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Emergência & UTI • Avaliação inicial

Tontura e vertigem

Tontura aguda na emergência • síndromes vestibulares • HINTS e Dix-Hallpike

Queixa comum, quase sempre benigna e, às vezes, a única pista de um AVC de circulação posterior. Esqueça a pergunta "rodando ou flutuando?": o que organiza a avaliação é o tempo e o gatilho dos sintomas. Com eles, o exame à beira do leito — HINTS+ na síndrome contínua, Dix-Hallpike na posicional — separa o labirinto do cerebelo melhor do que a tomografia.

Tempo e gatilhoHINTS+ só com nistagmoDix-Hallpike → EpleyTC não exclui AVC
13 min de leitura Atualizado em outubro de 2026

Em 30 segundos

O essencial de visão geral

  1. Tontura responde por cerca de 3–4% das visitas à emergência; a maioria é benigna (vestibular periférica, clínica geral), mas 3–5% são AVC.
  2. A descrição da qualidade ("rodando", "flutuando", "escurecendo") é pouco confiável; tempo e gatilho definem a síndrome e o exame.
  3. O infarto cerebelar pode se apresentar com tontura isolada, sem déficit motor e com NIHSS baixo — o exame dos olhos e da marcha é o que o revela.
  4. Tomografia de crânio não exclui AVC isquêmico de fossa posterior e não deve ser usada para esse fim.

Por que a tontura é difícil

"Tontura" engloba vertigem (ilusão de movimento), pré-síncope (sensação de desmaio iminente), desequilíbrio e sensações vagas. A abordagem tradicional tentava classificar pelo tipo de sintoma, mas os pacientes descrevem de forma inconsistente, e a vertigem verdadeira ocorre tanto no AVC quanto na doença cardiovascular.

A abordagem atual — consolidada por Edlow e Newman-Toker e pela diretriz GRACE-3 da Society for Academic Emergency Medicine (2023) — usa o tempo (contínua × episódica) e o gatilho (espontânea × desencadeada) para definir a síndrome, e para cada síndrome há um exame dirigido.

Distinga gatilho de piora: quase toda tontura contínua piora ao mover a cabeça. Na VPPB a posição desencadeia uma crise de segundos em quem estava bem; na neurite e no AVC o paciente está tonto o tempo todo, e o movimento apenas exacerba.

Números que importam

3–4%Visitas à emergência por tontura ou vertigem
3–5%Proporção de tonturas que são AVC
≈ 10%Incidência cumulativa de VPPB ao longo da vida
≈ 28%Sensibilidade da TC para AVC na tontura (GRACE-3)

O AVC de circulação posterior é o mais "perdido" na emergência, e o erro é mais frequente justamente quando a tontura é a queixa principal e o paciente é jovem. Uma tomografia normal costuma reforçar a falsa segurança.

As três síndromes vestibulares agudas

SíndromeComo se apresentaBenigno mais comumPerigoso a não perderExame-chave
Aguda contínua (SVA, ≈ 30%)Tontura contínua por dias, náusea, vômito, intolerância ao movimento, desequilíbrio, geralmente com nistagmoNeurite vestibularAVC de fossa posterior (cerebelo, tronco)HINTS+ (com nistagmo); marcha (sem nistagmo)
Episódica desencadeada (≈ 30%)Crises de segundos a 1 minuto ao deitar, virar na cama, olhar para cima ou levantarVPPB; hipotensão ortostáticaVertigem posicional central (tumor, AVC); hipotensão por sangramento ou arritmiaDix-Hallpike, teste do rolamento, pressão em ortostase
Episódica espontânea (≈ 40%)Crises de minutos a horas, sem gatilho, assintomático entre elasMigrânea vestibular; doença de MénièreAIT vertebrobasilar; arritmiaAnamnese, exame neurológico, ECG; angio se suspeita de AIT

Percentuais aproximados da GRACE-3. Uma quarta situação é a síndrome contínua pós-exposição (intoxicação, trauma, fármaco), cujo diagnóstico vem da história.

As quatro perguntas da primeira hora

  1. Há instabilidade ou causa geral óbvia?

    Hipotensão, arritmia, hipoglicemia, sangramento, sepse, intoxicação — a "tontura" pode ser o sintoma de um problema sistêmico.

  2. Há sinal neurológico evidente?

    Déficit focal, cefaleia súbita, rebaixamento: protocolo de AVC ou de hemorragia, sem passar pela abordagem vestibular.

