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Emergência & UTI • Choque

Choque Neurogênico

Choque distributivo por perda do tônus simpático • lesão medular acima de T6

É o choque que não taquicardiza. A perda súbita do tônus simpático abaixo da lesão medular deixa o paciente hipotenso, bradicárdico e quente — exatamente o oposto do que se espera no politraumatizado. No trauma, porém, ele é sempre um diagnóstico de exclusão: presumir choque neurogênico antes de afastar hemorragia é um erro que mata.

Hipotensão com bradicardiaExtremidades quentesSangramento primeiroPerfusão medular é o alvo
18 min de leitura Atualizado em outubro de 2026

Em 30 segundos

O essencial de visão geral

  1. Choque neurogênico é um choque distributivo por perda do tônus simpático abaixo de uma lesão medular, sobretudo acima de T6.
  2. A assinatura é hipotensão com bradicardia (ou normocardia), pele quente e seca e pressão de pulso alargada.
  3. No trauma é diagnóstico de exclusão: hemorragia vem primeiro, e bradicardia não a afasta.
  4. A meta pressórica existe para reduzir a lesão medular secundária — é uma das poucas intervenções que mudam o desfecho funcional.

O que é choque neurogênico

Choque neurogênico é um choque distributivo causado pela perda súbita do tônus simpático abaixo de uma lesão do sistema nervoso central, tipicamente da medula espinhal. Sem a descarga simpática, o leito vascular perde o tônus, a resistência vascular sistêmica despenca e o sangue se acumula na periferia — há volume circulante suficiente, mas ele está no lugar errado.

O que torna esse choque peculiar é a ausência da resposta compensatória. Nos demais choques, o organismo responde com taquicardia e vasoconstrição. Aqui, as fibras simpáticas cardioaceleradoras que saem de T1 a T4 também estão desconectadas, e o tônus vagal, mediado pelo nervo vago, fica sem oposição. O resultado é a assinatura clássica: hipotensão com bradicardia e pele quente.

No paciente traumatizado, choque neurogênico é sempre diagnóstico de exclusão. Hemorragia e lesão medular coexistem com frequência, e atribuir a hipotensão à medula antes de afastar sangramento é um dos erros mais graves da sala de emergência.

Por que acontece

A cadeia de eventos é direta e explica cada achado do exame físico.

  1. Interrupção simpática

    A lesão medular interrompe as vias simpáticas descendentes que trafegam pela coluna intermediolateral, entre T1 e L2.

  2. Vasoplegia

    Abaixo da lesão, arteríolas e vênulas perdem o tônus vasoconstritor: cai a resistência vascular sistêmica e o sangue se acumula no leito venoso de capacitância.

  3. Queda do débito

    Cai o retorno venoso e, com ele, a pré-carga e o débito cardíaco — apesar de a volemia total estar preservada.

  4. Sem taquicardia compensatória

    Em lesões acima de T6, as fibras cardioaceleradoras de T1 a T4 também são perdidas: o coração não consegue taquicardizar para compensar.

  5. Vago sem oposição

    O tônus vagal, que chega ao coração pelo nervo vago e independe da medula, passa a agir sem oposição — daí a bradicardia paradoxal.

  6. Pele quente e seca

    Sem vasoconstrição cutânea, a pele fica quente, seca e corada, e o paciente perde a capacidade de regular a própria temperatura.

  7. Lesão secundária

    A hipoperfusão da medula já lesada agrava a lesão secundária, fechando um ciclo em que a hipotensão piora o desfecho neurológico.

Esse último passo é a razão de todo o esforço hemodinâmico. Diferentemente de outros choques, aqui a meta pressórica não visa apenas o rim e o cérebro: visa salvar tecido medular ainda viável, e é uma das poucas intervenções capazes de mudar o desfecho funcional.

Choque neurogênico não é choque medular

Os dois termos são confundidos com enorme frequência, inclusive em prontuário. São fenômenos diferentes, que podem ocorrer no mesmo paciente e ao mesmo tempo, mas descrevem coisas distintas.

