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Atlas de Oftalmologia • Esclera

Ruptura escleral

Ruptura do globo ocular • trauma ocular aberto • open globe injury

Lesão de espessura total da parede do olho, em geral por trauma contuso que eleva bruscamente a pressão intraocular e rompe a esclera nos seus pontos mais finos. É uma emergência cirúrgica: proteger o olho sem comprimir, não manipular e encaminhar para reparo, de preferência em até 24 horas.

EscleraTrauma ocular abertoEmergênciaProtetor rígido, sem pressão
14–17 min de leitura Atualizado em outubro de 2026

Reconheça o achado

Imagem clínica

Ruptura escleral após trauma contuso: hemorragia subconjuntival bolhosa, pupila deformada em direção à ferida e tecido uveal escuro exposto. Toque para ampliar.

Principais achados
  1. 1
    Hemorragia subconjuntival bolhosa em 360°
  2. 2
    Prolapso de úvea (tecido escuro) ou vítreo pela ferida
  3. 3
    Pupila irregular, em gota, apontando para a ruptura
  4. 4
    Câmara anterior rasa ou anormalmente profunda; hifema
  5. 5
    Hipotonia (olho mole) e baixa visual grave
  6. 6
    Seidel positivo quando a ferida é acessível; restrição da motilidade ocular

Em 30 segundos

O essencial de visão geral

  1. Ruptura é a abertura de espessura total do globo causada por trauma contuso, de dentro para fora.
  2. Locais típicos: junto ao limbo e logo atrás das inserções dos músculos retos, onde a esclera é mais fina.
  3. Sinais: hemorragia subconjuntival bolhosa, câmara anterior anormal, pupila em gota, hipotonia, prolapso uveal.
  4. Conduta: protetor rígido, não comprimir, TC, antibiótico sistêmico, tétano e reparo cirúrgico precoce.

O que é

Pela terminologia BETTS (Birmingham Eye Trauma Terminology System), o trauma ocular é fechado quando a parede do olho não tem ferida de espessura total, e aberto quando tem. O trauma aberto divide-se em ruptura (objeto rombo, mecanismo de dentro para fora) e laceração (objeto cortante, de fora para dentro: penetrante, perfurante ou com corpo estranho intraocular).

A ruptura escleral é mais comum em homens jovens (agressões, esporte, trabalho) e em idosos (quedas), e em olhos enfraquecidos por cirurgia prévia — incisões de catarata antigas, transplante de córnea e afinamento escleral.

Suspeitou de globo aberto: protetor rígido e nada de pressão. Colírio, pomada, curativo compressivo e tonometria pioram a extrusão do conteúdo ocular.

Classificação do trauma ocular (BETTS)

TipoMecanismoExemplo
Fechado — contusãoSem ferida da paredeHifema, commotio retinae
Fechado — laceração lamelarFerida de espessura parcialCorte superficial de córnea/esclera
Aberto — rupturaObjeto rombo; aumento súbito da pressão; abre de dentro para foraSoco, bola, queda
Aberto — laceração penetranteObjeto cortante; uma ferida de entradaFaca, vidro
Aberto — corpo estranho intraocularFragmento retido no olhoMartelar metal
Aberto — perfuranteFerida de entrada e de saídaProjétil

Kuhn et al., Ophthalmology 1996.

ZonaExtensãoPrognóstico
ICórnea e limboMelhor
IIAté 5 mm atrás do limboIntermediário
IIIMais de 5 mm atrás do limboPior (retina, descolamento, PVR)

Pieramici et al., Am J Ophthalmol 1997. Rupturas esclerais costumam ser zona II ou III.

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O essencial de quadro clínico

  1. História de trauma de alta energia: agressão, bola, queda, acidente.
  2. Baixa visual grave; dor variável (pode ser pouca).
  3. Hemorragia subconjuntival bolhosa, câmara anterior alterada, pupila em gota.
  4. Ruptura oculta: posterior, sob a conjuntiva íntegra ou atrás dos músculos.

Sinais que sugerem ruptura

Nenhum sinal isolado é perfeito, mas a soma de dois ou três torna a ruptura muito provável. Compare sempre com o outro olho.

Hemorragia bolhosa

Subconjuntival, elevada, em 360°: pode esconder a ferida.

Pupila em gota

Deformada e apontando para a ruptura.

Prolapso uveal

Tecido marrom-escuro na ferida ou sob a conjuntiva.

Câmara anterior

Rasa (ruptura anterior) ou profunda (posterior, com perda vítrea).

Hipotonia

Olho mole — não medir se a ruptura for evidente.

Hifema e hemorragia vítrea

Reflexo vermelho ausente; fundo não visível.

Ruptura oculta

Quando a ferida é posterior, a conjuntiva pode estar intacta. Pistas: hemorragia subconjuntival extensa e elevada, câmara anterior mais profunda que a do outro olho, hipotonia, restrição de motilidade e hemorragia vítrea. A TC ajuda, mas a exploração cirúrgica é que confirma.

Olho com cirurgia prévia (catarata extracapsular, ceratoplastia penetrante, cirurgia refrativa incisional) rompe com trauma menor, na antiga cicatriz.