  3. Qual a síndrome por tempo e gatilho?

    Contínua, episódica desencadeada ou episódica espontânea.

  4. O exame dirigido é benigno ou central?

    HINTS+ e marcha na contínua; Dix-Hallpike e rolamento na posicional; busca de isquemia na espontânea.

Pergunte "quanto tempo dura e o que provoca?", não "como é a tontura?". O tempo e o gatilho escolhem o exame; o exame — e não a tomografia — separa o labirinto do cerebelo.

Em 30 segundos

O essencial de avaliação inicial

  1. Primeiro, sinais vitais, glicemia capilar e ECG; trate o que estiver instável antes de pensar no labirinto.
  2. Déficit focal evidente ou cefaleia súbita: protocolo de AVC ou hemorragia imediatamente.
  3. Anamnese: início, duração, gatilho, sintomas associados (auditivos, neurológicos, cardiovasculares), fármacos e fatores de risco vascular.
  4. Exame mínimo: nistagmo, nervos cranianos, coordenação e marcha — todo paciente tonto deve ser visto em pé, se for seguro.

Primeiro: estabilidade e causas gerais

  1. Sinais vitais e monitor

    PA, FC, ritmo, SpO₂, temperatura; PA em decúbito e em pé quando seguro.

  2. Glicemia capilar

    Hipoglicemia causa tontura, sudorese e confusão — e se corrige em minutos.

  3. ECG de 12 derivações

    Bradiarritmia, taquiarritmia, isquemia, QT longo: a "tontura" pode ser pré-síncope cardíaca.

  4. Procurar o óbvio

    Palidez e melena (sangramento), febre (sepse), dispneia e dor torácica, intoxicação, gestação.

  5. Rastrear o neurológico

    Déficit focal, disartria, diplopia, rebaixamento, cefaleia súbita: protocolo de AVC/hemorragia, com hora do último momento visto bem.

Tontura + cefaleia súbita intensa = hemorragia subaracnóidea ou cerebelar até prova em contrário. Tontura + dor cervical ou occipital após manipulação, trauma ou esforço = dissecção vertebral.

Anamnese dirigida

A pergunta clássica sobre o tipo de tontura (girar, desmaiar, desequilibrar) é pouco confiável: os pacientes descrevem a mesma doença de formas diferentes e mudam a descrição ao longo da entrevista. O tempo e o gatilho classificam melhor a síndrome, e os sintomas associados apontam para o sistema acometido.

Tempo

Início súbito ou gradual; contínua desde então ou em crises; duração de cada crise (segundos, minutos, horas); episódios prévios.

Gatilho

Deitar, virar na cama, olhar para cima (VPPB); levantar (ortostática); nenhum (espontânea). Diferencie de simples piora ao mover a cabeça.

Sintomas neurológicos

Diplopia, disartria, disfagia, disfonia, dismetria, parestesia, fraqueza, cefaleia, dor cervical — os "D" perigosos.

Sintomas auditivos

Hipoacusia nova unilateral, zumbido, plenitude aural. Perda auditiva súbita com vertigem contínua é sinal de alerta (infarto da AICA).

Sintomas cardiovasculares

Palpitação, dor torácica, dispneia, síncope, escurecimento visual ao levantar, sangramento.

Fármacos e terreno

Anti-hipertensivos, diuréticos, alfabloqueadores, sedativos, anticonvulsivantes, aminoglicosídeos; hipertensão, diabetes, tabagismo, FA, AVC prévio, migrânea.

Exame físico dirigido

O exame dirigido é o que separa a causa periférica da central, e por isso precisa ser documentado mesmo quando normal. O nistagmo e a marcha valem mais que o exame neurológico tradicional, que deixa passar boa parte dos AVCs de fossa posterior.

  • Nistagmo em posição primária e nas miradas laterais (com fixação e, se possível, sem fixação): direção, se é fixa ou muda com o olhar, se é vertical ou torcional puro.
  • Movimentos oculares: perseguição, sacadas, desalinhamento vertical (skew), diplopia.
  • Nervos cranianos: face, deglutição, voz, sensibilidade facial, audição (atrito de dedos de cada lado).
  • Coordenação: índex-nariz, calcanhar-joelho, movimentos alternados — normal não exclui AVC (o vérmis dá ataxia de tronco sem ataxia de membros).
  • Marcha e postura: sentar sem apoio, ficar em pé, andar. Incapacidade de ficar em pé ou andar sem apoio é altamente sugestiva de causa central.
  • Cardiovascular: ritmo, sopros, PA em decúbito e em pé, sinais de sangramento.
  • Otoscopia quando houver otalgia, otorreia, vesículas (Ramsay Hunt) ou trauma.