AspectoChoque neurogênicoChoque medular
NaturezaFenômeno hemodinâmico e sistêmicoFenômeno neurológico e local
DefiniçãoHipotensão com hipoperfusão por perda do tônus simpáticoPerda transitória de toda a função medular abaixo da lesão, com flacidez e arreflexia
AchadosHipotensão, bradicardia, pele quente e seca, pressão de pulso alargadaParalisia flácida, arreflexia, anestesia e perda do tônus esfincteriano
Nível da lesãoSobretudo acima de T6Qualquer nível medular
DuraçãoDias a semanas, conforme a lesãoDias a semanas, até o retorno dos reflexos
Marcador da resoluçãoEstabilidade hemodinâmica sem vasopressorRetorno do reflexo bulbocavernoso, geralmente o primeiro a voltar
TratamentoVolume, vasopressor e meta de pressão arterial médiaNão há tratamento próprio: é um estado transitório a ser aguardado

Enquanto persiste o choque medular, a arreflexia impede a determinação definitiva da extensão da lesão. Por isso a classificação neurológica precisa ser repetida ao longo dos dias: um exame feito nas primeiras horas subestima o potencial de recuperação.

Comparando com os outros choques

Do ponto de vista hemodinâmico, o choque neurogênico é distributivo — como o séptico e o anafilático. O que o separa dos demais é a frequência cardíaca e a temperatura da pele.

TipoFrequênciaPeleResistência vascularPressão de pulso
HemorrágicoTaquicardiaFria e pálidaAltaEstreitada
CardiogênicoTaquicardiaFria e úmidaAltaEstreitada
SépticoTaquicardiaQuente no inícioBaixaAlargada
NeurogênicoBradicardia ou normocardiaQuente e secaBaixaAlargada

A pele seca é um detalhe que diferencia do séptico e do anafilático: sem tônus simpático não há sudorese abaixo da lesão. Vale passar a mão no tórax e nos membros — a linha de transição entre pele suada e pele seca costuma indicar o nível da lesão.

Por que isso importa

Lesão secundária

Cada episódio de hipotensão agrava a isquemia da medula já lesada e piora a recuperação funcional.

Janela terapêutica

A meta pressórica é uma das poucas intervenções disponíveis capazes de influenciar o desfecho neurológico.

Armadilha

Presumir choque neurogênico em politraumatizado atrasa o diagnóstico de hemorragia.

Via aérea

Lesões cervicais altas comprometem o diafragma e exigem antecipação da intubação.

Duração

A necessidade de vasopressor costuma se estender por dias, não por horas.

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O essencial de causas

  1. A causa dominante é o trauma raquimedular cervical ou torácico alto — e é a que exige excluir hemorragia.
  2. A raquianestesia alta é a causa iatrogênica clássica: instalação em minutos e, em geral, reversível.
  3. Causas não traumáticas (hematoma ou abscesso epidural, tumor, isquemia, mielite, Guillain-Barré) instalam-se mais devagar e passam despercebidas.
  4. Lesão abaixo de T6 raramente explica choque importante: procure outra causa.

De onde vem

A causa mais frequente é, de longe, o trauma raquimedular cervical ou torácico alto. Mas existe um conjunto relevante de causas não traumáticas, algumas iatrogênicas, que aparecem em contextos completamente diferentes da sala de trauma.

Trauma raquimedular

Acidentes de trânsito, quedas de altura, mergulho em água rasa, ferimentos por arma de fogo e trauma esportivo. Predomina em lesões cervicais e torácicas altas. Quanto mais alta e mais completa a lesão, maior a probabilidade e a gravidade do choque.
É a causa mais comum e a que exige exclusão obrigatória de hemorragia.

Bloqueio neuroeixo alto

Raquianestesia ou peridural com dispersão cefálica excessiva, produzindo simpatectomia farmacológica extensa. É a causa iatrogênica clássica, com quadro de instalação rápida no centro cirúrgico e habitualmente reversível.
Reconhecimento imediato e suporte precoce evitam evolução para parada.

