Choque distributivo por perda do tônus simpático • lesão medular acima de T6
É o choque que não taquicardiza. A perda súbita do tônus simpático abaixo da lesão medular deixa o paciente hipotenso, bradicárdico e quente — exatamente o oposto do que se espera no politraumatizado. No trauma, porém, ele é sempre um diagnóstico de exclusão: presumir choque neurogênico antes de afastar hemorragia é um erro que mata.
Hipotensão com bradicardiaExtremidades quentesSangramento primeiroPerfusão medular é o alvo
18 min de leitura Atualizado em outubro de 2026
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O essencial de visão geral
Choque neurogênico é um choque distributivo por perda do tônus simpático abaixo de uma lesão medular, sobretudo acima de T6.
A assinatura é hipotensão com bradicardia (ou normocardia), pele quente e seca e pressão de pulso alargada.
No trauma é diagnóstico de exclusão: hemorragia vem primeiro, e bradicardia não a afasta.
A meta pressórica existe para reduzir a lesão medular secundária — é uma das poucas intervenções que mudam o desfecho funcional.
O que é choque neurogênico
Choque neurogênico é um choque distributivo causado pela perda súbita do tônus simpático abaixo de uma lesão do sistema nervoso central, tipicamente da medula espinhal. Sem a descarga simpática, o leito vascular perde o tônus, a resistência vascular sistêmica despenca e o sangue se acumula na periferia — há volume circulante suficiente, mas ele está no lugar errado.
O que torna esse choque peculiar é a ausência da resposta compensatória. Nos demais choques, o organismo responde com taquicardia e vasoconstrição. Aqui, as fibras simpáticas cardioaceleradoras que saem de T1 a T4 também estão desconectadas, e o tônus vagal, mediado pelo nervo vago, fica sem oposição. O resultado é a assinatura clássica: hipotensão com bradicardia e pele quente.
No paciente traumatizado, choque neurogênico é sempre diagnóstico de exclusão. Hemorragia e lesão medular coexistem com frequência, e atribuir a hipotensão à medula antes de afastar sangramento é um dos erros mais graves da sala de emergência.
Por que acontece
A cadeia de eventos é direta e explica cada achado do exame físico.
Interrupção simpática
A lesão medular interrompe as vias simpáticas descendentes que trafegam pela coluna intermediolateral, entre T1 e L2.
Vasoplegia
Abaixo da lesão, arteríolas e vênulas perdem o tônus vasoconstritor: cai a resistência vascular sistêmica e o sangue se acumula no leito venoso de capacitância.
Queda do débito
Cai o retorno venoso e, com ele, a pré-carga e o débito cardíaco — apesar de a volemia total estar preservada.
Sem taquicardia compensatória
Em lesões acima de T6, as fibras cardioaceleradoras de T1 a T4 também são perdidas: o coração não consegue taquicardizar para compensar.
Vago sem oposição
O tônus vagal, que chega ao coração pelo nervo vago e independe da medula, passa a agir sem oposição — daí a bradicardia paradoxal.
Pele quente e seca
Sem vasoconstrição cutânea, a pele fica quente, seca e corada, e o paciente perde a capacidade de regular a própria temperatura.
Lesão secundária
A hipoperfusão da medula já lesada agrava a lesão secundária, fechando um ciclo em que a hipotensão piora o desfecho neurológico.
Esse último passo é a razão de todo o esforço hemodinâmico. Diferentemente de outros choques, aqui a meta pressórica não visa apenas o rim e o cérebro: visa salvar tecido medular ainda viável, e é uma das poucas intervenções capazes de mudar o desfecho funcional.
Choque neurogênico não é choque medular
Os dois termos são confundidos com enorme frequência, inclusive em prontuário. São fenômenos diferentes, que podem ocorrer no mesmo paciente e ao mesmo tempo, mas descrevem coisas distintas.
Aspecto
Choque neurogênico
Choque medular
Natureza
Fenômeno hemodinâmico e sistêmico
Fenômeno neurológico e local
Definição
Hipotensão com hipoperfusão por perda do tônus simpático
Perda transitória de toda a função medular abaixo da lesão, com flacidez e arreflexia
Achados
Hipotensão, bradicardia, pele quente e seca, pressão de pulso alargada
Paralisia flácida, arreflexia, anestesia e perda do tônus esfincteriano
Nível da lesão
Sobretudo acima de T6
Qualquer nível medular
Duração
Dias a semanas, conforme a lesão
Dias a semanas, até o retorno dos reflexos
Marcador da resolução
Estabilidade hemodinâmica sem vasopressor
Retorno do reflexo bulbocavernoso, geralmente o primeiro a voltar
Tratamento
Volume, vasopressor e meta de pressão arterial média
Não há tratamento próprio: é um estado transitório a ser aguardado
Enquanto persiste o choque medular, a arreflexia impede a determinação definitiva da extensão da lesão. Por isso a classificação neurológica precisa ser repetida ao longo dos dias: um exame feito nas primeiras horas subestima o potencial de recuperação.
Comparando com os outros choques
Do ponto de vista hemodinâmico, o choque neurogênico é distributivo — como o séptico e o anafilático. O que o separa dos demais é a frequência cardíaca e a temperatura da pele.
Tipo
Frequência
Pele
Resistência vascular
Pressão de pulso
Hemorrágico
Taquicardia
Fria e pálida
Alta
Estreitada
Cardiogênico
Taquicardia
Fria e úmida
Alta
Estreitada
Séptico
Taquicardia
Quente no início
Baixa
Alargada
Neurogênico
Bradicardia ou normocardia
Quente e seca
Baixa
Alargada
A pele seca é um detalhe que diferencia do séptico e do anafilático: sem tônus simpático não há sudorese abaixo da lesão. Vale passar a mão no tórax e nos membros — a linha de transição entre pele suada e pele seca costuma indicar o nível da lesão.
Por que isso importa
Lesão secundária
Cada episódio de hipotensão agrava a isquemia da medula já lesada e piora a recuperação funcional.
Janela terapêutica
A meta pressórica é uma das poucas intervenções disponíveis capazes de influenciar o desfecho neurológico.
Armadilha
Presumir choque neurogênico em politraumatizado atrasa o diagnóstico de hemorragia.
Via aérea
Lesões cervicais altas comprometem o diafragma e exigem antecipação da intubação.
Duração
A necessidade de vasopressor costuma se estender por dias, não por horas.
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O essencial de causas
A causa dominante é o trauma raquimedular cervical ou torácico alto — e é a que exige excluir hemorragia.
A raquianestesia alta é a causa iatrogênica clássica: instalação em minutos e, em geral, reversível.
Causas não traumáticas (hematoma ou abscesso epidural, tumor, isquemia, mielite, Guillain-Barré) instalam-se mais devagar e passam despercebidas.
Lesão abaixo de T6 raramente explica choque importante: procure outra causa.
De onde vem
A causa mais frequente é, de longe, o trauma raquimedular cervical ou torácico alto. Mas existe um conjunto relevante de causas não traumáticas, algumas iatrogênicas, que aparecem em contextos completamente diferentes da sala de trauma.
Trauma raquimedular
Acidentes de trânsito, quedas de altura, mergulho em água rasa, ferimentos por arma de fogo e trauma esportivo. Predomina em lesões cervicais e torácicas altas. Quanto mais alta e mais completa a lesão, maior a probabilidade e a gravidade do choque. É a causa mais comum e a que exige exclusão obrigatória de hemorragia.
Bloqueio neuroeixo alto
Raquianestesia ou peridural com dispersão cefálica excessiva, produzindo simpatectomia farmacológica extensa. É a causa iatrogênica clássica, com quadro de instalação rápida no centro cirúrgico e habitualmente reversível. Reconhecimento imediato e suporte precoce evitam evolução para parada.
Causas não traumáticas
Mielite transversa, isquemia medular, abscesso e hematoma epidural, tumor com compressão medular e síndrome de Guillain-Barré com disautonomia. A instalação costuma ser mais gradual, o que faz o quadro passar despercebido por mais tempo. Nesses casos, a compressão medular tratável é a hipótese que não pode ser perdida.
Panorama das causas
O contexto em que o paciente aparece já sugere a causa: no politraumatizado, lesão cervical ou torácica alta — com sangramento associado até prova em contrário; no centro cirúrgico, bloqueio neuroaxial; no paciente clínico com dor dorsal e déficit progressivo, compressão epidural ou tumoral, que tem tratamento cirúrgico tempo-dependente. O nível da lesão pesa tanto quanto a causa, porque é ele que define se as fibras cardioaceleradoras e o leito esplâncnico perderam a inervação simpática.
Causa
Contexto típico
Observação
Trauma cervical
Colisão automobilística, queda, mergulho em água rasa, atropelamento
Maior risco de choque neurogênico e de comprometimento respiratório; lesões acima de C5 ameaçam o diafragma
Trauma torácico alto
Trauma de alta energia com fratura ou luxação vertebral
Lesões acima de T6 concentram o risco; abaixo disso, o quadro tende a ser mais brando
Ferimento por arma de fogo
Trauma penetrante de tronco e pescoço
Alta chance de lesão vascular e hemorragia associadas — a exclusão de sangramento é ainda mais crítica
Raquianestesia alta
Cesariana, cirurgia ortopédica e urológica sob bloqueio
Instalação em minutos, com bradicardia e náusea; a gestante tem risco somado de compressão aortocava
Hematoma ou abscesso epidural
Anticoagulação, punção neuroaxial, bacteremia, usuário de droga injetável
Dor local com déficit progressivo; a descompressão cirúrgica é urgente e tempo-dependente
Compressão medular por tumor
Neoplasia com metástase vertebral, mieloma
Déficit progressivo com dor prévia; corticoide e radioterapia ou cirurgia conforme o caso
Isquemia medular
Cirurgia de aorta, dissecção aórtica, hipotensão prolongada
Frequentemente compromete o território da artéria espinhal anterior, poupando a propriocepção
Mielite transversa
Quadro pós-infeccioso ou desmielinizante
Instalação em horas a dias; a disautonomia pode ser expressiva
Síndrome de Guillain-Barré
Fraqueza ascendente após quadro infeccioso
Disautonomia com oscilação entre hipertensão e hipotensão, além de arritmias
Manipulação cirúrgica da medula
Cirurgia de coluna com lesão intraoperatória
A elevação imediata da pressão arterial é a primeira medida diante de perda de sinais no monitoramento neurofisiológico
Lesões medulares abaixo de T6 raramente produzem choque neurogênico significativo, porque preservam as fibras cardioaceleradoras e boa parte do leito esplâncnico. Diante de hipotensão em lesão baixa, procure outra causa antes de aceitar o rótulo.
O que imita choque neurogênico
Hipotensão com bradicardia não é sinônimo de choque neurogênico. Antes de aceitar o rótulo, procure o que tem tratamento específico e mais urgente — sangramento mascarado por betabloqueador, pneumotórax hipertensivo, intoxicação, hipotermia. O que sustenta o diagnóstico é a combinação de déficit neurológico com nível sensitivo, pele quente e seca abaixo da lesão e ausência de outra explicação para o choque.
