas. A órbita fica maior e o globo desce e recua.

TCSeio maxilarIndolor

Inspecione de vários ângulos, meça com o Hertel, procure hipoglobo e confirme na TC quando houver suspeita de causa estrutural.

Exame passo a passo

  1. Inspeção frontal

    Sulco palpebral superior profundo, fenda palpebral menor, pseudoptose, posição vertical das pupilas (hipoglobo).

  2. Vista superior e worm’s eye view

    De cima (por trás do paciente) e de baixo (cabeça inclinada para trás): compare a projeção das córneas.

  3. Exoftalmometria de Hertel

    Apoios nas margens orbitárias laterais; anotar a base. Diferença ≥ 2 mm entre os olhos é significativa. Fratura da margem lateral invalida a medida.

  4. Dinâmica

    Peça Valsalva ou cabeça baixa: enoftalmia em repouso que vira proptose sugere varizes orbitárias.

  5. Função e sensibilidade

    Motilidade e diplopia (encarceramento), sensibilidade da bochecha (nervo infraorbitário), pupilas (Horner), tamanho do globo.

  6. Imagem

    TC de órbitas e seios com cortes coronais: fratura, seio maxilar colapsado, massa infiltrativa, volume de gordura.

O que procurar na TC

A TC sem contraste com cortes finos e reconstruções coronais e sagitais é o exame de escolha: mostra osso, seios e volume orbitário. RM entra quando há suspeita de tumor infiltrativo ou para caracterizar partes moles; imagem com manobra de Valsalva ajuda nas varizes.

Exame

Medida da posição do globo na TC

Em corte axial no plano do cristalino, trace a linha entre as margens orbitárias laterais e meça a distância até o ápice corneano de cada lado; compare os dois olhos.

Como registrar

Modelo de registro

Exoftalmometria de Hertel (base 100 mm): OD 17 mm, OE 14 mm — enoftalmia OE de 3 mm. Hipoglobo OE de 2 mm. Sulco palpebral superior profundo OE. Sem variação com Valsalva. Hipoestesia em território do nervo infraorbitário E. Limitação discreta da supraversão OE com diplopia em supraversão. Pupilas isocóricas e fotorreagentes. TC: fratura do assoalho orbitário E com herniação de gordura para o seio maxilar.

Modelo didático: registre a base do Hertel e a direção do deslocamento (recuo e/ou hipoglobo).

Principais causas

A causa mais comum é o trauma (fratura do assoalho e/ou da parede medial). Entre as não traumáticas destacam-se a síndrome do seio silencioso, a atrofia de gordura e os tumores que retraem a órbita.

Fratura blow-out

Assoalho e parede medial. Aguda: edema e hemorragia mascaram a enoftalmia. Tardia: aparece em dias a semanas, quando o edema regride e a gordura herniada atrofia.

Síndrome do seio silencioso

Sinusite maxilar crônica atelectásica: obstrução do óstio, pressão negativa e colapso do seio. Enoftalmia e hipoglobo lentos, indolores, em adulto jovem.

Análogos de prostaglandina (PAP)

Atrofia de gordura periorbitária, sulco profundo, enoftalmia leve, pálpebras tensas. Mais com bimatoprosta; costuma melhorar ao suspender.

Atrofia de gordura senil e lipodistrofia

Envelhecimento, perda de peso intensa, lipodistrofia (inclusive associada a antirretrovirais), geralmente bilateral.

Metástase cirrótica de mama

Carcinoma esquirroso (sobretudo lobular) gera fibrose que retrai o globo; pode haver restrição da motilidade. Às vezes é a primeira manifestação.

Varizes orbitárias

Malformação venosa distensível: enoftalmia em repouso (atrofia de gordura) e proptose com Valsalva, cabeça baixa ou choro.

Síndrome de Parry-Romberg

Atrofia hemifacial progressiva: perda de gordura subcutânea e orbitária de um lado, com enoftalmia ipsilateral.

Radioterapia e fibrose

Atrofia de gordura e contratura após radioterapia, inflamação crônica ou cirurgia; esclerodermia linear "em golpe de sabre".