Causas não traumáticas

Mielite transversa, isquemia medular, abscesso e hematoma epidural, tumor com compressão medular e síndrome de Guillain-Barré com disautonomia. A instalação costuma ser mais gradual, o que faz o quadro passar despercebido por mais tempo.
Nesses casos, a compressão medular tratável é a hipótese que não pode ser perdida.

Panorama das causas

O contexto em que o paciente aparece já sugere a causa: no politraumatizado, lesão cervical ou torácica alta — com sangramento associado até prova em contrário; no centro cirúrgico, bloqueio neuroaxial; no paciente clínico com dor dorsal e déficit progressivo, compressão epidural ou tumoral, que tem tratamento cirúrgico tempo-dependente. O nível da lesão pesa tanto quanto a causa, porque é ele que define se as fibras cardioaceleradoras e o leito esplâncnico perderam a inervação simpática.

CausaContexto típicoObservação
Trauma cervicalColisão automobilística, queda, mergulho em água rasa, atropelamentoMaior risco de choque neurogênico e de comprometimento respiratório; lesões acima de C5 ameaçam o diafragma
Trauma torácico altoTrauma de alta energia com fratura ou luxação vertebralLesões acima de T6 concentram o risco; abaixo disso, o quadro tende a ser mais brando
Ferimento por arma de fogoTrauma penetrante de tronco e pescoçoAlta chance de lesão vascular e hemorragia associadas — a exclusão de sangramento é ainda mais crítica
Raquianestesia altaCesariana, cirurgia ortopédica e urológica sob bloqueioInstalação em minutos, com bradicardia e náusea; a gestante tem risco somado de compressão aortocava
Hematoma ou abscesso epiduralAnticoagulação, punção neuroaxial, bacteremia, usuário de droga injetávelDor local com déficit progressivo; a descompressão cirúrgica é urgente e tempo-dependente
Compressão medular por tumorNeoplasia com metástase vertebral, mielomaDéficit progressivo com dor prévia; corticoide e radioterapia ou cirurgia conforme o caso
Isquemia medularCirurgia de aorta, dissecção aórtica, hipotensão prolongadaFrequentemente compromete o território da artéria espinhal anterior, poupando a propriocepção
Mielite transversaQuadro pós-infeccioso ou desmielinizanteInstalação em horas a dias; a disautonomia pode ser expressiva
Síndrome de Guillain-BarréFraqueza ascendente após quadro infecciosoDisautonomia com oscilação entre hipertensão e hipotensão, além de arritmias
Manipulação cirúrgica da medulaCirurgia de coluna com lesão intraoperatóriaA elevação imediata da pressão arterial é a primeira medida diante de perda de sinais no monitoramento neurofisiológico

Lesões medulares abaixo de T6 raramente produzem choque neurogênico significativo, porque preservam as fibras cardioaceleradoras e boa parte do leito esplâncnico. Diante de hipotensão em lesão baixa, procure outra causa antes de aceitar o rótulo.

O que imita choque neurogênico

Hipotensão com bradicardia não é sinônimo de choque neurogênico. Antes de aceitar o rótulo, procure o que tem tratamento específico e mais urgente — sangramento mascarado por betabloqueador, pneumotórax hipertensivo, intoxicação, hipotermia. O que sustenta o diagnóstico é a combinação de déficit neurológico com nível sensitivo, pele quente e seca abaixo da lesão e ausência de outra explicação para o choque.

CondiçãoAchado-chaveComo diferenciar
Achado-chaveO paciente em uso crônico de betabloqueador pode sangrar sem taquicardizar.
Como diferenciarA pele permanece fria e a pressão de pulso, estreitada; hemoglobina em queda e foco no FAST ou na imagem.
Reflexo vasovagal
Achado-chaveHipotensão com bradicardia de curta duração.
Como diferenciarRecuperação espontânea e sem déficit neurológico associado.
Achado-chaveHipotensão no politraumatizado com jugulares distendidas e murmúrio abolido.
Como diferenciarChoque obstrutivo, não distributivo: descompressão imediata.
Achado-chaveHipertensão com bradicardia por hipertensão intracraniana.
Como diferenciarÉ o oposto pressórico do choque neurogênico e exige conduta distinta.
Intoxicações
Achado-chaveBetabloqueadores, bloqueadores de canal de cálcio, clonidina e opioides cursam com hipotensão e bradicardia.
Como diferenciarHistória de exposição, ausência de nível sensitivo e resposta a antídotos específicos.
Hipotermia
Achado-chaveBradicardia e hipotensão em vítima exposta.
Como diferenciarMedir temperatura central; frequentemente coexiste com o próprio trauma raquimedular.