Graduação da instabilidade da marcha

Na síndrome contínua sem nistagmo (ou quando o nistagmo é duvidoso), a gravidade da instabilidade é o melhor discriminador disponível à beira do leito. Na neurite, o paciente cambaleia mas anda; no infarto cerebelar de linha média, muitas vezes não consegue nem ficar em pé.

GrauDefiniçãoAVC entre os pacientes (estudo de origem)
0Normal0%
1Instabilidade leve a moderada; anda sem ajuda≈ 7%
2Instabilidade grave ao ficar em pé; não anda sem apoio≈ 28%
3Cai na postura ereta; incapaz de ficar em pé sem ajuda100%

Adaptado de Carmona et al., conforme a Tabela 3 da GRACE-3. Grau 2–3 em paciente com síndrome contínua sem nistagmo justifica investigação de causa central.

Modelo de registro

Evolução — tontura aguda

QP: tontura há ___ (início súbito/gradual). Tempo e gatilho: [contínua desde o início | crises de ___ s/min/h] desencadeadas por [deitar/virar/levantar | sem gatilho]. Associados: náusea/vômito ___; hipoacusia/zumbido ___; diplopia/disartria/disfagia/fraqueza/parestesia ___; cefaleia/dor cervical ___; palpitação/dor torácica/síncope ___. Fatores de risco vascular: ___. Fármacos: ___. SV: PA deitado ___ / em pé ___; FC ___; SpO₂ ___; glicemia ___. ECG: ___. Exame: nistagmo ___ (direção, fixo/muda com o olhar). HIT: ___. Skew: ___. Atrito de dedos: ___. Coordenação: ___. Marcha: grau ___. Dix-Hallpike D/E: ___. Rolamento: ___. Impressão: síndrome [contínua/episódica desencadeada/episódica espontânea]; padrão [periférico/central/duvidoso]. Conduta: ___. Destino: ___. Orientações de retorno dadas.

Registre o exame ocular e a marcha mesmo quando normais: são o que sustenta a decisão de não fazer neuroimagem.

Em 30 segundos

O essencial de síndromes e exame

  1. Na síndrome contínua com nistagmo, use o HINTS+: qualquer achado central (HIT normal, nistagmo que muda de direção, skew, perda auditiva nova) indica causa central.
  2. HINTS só vale em quem está tonto e com nistagmo agora; aplicado em quem não tem síndrome vestibular aguda, o HIT "normal" gera falso alarme.
  3. Na síndrome desencadeada pela posição, faça o Dix-Hallpike; se negativo ou com nistagmo horizontal, o teste do rolamento.
  4. Na episódica espontânea, o exame costuma ser normal fora da crise: o diagnóstico é de anamnese, e a suspeita de AIT pede angiografia.

Classificador — tempo e gatilho

Qual é a síndrome vestibular?

Classifique a tontura aguda (< 2 semanas) pelo tempo e pelo gatilho, conforme a abordagem da GRACE-3. Pressupõe que você já afastou instabilidade e déficit neurológico evidente.

Escolha o padrão temporal e o gatilho para ver a síndrome e o exame indicado.

Ferramenta didática baseada na GRACE-3 (Edlow et al., Acad Emerg Med 2023). Não substitui o exame neurológico; déficit focal evidente leva direto ao protocolo de AVC.

HINTS+ — síndrome contínua com nistagmo

HINTS (Head Impulse, Nystagmus, Test of Skew) foi descrito por Kattah e colaboradores (2009); a adição do teste auditivo à beira do leito (HINTS+, ou HINTS plus) aumenta a sensibilidade para infartos da artéria cerebelar anteroinferior (AICA). Para concluir "periférico", os quatro componentes precisam ser benignos; um único achado central basta para classificar como central.

