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Atlas de Oftalmologia • Conjuntiva

Conjuntivite bacteriana

Conjuntivite mucopurulenta • bacterial conjunctivitis

Infecção da conjuntiva por bactérias, com olho vermelho, secreção mucopurulenta e pálpebras coladas ao acordar. A forma comum é autolimitada e responde bem a colírio antibiótico. As exceções que não se pode perder são a hiperaguda gonocócica, que perfura a córnea em dias, a conjuntivite por clamídia, que exige tratamento sistêmico, e a oftalmia neonatal.

ConjuntivaInfecciosaSecreção mucopurulentaColírio antibiótico
16–20 min de leitura Atualizado em outubro de 2026

Reconheça o achado

Imagem clínica

Conjuntivite bacteriana: hiperemia difusa, secreção mucopurulenta na borda palpebral e no canto medial, córnea transparente. Toque para ampliar.

Principais achados
  1. 1
    Hiperemia conjuntival difusa, mais intensa nos fórnices
  2. 2
    Secreção mucopurulenta ou purulenta
  3. 3
    Pálpebras coladas ao acordar
  4. 4
    Reação papilar na conjuntiva tarsal
  5. 5
    Córnea transparente e acuidade visual preservada
  6. 6
    Linfonodo pré-auricular ausente (exceto gonococo e clamídia)

Em 30 segundos

O essencial de visão geral

  1. Infecção da conjuntiva por bactérias, mais comum em crianças.
  2. Agentes: S. aureus, S. pneumoniae, H. influenzae e M. catarrhalis.
  3. Quadro: hiperemia, secreção mucopurulenta, olho colado; visão normal.
  4. Formas especiais: hiperaguda (gonococo), crônica (clamídia) e neonatal.

O que é conjuntivite bacteriana

É a inflamação da conjuntiva causada pela proliferação de bactérias, transmitida por contato com mãos, objetos ou secreções, ou por disseminação a partir da flora das pálpebras e das vias aéreas superiores. Responde por boa parte das conjuntivites infecciosas em crianças; em adultos, a causa viral é mais frequente.

A apresentação varia com o agente: aguda (dias, a forma comum), hiperaguda (horas, gonococo) e crônica (mais de 4 semanas, clamídia, Moraxella, blefarite estafilocócica).

Conjuntivite bacteriana comum é autolimitada e não ameaça a visão. O risco está na gonocócica (perfuração corneana) e na neonatal: elas pedem antibiótico sistêmico e urgência.

Agentes e fatores de risco

Os agentes variam com a idade. Em crianças predominam H. influenzae não tipável, S. pneumoniae e M. catarrhalis; em adultos, S. aureus. N. gonorrhoeae e C. trachomatis são transmitidas sexualmente ou no parto.

Crianças e creches

Contato próximo, otite média associada (síndrome conjuntivite-otite).

Doença palpebral

Blefarite, obstrução do ducto lacrimonasal (dacriocistite).

Lente de contato

Risco de Pseudomonas e de úlcera de córnea.

Imunossupressão

Diabetes, corticoide tópico prolongado.

Superfície alterada

Olho seco, trauma, cirurgia ocular recente.

IST

Gonococo e clamídia em adultos sexualmente ativos.

Em 30 segundos

O essencial de quadro clínico

  1. Aguda: início em dias, secreção mucopurulenta, papilas, olho colado.
  2. Hiperaguda: horas, secreção purulenta copiosa, quemose, linfonodo — gonococo.
  3. Crônica: > 4 semanas, folículos, adulto jovem — clamídia de inclusão.
  4. Visão normal; dor e fotofobia apontam para córnea.

Sinais e sintomas

O sintoma predominante é a secreção. Sensação de areia e ardor são comuns; prurido intenso, dor e baixa visual não são.

Secreção mucopurulenta

Amarelada ou esverdeada, nos cílios e no canto medial.

Olho colado

Cílios grudados ao acordar; pista mais útil da história.

Hiperemia

Difusa, máxima nos fórnices e menor junto ao limbo.

Reação papilar

Conjuntiva tarsal aveludada e avermelhada.

Bilateralização

Começa em um olho; o outro em 1–2 dias.

Otite associada

Criança com otite + conjuntivite: H. influenzae.