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O essencial de reconhecer

  1. A sequência xABCDE não muda: hemorragia exsanguinante, via aérea com proteção cervical e ventilação, nessa ordem.
  2. Diante de hipotensão no trauma, procure sangramento primeiro — tórax, abdome, pelve, retroperitônio, ossos longos.
  3. Hipotensão com bradicardia e pele quente aponta para neurogênico; taquicardia com pele fria aponta para hemorragia.
  4. Defina o nível neurológico, registre o horário do exame e acione a cirurgia de coluna desde o primeiro momento.

A abordagem inicial

No trauma, a sequência do xABCDE não muda. O que muda é a interpretação: diante de hipotensão, a hemorragia continua sendo a hipótese principal até ser afastada, e o choque neurogênico entra depois.

  1. xABC

    Controle de hemorragia exsanguinante, via aérea com proteção da coluna cervical e ventilação — nessa ordem.

  2. Procure sangramento primeiro

    Tórax, abdome, pelve, retroperitônio, ossos longos e ferimentos externos. FAST e radiografias na sala.

  3. Padrão hemodinâmico

    Hipotensão com bradicardia e pele quente aponta para neurogênico; taquicardia com pele fria aponta para hemorragia.

  4. Exame neurológico dirigido

    Força por miótomos, sensibilidade por dermátomos, tônus retal e reflexo bulbocavernoso.

  5. Nível e completude

    Defina o nível neurológico da lesão e se ela é completa ou incompleta, registrando o horário do exame.

  6. Volume e vasopressor

    Inicie a reposição volêmica até a euvolemia e associe vasopressor precocemente se a hipotensão persistir.

  7. Imagem

    Tomografia de coluna para o osso, ressonância magnética para medula, ligamentos e compressão.

  8. Cirurgia de coluna

    Acione a neurocirurgia ou a cirurgia de coluna desde o primeiro momento — o tempo até a descompressão importa.

Bradicardia não afasta hemorragia. Um paciente pode ter lesão medular cervical e ruptura esplênica simultaneamente, e a resposta à expansão volêmica costuma ser o primeiro sinal de que existe sangramento em curso.

Atualização — ATLS 11ª edição (2025)

A avaliação primária passou a ser xABCDE (hemorragia exsanguinante antes da via aérea) e a proteção da coluna é descrita como restrição seletiva do movimento, baseada em critérios, com menos ênfase no colar rígido — sobretudo no trauma penetrante.

Achados que sustentam o diagnóstico

  • Hipotensão sem taquicardia: pressão sistólica abaixo de 90 mmHg com frequência cardíaca normal ou baixa. É o achado que mais chama atenção e o que separa do choque hemorrágico.
  • Bradicardia: presente sobretudo em lesões acima de T6, por perda das fibras cardioaceleradoras de T1 a T4 com tônus vagal sem oposição. Pode ser desencadeada ou agravada por aspiração traqueal e mudança de decúbito.
  • Pele quente, seca e corada: a vasodilatação abaixo da lesão elimina a palidez e a sudorese. A transição entre pele úmida e pele seca frequentemente marca o nível da lesão.
  • Pressão de pulso alargada: a queda da resistência vascular reduz mais a diastólica que a sistólica — o oposto do choque hemorrágico, em que o pulso é fino e a pressão de pulso, estreitada.
  • Déficit neurológico compatível: paraplegia ou tetraplegia, nível sensitivo definido, arreflexia, priapismo e perda do tônus do esfíncter anal.
  • Poiquilotermia: incapacidade de regular a temperatura abaixo da lesão, com tendência à hipotermia em ambiente frio e à hipertermia em ambiente quente.
  • Padrão respiratório: respiração diafragmática com uso paradoxal do abdome sugere lesão cervical com perda da musculatura intercostal.
  • Ausência de resposta ao volume: hipotensão que persiste após reposição adequada, sem sinais de sangramento, reforça a origem distributiva.