Achado-chaveHipertensão com bradicardia por hipertensão intracraniana.
Como diferenciarÉ o oposto pressórico do choque neurogênico e exige conduta distinta.
Intoxicações
Achado-chaveBetabloqueadores, bloqueadores de canal de cálcio, clonidina e opioides cursam com hipotensão e bradicardia.
Como diferenciarHistória de exposição, ausência de nível sensitivo e resposta a antídotos específicos.
Hipotermia
Achado-chaveBradicardia e hipotensão em vítima exposta.
Como diferenciarMedir temperatura central; frequentemente coexiste com o próprio trauma raquimedular.
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O essencial de reconhecer
A sequência xABCDE não muda: hemorragia exsanguinante, via aérea com proteção cervical e ventilação, nessa ordem.
Diante de hipotensão no trauma, procure sangramento primeiro — tórax, abdome, pelve, retroperitônio, ossos longos.
Hipotensão com bradicardia e pele quente aponta para neurogênico; taquicardia com pele fria aponta para hemorragia.
Defina o nível neurológico, registre o horário do exame e acione a cirurgia de coluna desde o primeiro momento.
A abordagem inicial
No trauma, a sequência do xABCDE não muda. O que muda é a interpretação: diante de hipotensão, a hemorragia continua sendo a hipótese principal até ser afastada, e o choque neurogênico entra depois.
xABC
Controle de hemorragia exsanguinante, via aérea com proteção da coluna cervical e ventilação — nessa ordem.
Procure sangramento primeiro
Tórax, abdome, pelve, retroperitônio, ossos longos e ferimentos externos. FAST e radiografias na sala.
Padrão hemodinâmico
Hipotensão com bradicardia e pele quente aponta para neurogênico; taquicardia com pele fria aponta para hemorragia.
Exame neurológico dirigido
Força por miótomos, sensibilidade por dermátomos, tônus retal e reflexo bulbocavernoso.
Nível e completude
Defina o nível neurológico da lesão e se ela é completa ou incompleta, registrando o horário do exame.
Volume e vasopressor
Inicie a reposição volêmica até a euvolemia e associe vasopressor precocemente se a hipotensão persistir.
Imagem
Tomografia de coluna para o osso, ressonância magnética para medula, ligamentos e compressão.
Cirurgia de coluna
Acione a neurocirurgia ou a cirurgia de coluna desde o primeiro momento — o tempo até a descompressão importa.
Bradicardia não afasta hemorragia. Um paciente pode ter lesão medular cervical e ruptura esplênica simultaneamente, e a resposta à expansão volêmica costuma ser o primeiro sinal de que existe sangramento em curso.
Atualização — ATLS 11ª edição (2025)
A avaliação primária passou a ser xABCDE (hemorragia exsanguinante antes da via aérea) e a proteção da coluna é descrita como restrição seletiva do movimento, baseada em critérios, com menos ênfase no colar rígido — sobretudo no trauma penetrante.
Achados que sustentam o diagnóstico
Hipotensão sem taquicardia: pressão sistólica abaixo de 90 mmHg com frequência cardíaca normal ou baixa. É o achado que mais chama atenção e o que separa do choque hemorrágico.
Bradicardia: presente sobretudo em lesões acima de T6, por perda das fibras cardioaceleradoras de T1 a T4 com tônus vagal sem oposição. Pode ser desencadeada ou agravada por aspiração traqueal e mudança de decúbito.
Pele quente, seca e corada: a vasodilatação abaixo da lesão elimina a palidez e a sudorese. A transição entre pele úmida e pele seca frequentemente marca o nível da lesão.
Pressão de pulso alargada: a queda da resistência vascular reduz mais a diastólica que a sistólica — o oposto do choque hemorrágico, em que o pulso é fino e a pressão de pulso, estreitada.
Déficit neurológico compatível: paraplegia ou tetraplegia, nível sensitivo definido, arreflexia, priapismo e perda do tônus do esfíncter anal.
Poiquilotermia: incapacidade de regular a temperatura abaixo da lesão, com tendência à hipotermia em ambiente frio e à hipertermia em ambiente quente.
Padrão respiratório: respiração diafragmática com uso paradoxal do abdome sugere lesão cervical com perda da musculatura intercostal.
Ausência de resposta ao volume: hipotensão que persiste após reposição adequada, sem sinais de sangramento, reforça a origem distributiva.
O priapismo é um achado pouco sensível, porém bastante sugestivo de lesão medular no contexto de trauma. Vale procurá-lo na exposição do paciente.
O ritmo no monitor
Bradicardia neurogênica e o que não é
Compare a bradicardia sinusal típica do choque neurogênico com a taquicardia esperada no hemorrágico e com um bloqueio que pede outra explicação.
Neurogênico
Tônus vagal sem oposição em lesão acima de T6: bradicardia sinusal, piorada por aspiração traqueal e mudança de decúbito.
Onda P antes de cada QRS, com PR constante
QRS estreito
FC ≈ 45 bpm
Hemorrágico
O padrão esperado no choque hemorrágico. Taquicardia em suposto choque neurogênico é pouco típica: reavalie sangramento.
Ritmo sinusal regular
FC ≈ 125 bpm
P sobre a T anterior em frequências mais altas
BAV total
Dissociação atrioventricular não é efeito do tônus vagal: pense em contusão ou isquemia miocárdica, drogas, hipercalemia ou doença do sistema de condução.
Ondas P regulares sem relação com os QRS
Escape ventricular lento e alargado
Intervalo PR variável
Traçados esquemáticos gerados por computador (25 mm/s, 10 mm/mV) para estudo e comparação. Confirme sempre no ECG de 12 derivações do paciente.
Neurogênico versus hemorrágico
Parâmetro
Choque neurogênico
Choque hemorrágico
Frequência cardíaca
Bradicardia ou normocardia
Taquicardia progressiva
Pele
Quente, seca e corada abaixo da lesão
Fria, pálida e úmida
Tempo de enchimento capilar
Normal ou rápido
Prolongado
Pressão de pulso
Alargada
Estreitada
Resposta ao volume
Parcial e transitória
Boa, se o sangramento estiver controlado
Lactato
Frequentemente normal ou pouco elevado
Elevado e proporcional à gravidade
Hemoglobina seriada
Estável
Em queda
FAST e imagem
Sem foco de sangramento
Líquido livre, hemotórax, fratura pélvica
Déficit neurológico
Presente e com nível definido
Ausente, salvo trauma associado
Na prática, os dois coexistem com frequência. O raciocínio correto não é escolher entre eles, e sim tratar a hemorragia enquanto se sustenta a perfusão medular — e reavaliar de forma seriada, porque o quadro muda ao longo das primeiras horas.
Exames e monitorização
Tomografia de coluna
Exame inicial para avaliar fraturas, luxações e alinhamento. Costuma ser feita em conjunto com a tomografia de corpo inteiro no politraumatizado.
Ressonância magnética
Padrão para avaliar a medula, ligamentos, hérnia discal traumática, hematoma e compressão persistente. Ideal antes da cirurgia, desde que não atrase a descompressão.
Ultrassom FAST
Rastreio de sangramento em cavidades. Um exame negativo não exclui hemorragia retroperitoneal ou pélvica.
Pressão arterial invasiva
Recomendada sempre que houver meta pressórica a ser mantida por dias, porque permite titulação contínua do vasopressor.
Lactato e gasometria
Lactato persistentemente elevado sugere hemorragia oculta ou outra causa de hipoperfusão, e não apenas vasoplegia.
Função respiratória
Capacidade vital, força inspiratória e padrão ventilatório orientam a necessidade de intubação em lesões cervicais.
Registre o exame neurológico com horário e nível a cada avaliação. A comparação seriada é o que documenta melhora ou deterioração — e a deterioração é indicação de reavaliar compressão medular e a meta pressórica.
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O essencial de escores
A PAM é estimada por (PAS + 2 × PAD) ÷ 3; a meta só faz sentido depois de excluída hemorragia ativa.
Taquicardia em suposto choque neurogênico é pouco típica — reavalie sangramento.
O escore motor ASIA (0 a 100) é a medida objetiva para acompanhar a evolução; a classificação A–E depende da preservação sacral.
Durante o choque medular, a lesão não pode ser chamada de completa em definitivo.
Pressão arterial média e meta de perfusão
Informe os dados e confira a pressão arterial média atual e o índice de choque. Em seguida, use a leitura abaixo para ver a distância até a meta adotada pelo seu serviço e o significado da frequência cardíaca.
PAM, pressão de pulso e índice de choque
Meta de perfusão medular • alerta de bradicardia • beira do leito. Pressão de pulso = PAS − PAD (alargada no neurogênico, estreitada no hemorrágico).
PAM (mmHg)—
Índice de choque (FC ÷ PAS)—
Leitura—
Com os valores do exemplo (86 × 48 mmHg, 52 bpm): PAM ≈ 61 mmHg, pressão de pulso 38 mmHg e índice de choque 0,6 — índice baixo não tranquiliza quando a frequência está "presa" pela lesão medular. Calculadora completa: Índice de Choque do MedFoco.
Leitura da meta e da frequência cardíaca
Escolha onde a PAM calculada está em relação à meta adotada (85, 80, 75 ou 65 mmHg) e a faixa de frequência cardíaca.
A meta pressórica só faz sentido depois de excluída hemorragia ativa.
Pressão sistólica abaixo de 90 mmHg deve ser corrigida com prioridade em qualquer cenário.
Meta de PAM
Origem
Quando usar
85 mmHg (faixa 85–90)
Meta clássica AANS/CNS 2013, por 7 dias
A mais difundida no Brasil e a mais cobrada em provas
80 mmHg
Limite inferior superior da faixa AO Spine-Praxis (2024)
Serviços que adotaram a faixa mais flexível, por 3 a 7 dias
75 mmHg
Limite inferior mais permissivo da AO Spine-Praxis (2024)
Idem; teto de 90–95 mmHg
65 mmHg
Meta geral de choque
Sem lesão medular confirmada
A pressão arterial média é estimada por (PAS + 2 × PAD) ÷ 3. A recomendação clássica de 2013 era manter entre 85 e 90 mmHg por 7 dias; a atualização sugere um limite inferior de 75 a 80 mmHg e um limite superior de 90 a 95 mmHg, por 3 a 7 dias, reconhecendo que a evidência é de qualidade muito baixa (recomendação condicional, reafirmada pela AO Spine em 2026). Siga o protocolo institucional do seu serviço.
Escore motor ASIA
Pontue cada músculo-chave de 0 a 5 conforme a escala de força, dos dois lados. O escore motor total varia de 0 a 100 pontos (50 nos membros superiores e 50 nos inferiores) e é a principal medida objetiva para acompanhar a evolução ao longo dos dias.
