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Atlas de Oftalmologia • Conjuntiva

Pterígio

Pterygium • "carne crescida" (termo popular)

Crescimento fibrovascular benigno, em forma de asa, que parte da conjuntiva bulbar e invade a córnea, quase sempre no lado nasal. Está ligado à radiação ultravioleta; pode induzir astigmatismo e baixa visual. O tratamento definitivo é cirúrgico, com enxerto conjuntival para reduzir a recidiva.

Conjuntiva + córneaRadiação UVLâmpada de fendaExérese + autoenxerto
14–17 min de leitura Atualizado em outubro de 2026

Reconheça o achado

Imagem clínica

Pterígio nasal: tecido fibrovascular triangular que parte da conjuntiva bulbar e avança sobre a córnea. Toque para ampliar.

Principais achados
  1. 1
    Lesão triangular ou em asa na fissura interpalpebral, mais comum no lado nasal
  2. 2
    Cabeça (ápice) aderida à córnea, com zona avascular acinzentada à frente (capuz)
  3. 3
    Linha de Stocker: depósito de ferro no epitélio corneano à frente da cabeça
  4. 4
    Ilhotas de Fuchs: pequenas manchas acinzentadas à frente da cabeça
  5. 5
    Vasos radiais no corpo da lesão; aspecto carnoso nos casos ativos
  6. 6
    Astigmatismo com achatamento no meridiano horizontal

Em 30 segundos

O essencial de visão geral

  1. Pterígio é tecido fibrovascular conjuntival que cruza o limbo e invade a córnea, em forma de asa.
  2. É quase sempre nasal e interpalpebral; a radiação UV é o principal fator causal.
  3. Pode causar irritação crônica, astigmatismo e, se alcança o eixo visual, baixa visual.
  4. Tratamento definitivo: exérese com autoenxerto conjuntival; o grande problema é a recidiva.

O que é pterígio

O nome vem do grego pterygion, "pequena asa". Histologicamente há degeneração elastótica do colágeno, como na pinguécula, mas com proliferação fibrovascular ativa que avança sobre a córnea.

A luz UV que atinge o olho pela lateral é concentrada pela córnea no limbo nasal (efeito de focalização periférica). Ali ela danifica as células-tronco limbares e ativa fibroblastos, o que explica a predileção pelo lado nasal.

Pinguécula fica na conjuntiva; pterígio cruza o limbo e invade a córnea. Essa é a diferença que define o diagnóstico.

Epidemiologia e fatores de risco

A prevalência aumenta perto da linha do Equador (o chamado "cinturão do pterígio", entre as latitudes de cerca de 30° norte e sul), incluindo a maior parte do Brasil. É mais frequente em homens e após os 20–30 anos, refletindo o padrão de exposição solar ocupacional.

Radiação UV

Principal fator; trabalho ao ar livre.

Microtrauma

Vento, poeira, areia e clima seco.

Latitude

Regiões tropicais e equatoriais.

Olho seco

Instabilidade do filme lacrimal na fissura.

Predisposição

Agrupamento familiar; alterações de p53 descritas.

Idade

Adultos; raro em crianças.

Em 30 segundos

O essencial de quadro clínico

  1. Muitos são assintomáticos; outros causam irritação, hiperemia e lacrimejamento recorrentes.
  2. Baixa visual vem do astigmatismo ou da invasão do eixo visual.
  3. Lesões carnosas e vascularizadas são "ativas" e recidivam mais.
  4. Pterígios grandes podem limitar a abdução (restrição mecânica) e causar diplopia.

Sintomas

Os sintomas vêm de duas fontes: a irregularidade da superfície, que desestabiliza o filme lacrimal, e a tração sobre a córnea, que muda a sua curvatura.

Irritação

Ardência, sensação de areia, lacrimejamento.

Hiperemia

Vermelhidão localizada, recorrente, pior com sol e vento.

Visão borrada

Astigmatismo regular ou irregular.

Eixo visual

Lesões que alcançam a pupila tiram visão diretamente.

Diplopia

Restrição da abdução em lesões grandes ou recidivadas.

Estética

Queixa frequente e legítima.

Anatomia da lesão

Descrever cada parte ajuda a registrar a atividade e a acompanhar o crescimento.

ParteOnde ficaO que observar
CapuzZona avascular à frente da cabeça, na córneaHalo acinzentado; marca a frente de avanço
Cabeça (ápice)Sobre a córneaAderência firme; ilhotas de Fuchs e linha de Stocker à frente
PescoçoNo limboTransição conjuntiva–córnea
CorpoSobre a esclera, até o cantoVasos radiais; espessura e carnosidade indicam atividade

Graduação morfológica (Tan)

A classificação de Tan avalia a translucidez do corpo: quanto menos se veem os vasos episclerais através da lesão, mais carnosa ela é — e maior a chance de recidiva após a cirurgia.

GrauAspectoSignificado
T1 — atróficoVasos episclerais nítidos através da lesãoMenor atividade e recidiva
T2 — intermediárioVasos parcialmente visíveisRisco intermediário
T3 — carnosoVasos episclerais encobertos por tecido espessoMaior recidiva

Tan DT et al., Arch Ophthalmol 1997. Outra forma prática: medir a invasão corneana em mm a partir do limbo.