ComponentePadrão periférico (tranquilizador)Padrão central (perigoso)
Impulso cefálico (HIT)Anormal: sacada corretiva ao girar a cabeça para o lado lesado (oposto à fase rápida do nistagmo)Normal nos dois lados — o reflexo vestíbulo-ocular está preservado, a lesão não é no nervo
NistagmoHorizontal (com componente torcional), unidirecional: bate sempre para o mesmo lado, aumenta ao olhar na direção da fase rápidaMuda de direção com o olhar (bate para a direita no olhar à direita e para a esquerda no olhar à esquerda), vertical ou torcional puro
Teste de skew (cobertura alternada)Sem refixação verticalDesvio vertical com refixação ao descobrir o olho (skew deviation)
Audição (HINTS+)Sem perda nova (ou perda antiga conhecida)Perda auditiva unilateral nova ao atrito de dedos — infarto da AICA/artéria labiríntica

O HIT anormal é o achado "tranquilizador" — inverso do que intuitivamente se espera. Desvios horizontais à cobertura alternada são comuns na população e não contam como skew.

Quando NÃO usar o HINTS

Paciente sem tontura no momento, sem nistagmo, com tontura episódica ou posicional, ou com déficit neurológico evidente. Em quem não tem lesão vestibular aguda, o HIT é normal — e seria lido como "central". A GRACE-3 recomenda o HINTS apenas por clínicos treinados; aplicado por examinadores sem treinamento, sua acurácia cai muito.

Ferramenta — HINTS+

HINTS+: central ou periférico?

Para uso somente na síndrome vestibular aguda (tontura contínua, presente agora) com nistagmo, por examinador treinado. Critérios de Kattah et al. (Stroke 2009) e Newman-Toker et al. (Acad Emerg Med 2013), incorporados à GRACE-3 (2023).

Preencha os cinco campos. Qualquer achado central classifica o exame como central.

Sensibilidade agrupada para causa central: HINTS ≈ 93% e HINTS+ ≈ 99% (GRACE-3), com acurácia muito menor quando aplicado por examinadores não treinados ou em pacientes sem síndrome vestibular aguda. Não substitui o julgamento clínico.

Síndrome posicional — Dix-Hallpike e rolamento

A VPPB de canal posterior é a forma mais comum; o canal lateral (horizontal) responde por parcela relevante na emergência (cerca de 20% em séries de pronto-socorro) e é frequentemente esquecido. O Dix-Hallpike é o padrão de referência para o canal posterior; o teste do rolamento em decúbito (supine roll test) avalia o canal lateral.

Nistagmo típico de VPPB

  • Canal posterior: para cima e torcional (polo superior batendo para a orelha de baixo)
  • Latência de alguns segundos
  • Duração < 1 minuto, em crescendo-decrescendo
  • Fadiga com a repetição; reverte ao sentar
  • Vertigem intensa acompanhando o nistagmo

Nistagmo posicional de alerta (central)

  • Vertical para baixo puro ou torcional puro
  • Sem latência e sem fadiga; persiste enquanto mantida a posição
  • Nistagmo intenso com pouca ou nenhuma vertigem
  • Vômitos desproporcionais, sinais cerebelares ou cefaleia
  • Ausência de resposta a manobras corretas repetidas

Síndrome episódica espontânea

CondiçãoAchado-chaveComo diferenciar
Migrânea vestibular
Achado-chaveCrises de 5 min a 72 h, história de migrânea, fotofobia/fonofobia
Como diferenciarRecorrente há anos, exame normal entre crises; diagnóstico de exclusão na primeira crise após os 50 anos ou com risco vascular.
Doença de Ménière
Achado-chaveCrises de 20 min a 12 h com hipoacusia flutuante, zumbido e plenitude aural
Como diferenciarSintomas cocleares no mesmo ouvido em cada crise; audiometria com perda neurossensorial em graves.
Achado-chaveCrises novas (dias a semanas), idoso com risco vascular, às vezes com outros sintomas de tronco
Como diferenciarTontura isolada pode ser o pródromo de AVC de circulação posterior; angio-TC ou angio-RM de cabeça e pescoço.
Achado-chavePré-síncope, palpitação, escurecimento visual, síncope
Como diferenciarECG, monitorização, avaliação como síncope.
Hipoglicemia e pânico
Achado-chaveSudorese, tremor, ansiedade, parestesia perioral
Como diferenciarGlicemia na crise; pânico é diagnóstico de exclusão, nunca na primeira avaliação com fatores de risco.

Em 30 segundos

O essencial de causas e diferencial

  1. Neurite vestibular e AVC de fossa posterior são os dois grandes diagnósticos da síndrome contínua — e se parecem muito.
  2. A VPPB é a causa vestibular mais comum; a hipotensão ortostática por fármacos é a "posicional" mais comum no idoso.
  3. Pré-síncope (arritmia, sangramento, hipovolemia, síndrome coronariana) e fármacos são causas não vestibulares frequentes e tratáveis.
  4. "Labirintite" não deve ser o rótulo de saída de quem não teve o exame ocular e a marcha documentados.