Miótomo
Músculo-chave
Direito
Esquerdo
C5
Flexores do cotovelo
0–5
0–5
C6
Extensores do punho
0–5
0–5
C7
Extensores do cotovelo
0–5
0–5
C8
Flexores dos dedos
0–5
0–5
T1
Abdutores do dedo mínimo
0–5
0–5
L2
Flexores do quadril
0–5
0–5
L3
Extensores do joelho
0–5
0–5
L4
Dorsiflexores do tornozelo
0–5
0–5
L5
Extensor longo do hálux
0–5
0–5
S1
Flexores plantares do tornozelo
0–5
0–5
Escala de força: 0 sem contração, 1 contração visível ou palpável, 2 movimento sem vencer a gravidade, 3 movimento contra a gravidade, 4 movimento contra resistência parcial, 5 força normal. Some os 20 valores: C5–T1 dos dois lados = membros superiores (0–50); L2–S1 = membros inferiores (0–50).
Leitura do escore motor total
10 miótomos por lado • total de 0 a 100 • comparação seriada.
Some os 20 miótomos e escolha a faixa do total.
Padrão de distribuição do déficit
Compare a soma dos membros superiores (0–50) com a dos inferiores (0–50).
Escolha o padrão para ver a interpretação.
Esta ferramenta interpreta apenas o componente motor: a classificação completa exige também o exame sensitivo por dermátomos, o toque retal e a determinação do nível neurológico e do grau na escala de deficiência.
Escala de deficiência ASIA
A classificação em graus de A a E define se a lesão é completa ou incompleta e é o principal preditor de recuperação funcional. Ela depende da preservação sacral, que deve ser sempre pesquisada (ISNCSCI, revisão de 2019).
Grau
Denominação
Definição
A
Completa
Nenhuma função motora ou sensitiva preservada nos segmentos sacrais S4 e S5.
B
Incompleta sensitiva
Sensibilidade preservada abaixo do nível neurológico, incluindo S4 e S5, sem função motora preservada.
C
Incompleta motora
Função motora preservada abaixo do nível, com mais da metade dos músculos-chave com força menor que 3.
D
Incompleta motora
Função motora preservada abaixo do nível, com pelo menos metade dos músculos-chave com força de 3 ou mais.
E
Normal
Função motora e sensitiva normais em paciente que teve déficit prévio documentado.
Para C e D, a lesão precisa ser sensitiva incompleta com contração anal voluntária ou com preservação sacral sensitiva e função motora em mais de três níveis abaixo do nível motor de cada lado.
Durante o choque medular, a arreflexia impede classificar a lesão como definitivamente completa. O exame precisa ser repetido depois do retorno dos reflexos — o bulbocavernoso costuma ser o primeiro a voltar e marca o fim dessa fase.
Em 30 segundos
O essencial de hemodinâmica
A medula lesada perde a autorregulação: o fluxo passa a depender da PAM.
Meta clássica de PAM 85–90 mmHg por 7 dias; a AO Spine-Praxis sugere 75–80 a 90–95 mmHg por 3–7 dias, com evidência muito baixa.
Noradrenalina é o vasopressor preferido em lesões acima de T6; fenilefrina isolada pode agravar a bradicardia.
Pressão arterial invasiva sempre que houver meta a cumprir.
A meta pressórica e sua controvérsia
A lógica é a de pressão de perfusão medular: a medula lesada tem autorregulação comprometida, o edema eleva a pressão intraespinhal e o fluxo passa a depender diretamente da pressão arterial média. Manter a pressão alta busca salvar tecido na zona de penumbra ao redor da lesão.
Recomendação clássica de 2013: a diretriz conjunta das sociedades americanas de neurocirurgia recomendava corrigir prontamente pressão sistólica abaixo de 90 mmHg e manter a pressão arterial média entre 85 e 90 mmHg pelos primeiros 7 dias. É a meta mais difundida e a mais cobrada em provas.
Atualização AO Spine-Praxis (2023, publicada em 2024): o grupo revisou a evidência e passou a sugerir um limite inferior de 75 a 80 mmHg e um limite superior de 90 a 95 mmHg, por 3 a 7 dias. A mudança reconhece que a faixa estreita de 85 a 90 era difícil de manter e que a qualidade da evidência é muito baixa — a recomendação é fraca (condicional). As recomendações AO Spine de 2026 mantiveram essa faixa.
O que é consenso:hipotensão faz mal à medula lesada e deve ser evitada. A divergência é sobre quanto elevar e por quanto tempo, não sobre o princípio.
O custo da meta: manter pressão alta por dias exige vasopressor prolongado, com risco de arritmia, isquemia e complicações de acesso central. O balanço deve ser individualizado, sobretudo em idosos e cardiopatas.
Pressão de perfusão medular: conceitualmente é a pressão arterial média menos a pressão intraespinhal, de forma análoga à perfusão cerebral. A medida direta ainda é experimental e restrita a centros de pesquisa; a AO Spine (2026) não faz recomendação de manejo guiado por ela.
Monitorização: pressão arterial invasiva é fortemente recomendada quando há meta a cumprir, porque a medida não invasiva intermitente perde episódios curtos de hipotensão que somados fazem diferença.
Na prática brasileira, a maioria dos protocolos ainda adota pressão arterial média de pelo menos 85 mmHg por 7 dias. Se o seu serviço já incorporou a faixa mais permissiva, o essencial é que a meta esteja escrita, seja monitorada e tenha responsável definido.
Sangramento associado: sem hipotensão permissiva
A diretriz europeia de sangramento no trauma (Rossaint, 6ª edição, 2023) recomenda PAS de 80–90 mmHg até o controle do sangramento apenas no trauma sem lesão neurológica, e afirma que a estratégia de hipotensão permissiva e reposição restritiva é contraindicada no TCE e nas lesões medulares. No politraumatizado com lesão medular, controle o sangramento e reponha com hemocomponentes sem sacrificar a perfusão da medula.
Infusão de droga vasoativa
Converte a dose desejada em velocidade de bomba de infusão, usando as diluições mais comuns. Confira sempre a diluição padronizada no seu serviço antes de aplicar. Fórmula: mL/h = dose (mcg/kg/min) × peso (kg) × 60 ÷ concentração (mcg/mL).
Noradrenalina em BIC: dose por peso → mL/h
Ajuste por peso • diluições padrão • resultado em mL/h. Faixa habitual 0,05 a 0,5 mcg/kg/min, titulada pela meta de PAM.
Velocidade na bomba (mL/h)—
Dose por minuto (mcg/min)—
Faixa da dose—
Exemplo: 70 kg a 0,1 mcg/kg/min = 7 mcg/min = 420 mcg/h → ≈ 6,6 mL/h com 64 mcg/mL. Acima de 0,5 mcg/kg/min, reavalie a causa da refratariedade (hemorragia oculta!) e considere associar outro agente.
Outras drogas — velocidade em mL/h para o peso informado
Fenilefrina 10 mg em 100 mL (100 mcg/mL) • Dopamina 250 mg em 250 mL (1.000 mcg/mL) • Adrenalina 5 mg em 100 mL (50 mcg/mL) • Dobutamina 250 mg em 250 mL (1.000 mcg/mL).
A fenilefrina é frequentemente prescrita em microgramas por minuto, e não por quilo — verifique a forma de prescrição adotada no seu serviço. Fenilefrina: sem atividade beta, pode agravar a bradicardia em lesões acima de T6. Dobutamina: inotrópico, não vasopressor — pode piorar a hipotensão por vasodilatação. Ferramenta de apoio: a prescrição final deve sempre ser conferida. Mais diluições: Guia de Diluições em UTI e Conversor de Infusões.
Escolha do vasopressor
Droga
Perfil
Vantagem
Cuidado
Alfa potente com beta-1 discreto
Primeira escolha: corrige a vasoplegia e ainda sustenta a frequência cardíaca
Necessita acesso central para uso prolongado; risco de isquemia periférica
Alfa-1 puro
Prática, disponível e útil em bólus na sala de anestesia
Sem atividade beta: causa bradicardia reflexa e pode agravar o quadro em lesão cervical
Dose-dependente, com efeito beta e alfa
Aumenta a frequência cardíaca, o que interessa na bradicardia associada
Mais arritmias que a noradrenalina; caiu em desuso como primeira linha
Alfa e beta potentes
Reserva para hipotensão refratária com bradicardia grave
Taquiarritmias, hiperlactatemia e hiperglicemia
Dobutamina
Beta-1 predominante
Considerada quando há disfunção contrátil associada
Vasodilatação com piora da hipotensão — não é vasopressor
Receptores V1, independente do sistema adrenérgico
Adjuvante poupador de catecolamina em vasoplegia refratária
Não corrige bradicardia; risco de isquemia digital e mesentérica
A diretriz AO Spine-Praxis concluiu que a evidência disponível não permite recomendar formalmente um vasopressor específico. Ainda assim, a prática predominante e o raciocínio fisiológico favorecem a noradrenalina em lesões acima de T6, justamente por evitar a bradicardia reflexa da fenilefrina.
Em 30 segundos
O essencial de conduta
Duas prioridades em paralelo: sustentar a perfusão da medula e remover a compressão — sem esquecer que a hemorragia vem primeiro.
Volume até a euvolemia; vasopressor precoce (noradrenalina) se a hipotensão persistir; meta de PAM escrita e monitorada de forma invasiva.
Bradicardia sintomática: atropina 1 mg IV a cada 3–5 min (máximo 3 mg); marca-passo ou infusão cronotrópica se refratária.
Descompressão cirúrgica em até 24 horas; metilprednisolona não é recomendada de rotina.
Sequência de abordagem
Duas prioridades correm em paralelo: sustentar a perfusão da medula e remover a compressão, sem nunca perder de vista que a hemorragia vem primeiro no politraumatizado.
Restrição do movimento da coluna
Proteção da coluna e transferências em bloco, mantendo a restrição do movimento até a liberação por imagem e exame.
Exclua hemorragia
FAST, radiografia de tórax e pelve, exame dirigido. Não rotule como neurogênico sem essa etapa.
Volume até a euvolemia
Cristaloide em alíquotas e reavaliação — evitando tanto a hipovolemia quanto a sobrecarga.
Vasopressor precoce
Se a hipotensão persistir após volume adequado. é a escolha preferencial.
Bradicardia
Trate a bradicardia sintomática com ; considere marca-passo transcutâneo ou transvenoso nos casos refratários.
Meta de PAM
Estabeleça e registre a meta de pressão arterial média, com pressão invasiva e reavaliação contínua.
Via aérea
Avalie a via aérea e a mecânica respiratória: lesões cervicais altas exigem antecipar a intubação, e não esperar a fadiga.
Acione a cirurgia de coluna
A descompressão dentro de 24 horas melhora o desfecho neurológico de forma consistente.
Suporte
Prevenção de lesão por pressão, profilaxia de tromboembolismo venoso, sonda vesical, controle térmico e profilaxia gástrica.
Hemorragia primeiro, perfusão medular sempre, descompressão em até 24 horas.
Rotas de tratamento
Cada rota é um cenário. Abra a rota em que o seu paciente está: a tabela mostra dose, via e cuidados, e o nome de cada medicamento abre a ficha completa. Confira sempre o protocolo institucional, a apresentação disponível no seu serviço e a bula vigente.