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O essencial de diagnóstico

  1. Avaliar o paciente inteiro primeiro (ATLS): o olho não é a única lesão.
  2. Acuidade visual e pupilas (DPAR) são os dados prognósticos mais importantes.
  3. Exame sem pressão; Seidel em feridas acessíveis; sem tonometria se a ruptura é evidente.
  4. TC de órbitas sem contraste, cortes finos; ressonância contraindicada se houver metal.

Avaliação passo a passo

  1. História

    Mecanismo (rombo × cortante × projétil), hora, martelar metal, uso de óculos, cirurgia ocular prévia, última refeição, vacina antitetânica.

  2. Acuidade visual

    Mesmo que só percepção luminosa; registrar sempre — define o Ocular Trauma Score.

  3. Pupilas

    Forma (em gota) e defeito pupilar aferente (pior prognóstico); usar o reflexo consensual se necessário.

  4. Inspeção e lâmpada de fenda

    Sem forçar as pálpebras (usar afastador com cuidado, se preciso). Procurar ferida, úvea, vítreo, profundidade da câmara anterior, hifema.

  5. Teste de Seidel

    Fluoresceína em feridas corneanas ou esclerais acessíveis: o aquoso dilui o corante (ver Seidel positivo).

  6. Imagem

    TC de órbitas sem contraste, cortes de 1 mm: contorno do globo, ar ou corpo estranho intraocular, fraturas.

Tomografia computadorizada

A TC é o exame de escolha. Sinais de ruptura: perda de volume ou contorno irregular do globo ("pneu furado" ou flat tire), ar intraocular, hemorragia vítrea e corpo estranho. Ultrassom B com contato é evitado no globo aberto evidente; se indispensável, feito pelo oftalmologista sobre pálpebra fechada e com gel abundante.

Achado característico

Sinal do pneu furado

Globo com contorno posterior achatado e irregular, menor que o contralateral; pode haver ar e sangue no vítreo.

TC de órbitas, corte axial — toque para ampliar.

Ocular Trauma Score (OTS)

O OTS soma pontos a partir da acuidade visual inicial e subtrai por ruptura, endoftalmite, lesão perfurante, descolamento de retina e DPAR. Quanto menor a pontuação, pior a visão final esperada. Serve para estimar o prognóstico e orientar a conversa com o paciente.

VariávelPontos
Acuidade inicial: SPL / PL ou MM / 1/200–19/200 / 20/200–20/50 / ≥ 20/4060 / 70 / 80 / 90 / 100
Ruptura−23
Endoftalmite−17
Lesão perfurante−14
Descolamento de retina−11
Defeito pupilar aferente relativo−10

Kuhn et al., Ophthalmol Clin North Am 2002. SPL = sem percepção luminosa; PL = percepção luminosa; MM = movimento de mãos.

Diagnóstico diferencial

CondiçãoAchado-chaveComo diferenciar
Achado-chaveMancha vermelha plana, visão normal
Como diferenciarSem baixa visual, câmara anterior normal, pupila redonda, PIO normal.
Achado-chaveSangue na câmara anterior
Como diferenciarPode coexistir com ruptura; buscar sinais de globo aberto antes de medir a PIO.
Achado-chaveDiplopia, enoftalmo, hipoestesia infraorbitária
Como diferenciarGlobo íntegro; fratura do assoalho na TC.
Hemorragia orbitária / síndrome compartimental
Achado-chaveProptose tensa, PIO alta, DPAR
Como diferenciarGlobo íntegro e duro; cantotomia lateral de urgência.
Achado-chaveOpacificação retiniana após contusão
Como diferenciarTrauma fechado; parede íntegra.
Iridodiálise
Achado-chaveDesinserção da raiz da íris, pupila em D
Como diferenciarPupila deformada sem ferida da parede.

Galeria oftalmológica

Observe o que denuncia a ruptura mesmo sem ferida visível: a forma da pupila, a profundidade da câmara anterior, a hemorragia elevada e o tecido escuro sob a conjuntiva.

Hemorragia subconjuntival bolhosa em 360°

Conjuntiva elevada por sangue em todo o perímetro, após soco. A visão era de movimento de mãos e a câmara anterior estava mais profunda que a do outro olho: sinais de ruptura posterior oculta, confirmada na exploração.

Ruptura ocultaHemorragia 360°

Pupila em gota com prolapso de íris

A pupila está puxada em direção ao limbo superior, onde há tecido iriano escuro encarcerado na ferida. A ponta da gota aponta para o local da ruptura.

Pupila em gotaProlapso uveal

Úvea exposta junto ao limbo

Ferida escleral paralela ao limbo com tecido marrom-escuro (corpo ciliar/coroide) herniado e hemorragia ao redor. Não tentar recolocar o tecido: protetor rígido e centro cirúrgico.

Zona IIÚvea

Após o reparo primário

Sutura escleral e conjuntival após exploração. Seguem-se vigilância de endoftalmite nos primeiros dias, de descolamento de retina e PVR nas semanas seguintes e de oftalmia simpática no olho contralateral.