As três formas clínicas

FormaInícioAgentesAchados-chave
AgudaDiasS. aureus, S. pneumoniae, H. influenzae, M. catarrhalisSecreção mucopurulenta, papilas, visão normal; autolimitada
Hiperaguda12–24 hNeisseria gonorrhoeae (raramente N. meningitidis)Secreção purulenta copiosa, quemose, edema palpebral, linfonodo pré-auricular; risco de úlcera e perfuração
Crônica> 4 semanasC. trachomatis (D–K), Moraxella, S. aureus (blefarite)Reação folicular, secreção escassa, pannus superior; resistente a colírios

Conjuntivite gonocócica e por clamídia no adulto

As duas são infecções sexualmente transmissíveis que chegam ao olho por autoinoculação. Ambas exigem antibiótico sistêmico, tratamento dos parceiros e rastreio de outras IST (HIV, sífilis, hepatites).

Gonocócica

  • Instalação em horas
  • Pus abundante que se refaz em minutos
  • Quemose e edema palpebral
  • Pode ulcerar a córnea periférica e perfurar

Clamídia de inclusão

  • Evolução de semanas
  • Folículos grandes no fórnice inferior
  • Pannus e infiltrados periféricos
  • Uretrite/cervicite frequentemente assintomática

Em 30 segundos

O essencial de diagnóstico

  1. Forma comum: diagnóstico clínico, sem exames.
  2. Swab com Gram e cultura: hiperaguda, neonatal, grave, recorrente ou refratária.
  3. PCR para clamídia e gonococo na suspeita de IST e no recém-nascido.
  4. Sempre examinar a córnea com fluoresceína.

Avaliação clínica

O objetivo é confirmar que o problema está restrito à conjuntiva, identificar o padrão (bacteriano, viral, alérgico) e reconhecer as formas que pedem tratamento sistêmico.

  1. História

    Tempo de início, tipo de secreção, contatos, lente de contato, vida sexual, sintomas genitais, uso de colírios.

  2. Acuidade visual

    Deve estar normal (ou melhorar ao piscar/limpar a secreção).

  3. Pálpebras e linfonodos

    Edema palpebral, blefarite, linfonodo pré-auricular.

  4. Lâmpada de fenda

    Tipo de secreção, papilas × folículos, membranas, córnea (fluoresceína), câmara anterior.

Exames laboratoriais

Gram

Diplococos gram-negativos intracelulares = gonococo; resultado em minutos.

Cultura e antibiograma

Ágar sangue e chocolate (Thayer-Martin para gonococo). Casos graves e refratários.

PCR (NAAT)

Clamídia e gonococo em amostra conjuntival; mais sensível que cultura.

Exames sistêmicos

Na suspeita de IST: HIV, sífilis, hepatites B e C; amostras genitais.

Diagnóstico diferencial do olho vermelho com secreção

CondiçãoAchado-chaveComo diferenciar
Achado-chaveSecreção aquosa, folículos, linfonodo
Como diferenciarContato com caso, infecção respiratória; antibiótico não ajuda.
Achado-chavePrurido intenso, bilateral
Como diferenciarSecreção mucosa em fio, quemose, atopia.
Achado-chaveDor, fotofobia, infiltrado
Como diferenciarInfiltrado branco com defeito epitelial; lente de contato; urgência.
Achado-chaveCrostas na base dos cílios
Como diferenciarCrônica, recorrente; borda palpebral espessada.
Dacriocistite
Achado-chaveAbaulamento no canto medial
Como diferenciarRefluxo de pus à compressão do saco lacrimal.
Achado-chaveProptose, dor à movimentação
Como diferenciarFebre, oftalmoplegia; urgência (tomografia).

Galeria oftalmológica

Use as legendas como roteiro: quantidade e tipo de secreção, padrão de hiperemia, pálpebras e córnea.

Conjuntivite bacteriana aguda

Hiperemia difusa e secreção mucopurulenta amarelada na borda palpebral e no canto medial. A córnea está transparente — a visão é normal. É o aspecto típico da forma comum.

AgudaMucopurulentaForma comum

Cílios colados pela secreção

Crostas amareladas aglutinando os cílios ao despertar. A história de "olho colado" é a pista clínica que mais favorece causa bacteriana.

Olho coladoCrostasHistória

Conjuntivite hiperaguda gonocócica

Pus abundante escorrendo, quemose intensa e edema palpebral. Examine a córnea periférica: ulceração aqui pode perfurar em 24–48 horas. Gram, cultura e ceftriaxona sistêmica.

GonococoUrgênciaQuemose

Oftalmia neonatal

Recém-nascido com edema palpebral e secreção purulenta. O tempo de início orienta o agente: gonococo em 2–5 dias, clamídia em 5–14 dias. Todo caso exige coleta de material e tratamento sistêmico.