Quando esta rota entraHipotensão em lesão medular depois de afastada (ou controlada) a hemorragia.
Reposição volêmica1 esquema
Indicação
Dose
Via / velocidade
Duração
Observações
1ª escolhaCristaloide
500–1.000 mL por alíquota
IV em bólus, com reavaliação após cada alíquota
Até a euvolemia
Até a euvolemia, sem sobrecarga. Se houver hemorragia: hemocomponentes, não cristaloide em volume elevado.
Vasopressores5 esquemas
Indicação
Dose
Via / velocidade
Duração
Observações
1ª escolhaNoradrenalina
0,05–0,5 mcg/kg/min
BIC; 64 mcg/mL → 70 kg a 0,1 = 6,6 mL/h
Dias (meta de PAM por 3–7 dias)
Vasopressor de escolha: alfa corrige a vasoplegia e beta-1 sustenta a frequência.
AlternativaDopamina
5–20 mcg/kg/min
BIC; 1.000 mcg/mL → 70 kg a 10 = 42 mL/h
Enquanto necessário
Alternativa quando há bradicardia dominante ou falta de noradrenalina; mais taquiarritmias.
CautelaFenilefrina
0,5–5 mcg/kg/min (ou 25–200 mcg/min)
BIC; 100 mcg/mL → 70 kg a 1 = 42 mL/h
Enquanto necessário
Prática, mas bradicardizante: evite isolada em lesão acima de T6.
ResgateAdrenalina
0,01–0,5 mcg/kg/min
BIC em acesso central; 50 mcg/mL → 70 kg a 0,05 = 4,2 mL/h
Até estabilizar
Refratariedade com bradicardia. Antes de escalar, reavalie hemorragia em curso.
AdjuvanteVasopressina
0,03 U/min (dose fixa)
BIC; 1 U/mL → 1,8 mL/h
Enquanto houver vasoplegia refratária
Poupadora de catecolamina; não corrige bradicardia.
Quando esta rota entraBradicardia com hipotensão associada, alteração do nível de consciência, sinais de má perfusão ou pausas.
Escalonamento3 esquemas
Indicação
Dose
Via / velocidade
Duração
Observações
1ª escolhaAtropina
1 mg
IV em bólus, a cada 3–5 min
Até o total de 3 mg
Dose atualizada (AHA 2020/2025): 1 mg, não mais 0,5 mg. Deixe preparada à beira do leito.
RefratárioMarca-passo transcutâneo
Captura elétrica e mecânica
Transcutâneo como ponte
Até transvenoso, se episódios se repetirem
Progressão para marca-passo transvenoso quando os episódios se repetem.
AlternativaAssociaçãoAdrenalina+Dopamina
Adrenalina (epinefrina)2–10 mcg/min
BIC
Até resposta ou marca-passo
Adrenalina OU dopamina em infusão contínua como alternativa ao marca-passo, conforme o protocolo local.
Dopamina5–20 mcg/kg/min
BIC
Até resposta ou marca-passo
Gatilhos típicos: aspiração traqueal, mudança de decúbito, manobra de Valsalva, distensão vesical e evacuação. Pré-oxigene antes de aspirar, limite o tempo de aspiração e mantenha a bexiga descomprimida. A bradicardia tende a melhorar em 2 a 6 semanas; nem toda bradicardia é neurogênica — considere hipóxia, hipertensão intracraniana, hipotermia e efeito de medicamentos.
Quando esta rota entraHipotensão progressiva com bradicardia, náusea, dispneia e formigamento em membros superiores após o bloqueio.
Vasopressor em bólus4 esquemas
Indicação
Dose
Via / velocidade
Duração
Observações
1ª escolhaFenilefrina
50–100 mcg
IV em bólus, repetível
Até o bloqueio regredir
Útil sem bradicardia; pode ser feita em acesso periférico.
Com bradicardiaEfedrina
5–10 mg
IV em bólus, repetível
Até o bloqueio regredir
Preferida quando há bradicardia associada.
BradicardiaAtropina
0,5–1 mg
IV em bólus
Até 3 mg
Adrenalina em caso de colapso iminente.
AlternativaNoradrenalina (gestante)
Bólus ou infusão conforme protocolo
IV
Até o bloqueio regredir
Na gestante, noradrenalina e fenilefrina são as opções habituais; some sempre o deslocamento uterino para a esquerda.
Quando esta rota entraTodo paciente com lesão medular aguda, assim que o risco de sangramento permitir.
Tromboprofilaxia1 esquema
Indicação
Dose
Frequência
Duração
Observações
PadrãoEnoxaparina
40 mg SC (ou 30 mg SC 12/12 h)
1x/dia (ou 12/12 h)
Semanas a meses
Iniciar nas primeiras 72 horas, conforme risco de sangramento e momento cirúrgico; associar compressão pneumática.
Corticoide1 esquema
Indicação
Dose
Frequência
Duração
Observações
Não recomendado de rotinaMetilprednisolona
30 mg/kg + 5,4 mg/kg/h
IV: bólus em 15 min, depois infusão
24 h, só se iniciado em até 8 h
Decisão individual e registrada; nunca o esquema de 48 h; contraindicada em penetrante, cauda equina, criança e gestante.
Restrição do movimento e transferência
O que define o desfecho funcional a longo prazo é descompressão no tempo certo, ventilação antecipada e prevenção rigorosa de complicações — e tudo começa por não piorar a lesão no transporte. Hoje se fala em restrição do movimento da coluna, seletiva e baseada em critérios (ATLS 11ª edição), e não em imobilização rígida indiscriminada: o objetivo é evitar lesão adicional sem criar complicações pela própria imobilização. No trauma penetrante, a imobilização de rotina não é recomendada e pode retardar o tratamento definitivo.
Colar cervical rígido e de tamanho adequado, associado a coxins laterais e fixação da cabeça quando indicado.
Prancha rígida é dispositivo de transporte, não de permanência: retirar assim que possível pelo risco de lesão por pressão.
Rolamento em bloco em toda mobilização, com equipe treinada, mantendo o alinhamento da cabeça, do tronco e da pelve.
Cuidados do colar: pode dificultar a via aérea, elevar a pressão intracraniana e causar lesão de pele — reavalie a necessidade diariamente.
Liberação só após avaliação clínica e por imagem adequadas (NEXUS ou Canadian C-Spine quando aplicáveis); em paciente não avaliável, mantenha a restrição até a reavaliação.
Imobilização prolongada sobre prancha rígida gera lesão por pressão em poucas horas em paciente sem sensibilidade — retire cedo.
Descompressão cirúrgica precoce
É a intervenção com evidência mais consistente para melhorar o desfecho neurológico, e o tempo até a descompressão é uma variável modificável. A recomendação é descomprimir dentro de 24 horas da lesão, quando clinicamente viável e independentemente do nível — recomendação forte na atualização AO Spine-Praxis (evidência de qualidade moderada), que superou a de 2017.
< 24 hJanela recomendada para a descompressão
≈ 2×Chance de melhora de ≥ 2 graus na escala de deficiência aos 6 e aos 12 meses
+4,5Pontos no escore motor em comparação com a cirurgia após 24 horas
Os objetivos são descomprimir a medula e estabilizar a coluna, permitindo mobilização e reabilitação precoces. O benefício da cirurgia ultraprecoce (menos de 12 horas) ainda não está estabelecido. A ressonância antes da cirurgia é desejável quando não gera atraso relevante, e o pré-requisito é estabilidade hemodinâmica suficiente — a hemorragia com risco imediato de morte tem precedência. Na prática, acione a cirurgia de coluna desde a admissão, e não depois de completar toda a investigação.
Em regiões com retaguarda cirúrgica limitada, definir cedo para onde transferir costuma valer mais do que qualquer ajuste medicamentoso.
Metilprednisolona e outras terapias adjuvantes
Tema historicamente controverso: sociedades diferentes chegaram a conclusões opostas a partir dos mesmos estudos. A diretriz AO Spine de 2017 considerou que a infusão de alta dose por 24 horas pode ser oferecida a adultos que se apresentam em até 8 horas da lesão; as sociedades americanas de neurocirurgia (AANS/CNS 2013) não recomendam o uso, por ausência de benefício consistente e aumento de complicações. Hoje a tendência é não usar de rotina, e qualquer uso é decisão individualizada e compartilhada.
Se for usar
Esquema: 30 mg/kg em bólus seguidos de 5,4 mg/kg/h por 24 horas.
Somente se iniciado em até 8 horas da lesão.
Registre a justificativa, a janela temporal e a discussão com a equipe e a família.
Não usar
Após 8 horas da lesão.
Esquema de 48 horas — não recomendado por nenhuma das diretrizes, pelo aumento expressivo de complicações.
Trauma penetrante, lesão de cauda equina, paciente pediátrico, gestante e uso concomitante de corticoide por outra razão.
Os riscos são infecção, pneumonia, sepse, sangramento digestivo, hiperglicemia e miopatia do doente crítico. Não confunda com a compressão medular neoplásica, em que o corticoide tem indicação estabelecida e lógica completamente diferente do trauma. Quanto ao riluzol, as recomendações AO Spine de 2026 não fazem recomendação (nem a favor, nem contra) sobre o uso rotineiro na lesão cervical aguda: o ensaio RISCIS não mostrou benefício significativo na lesão cervical, embora análises secundárias mantenham a questão em aberto.
A conduta varia muito entre serviços brasileiros. Verifique o protocolo institucional antes de prescrever ou de suspender.
Via aérea e ventilação
A insuficiência respiratória em lesões cervicais é progressiva e previsível, e antecipar a intubação é mais seguro do que reagir à fadiga instalada. O diafragma é inervado pelo frênico, de C3 a C5: lesões acima de C5 comprometem gravemente a ventilação. Entre C5 e T1 o diafragma é preservado, mas a perda da musculatura intercostal e abdominal produz respiração paradoxal e tosse ineficaz. Os sinais de alerta são respiração diafragmática com uso paradoxal do abdome, fala entrecortada, queda da capacidade vital e retenção de secreção.
Quando intubar
Antecipe: piora progressiva da mecânica, capacidade vital em queda ou necessidade de transporte prolongado.
Técnica
Preserve o alinhamento cervical com estabilização manual em linha; considere videolaringoscopia e tenha plano de resgate definido.
Indução
Cuidado com a hipotensão: tenha vasopressor correndo e prefira agentes com menor repercussão hemodinâmica.
Succinilcolina
Segura nas primeiras 48 horas; depois deve ser evitada pelo risco de hipercalemia grave por proliferação de receptores.
Após a intubação: ventilação protetora, higiene brônquica agressiva e planejamento precoce de traqueostomia em lesões cervicais altas. A função respiratória pode deteriorar em dias, à medida que o edema medular ascende nas primeiras 48 a 72 horas — causa clássica de piora inesperada; reavalie diariamente. Doses de indução: Guia de Intubação Rápida.