Neurite vestibular × AVC de circulação posterior

AchadoNeurite vestibularAVC de fossa posterior
InícioAo longo de horas, às vezes após infecção viralFrequentemente súbito; pode haver tontura transitória nos dias anteriores
HITAnormal para o lado lesadoGeralmente normal (exceto infarto da AICA)
NistagmoHorizontal-torcional unidirecional, suprimido pela fixaçãoMuda de direção, vertical ou torcional puro (pode ser unidirecional)
SkewAusentePode estar presente
AudiçãoPreservadaPerda unilateral nova sugere AICA
MarchaInstável, mas anda (cai para o lado lesado)Frequentemente não fica em pé ou não anda sem apoio
Outros sinaisNenhumDisartria, diplopia, disfagia, ataxia de membros, Horner, alteração sensitiva — às vezes ausentes
TerrenoQualquer idadeRisco vascular, FA, dissecção vertebral (jovem, dor cervical)

Cerca de 10–20% dos AVCs de circulação posterior com tontura têm exame neurológico "grosseiro" normal; o que os denuncia é o HINTS+ e a marcha.

Diagnóstico diferencial por gravidade

CondiçãoAchado-chaveComo diferenciar
Achado-chaveSíndrome contínua com HINTS+ central, marcha grau 2–3
Como diferenciarRM com difusão e angiografia; protocolo de AVC dentro da janela.
Achado-chaveCefaleia, vômitos, ataxia, hipertensão, anticoagulação; rebaixamento progressivo
Como diferenciarTC detecta bem a hemorragia (ao contrário da isquemia); risco de hidrocefalia e compressão do tronco.
Dissecção vertebral
Achado-chaveDor cervical ou occipital + tontura, jovem, trauma ou manipulação cervical
Como diferenciarAngio-TC ou angio-RM de pescoço.
Achado-chaveEscurecimento visual, palpitação, dor torácica, dispneia
Como diferenciarECG, monitor, troponina e hemograma conforme o caso.
Neurite vestibular
Achado-chaveSíndrome contínua com HINTS+ periférico, audição preservada
Como diferenciarDiagnóstico clínico; sem imagem se exame periférico por examinador treinado.
VPPB
Achado-chaveCrises de segundos ao deitar ou virar; Dix-Hallpike ou rolamento positivo
Como diferenciarNistagmo típico com latência e fadiga; trata-se com manobra.
Achado-chaveTontura ao levantar; queda ≥ 20/10 mmHg em até 3 min
Como diferenciarPA deitado e em pé; revisão de fármacos; procurar sangramento e desidratação.
Fármacos e intoxicações
Achado-chaveAnticonvulsivantes (fenitoína, carbamazepina), lítio, sedativos, álcool, aminoglicosídeos, CO
Como diferenciarHistória, nistagmo evocado pelo olhar bilateral, dosagem sérica, carboxi-hemoglobina.

Neurite vestibular — critérios

Pelos critérios da Bárány Society para vestibulopatia unilateral aguda (2022), a neurite exige: vertigem ou tontura aguda/subaguda moderada a grave por pelo menos 24 horas; nistagmo espontâneo periférico unidirecional; evidência inequívoca de redução do reflexo vestíbulo-ocular do lado oposto à fase rápida; e ausência de sintomas cocleares agudos e de sinais centrais.

Labirintite: diagnóstico de exclusão

Vertigem contínua com perda auditiva nova sugere labirintite apenas depois de afastar infarto da AICA/artéria labiríntica — que dá exatamente esse quadro, inclusive com HIT anormal. Por isso a audição entra no HINTS+.

VPPB — critérios

Canal posterior

Crises recorrentes de vertigem posicional (deitar, virar na cama) de < 1 min; Dix-Hallpike com nistagmo para cima e torcional, latência de 1 a poucos segundos, duração < 1 min. Tratamento: Epley.

Canal lateral

Vertigem ao virar na cama deitado; rolamento com nistagmo horizontal geotrópico ou apogeotrópico, mais intenso para um dos lados. Tratamento: Lempert (barbecue) ou Gufoni.

Critérios da Bárány Society (von Brevern et al., 2015) e diretriz da AAO-HNS (2017). Sintomas não explicados por outra doença; os sintomas cedem em dias a semanas mesmo sem tratamento, mas a manobra os resolve em minutos.