Pterígio primário, recidivado e pseudopterígio

Primário

Nasal, interpalpebral, crescimento lento, sem história de agressão.

Recidivado

Mais espesso, vascularizado e fibrótico; pode causar simbléfaro e restrição da motilidade.

Pseudopterígio

Aderência conjuntival a uma córnea lesada (queimadura, úlcera, trauma). Qualquer posição; uma sonda passa por baixo do pescoço.

Em 30 segundos

O essencial de diagnóstico

  1. O diagnóstico é clínico, na lâmpada de fenda.
  2. Meça a invasão corneana em mm e registre o grau (T1–T3).
  3. Topografia/tomografia corneana quantifica o astigmatismo induzido.
  4. Aspecto atípico exige biópsia: até alguns por cento dos pterígios excisados têm neoplasia associada.

Avaliação oftalmológica

  1. Acuidade e refração

    Melhor acuidade corrigida e cilindro refracional.

  2. Biomicroscopia

    Extensão sobre a córnea (mm), espessura, vasos, linha de Stocker, ilhotas de Fuchs, afinamento corneano.

  3. Fluoresceína

    Áreas de ceratite e instabilidade lacrimal à frente da cabeça.

  4. Motilidade

    Abdução limitada em lesões grandes ou recidivadas.

  5. Topografia

    Achatamento horizontal, astigmatismo irregular; antes de cirurgia de catarata ou refrativa.

Quando não é "só um pterígio"

A neoplasia escamosa da superfície ocular (OSSN) nasce no mesmo lugar, no mesmo paciente exposto ao sol, e pode coexistir com o pterígio. Desconfie quando o aspecto foge do padrão.

  • Aspecto gelatinoso, leucoplásico (placa branca) ou papiliforme.
  • Vasos nutridores dilatados ou vasos em "grampo".
  • Pigmentação, crescimento rápido ou sangramento.
  • Localização fora das 3 e 9 horas, ou lesão unilateral em jovem com HIV.
  • Recidiva atípica após cirurgia.

Nesses casos: OCT de alta resolução do segmento anterior (epitélio espesso e hiper-refletivo sugere OSSN) e envio do material excisado para anatomopatológico.

Diagnóstico diferencial

CondiçãoAchado-chaveComo diferenciar
Achado-chaveNódulo amarelado no limbo
Como diferenciarNão cruza o limbo nem invade a córnea.
Achado-chaveGelatinoso, leucoplásico, vasos em grampo
Como diferenciarBiópsia; OCT com epitélio espessado e hiper-refletivo.
Pseudopterígio
Achado-chaveHistória de queimadura, úlcera ou trauma
Como diferenciarQualquer meridiano; sonda passa sob o pescoço.
Achado-chaveNódulo congênito no limbo inferotemporal
Como diferenciarPresente desde a infância; pode ter pelos.
Pannus corneano
Achado-chaveVasos superficiais sobre a córnea
Como diferenciarGeralmente superior (tracoma, lente de contato), sem a "asa" conjuntival.

Galeria oftalmológica

Em cada imagem, localize a cabeça na córnea, estime quantos milímetros ela avança a partir do limbo e veja se os vasos episclerais aparecem através do corpo (T1) ou estão encobertos (T3).

Pterígio nasal típico

Tecido triangular e vascularizado que parte do canto nasal e cruza o limbo. Aqui o ápice já chega à área pupilar; sempre meça a distância entre a cabeça e a borda da pupila.

NasalCruza o limboInspeção

Vascularização do corpo

Corpo espesso e avermelhado, com vasos radiais convergindo para a cabeça. Quanto mais espesso e vermelho o corpo, mais "ativo" é o pterígio e maior o risco de recidiva após a cirurgia.

AtividadeVasos radiaisTan

Alteração discreta junto ao limbo

Aqui há apenas vasos finos na conjuntiva junto ao limbo, sem lesão triangular evidente. Em casos iniciais, use a lâmpada de fenda para ver se o tecido cruza o limbo (pterígio) ou para nele (pinguécula) e procure o capuz acinzentado e a linha de Stocker à frente da cabeça.

InicialLimboBiomicroscopia

Pterígio avançado

Lesão vascularizada com a cabeça já próxima à borda pupilar, perto do eixo visual. Nessa fase a cirurgia está indicada; confira a motilidade (abdução) e faça topografia antes de planejar a exérese.

AvançadoEixo visualIndicação cirúrgica

Em 30 segundos

O essencial de tratamento

  1. Pterígio pequeno e assintomático: proteção UV e observação.
  2. Irritação: lubrificante; inflamação: curso curto de corticoide ou AINE tópico.
  3. Cirurgia: exérese com autoenxerto conjuntival (cola de fibrina ou sutura).
  4. Mitomicina C intraoperatória é adjuvante útil em recidivas, com risco de necrose escleral.