Profilaxia de tromboembolismo
O paciente com lesão medular aguda tem um dos maiores riscos de tromboembolismo venoso da medicina, pela combinação de imobilidade, estase e estado inflamatório — risco muito elevado nas primeiras semanas, sobretudo em lesões completas e em membros inferiores plégicos. O método preferido é a heparina de baixo peso molecular (), iniciada assim que o risco de sangramento permitir.
Dose: habitualmente 40 mg SC a cada 24 horas; alguns protocolos de trauma usam 30 mg a cada 12 horas.
Início: o mais precoce possível, tipicamente nas primeiras 72 horas, considerando o risco de sangramento e o momento cirúrgico.
Métodos mecânicos: compressão pneumática intermitente e meias elásticas, sobretudo enquanto a profilaxia farmacológica estiver contraindicada.
Ajustes: reduzir a dose ou trocar por heparina não fracionada em disfunção renal significativa.
Filtro de veia cava: reservado a contraindicação absoluta à anticoagulação ou a evento recorrente apesar de profilaxia adequada.
Duração: prolongada, frequentemente por semanas a meses conforme a mobilidade e o protocolo de reabilitação.
É uma das medidas mais esquecidas nas primeiras 24 horas, justamente quando a equipe está concentrada na estabilização hemodinâmica.
Cuidados de suporte
A lesão medular gera um conjunto de disfunções previsíveis, e antecipá-las evita complicações que prolongam a internação e comprometem a reabilitação. Muitos desses cuidados parecem secundários no dia da admissão, mas são eles que determinam a qualidade da recuperação nos meses seguintes — e alguns, como a bexiga, também protegem contra bradicardia e disreflexia.
Pele
Risco altíssimo de lesão por pressão em área sem sensibilidade. Mudança de decúbito programada, colchão adequado e inspeção diária.
Bexiga
Sonda vesical na fase aguda, com transição planejada para cateterismo intermitente. A distensão vesical desencadeia bradicardia e, mais tarde, disreflexia.
Intestino
Programa intestinal com laxativo e horário definido. O íleo paralítico é comum nas primeiras 48 a 72 horas.
Temperatura
Poiquilotermia: o paciente não regula a temperatura abaixo da lesão. Monitorar e aquecer ou resfriar ativamente conforme o ambiente.
Nutrição e estômago
Enteral precoce quando possível, com atenção à gastroparesia e ao íleo. Profilaxia gástrica na fase aguda, pelo risco de úlcera de estresse e sangramento digestivo.
Dor, reabilitação e apoio
Dor neuropática e espasmos surgem depois da fase flácida e exigem tratamento específico. Reabilitação assim que houver estabilidade clínica; apoio ao paciente e à família desde a fase aguda, com informação clara sobre prognóstico.
Disreflexia autonômica
Complicação da fase crônica, oposta ao choque neurogênico: crise hipertensiva grave desencadeada por estímulo abaixo da lesão, capaz de causar hemorragia cerebral e morte. Surge após semanas a meses em pacientes com nível em T6 ou acima, quando os reflexos medulares já retornaram: o estímulo gera descarga simpática reflexa e vasoconstrição intensa, sem modulação descendente do encéfalo. O quadro é hipertensão súbita, cefaleia pulsátil, sudorese e rubor acima da lesão, palidez e piloereção abaixo, com bradicardia reflexa. O gatilho mais comum é a distensão vesical (sonda obstruída ou retenção), seguida de impactação fecal, lesão de pele, unha encravada e roupa apertada.
Sentar o paciente
Sentar e baixar as pernas, para aproveitar o efeito ortostático; afrouxar roupas e dispositivos compressivos.
Remover o estímulo
Desobstruir ou passar sonda vesical, examinar o reto e inspecionar a pele.
Medicar se persistir
Anti-hipertensivo de ação rápida e curta duração apenas se a pressão permanecer elevada após as medidas iniciais; evitar agentes de ação prolongada, pelo risco de hipotensão grave quando o estímulo for removido.
A pressão basal do lesado medular alto costuma ser baixa — uma sistólica de 140 mmHg já pode representar crise. É a razão pela qual o cuidado com a bexiga é prioridade permanente, e não apenas um detalhe de enfermagem.
Raquianestesia alta — manejo no centro cirúrgico
Simpatectomia farmacológica por dispersão cefálica excessiva do anestésico: instala-se em minutos e é a causa iatrogênica clássica de choque neurogênico. Reconhece-se por hipotensão progressiva com bradicardia, náusea, vômito, dispneia e formigamento em membros superiores após o bloqueio; dificuldade de falar em frases longas e fraqueza de mãos sinalizam bloqueio alto, que no extremo leva a apneia e perda de consciência. Diferentemente do trauma, não há lesão estrutural: o objetivo é apenas sustentar a circulação até o bloqueio regredir.
Primeiras medidas: interromper a progressão do bloqueio, elevar membros inferiores, ofertar oxigênio e expandir volume.
Vasopressor: bólus de 50 a 100 mcg ou de 5 a 10 mg; efedrina é preferida quando há bradicardia associada.
Bradicardia: 1 mg IV a cada 3–5 min (máx. 3 mg; AHA 2025); em caso de colapso iminente.
Suporte ventilatório: ventilação assistida ou intubação se houver comprometimento da musculatura respiratória.
Na gestante: somar sempre o deslocamento uterino para a esquerda; noradrenalina e fenilefrina são as opções habituais para preservar o fluxo uteroplacentário.
A evolução é habitualmente reversível com o término do efeito do anestésico, desde que o suporte seja adequado. A prevenção está na atenção à dose, à baricidade e ao posicionamento após a punção.
Fazer e evitar
Quase todos os erros de conduta nascem de duas inversões: tratar como neurogênico um choque que ainda pode ser hemorrágico, e tratar com volume um problema que é de tônus vascular. O resto é perder janelas — da cirurgia, da via aérea e da profilaxia.
Fazer
Afastar hemorragia antes de aceitar o diagnóstico.
Repor volume até a euvolemia e só então escalar vasopressor.
Registrar a meta de pressão arterial média em prescrição.
Instalar pressão arterial invasiva quando houver meta a cumprir.
Acionar a cirurgia de coluna nas primeiras horas.
Repetir e datar o exame neurológico.
Evitar
Expandir volume indefinidamente para corrigir vasoplegia.
Usar fenilefrina isolada em lesão cervical com bradicardia.
Confundir choque neurogênico com choque medular no prontuário.
Adiar a intubação em lesão cervical alta até a fadiga instalada.
Retardar a imagem da medula quando há déficit progressivo.
Prescrever corticoide de forma automática, sem discutir riscos.
Aplicar hipotensão permissiva em paciente com lesão medular.
Em 30 segundos
O essencial de cenários especiais
Politraumatizado: hemorragia como prioridade, perfusão medular em paralelo, reavaliação seriada.
Lesão cervical alta: antecipar a intubação; gestante: deslocamento uterino antes de tudo.
Criança: lesão medular sem alteração radiográfica; idoso: síndrome medular central após queda da própria altura.
Fase crônica: disreflexia autonômica — remova o estímulo (bexiga!) antes de medicar.
Politraumatizado
Hemorragia e lesão medular coexistem com frequência, e a bradicardia neurogênica pode mascarar o sangramento: a ausência de taquicardia não tranquiliza ninguém. A hemorragia é tratada como prioridade e a perfusão medular é sustentada em paralelo — os dois objetivos não competem, porque ambos exigem pressão adequada.
Aqui não há hipotensão permissiva: ela protege o coágulo, mas mata tecido medular viável. Reavalie de forma seriada, com hemoglobina e lactato, e volte a procurar sangramento sempre que a resposta ao vasopressor piorar.
Quando a ventilação está em jogo
Em dois cenários o maior risco não é a pressão, e sim a respiração. Na lesão cervical alta a falência é mecânica e previsível pelo nível; no Guillain-Barré, a fraqueza ascendente soma-se a uma disautonomia instável, que alterna crises hipertensivas e hipotensão. Em ambos, monitorar capacidade vital e força inspiratória orienta a intubação antes da fadiga.
Lesão cervical alta
Acima de C5 há comprometimento do diafragma; entre C5 e T1, perda da musculatura intercostal com respiração paradoxal. Antecipar a intubação com técnica que preserve o alinhamento cervical; monitorar capacidade vital e força inspiratória.
Guillain-Barré
Disautonomia com oscilação entre crises hipertensivas e hipotensão, além de arritmias. Monitorização contínua, cautela com drogas de meia-vida longa e vigilância da função respiratória.
Centro cirúrgico e gestação
No ambiente cirúrgico o choque neurogênico costuma ser iatrogênico e de instalação rápida, o que é uma vantagem: a causa é conhecida e a resposta precisa ser imediata. Na gestante, a compressão aortocava pelo útero se soma à vasoplegia e agrava a hipotensão — por isso o deslocamento uterino para a esquerda vem antes de qualquer outra medida.
Raquianestesia alta
Simpatectomia farmacológica com náusea, bradicardia e hipotensão em minutos. Elevar membros inferiores, expandir volume, vasopressor e atropina; suporte ventilatório se houver bloqueio motor alto.
Gestante
Deslocamento uterino para a esquerda antes de tudo. Vasopressor com atenção ao fluxo uteroplacentário.
Cirurgia de coluna eletiva
Perda de sinais no monitoramento neurofisiológico sugere sofrimento medular: elevar imediatamente a pressão arterial, junto com a revisão do gesto cirúrgico.
Criança e idoso
Nos extremos de idade, a imagem engana. A coluna elástica da criança permite lesão medular sem fratura visível, e o idoso com canal estreito lesa a medula por hiperextensão em quedas banais. Em ambos, o exame neurológico vale mais do que a tomografia normal, e as metas pressóricas precisam ser ajustadas ao paciente.
Criança
Pode haver lesão medular sem alteração radiográfica, pela elasticidade da coluna infantil.
Valorizar o exame neurológico mesmo com tomografia normal e considerar ressonância magnética.
Metas pressóricas ajustadas à idade.
Idoso
Síndrome medular central por hiperextensão em queda da própria altura, frequentemente sem fratura evidente.
Suspeitar diante de déficit maior em membros superiores que inferiores.
Metas pressóricas ponderadas pelo risco cardiovascular.
Compressão não traumática e fase crônica
Na compressão medular não traumática — tumor, abscesso ou hematoma epidural — o quadro é de déficit progressivo com dor prévia, e a conduta é imagem urgente e descompressão. Aqui o corticoide tem papel específico na compressão neoplásica, com lógica diferente do trauma.
Fase crônica: disreflexia autonômica
Após semanas, instala-se o risco de hipertensão paroxística grave. Identifique e remova o estímulo desencadeante — bexiga distendida é a causa mais comum — antes de medicar.
Erros comuns
Os erros mais graves são de diagnóstico: rotular a hipotensão como neurogênica antes de excluir hemorragia no politraumatizado, assumir que a ausência de taquicardia afasta sangramento ativo e confundir choque neurogênico (hemodinâmico) com choque medular (neurológico) ao registrar em prontuário. Os demais são de execução — e quase todos custam janela de tempo.
Expandir volume de forma indefinida para corrigir um problema que é de tônus vascular.