Diferencial pelo padrão

CondiçãoAchado-chaveComo diferenciar
Achado-chaveTrauma, diplopia, hipoestesia malar
Como diferenciarTC: fratura do assoalho/parede medial com herniação de tecido.
Síndrome do seio silencioso
Achado-chaveIndolor, lenta, com hipoglobo
Como diferenciarTC: seio maxilar opacificado, pequeno, teto abaulado para baixo.
Periorbitopatia por prostaglandina
Achado-chaveSulco profundo no olho tratado
Como diferenciarUso de bimatoprosta/latanoprosta/travoprosta; melhora ao suspender.
Metástase cirrótica de mama
Achado-chaveEnoftalmia progressiva + restrição
Como diferenciarHistória oncológica; massa infiltrativa na TC/RM; biópsia.
Varizes orbitárias
Achado-chaveMuda com Valsalva
Como diferenciarImagem dinâmica com manobra; flebólitos na TC.
Síndrome de Horner
Achado-chavePtose + miose + "ptose reversa"
Como diferenciarPseudoenoftalmia: Hertel normal; teste com apraclonidina ou cocaína.
Achado-chaveGlobo pequeno
Como diferenciarComprimento axial reduzido na biometria/ecografia; órbita normal.
Achado-chavePrótese afundada, sulco profundo
Como diferenciarSíndrome da cavidade anoftálmica: deficit de volume orbitário.
Achado-chaveO outro olho está para frente
Como diferenciarHertel: o valor anormal está no olho "normal".
Achado-chaveFenda palpebral menor
Como diferenciarHertel simétrico; distância margem-reflexo (MRD1) reduzida.

Como na exoftalmia, trata-se a causa. A correção estética ou funcional da posição do globo vem depois que a causa está definida e estável.

Para onde cada cenário leva

CenárioConduta
Fratura blow-out com enoftalmia ≥ 2 mm, fratura extensa ou encarceramentoReconstrução do assoalho/parede medial com implante (malha de titânio, polietileno poroso, placas reabsorvíveis); urgente se houver encarceramento muscular com reflexo oculocardíaco.
Enoftalmia tardia pós-traumaReconstrução secundária com implantes ou enxertos para restaurar o volume orbitário; resultado menos previsível que na correção precoce.
Síndrome do seio silenciosoCirurgia endoscópica nasossinusal (antrostomia maxilar); reconstrução do assoalho no mesmo tempo ou depois, se a enoftalmia persistir.
Periorbitopatia por prostaglandinaDiscutir com o glaucomatólogo a troca para outra classe; as alterações tendem a melhorar parcialmente em meses.
Suspeita de metástase ou tumorRM/TC, rastreamento sistêmico e biópsia; oncologia.
Atrofia de gordura (idade, radioterapia, Parry-Romberg, cavidade anoftálmica)Aumento de volume orbitário: implantes subperiosteais, enxerto de gordura, preenchedores; troca de prótese/implante na cavidade anoftálmica.

Quando é urgência

  • Trauma com restrição da motilidade, dor à movimentação, náusea, bradicardia ou síncope (encarceramento muscular — "white-eyed blow-out" em criança).
  • Trauma orbitário com baixa visual ou DPAR (lesão do nervo óptico, hemorragia).
  • Enoftalmia progressiva com restrição da motilidade em paciente oncológico.

Referências bibliográficas

  1. 1
    Livro-texto2025
    American Academy of Ophthalmology. Basic and Clinical Science Course (BCSC), Section 7: Oculofacial Plastic and Orbital Surgery. San Francisco: AAO; 2024–2025.
  2. 2
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    Bowling B. Kanski’s Clinical Ophthalmology: A Systematic Approach. 9. ed. Elsevier; 2020.
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    Revisão online2026
    StatPearls. Enophthalmos. Treasure Island (FL): StatPearls Publishing (NBK563300). Acesso em 2026.
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    Hamedani M, Pournaras JA, Goldblum D. Diagnosis and management of enophthalmos. Surv Ophthalmol. 2007;52(5):457–473.
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    Artigo2008
    Athanasiov PA, Prabhakaran VC, Selva D. Non-traumatic enophthalmos: a review. Acta Ophthalmol. 2008;86(4):356–364.
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    Revisão online2026
    EyeWiki. Silent Sinus Syndrome. American Academy of Ophthalmology. Acesso em 2026.
  7. 7
    Revisão online2026
    EyeWiki. Prostaglandin Associated Periorbitopathy. American Academy of Ophthalmology. Acesso em 2026.
  8. 8
    Livro-texto2022
    The Wills Eye Manual: Office and Emergency Room Diagnosis and Treatment of Eye Disease. 8. ed. Wolters Kluwer; 2022.

Fontes das imagens

As imagens deste atlas têm finalidade educacional e foram produzidas a partir de referências clínicas reais e de representações anatômicas didáticas.

Parte delas pode ter sido editada ou aprimorada digitalmente para destacar as estruturas e os achados descritos no texto.

Aviso importante

Material educacional. Não substitui a avaliação oftalmológica, os protocolos institucionais nem a consulta às bulas.

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