Fármacos que causam tontura

  • Hipotensão ortostática: diuréticos, alfabloqueadores (doxazosina, tansulosina), nitratos, vasodilatadores, antidepressivos tricíclicos, trazodona, antipsicóticos, levodopa.
  • Toxicidade cerebelar: fenitoína, carbamazepina, lamotrigina, lítio, álcool, benzodiazepínicos — nistagmo evocado pelo olhar bilateral e ataxia.
  • Ototoxicidade vestibular: aminoglicosídeos (gentamicina) — oscilopsia e desequilíbrio bilateral, HIT anormal dos dois lados.
  • Arritmia e QT: antiarrítmicos, macrolídeos, antieméticos — pré-síncope.
  • Hipoglicemia: insulina e sulfonilureias.
  • O próprio tratamento: supressores vestibulares (anti-histamínicos, benzodiazepínicos) mantidos por semanas causam sedação, quedas e atrasam a compensação.

Em 30 segundos

O essencial de exames

  1. Glicemia e ECG em todos; laboratório só conforme a hipótese (sangramento, distúrbio metabólico, gestação).
  2. Não use TC de crânio para excluir AVC isquêmico na tontura: sensibilidade em torno de 28%. Ela serve para hemorragia.
  3. RM com difusão e angiografia está indicada quando o exame é central ou duvidoso; não como primeiro exame se houver examinador treinado em HINTS.
  4. RM com difusão nas primeiras 48 horas pode ser falso-negativa em 10–20% dos AVCs de fossa posterior: suspeita alta = repetir ou internar.

O que pedir e o que não pedir

Na tontura, o exame complementar raramente substitui o exame à beira do leito, e o mais pedido, a TC de crânio, é justamente o que menos ajuda a excluir isquemia. Glicemia e ECG entram para todos; o restante segue a hipótese formada pela anamnese e pelo exame.

ExameIndicaçãoComentário
Glicemia capilarTodosImediata, barata, muda a conduta.
ECGTodos (essencial na pré-síncope e no idoso)Arritmia, bloqueio, isquemia, QT longo.
Hemograma, eletrólitos, função renalSuspeita de sangramento, desidratação, vômitos intensos, idosoNão é rastreio universal.
TroponinaPré-síncope com dor torácica, dispneia, ECG alterado ou idoso com riscoNão pedir na VPPB típica.
Beta-hCGMulher em idade fértil com pré-síncopeGestação ectópica.
TC de crânio sem contrasteSuspeita de hemorragia (cefaleia, anticoagulação, rebaixamento), trauma, ou quando a RM não está disponível e há sinal centralNão exclui isquemia de fossa posterior; não deve tranquilizar.
Angio-TC de cabeça e pescoçoSuspeita de AIT vertebrobasilar, dissecção ou oclusão de basilar; candidato a trombectomiaIdentifica lesão vascular de alto risco; não substitui a RM para infarto pequeno.
RM com difusão + angio-RMHINTS+ central ou duvidoso; marcha grau 2–3 sem nistagmo; nistagmo posicional atípicoExame de escolha para AVC; atenção ao falso-negativo precoce.
AudiometriaPerda auditiva nova, suspeita de MénièreAmbulatorial, exceto quando a hipoacusia súbita exige avaliação urgente.

Quando fazer RM

Indicada

  • Síndrome contínua com HINTS+ central ou duvidoso
  • Síndrome contínua sem nistagmo e instabilidade grau 2–3
  • Qualquer sinal neurológico focal associado
  • Nistagmo posicional atípico ou VPPB que não responde a manobras corretas
  • Episódica espontânea com suspeita de AIT (com angiografia)
  • Ninguém treinado em HINTS disponível e risco vascular relevante

Dispensável de rotina

  • Síndrome contínua com HINTS+ periférico por examinador treinado e paciente que anda
  • VPPB de canal posterior típica com Dix-Hallpike positivo
  • Hipotensão ortostática ou pré-síncope explicadas
  • Migrânea vestibular recorrente com padrão conhecido e exame normal
RM negativa precoce não encerra o caso

Infartos pequenos de tronco e cerebelo podem não aparecer na difusão nas primeiras 24–48 horas. Se o exame à beira do leito é claramente central, mantenha a conduta de AVC, interne e repita a RM em 3 a 7 dias.