Usar fenilefrina isolada em lesão cervical, agravando a bradicardia por reflexo.
Não estabelecer nem registrar a meta de pressão arterial média na prescrição.
Manter apenas medida não invasiva intermitente em paciente com meta pressórica a cumprir.
Adiar a intubação em lesão cervical alta até que a fadiga respiratória se instale.
Retardar o acionamento da cirurgia de coluna e perder a janela de 24 horas.
Prescrever metilprednisolona automaticamente, sem discutir a controvérsia e os riscos.
Esquecer a profilaxia de tromboembolismo venoso em paciente com risco muito alto.
Não avaliar a preservação sacral e classificar a lesão como completa prematuramente.
Ignorar a poiquilotermia e deixar o paciente exposto por período prolongado.
Não sondar a bexiga e permitir distensão vesical, que é gatilho de bradicardia e de disreflexia.
Resumo do fluxo
Seja qual for o cenário, o raciocínio segue a mesma ordem: primeiro afastar o que mata mais rápido, depois confirmar o padrão e o nível, e só então sustentar a pressão e correr contra o relógio da descompressão.
Sangramento primeiro
Hipotensão no trauma: procure sangramento primeiro, sempre.
Padrão
Hipotensão com bradicardia e pele quente e seca sugere choque neurogênico.
Confirme o déficit
Confirme o déficit neurológico, defina o nível e registre o exame com horário.
Volume
Reponha volume até a euvolemia, em alíquotas e com reavaliação.
Noradrenalina e atropina
Inicie noradrenalina se a hipotensão persistir e trate a bradicardia sintomática com atropina.
Meta de PAM
Estabeleça a meta de pressão arterial média e monitore de forma invasiva.
Via aérea
Avalie a via aérea: lesão cervical alta exige antecipar a intubação.
Cirurgia de coluna
Acione a cirurgia de coluna: descompressão dentro de 24 horas melhora o desfecho.
Suporte
Mantenha os cuidados de suporte e reavalie o exame neurológico diariamente.
Lesão medular em si (classificação, imagem, cirurgia e reabilitação) é aprofundada no artigo Trauma Raquimedular.
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Artigo2021
Badhiwala JH, Wilson JR, Witiw CD, et al. The influence of timing of surgical decompression for acute spinal cord injury: a pooled analysis of individual patient data. Lancet Neurol. 2021;20(2):117-126.
Ferramenta de apoio à decisão clínica, de caráter educacional. Não substitui a avaliação médica presencial, o julgamento clínico, os protocolos institucionais nem a consulta às bulas. Doses, diluições e velocidades de infusão devem ser conferidas antes da administração. Em caso de divergência, prevalecem os protocolos institucionais do seu serviço e as bulas vigentes.
Ver o quadro clínico
O quadro clínico
A apresentação característica é hipotensão sem taquicardia, frequentemente com bradicardia franca, associada a pele quente, seca e corada abaixo do nível da lesão. A pressão de pulso é alargada, porque a queda da resistência vascular reduz mais a pressão diastólica que a sistólica — o oposto do que ocorre no choque hemorrágico. Completam o quadro o déficit neurológico com nível sensitivo definido, a arreflexia, a perda do tônus do esfíncter anal, o priapismo e a poiquilotermia, que é a incapacidade de regular a temperatura abaixo da lesão.
O quadro predomina em lesões medulares acima de T6, tipicamente cervicais, porque é nesse território que se perdem tanto o tônus vasoconstritor quanto as fibras cardioaceleradoras que saem de T1 a T4. Uma pista prática do exame: passar a mão pelo tronco e pelos membros procurando a linha de transição entre pele suada e pele seca, que costuma corresponder ao nível da lesão.
PAS < 90Hipotensão sem taquicardia
T1–T4Fibras cardioaceleradoras
Acima de T6Nível de risco
Ver a diferença
Choque neurogênico e choque medular
São dois fenômenos distintos que costumam ser confundidos por causa dos nomes parecidos. O choque neurogênico é hemodinâmico e sistêmico: hipotensão com hipoperfusão causada pela perda do tônus simpático, com bradicardia e vasodilatação. O choque medular é neurológico e local: a perda transitória de toda a função da medula abaixo da lesão, com paralisia flácida, arreflexia, anestesia e perda do tônus esfincteriano.
O choque neurogênico ocorre sobretudo em lesões acima de T6 e é tratado com volume, vasopressor e meta de pressão arterial média. O choque medular acontece em qualquer nível, não tem tratamento próprio e simplesmente precisa ser aguardado. O retorno do reflexo bulbocavernoso costuma marcar o fim dessa fase, e é a partir daí que a lesão pode ser classificada como definitivamente completa ou incompleta. Os dois podem coexistir no mesmo paciente e ao mesmo tempo.
Choque neurogênico
Hemodinâmico e sistêmico
Hipotensão, bradicardia, pele quente
Volume + vasopressor + meta de PAM
Choque medular
Neurológico e local
Flacidez, arreflexia, anestesia
Sem tratamento próprio: aguardar o bulbocavernoso
Ver o raciocínio
Por que excluir hemorragia primeiro
No paciente traumatizado, choque neurogênico é sempre um diagnóstico de exclusão. O mecanismo que produz uma lesão medular cervical é habitualmente de alta energia, e a mesma energia produz lesões torácicas, abdominais, pélvicas e de ossos longos capazes de causar sangramento significativo. Atribuir a hipotensão à medula e deixar de procurar o sangramento é um dos erros mais graves da sala de emergência. Vale lembrar que a bradicardia não afasta hemorragia: um paciente pode ter lesão medular e ruptura esplênica ao mesmo tempo, e o padrão hemodinâmico resultante é misto.
O raciocínio correto não é escolher entre os dois diagnósticos, e sim tratar a hemorragia como prioridade enquanto se sustenta a perfusão medular. A avaliação inclui ultrassom FAST, radiografia de tórax e de pelve, exame físico dirigido, hemoglobina seriada e lactato, além de reavaliação clínica frequente, porque o quadro muda ao longo das primeiras horas.
Atualização: a diretriz europeia de sangramento no trauma (6ª edição, 2023) lembra que a hipotensão permissiva é contraindicada na lesão medular e no TCE — se houver sangramento associado, controle a fonte com hemocomponentes sem aceitar PAS de 80–90 mmHg.
Ver as metas
As metas de perfusão medular
A medula lesada perde a autorregulação do fluxo sanguíneo e o edema eleva a pressão dentro do canal, de modo que a perfusão passa a depender diretamente da pressão arterial média. Manter a pressão elevada busca salvar tecido na zona de penumbra ao redor da lesão e é uma das poucas intervenções capazes de influenciar o desfecho funcional. A recomendação clássica, de 2013, é corrigir prontamente pressão sistólica abaixo de 90 mmHg e manter a PAM entre 85 e 90 mmHg pelos primeiros sete dias; a atualização AO Spine-Praxis (2024, reafirmada em 2026) sugere limite inferior de 75 a 80 e superior de 90 a 95 mmHg, por três a sete dias, reconhecendo evidência muito baixa.
O que é consenso é que a hipotensão faz mal à medula lesada e deve ser evitada. Na prática, reponha volume até a euvolemia sem sobrecarregar, associe noradrenalina precocemente, trate a bradicardia sintomática com atropina e monitore a pressão de forma invasiva enquanto houver meta a cumprir.
85–90 mmHgPAM clássica, 7 dias (2013)
75–80 → 90–95Faixa AO Spine, 3–7 dias
< 24 hDescompressão cirúrgica
Reposição volêmica
Cristaloide (Ringer lactato ou soro fisiológico 0,9%)
Bolsas de 500 e 1.000 mL
Adulto500–1.000 mL por alíquota · Bólus com reavaliação após cada uma · Até a euvolemia
Papel no tratamento
O problema é de continente, não de conteúdo. O volume corrige a hipovolemia relativa causada pelo represamento venoso, mas não resolve a vasoplegia — e o excesso tem custo.
Quando usar
Objetivo: atingir a euvolemia, não a normalização da pressão apenas com fluido.
Quando parar
Ausência de resposta pressórica sustentada após reposição adequada — a partir daí a resposta é vasopressor, não mais volume.
Ficha de consulta rápida
Classe
Reposição volêmica
Apresentação
Bolsas de 500 e 1.000 mL
Posologia principal
500–1.000 mL por alíquota · Bólus com reavaliação após cada uma · Até a euvolemia
Atenção neste contexto
Volume e vasopressor não competem: o vasopressor deve entrar cedo quando a hipotensão persiste, e não somente depois de litros de cristaloide.
IV em bólus1 esquema
Indicação
Dose
Frequência
Duração
Observações
Adulto
500–1.000 mL por alíquota
Bólus com reavaliação após cada uma
Até a euvolemia
Cristaloide balanceado ou solução fisiológica.
Como administrar
Reavaliação
Pressão arterial, perfusão periférica, diurese, lactato e ultrassom da veia cava inferior.
No politraumatizado
Se houver hemorragia, a reposição segue o protocolo de transfusão maciça, com hemocomponentes em vez de cristaloide em volume elevado (sem hipotensão permissiva na lesão medular).
Erro clássico
Expandir indefinidamente tentando corrigir com fluido um problema que é de tônus vascular.
Cristaloide em grande volume no paciente que sangra (use hemocomponentes).
Efeitos adversos
Edema pulmonar, edema medular e piora da troca gasosa em paciente que já pode ter comprometimento ventilatório.
Como administrar
Reavaliação
Pressão arterial, perfusão periférica, diurese, lactato e ultrassom da veia cava inferior.
No politraumatizado
Se houver hemorragia, a reposição segue o protocolo de transfusão maciça, com hemocomponentes em vez de cristaloide em volume elevado (sem hipotensão permissiva na lesão medular).
Erro clássico
Expandir indefinidamente tentando corrigir com fluido um problema que é de tônus vascular.
Vasopressor de escolha no choque neurogênico, sobretudo em lesões acima de T6, porque combina vasoconstrição potente com efeito beta-1 que sustenta a frequência cardíaca.
Quando usar
A atividade alfa corrige a vasoplegia e a atividade beta-1 evita a bradicardia reflexa que ocorre com agentes alfa puros.
Ficha de consulta rápida
Classe
Vasopressor (agonista alfa-1 com efeito beta-1 discreto)
Apresentação
Ampola de hemitartarato de noradrenalina 2 mg/mL com 4 mL, equivalente a 4 mg de noradrenalina base por ampola
Confira se a prescrição do seu serviço está em miligramas de base ou de hemitartarato: a diferença é de duas vezes.
Infusão contínua1 esquema
Indicação
Dose
Frequência
Duração
Observações
Choque neurogênico
0,05–0,5 mcg/kg/min
Contínua (BIC)
Dias; desmame gradual
Titulada para a meta de PAM definida — habitualmente pelo menos 85 mmHg no trauma raquimedular.
Como administrar
Diluição
4 ampolas (16 mg de base) diluídas até 250 mL de soro glicosado a 5% — concentração final de 64 mcg/mL.