Pós-operatórioSeguimento

Em 30 segundos

O essencial de conduta

  1. Não comprimir, não instilar, não medir PIO, não tentar remover corpo estranho cravado.
  2. Protetor rígido, cabeceira elevada, jejum, antiemético e analgesia.
  3. Antibiótico sistêmico precoce e profilaxia de tétano.
  4. Reparo cirúrgico primário o mais cedo possível (meta: menos de 24 h).

No pronto-socorro

  • Protetor ocular rígido (concha) apoiado na órbita óssea; na falta, fundo de copo plástico.
  • Cabeceira a 30–45°; repouso; evitar tosse, vômito e esforço (Valsalva).
  • Jejum para anestesia geral; analgesia e antiemético.
  • Antibiótico sistêmico e atualização antitetânica.
  • TC de órbitas; contato imediato com o oftalmologista.
  • Curativo compressivo ou pressão sobre o olho.
  • Colírios ou pomadas (inclusive anestésico e fluoresceína em excesso).
  • Tonometria ou ultrassom com pressão.
  • Remover corpo estranho cravado no olho fora do centro cirúrgico.

Rotas de tratamento

Medicamentos do preparo pré-operatório. Doses de referência para adultos (Wills Eye Manual); os esquemas variam entre serviços — a profilaxia sistêmica tem evidência limitada, mas é prática comum.

Cirurgia

O reparo primário fecha a parede do olho de modo estanque: exploração em 360° com peritomia, reposição do tecido uveal viável, excisão de vítreo e tecido necrótico, sutura da esclera (desinserindo músculos se preciso). Atrasos acima de 24 h aumentam o risco de endoftalmite. Vitrectomia secundária, para hemorragia vítrea ou descolamento de retina, costuma ser feita dias depois.

Enucleação primária é raríssima: metanálise recente mostrou oftalmia simpática em cerca de 0,15% após reparo primário, sem benefício claro da remoção precoce do olho.

Em 30 segundos

O essencial de complicações

  1. Endoftalmite pós-traumática: vigiar nos primeiros dias.
  2. Descolamento de retina e vitreorretinopatia proliferativa (PVR), sobretudo na zona III.
  3. Oftalmia simpática: uveíte bilateral rara, semanas a anos depois.
  4. Phthisis bulbi: olho atrófico e cego.

Linha do tempo

QuandoComplicaçãoPistas
Horas a diasEndoftalmiteDor crescente, hipópio, vitreíte; mais com corpo estranho, contaminação por terra e reparo tardio
Dias a semanasDescolamento de retina e PVRUltrassom; membranas e retina contraída
Semanas a anosOftalmia simpáticaUveíte granulomatosa no olho NÃO traumatizado: baixa visual, fotofobia
MesesGlaucoma pós-traumático, catarata, hipotoniaRecessão angular, sinéquias; PIO baixa crônica
MesesPhthisis bulbiOlho pequeno, mole, cego, às vezes doloroso

Referências bibliográficas

  1. 1
    Artigo2024
    Blanch RJ, McMaster D, Patterson TJ. Management of open globe injury: a narrative review. Eye (Lond). 2024;38(16):3047–3051. doi:10.1038/s41433-024-03246-3.
  2. 2
    Artigo1996
    Kuhn F, Morris R, Witherspoon CD, Heimann K, Jeffers JB, Treister G. A standardized classification of ocular trauma. Ophthalmology. 1996;103(2):240–243.
  3. 3
    Artigo1997
    Pieramici DJ, Sternberg P Jr, Aaberg TM Sr, et al. A system for classifying mechanical injuries of the eye (globe). Am J Ophthalmol. 1997;123(6):820–831.
  4. 4
    Artigo2002
    Kuhn F, Maisiak R, Mann L, Mester V, Morris R, Witherspoon CD. The Ocular Trauma Score (OTS). Ophthalmol Clin North Am. 2002;15(2):163–165.
  5. 5
    Livro-texto2021
    Gervasio KA, Peck TJ, eds. The Wills Eye Manual. 8. ed. Philadelphia: Wolters Kluwer; 2021.
  6. 6
    Livro-texto2020
    Bowling B. Kanski’s Clinical Ophthalmology: A Systematic Approach. 9. ed. Elsevier; 2020.
  7. 7
    Livro-texto2025
    American Academy of Ophthalmology. Basic and Clinical Science Course (BCSC), Section 8: External Disease and Cornea. San Francisco: AAO; 2024–2025.

Fontes das imagens

As imagens deste atlas têm finalidade educacional e foram produzidas a partir de referências clínicas reais e de representações anatômicas didáticas.

Parte delas pode ter sido editada ou aprimorada digitalmente para destacar as estruturas e os achados descritos no texto.

Aviso importante

Material educacional. Não substitui a avaliação oftalmológica, os protocolos institucionais nem a consulta às bulas. Esquemas de antibiótico profilático variam entre serviços; a conduta definitiva é do oftalmologista. Profilaxia antitetânica conforme o calendário vigente do Ministério da Saúde.

Atlas MedFoco de Oftalmologia • Conteúdo para educação médica. O diagnóstico e a conduta dependem da avaliação clínica individual.
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