Quando operar

Indicações cirúrgicas

  • Crescimento documentado em direção ao eixo visual
  • Astigmatismo induzido com baixa visual
  • Irritação refratária ao tratamento clínico
  • Restrição da motilidade ou diplopia
  • Antes de cirurgia de catarata ou refrativa (estabiliza a ceratometria)
  • Queixa estética importante

Observar

  • Lesão pequena, estável e assintomática
  • Sem efeito na refração
  • Paciente orientado sobre proteção UV

Técnicas cirúrgicas

Remover a lesão é fácil; evitar que volte é o difícil. Por isso a área de esclera exposta precisa ser coberta por tecido saudável, preferencialmente conjuntiva do próprio paciente com células limbares.

TécnicaRecidiva aproximadaComentário
Esclera nuaAté 80%Abandonada isoladamente
Autoenxerto conjuntival (± limbar)5–10%Padrão-ouro; enxerto da conjuntiva superior, fixado com cola de fibrina ou sutura
Membrana amnióticaMaior que o autoenxertoÚtil quando a conjuntiva doadora deve ser preservada (glaucoma, lesões duplas)
Esclera nua + mitomicina C≈ 10%Risco de afinamento e necrose escleral

Cochrane (Clearfield et al., 2016): o autoenxerto conjuntival tem menos recidiva que a membrana amniótica.

Rotas de tratamento

Cada rota é um cenário clínico. O nome do medicamento abre a ficha. Esquemas variam entre serviços; a cirurgia e os adjuvantes são decisão do cirurgião.

Seguimento

Revisões em 1 dia, 1 semana, 1 mês e depois a cada 3–6 meses no primeiro ano, quando ocorre a maioria das recidivas. Vasos finos que voltam a cruzar o limbo são o primeiro sinal.

  • Manter a proteção UV por toda a vida.
  • Não coçar; protetor ocular para dormir nos primeiros dias.
  • Retornar antes se houver dor intensa, secreção ou queda do enxerto.

Em 30 segundos

O essencial de complicações

  1. Da doença: astigmatismo, baixa visual, restrição da motilidade.
  2. Da cirurgia: recidiva (a mais comum), granuloma, deiscência do enxerto.
  3. Da mitomicina/betaterapia: afinamento e necrose escleral, às vezes anos depois.

Complicações por fase

FaseComplicaçãoPistas
Doença não tratadaAstigmatismo, invasão do eixo visual, simbléfaro, restrição da abduçãoPiora da refração; diplopia no olhar lateral
Pós-operatório precoceEdema, hemorragia ou deiscência do enxerto; defeito epitelial persistenteDor, enxerto retraído ou ausente
Semanas a mesesRecidiva; granuloma piogênicoVasos voltando ao limbo; massa vermelha friável
Meses a anosAfinamento ou necrose escleral (adjuvantes)Área avascular branca e escavada

Recidiva costuma ser mais agressiva que o pterígio original. Reoperar exige técnica com enxerto e, muitas vezes, adjuvante.

Referências bibliográficas

  1. 1
    Livro-texto2025
    American Academy of Ophthalmology. Basic and Clinical Science Course (BCSC), Section 8: External Disease and Cornea. San Francisco: AAO; 2024–2025.
  2. 2
    Livro-texto2020
    Bowling B. Kanski’s Clinical Ophthalmology: A Systematic Approach. 9. ed. Elsevier; 2020.
  3. 3
    Livro-texto2023
    Yanoff M, Duker JS. Ophthalmology. 6. ed. Elsevier; 2023.
  4. 4
    Artigo2016
    Clearfield E, Muthappan V, Wang X, Kuo IC. Conjunctival autograft for pterygium. Cochrane Database Syst Rev. 2016;2:CD011349.
  5. 5
    Artigo1997
    Tan DT, Chee SP, Dear KB, Lim AS. Effect of pterygium morphology on pterygium recurrence in a controlled trial comparing conjunctival autografting with bare sclera excision. Arch Ophthalmol. 1997;115(10):1235–1240.
  6. 6
    Revisão online2026
    EyeWiki — American Academy of Ophthalmology. Pterygium. Atualizado em 2026.
  7. 7
    Revisão online2026
    EyeWiki — American Academy of Ophthalmology. Ocular Surface Squamous Neoplasia. Atualizado em 2026.
  8. 8
    Livro-texto2021
    Remington LA. Clinical Anatomy and Physiology of the Visual System. 4. ed. Elsevier; 2021.

Fontes das imagens

As imagens deste atlas têm finalidade educacional e foram produzidas a partir de referências clínicas reais e de representações anatômicas didáticas.

Parte delas pode ter sido editada ou aprimorada digitalmente para destacar as estruturas e os achados descritos no texto.

Aviso importante

Material educacional. Não substitui a avaliação oftalmológica, os protocolos institucionais nem a consulta às bulas. Esquemas de colírios e adjuvantes cirúrgicos variam entre serviços; a indicação e a técnica cirúrgica são do oftalmologista.

Atlas MedFoco de Oftalmologia • Conteúdo para educação médica. O diagnóstico e a conduta dependem da avaliação clínica individual.
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