Cálculo rápido
Com 64 mcg/mL, um paciente de 70 kg a 0,1 mcg/kg/min recebe 7 mcg/min (420 mcg/h) — aproximadamente 6,6 mL/h na bomba.
Administração
Acesso venoso central para uso prolongado; pode ser iniciada em periférico calibroso enquanto o central é obtido. Costuma ser necessária por dias: planeje acesso central e monitorização invasiva desde o início.
Contraindicações e quando evitar
Hipovolemia não corrigida ou hemorragia não controlada como causa da hipotensão.
Efeitos adversos
Isquemia periférica e mesentérica.
Arritmias.
Necrose em caso de extravasamento.
Monitoramento
Monitoramento
Pressão arterial invasiva; desmame gradual, com reavaliação diária da meta e do exame neurológico.
Como administrar
Diluição
4 ampolas (16 mg de base) diluídas até 250 mL de soro glicosado a 5% — concentração final de 64 mcg/mL.
Cálculo rápido
Com 64 mcg/mL, um paciente de 70 kg a 0,1 mcg/kg/min recebe 7 mcg/min (420 mcg/h) — aproximadamente 6,6 mL/h na bomba.
Administração
Acesso venoso central para uso prolongado; pode ser iniciada em periférico calibroso enquanto o central é obtido. Costuma ser necessária por dias: planeje acesso central e monitorização invasiva desde o início.
Vasopressor (agonista alfa-1 puro)
Fenilefrina
Ampola de 10 mg/mL, para diluição
Bólus50–100 mcg · Repetível · —
Papel no tratamento
Agonista alfa-1 puro, prático e amplamente disponível, sobretudo em centro cirúrgico. A ausência de atividade beta é justamente o seu problema no choque neurogênico alto.
Quando usar
Lesões abaixo de T6 sem bradicardia, hipotensão transitória por raquianestesia e situações em que a noradrenalina não está disponível.
Ficha de consulta rápida
Classe
Vasopressor (agonista alfa-1 puro)
Apresentação
Ampola de 10 mg/mL, para diluição
Posologia principal
50–100 mcg · Repetível · —
Outros esquemas
1 — ver aba Posologia
Atenção neste contexto
Disponibilidade e padronização variam bastante entre serviços brasileiros; confira a apresentação antes de prescrever.
IV em bólus1 esquema
Indicação
Dose
Frequência
Duração
Observações
Bólus
50–100 mcg
Repetível
—
Útil no manejo agudo do bloqueio neuroaxial; pode ser feito por acesso periférico.
Infusão contínua1 esquema
Indicação
Dose
Frequência
Duração
Observações
Infusão
0,5–5 mcg/kg/min
Contínua (BIC)
Enquanto necessário
Ou 25 a 200 mcg/min conforme a padronização do serviço.
Como administrar
Diluição
10 mg diluídos até 100 mL — concentração final de 100 mcg/mL.
Cálculo rápido
Com 100 mcg/mL, um paciente de 70 kg a 1 mcg/kg/min recebe 70 mcg/min — velocidade de 42 mL/h na bomba.
Administração
Pode ser administrada em bólus por acesso periférico, o que a torna útil na sala de anestesia.
Contraindicações e quando evitar
Uso isolado em lesão cervical com bradicardia.
Efeitos adversos
Bradicardia reflexa — pode agravar o quadro em lesões acima de T6, em que o tônus vagal já está sem oposição.
Monitoramento
Monitoramento
Se usar em lesão alta: associe monitorização de frequência cardíaca e tenha atropina disponível.
Como administrar
Diluição
10 mg diluídos até 100 mL — concentração final de 100 mcg/mL.
Cálculo rápido
Com 100 mcg/mL, um paciente de 70 kg a 1 mcg/kg/min recebe 70 mcg/min — velocidade de 42 mL/h na bomba.
Administração
Pode ser administrada em bólus por acesso periférico, o que a torna útil na sala de anestesia.
Vasopressor e cronotrópico (dose-dependente)
Dopamina
Ampola de 5 mg/mL com 10 mL, totalizando 50 mg
Choque / bradicardia5–20 mcg/kg/min · Contínua (BIC) · Enquanto necessário
Papel no tratamento
Agente com efeito dose-dependente que já foi primeira linha e hoje é alternativa. O efeito beta-1 tem apelo teórico quando a bradicardia é o problema dominante.
Quando usar
Alternativa quando a noradrenalina não está disponível ou quando a bradicardia domina o quadro: aumenta a frequência cardíaca.
Ficha de consulta rápida
Classe
Vasopressor e cronotrópico (dose-dependente)
Apresentação
Ampola de 5 mg/mL com 10 mL, totalizando 50 mg
Posologia principal
5–20 mcg/kg/min · Contínua (BIC) · Enquanto necessário
Atenção neste contexto
A escolha entre agentes ainda não tem respaldo formal em diretriz; o raciocínio fisiológico e a disponibilidade local pesam na decisão.
Infusão contínua1 esquema
Indicação
Dose
Frequência
Duração
Observações
Choque / bradicardia
5–20 mcg/kg/min
Contínua (BIC)
Enquanto necessário
Em doses intermediárias predomina o efeito beta; em doses altas, o efeito alfa.
Como administrar
Diluição
250 mg diluídos até 250 mL de soro glicosado a 5% — concentração final de 1.000 mcg/mL.
Cálculo rápido
Com 1.000 mcg/mL, um paciente de 70 kg a 10 mcg/kg/min recebe 700 mcg/min — velocidade de 42 mL/h na bomba.
Evidência específica
Estudos comparando noradrenalina e dopamina em lesão medular mostraram pressão de perfusão medular semelhante, com perfil de complicações menos favorável para a dopamina.
Contraindicações e quando evitar
Taquiarritmias.
Efeitos adversos
Maior incidência de taquiarritmias que a noradrenalina, motivo pelo qual perdeu espaço como primeira linha.
Como administrar
Diluição
250 mg diluídos até 250 mL de soro glicosado a 5% — concentração final de 1.000 mcg/mL.
Cálculo rápido
Com 1.000 mcg/mL, um paciente de 70 kg a 10 mcg/kg/min recebe 700 mcg/min — velocidade de 42 mL/h na bomba.
Evidência específica
Estudos comparando noradrenalina e dopamina em lesão medular mostraram pressão de perfusão medular semelhante, com perfil de complicações menos favorável para a dopamina.
Papel neste contexto
Agente com efeito dose-dependente que já foi primeira linha e hoje é alternativa. O efeito beta-1 tem apelo teórico quando a bradicardia é o problema dominante.
Anticolinérgico (antagonista muscarínico)
Atropina (sulfato)
Ampola de 0,25 mg/mL ou 0,5 mg/mL (1 mL)
Bradicardia sintomática1 mg · A cada 3–5 min · Até o total de 3 mg
Papel no tratamento
A bradicardia do choque neurogênico decorre do tônus vagal sem oposição. Pode ser assintomática e apenas observada, ou grave a ponto de causar assistolia.
Quando usar
Bradicardia sintomática: hipotensão associada, alteração do nível de consciência, sinais de má perfusão ou pausas.
Ficha de consulta rápida
Classe
Anticolinérgico (antagonista muscarínico)
Apresentação
Ampola de 0,25 mg/mL ou 0,5 mg/mL (1 mL)
Posologia principal
1 mg · A cada 3–5 min · Até o total de 3 mg
Atenção neste contexto
Deixe atropina preparada à beira do leito nos primeiros dias de lesão cervical: os episódios costumam ser súbitos e desencadeados por procedimentos de rotina.
IV em bólus1 esquema
Indicação
Dose
Frequência
Duração
Observações
Bradicardia sintomática
1 mg
A cada 3–5 min
Até o total de 3 mg
Dose do algoritmo de bradicardia AHA 2020/2025 (antes 0,5 mg). No bloqueio neuroaxial, 0,5–1 mg.
Como administrar
Gatilhos típicos
Aspiração traqueal, mudança de decúbito, manobra de Valsalva, distensão vesical e evacuação — a estimulação vagal precipita o episódio.
Prevenção
Pré-oxigenar antes de aspirar, limitar o tempo de aspiração e manter a bexiga descomprimida com sonda vesical.
Refratariedade
Marca-passo transcutâneo como ponte, com progressão para transvenoso se os episódios se repetirem; adrenalina ou dopamina em infusão contínua como alternativa, conforme o protocolo local.
Duração
A bradicardia tende a melhorar ao longo de 2 a 6 semanas, com o retorno progressivo do tônus autonômico.
Contraindicações e quando evitar
Não atrasar o marca-passo em bradicardia instável refratária.
Efeitos adversos
Taquicardia, retenção urinária, boca seca, midríase, confusão em idosos.
Monitoramento
Monitoramento
Nem toda bradicardia é neurogênica — considere hipóxia, hipertensão intracraniana, hipotermia e efeito de medicamentos.
Como administrar
Gatilhos típicos
Aspiração traqueal, mudança de decúbito, manobra de Valsalva, distensão vesical e evacuação — a estimulação vagal precipita o episódio.
Prevenção
Pré-oxigenar antes de aspirar, limitar o tempo de aspiração e manter a bexiga descomprimida com sonda vesical.
Refratariedade
Marca-passo transcutâneo como ponte, com progressão para transvenoso se os episódios se repetirem; adrenalina ou dopamina em infusão contínua como alternativa, conforme o protocolo local.
Duração
A bradicardia tende a melhorar ao longo de 2 a 6 semanas, com o retorno progressivo do tônus autonômico.
Catecolamina (agonista alfa e beta)
Adrenalina (epinefrina)
Ampola de 1 mg/mL
Choque refratário0,01–0,5 mcg/kg/min · Contínua (BIC) · Até estabilizar
Papel no tratamento
Agente de resgate para hipotensão refratária com bradicardia significativa, quando a noradrenalina isolada não sustenta a meta pressórica.
Quando usar
Refratariedade à noradrenalina, sobretudo quando a bradicardia contribui de forma importante para o baixo débito; potente atividade alfa e beta, corrigindo simultaneamente a vasoplegia e a frequência cardíaca.
Ficha de consulta rápida
Classe
Catecolamina (agonista alfa e beta)
Apresentação
Ampola de 1 mg/mL
Posologia principal
0,01–0,5 mcg/kg/min · Contínua (BIC) · Até estabilizar
Outros esquemas
1 — ver aba Posologia
Atenção neste contexto
Diante de refratariedade, reavalie sempre a hipótese de hemorragia em curso antes de simplesmente escalar a droga.
Infusão contínua2 esquemas
Indicação
Dose
Frequência
Duração
Observações
Choque refratário
0,01–0,5 mcg/kg/min
Contínua (BIC)
Até estabilizar
Titulada pela resposta.
Bradicardia refratária
2–10 mcg/min
Contínua (BIC)
Até resposta ou marca-passo
—
Como administrar
Diluição
5 mg diluídos até 100 mL — concentração final de 50 mcg/mL.
Cálculo rápido
Com 50 mcg/mL, um paciente de 70 kg a 0,05 mcg/kg/min recebe 3,5 mcg/min — velocidade de 4,2 mL/h na bomba.