O priapismo é um achado pouco sensível, porém bastante sugestivo de lesão medular no contexto de trauma. Vale procurá-lo na exposição do paciente.

O ritmo no monitor

Bradicardia neurogênica e o que não é

Compare a bradicardia sinusal típica do choque neurogênico com a taquicardia esperada no hemorrágico e com um bloqueio que pede outra explicação.

Neurogênico

Tônus vagal sem oposição em lesão acima de T6: bradicardia sinusal, piorada por aspiração traqueal e mudança de decúbito.

  • Onda P antes de cada QRS, com PR constante
  • QRS estreito
  • FC ≈ 45 bpm

Traçados esquemáticos gerados por computador (25 mm/s, 10 mm/mV) para estudo e comparação. Confirme sempre no ECG de 12 derivações do paciente.

Neurogênico versus hemorrágico

ParâmetroChoque neurogênicoChoque hemorrágico
Frequência cardíacaBradicardia ou normocardiaTaquicardia progressiva
PeleQuente, seca e corada abaixo da lesãoFria, pálida e úmida
Tempo de enchimento capilarNormal ou rápidoProlongado
Pressão de pulsoAlargadaEstreitada
Resposta ao volumeParcial e transitóriaBoa, se o sangramento estiver controlado
LactatoFrequentemente normal ou pouco elevadoElevado e proporcional à gravidade
Hemoglobina seriadaEstávelEm queda
FAST e imagemSem foco de sangramentoLíquido livre, hemotórax, fratura pélvica
Déficit neurológicoPresente e com nível definidoAusente, salvo trauma associado

Na prática, os dois coexistem com frequência. O raciocínio correto não é escolher entre eles, e sim tratar a hemorragia enquanto se sustenta a perfusão medular — e reavaliar de forma seriada, porque o quadro muda ao longo das primeiras horas.

Exames e monitorização

Tomografia de coluna

Exame inicial para avaliar fraturas, luxações e alinhamento. Costuma ser feita em conjunto com a tomografia de corpo inteiro no politraumatizado.

Ressonância magnética

Padrão para avaliar a medula, ligamentos, hérnia discal traumática, hematoma e compressão persistente. Ideal antes da cirurgia, desde que não atrase a descompressão.

Ultrassom FAST

Rastreio de sangramento em cavidades. Um exame negativo não exclui hemorragia retroperitoneal ou pélvica.

Pressão arterial invasiva

Recomendada sempre que houver meta pressórica a ser mantida por dias, porque permite titulação contínua do vasopressor.

Lactato e gasometria

Lactato persistentemente elevado sugere hemorragia oculta ou outra causa de hipoperfusão, e não apenas vasoplegia.

Função respiratória

Capacidade vital, força inspiratória e padrão ventilatório orientam a necessidade de intubação em lesões cervicais.

Registre o exame neurológico com horário e nível a cada avaliação. A comparação seriada é o que documenta melhora ou deterioração — e a deterioração é indicação de reavaliar compressão medular e a meta pressórica.

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O essencial de escores

  1. A PAM é estimada por (PAS + 2 × PAD) ÷ 3; a meta só faz sentido depois de excluída hemorragia ativa.
  2. Taquicardia em suposto choque neurogênico é pouco típica — reavalie sangramento.
  3. O escore motor ASIA (0 a 100) é a medida objetiva para acompanhar a evolução; a classificação A–E depende da preservação sacral.
  4. Durante o choque medular, a lesão não pode ser chamada de completa em definitivo.