NeonatalGonococo/clamídiaSistêmico

Em 30 segundos

O essencial de tratamento

  1. Forma comum: colírio antibiótico de amplo espectro por 5–7 dias; limpeza das pálpebras.
  2. Não usar corticoide tópico sem diagnóstico e acompanhamento do oftalmologista.
  3. Gonococo: ceftriaxona sistêmica + irrigação; examinar a córnea diariamente.
  4. Clamídia: azitromicina ou doxiciclina por via oral; tratar parceiros.

Medidas gerais

A higiene reduz a carga bacteriana e a transmissão. Não há necessidade de ocluir o olho; a oclusão favorece a proliferação bacteriana.

  • Limpar a secreção com gaze e soro fisiológico, de dentro para fora, várias vezes ao dia.
  • Lavar as mãos antes e depois de tocar os olhos; toalhas e fronhas individuais.
  • Suspender lente de contato até a cura e descartar lentes e estojo.
  • Retorno às atividades em geral após 24 horas de antibiótico, conforme a regra local.

Rotas de tratamento

Cada rota é um cenário clínico. As doses são de bula e de diretrizes (AAO PPP 2023, CDC 2021); o nome do medicamento abre a ficha completa.

Em 30 segundos

O essencial de complicações

  1. A forma comum quase nunca complica.
  2. Gonococo: úlcera de córnea periférica, perfuração e endoftalmite.
  3. Clamídia não tratada: pannus, cicatriz conjuntival leve, recorrência.
  4. Neonatal: cegueira (gonococo) e pneumonia (clamídia).

O que vigiar

ComplicaçãoQuando pensarConduta
Ceratite / úlcera de córneaDor, fotofobia, infiltrado branco; lente de contato; gonococoOftalmologista urgente; cultura; colírio fortificado
Perfuração corneanaGonococo não tratado (24–48 h)Cirurgia (adesivo, recobrimento, transplante)
Celulite pré-septalEdema e eritema palpebral, febreAntibiótico sistêmico; excluir celulite orbitária
Toxicidade ao colírioPiora após dias de uso, ceratite puntataSuspender; lubrificante sem conservante
Pneumonia neonatalClamídia em lactente de 4–12 semanas, tosseAntibiótico sistêmico (pediatria)

Prevenção

Higiene das mãos é a medida mais eficaz contra a transmissão. A profilaxia ocular do recém-nascido logo após o parto previne a oftalmia gonocócica e é rotina em muitos países, conforme o protocolo nacional; ela não substitui o rastreio e o tratamento de IST na gestante.

Referências bibliográficas

  1. 1
    Diretriz2024
    Cheung AY, Choi DS, Ahmad S, et al.; American Academy of Ophthalmology Preferred Practice Pattern Cornea/External Disease Panel. Conjunctivitis Preferred Practice Pattern®. Ophthalmology. 2024;131(4):P134–P204. doi:10.1016/j.ophtha.2023.12.037.
  2. 2
    Diretriz2021
    Workowski KA, Bachmann LH, Chan PA, et al. Sexually Transmitted Infections Treatment Guidelines, 2021. MMWR Recomm Rep. 2021;70(4):1–187.
  3. 3
    Livro-texto2025
    American Academy of Ophthalmology. BCSC Section 8: External Disease and Cornea. San Francisco: AAO; 2024–2025.
  4. 4
    Livro-texto2020
    Bowling B. Kanski’s Clinical Ophthalmology: A Systematic Approach. 9. ed. Elsevier; 2020.
  5. 5
    Artigo2020
    Azari AA, Arabi A. Conjunctivitis: a systematic review. J Ophthalmic Vis Res. 2020;15(3):372–395.
  6. 6
    Diretriz2026
    National Institute for Health and Care Excellence. Conjunctivitis — infective. Clinical Knowledge Summaries. NICE CKS. Acesso em 2026.
  7. 7
    Artigo2023
    Chen YY, Liu SH, Nurmatov U, van Schayck OCP, Kuo IC. Antibiotics versus placebo for acute bacterial conjunctivitis. Cochrane Database Syst Rev. 2023;3:CD001211.

Fontes das imagens

As imagens deste atlas têm finalidade educacional e foram produzidas a partir de referências clínicas reais e de representações anatômicas didáticas.

Parte delas pode ter sido editada ou aprimorada digitalmente para destacar as estruturas e os achados descritos no texto.

Aviso importante

Material educacional. Não substitui a avaliação oftalmológica, os protocolos institucionais nem a consulta às bulas. Doses de referência; confira a bula e o protocolo local. Formas gonocócica e neonatal devem ser conduzidas com oftalmologista e infectologista/pediatra.

Atlas MedFoco de Oftalmologia • Conteúdo para educação médica. O diagnóstico e a conduta dependem da avaliação clínica individual.
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