Administração
Acesso venoso central, com monitorização contínua.
Antes de prescrever, confira
Escalar a dose sem reavaliar hemorragia em curso.
Contraindicações e quando evitar
Escalar a dose sem reavaliar hemorragia em curso.
Efeitos adversos
Taquiarritmias.
Isquemia miocárdica.
Hiperlactatemia e hiperglicemia.
Monitoramento
Monitoramento
A hiperlactatemia induzida pela droga pode ser confundida com hipoperfusão persistente ou com hemorragia oculta.
Como administrar
Diluição
5 mg diluídos até 100 mL — concentração final de 50 mcg/mL.
Cálculo rápido
Com 50 mcg/mL, um paciente de 70 kg a 0,05 mcg/kg/min recebe 3,5 mcg/min — velocidade de 4,2 mL/h na bomba.
Administração
Acesso venoso central, com monitorização contínua.
Papel neste contexto
Agente de resgate para hipotensão refratária com bradicardia significativa, quando a noradrenalina isolada não sustenta a meta pressórica.
Adjuvante poupador de catecolamina em vasoplegia refratária; age em receptores V1, independente do sistema adrenérgico.
Quando usar
Associada à noradrenalina quando a dose desta se eleva sem atingir a meta.
Ficha de consulta rápida
Classe
Vasopressor não adrenérgico (agonista V1)
Apresentação
Ampola de 20 U/mL
Posologia principal
0,03 U/min · Contínua (BIC), dose fixa · Enquanto vasopressor
Antes de prescrever, confira
Como agente isolado na bradicardia — não corrige a frequência cardíaca.
Efeitos adversos mais relevantes
Isquemia digital e mesentérica.
Infusão contínua1 esquema
Indicação
Dose
Frequência
Duração
Observações
Vasoplegia refratária
0,03 U/min
Contínua (BIC), dose fixa
Enquanto vasopressor
20 U em SG 5% até 20 mL (1 U/mL) → 1,8 mL/h.
Antes de prescrever, confira
Como agente isolado na bradicardia — não corrige a frequência cardíaca.
Contraindicações e quando evitar
Como agente isolado na bradicardia — não corrige a frequência cardíaca.
Efeitos adversos
Isquemia digital e mesentérica.
Monitoramento
Monitoramento
Perfusão de extremidades e sinais de isquemia mesentérica.
Papel neste contexto
Adjuvante poupador de catecolamina em vasoplegia refratária; age em receptores V1, independente do sistema adrenérgico.
Simpaticomimético misto (alfa e beta)
Efedrina (sulfato)
Ampola de 50 mg/mL (1 mL), diluída para 5 mg/mL
Raquianestesia alta5–10 mg · Repetível · Até o bloqueio regredir
Papel no tratamento
Vasopressor em bólus da raquianestesia alta, preferido quando há bradicardia associada.
Quando usar
Hipotensão com bradicardia após bloqueio neuroaxial.
Ficha de consulta rápida
Classe
Simpaticomimético misto (alfa e beta)
Apresentação
Ampola de 50 mg/mL (1 mL), diluída para 5 mg/mL
Posologia principal
5–10 mg · Repetível · Até o bloqueio regredir
Antes de prescrever, confira
Infusão prolongada como vasopressor de manutenção no choque neurogênico traumático.
Efeitos adversos mais relevantes
Taquicardia e taquifilaxia com doses repetidas.
IV em bólus1 esquema
Indicação
Dose
Frequência
Duração
Observações
Raquianestesia alta
5–10 mg
Repetível
Até o bloqueio regredir
Diluir 1 ampola (50 mg) em 9 mL de SF = 5 mg/mL.
Antes de prescrever, confira
Infusão prolongada como vasopressor de manutenção no choque neurogênico traumático.
Contraindicações e quando evitar
Infusão prolongada como vasopressor de manutenção no choque neurogênico traumático.
Efeitos adversos
Taquicardia e taquifilaxia com doses repetidas.
Papel neste contexto
Vasopressor em bólus da raquianestesia alta, preferido quando há bradicardia associada.
Gestação
Pode causar acidose fetal em doses repetidas; fenilefrina ou noradrenalina são as opções habituais na cesariana.
Antes de prescrever, confira
Infusão prolongada como vasopressor de manutenção no choque neurogênico traumático.
Efeitos adversos mais relevantes
Taquicardia e taquifilaxia com doses repetidas.
Papel neste contexto
Vasopressor em bólus da raquianestesia alta, preferido quando há bradicardia associada.
Heparina de baixo peso molecular
Enoxaparina
Seringas preenchidas de 20, 40, 60 e 80 mg
Profilaxia padrão40 mg · A cada 24 h · Semanas a meses
Papel no tratamento
Profilaxia de tromboembolismo venoso no paciente com lesão medular aguda, um dos maiores riscos de trombose da medicina.
Quando usar
O mais precoce possível, tipicamente nas primeiras 72 horas, considerando o risco de sangramento e o momento cirúrgico.
Ficha de consulta rápida
Classe
Heparina de baixo peso molecular
Apresentação
Seringas preenchidas de 20, 40, 60 e 80 mg
Posologia principal
40 mg · A cada 24 h · Semanas a meses
Outros esquemas
1 — ver aba Posologia
Atenção neste contexto
Filtro de veia cava só em contraindicação absoluta à anticoagulação ou evento recorrente apesar de profilaxia adequada.
Antes de prescrever, confira
Sangramento ativo ou hematoma epidural/intracraniano em expansão.
Proximidade de cirurgia ou punção neuroaxial sem respeitar os intervalos.
Subcutânea2 esquemas
Indicação
Dose
Frequência
Duração
Observações
Profilaxia padrão
40 mg
A cada 24 h
Semanas a meses
—
Protocolos de trauma
30 mg
A cada 12 h
Semanas a meses
—
Antes de prescrever, confira
Sangramento ativo ou hematoma epidural/intracraniano em expansão.
Proximidade de cirurgia ou punção neuroaxial sem respeitar os intervalos.
Contraindicações e quando evitar
Sangramento ativo ou hematoma epidural/intracraniano em expansão.
Proximidade de cirurgia ou punção neuroaxial sem respeitar os intervalos.
Efeitos adversos
Sangramento.
Trombocitopenia induzida por heparina (rara).
Monitoramento
Monitoramento
Plaquetas e sinais de sangramento; associar compressão pneumática intermitente.
Papel neste contexto
Profilaxia de tromboembolismo venoso no paciente com lesão medular aguda, um dos maiores riscos de trombose da medicina.
Ajuste renal
Reduzir a dose ou trocar por heparina não fracionada em disfunção renal significativa.
Antes de prescrever, confira
Sangramento ativo ou hematoma epidural/intracraniano em expansão.
Proximidade de cirurgia ou punção neuroaxial sem respeitar os intervalos.
Efeitos adversos mais relevantes
Sangramento.
Trombocitopenia induzida por heparina (rara).
Papel neste contexto
Profilaxia de tromboembolismo venoso no paciente com lesão medular aguda, um dos maiores riscos de trombose da medicina.
Corticoide
Metilprednisolona (succinato sódico)
Frasco-ampola de 500 mg e 1 g
Ataque30 mg/kg · Em 15 minutos · Dose única
Papel no tratamento
Esquema NASCIS de alta dose: não recomendado de rotina no trauma raquimedular; se considerado, é decisão individual, registrada e restrita às primeiras 8 horas.
Quando usar
AO Spine 2017: pode ser oferecida a adultos em até 8 horas. AANS/CNS 2013: não recomendada. As recomendações AO Spine de 2024–2026 não a incluem entre as terapias endossadas.
Ficha de consulta rápida
Classe
Corticoide
Apresentação
Frasco-ampola de 500 mg e 1 g
Posologia principal
30 mg/kg · Em 15 minutos · Dose única
Outros esquemas
1 — ver aba Posologia
Atenção neste contexto
Na compressão medular neoplásica o corticoide (dexametasona) tem indicação própria — lógica diferente do trauma.
IV em bólus1 esquema
Indicação
Dose
Frequência
Duração
Observações
Ataque
30 mg/kg
Em 15 minutos
Dose única
Apenas se iniciado em até 8 horas da lesão.
Infusão contínua1 esquema
Indicação
Dose
Frequência
Duração
Observações
Manutenção
5,4 mg/kg/h
Contínua
23 horas (total de 24 h)
O esquema de 48 horas não é recomendado.
Antes de prescrever, confira
Trauma penetrante.
Lesão de cauda equina.
Após 8 horas da lesão.
Esquema de 48 horas.
Contraindicações e quando evitar
Trauma penetrante.
Lesão de cauda equina.
Após 8 horas da lesão.
Esquema de 48 horas.
Uso concomitante de corticoide por outra razão.
Efeitos adversos
Infecção, pneumonia e sepse.
Sangramento digestivo.
Hiperglicemia.
Miopatia do doente crítico.
Papel neste contexto
Esquema NASCIS de alta dose: não recomendado de rotina no trauma raquimedular; se considerado, é decisão individual, registrada e restrita às primeiras 8 horas.
Crianças
Não usar.
Gestação
Não usar.
Antes de prescrever, confira
Trauma penetrante.
Lesão de cauda equina.
Após 8 horas da lesão.
Esquema de 48 horas.
Efeitos adversos mais relevantes
Infecção, pneumonia e sepse.
Sangramento digestivo.
Hiperglicemia.
Miopatia do doente crítico.
Papel neste contexto
Esquema NASCIS de alta dose: não recomendado de rotina no trauma raquimedular; se considerado, é decisão individual, registrada e restrita às primeiras 8 horas.
Informações rápidas
Choque Neurogênico
Resumo
Meta clássica
Pressão arterial média de 85 a 90 mmHg pelos primeiros 7 dias.
Faixa AO Spine
Limite inferior de 75 a 80 mmHg, superior de 90 a 95, por 3 a 7 dias.
Nível de risco
Lesões acima de T6 concentram o choque neurogênico.
Descompressão
Cirurgia dentro de 24 horas melhora a recuperação neurológica.
Atropina
1 mg por via intravenosa a cada 3–5 min, até 3 mg no total.
Não esqueça
Hemorragia primeiro
No trauma, é sempre diagnóstico de exclusão: hemorragia primeiro.
Não confundir
Choque neurogênico é hemodinâmico; choque medular é neurológico.
A tríade
Hipotensão com bradicardia e pele quente e seca é a tríade.
Vasopressor
Noradrenalina é preferida à fenilefrina em lesões cervicais.
Por que a meta
A meta pressórica existe para reduzir a lesão medular secundária.
A banca cobra a diferença entre choque neurogênico e choque medular, a tríade de hipotensão com bradicardia e pele quente, e o fato de ser diagnóstico de exclusão no trauma.
Decore: fibras cardioaceleradoras de T1 a T4; lesões acima de T6; meta de pressão arterial média de 85 a 90 mmHg por 7 dias; descompressão em até 24 horas; sem hipotensão permissiva na lesão medular.
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