Acurácia comparada (GRACE-3)

Os números mostram por que a abordagem prioriza o exame à beira do leito: nas mãos de um examinador treinado, o HINTS+ supera a RM precoce em sensibilidade, e a TC de crânio fica muito atrás. O contraponto é que essa acurácia depende de treinamento.

TesteSensibilidade para causa centralEspecificidade
TC de crânio≈ 28%≈ 99%
Exame neurológico geral≈ 47%≈ 93%
Ataxia de tronco/marcha≈ 70%≈ 84%
RM (precoce)≈ 80%≈ 99%
HINTS (3 componentes)≈ 93%≈ 83%
HINTS+ (com audição)≈ 99%≈ 85%

Estimativas agrupadas da revisão sistemática da GRACE-3, em grande parte com exames feitos por neuro-otologistas ou clínicos treinados. Na prática de emergência sem treinamento, o HINTS tem acurácia bem menor.

Em 30 segundos

O essencial de conduta e destino

  1. VPPB de canal posterior: Epley na hora do diagnóstico; supressor vestibular não é tratamento da VPPB.
  2. Neurite vestibular: antiemético e supressor vestibular por no máximo 3–5 dias, corticoide como decisão compartilhada se ≤ 3 dias de início, e reabilitação vestibular.
  3. Exame central ou duvidoso: protocolo de AVC, RM com difusão e angiografia, trombólise se elegível dentro de 4,5 h.
  4. Alta exige paciente que anda, tolera via oral, tem diagnóstico definido e orientação de retorno.

Tratamento sintomático — princípios

Supressores vestibulares (anti-histamínicos como e , benzodiazepínicos como ) aliviam a vertigem e a náusea, mas sedam, aumentam o risco de quedas e retardam a compensação central. Use pela menor duração possível; na VPPB, apenas para sintomas residuais após a manobra.

  • Prefira antiemético sem efeito sedativo importante () quando o problema principal é vômito.
  • Anti-histamínico em dose única foi mais eficaz que benzodiazepínico em dose única para reduzir a vertigem em 2 horas (revisão sistemática citada na GRACE-3).
  • Evite meclizina e prometazina no idoso (Beers/AGS) — efeito anticolinérgico, confusão e quedas.
  • Não sede o paciente antes de documentar o exame neurológico, o HINTS+ e a marcha.
  • Hidrate quem vomitou muito; corrija hipocalemia e hipoglicemia.

Destino

Alta com plano

  • VPPB tratada com manobra, ou com orientação de retorno para nova manobra
  • Neurite com HINTS+ periférico por examinador treinado
  • Anda (mesmo instável) e tolera via oral
  • Pré-síncope ortostática explicada e corrigida
  • Supressor por no máximo 3–5 dias; reabilitação vestibular; seguimento

Observação ou internação

  • HINTS+ central ou duvidoso, ou sinal neurológico
  • Não consegue ficar em pé ou andar; vômitos incoercíveis
  • Suspeita de AIT vertebrobasilar (risco alto de AVC nos dias seguintes)
  • Causa cardiovascular, sangramento ou intoxicação
  • Idoso sem suporte domiciliar e com risco de queda

Rotas de tratamento

Manejo — como usar as rotas. Cada linha abre a ficha completa (manobra ou fármaco) com técnica, dose e cuidados. Confira sempre a apresentação disponível no seu serviço.

Orientações de alta

  • Explique o diagnóstico e a evolução esperada (VPPB: melhora em minutos a dias; neurite: melhora em dias, compensação em semanas).
  • Supressor vestibular só se necessário e por no máximo 3–5 dias.
  • Movimente-se: deambulação precoce e exercícios de reabilitação vestibular aceleram a compensação.
  • Previna quedas: levantar devagar, apoio à noite, não dirigir enquanto tonto ou sedado.
  • Retorne imediatamente se surgir visão dupla, dificuldade para falar ou engolir, fraqueza, dormência, cefaleia intensa, incapacidade de andar ou piora em vez de melhora.
  • Seguimento: clínico ou otorrinolaringologista/neurologista; audiometria se houve sintoma auditivo.

Em 30 segundos

O essencial de cenários especiais

  1. Idoso: mais AVC, mais hipotensão ortostática por fármacos, mais quedas — e mais efeitos adversos dos supressores vestibulares.
  2. Jovem com tontura e dor cervical: dissecção vertebral até prova em contrário.
  3. Anticoagulado com tontura e cefaleia ou vômitos: hemorragia cerebelar — aqui a TC é o exame certo.
  4. Tontura isolada "recorrente" em paciente com risco vascular pode ser pródromo de oclusão de basilar.

Idoso e gestante

Nestes dois grupos a tontura costuma ter mais de uma causa ao mesmo tempo, e a pré-síncope por hipotensão, fármacos ou anemia divide espaço com as causas vestibulares. A escolha do tratamento sintomático pesa mais, porque efeitos adversos e segurança fetal mudam as opções.

Idoso

Multicausal (ortostática, fármacos, déficit visual e sensitivo); maior risco de AVC e de queda. O que fazer: PA em ortostase e revisão de prescrição sempre; evitar meclizina, prometazina e benzodiazepínicos; Dix-Hallpike com cuidado cervical.

Gestante

Pré-síncope por hipotensão e anemia; VPPB e migrânea também ocorrem. O que fazer: beta-hCG em idade fértil; RM sem gadolínio quando indicada; preferir antieméticos com segurança estabelecida.

Dissecção vertebral e hemorragia cerebelar

No jovem com tontura e dor cervical após trauma, esporte ou manipulação, a dissecção vertebral é a hipótese a afastar: peça angio-TC ou angio-RM de pescoço mesmo com HINTS duvidoso, porque o exame à beira do leito não descarta a lesão vascular.

Anticoagulado ou hipertenso grave

Hemorragia cerebelar com cefaleia, vômitos e ataxia. TC de crânio imediata — aqui ela é o exame certo; reversão da anticoagulação; neurocirurgia se compressão.

Trauma craniano e coluna cervical limitada

Quando o pescoço não pode ou não deve ser movido, as manobras diagnósticas precisam ser adaptadas, não abandonadas. Depois do trauma, a VPPB é comum, mas só deve ser testada quando a coluna estiver liberada.

Trauma craniano

VPPB pós-traumática, concussão, fratura de temporal, fístula perilinfática. O que fazer: TC se critérios de trauma; Dix-Hallpike quando a coluna estiver liberada.

Coluna cervical limitada

Dix-Hallpike e HIT exigem movimentos cervicais. O que fazer: use a mesa inclinada no Dix-Hallpike ou o teste lateral (side-lying); seja gentil no HIT.

Erros comuns

Quase todos os erros na tontura vêm de dois atalhos: rotular o quadro sem documentar o exame que sustenta o rótulo e confiar na TC de crânio para excluir isquemia de fossa posterior.

  • Rotular como "labirintite" sem documentar nistagmo, HINTS+ e marcha.
  • Pedir TC de crânio para "afastar AVC" e dar alta com o exame normal.
  • Aplicar HINTS em paciente sem nistagmo ou com tontura posicional — e interpretar HIT normal como tranquilizador.
  • Esquecer de fazer o paciente ficar em pé e andar.
  • Tratar VPPB só com remédio, sem fazer a manobra.
  • Prescrever supressor vestibular por semanas.
  • Ignorar a pré-síncope: ECG e PA em ortostase são parte da avaliação da tontura.
  • Atribuir perda auditiva nova com vertigem a "labirintite" sem pensar em AICA.

Resumo do fluxo

O fluxo resume a lógica da abordagem: estabilizar, classificar a síndrome pelo tempo e pelo gatilho e aplicar o exame certo para cada síndrome. A imagem vem depois do exame, e não no lugar dele.

  1. Estabilizar

    Sinais vitais, glicemia, ECG; tratar instabilidade.

  2. Rastrear o óbvio

    Déficit focal ou cefaleia súbita → protocolo de AVC/hemorragia.

  3. Classificar

    Tempo e gatilho: contínua, episódica desencadeada, episódica espontânea.

  4. Examinar

    HINTS+ e marcha na contínua; Dix-Hallpike e rolamento na posicional; neurológico e ECG na espontânea.

  5. Imagem certa

    RM com difusão e angio se central ou duvidoso; TC só para hemorragia.

  6. Tratar

    Manobra na VPPB; sintomático curto e reabilitação na neurite; protocolo de AVC no central.

  7. Destino

    Alta para quem anda, tolera via oral e tem diagnóstico; orientar retorno.

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Aviso importante

Ferramenta de apoio à decisão clínica, de caráter educacional. Não substitui a avaliação médica presencial, o julgamento clínico, os protocolos institucionais nem a consulta às bulas. Doses, diluições e velocidades de infusão devem ser conferidas antes da administração. O HINTS+ só tem valor na síndrome vestibular aguda com nistagmo e quando feito por examinador treinado; na dúvida, trate como central.

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