Pressão arterial média e meta de perfusão

Informe os dados e confira a pressão arterial média atual e o índice de choque. Em seguida, use a leitura abaixo para ver a distância até a meta adotada pelo seu serviço e o significado da frequência cardíaca.

PAM, pressão de pulso e índice de choque

Meta de perfusão medular • alerta de bradicardia • beira do leito. Pressão de pulso = PAS − PAD (alargada no neurogênico, estreitada no hemorrágico).

PAM (mmHg)—
Índice de choque (FC ÷ PAS)—
Leitura—

Com os valores do exemplo (86 × 48 mmHg, 52 bpm): PAM ≈ 61 mmHg, pressão de pulso 38 mmHg e índice de choque 0,6 — índice baixo não tranquiliza quando a frequência está "presa" pela lesão medular. Calculadora completa: Índice de Choque do MedFoco.

Leitura da meta e da frequência cardíaca

Escolha onde a PAM calculada está em relação à meta adotada (85, 80, 75 ou 65 mmHg) e a faixa de frequência cardíaca.

A meta pressórica só faz sentido depois de excluída hemorragia ativa.

Pressão sistólica abaixo de 90 mmHg deve ser corrigida com prioridade em qualquer cenário.

Meta de PAMOrigemQuando usar
85 mmHg (faixa 85–90)Meta clássica AANS/CNS 2013, por 7 diasA mais difundida no Brasil e a mais cobrada em provas
80 mmHgLimite inferior superior da faixa AO Spine-Praxis (2024)Serviços que adotaram a faixa mais flexível, por 3 a 7 dias
75 mmHgLimite inferior mais permissivo da AO Spine-Praxis (2024)Idem; teto de 90–95 mmHg
65 mmHgMeta geral de choqueSem lesão medular confirmada

A pressão arterial média é estimada por (PAS + 2 × PAD) ÷ 3. A recomendação clássica de 2013 era manter entre 85 e 90 mmHg por 7 dias; a atualização sugere um limite inferior de 75 a 80 mmHg e um limite superior de 90 a 95 mmHg, por 3 a 7 dias, reconhecendo que a evidência é de qualidade muito baixa (recomendação condicional, reafirmada pela AO Spine em 2026). Siga o protocolo institucional do seu serviço.

Escore motor ASIA

Pontue cada músculo-chave de 0 a 5 conforme a escala de força, dos dois lados. O escore motor total varia de 0 a 100 pontos (50 nos membros superiores e 50 nos inferiores) e é a principal medida objetiva para acompanhar a evolução ao longo dos dias.

MiótomoMúsculo-chaveDireitoEsquerdo
C5Flexores do cotovelo0–50–5
C6Extensores do punho0–50–5
C7Extensores do cotovelo0–50–5
C8Flexores dos dedos0–50–5
T1Abdutores do dedo mínimo0–50–5
L2Flexores do quadril0–50–5
L3Extensores do joelho0–50–5
L4Dorsiflexores do tornozelo0–50–5
L5Extensor longo do hálux0–50–5
S1Flexores plantares do tornozelo0–50–5

Escala de força: 0 sem contração, 1 contração visível ou palpável, 2 movimento sem vencer a gravidade, 3 movimento contra a gravidade, 4 movimento contra resistência parcial, 5 força normal. Some os 20 valores: C5–T1 dos dois lados = membros superiores (0–50); L2–S1 = membros inferiores (0–50).

Leitura do escore motor total

10 miótomos por lado • total de 0 a 100 • comparação seriada.

Some os 20 miótomos e escolha a faixa do total.
Padrão de distribuição do déficit

Compare a soma dos membros superiores (0–50) com a dos inferiores (0–50).

Escolha o padrão para ver a interpretação.

Esta ferramenta interpreta apenas o componente motor: a classificação completa exige também o exame sensitivo por dermátomos, o toque retal e a determinação do nível neurológico e do grau na escala de deficiência.

Escala de deficiência ASIA

A classificação em graus de A a E define se a lesão é completa ou incompleta e é o principal preditor de recuperação funcional. Ela depende da preservação sacral, que deve ser sempre pesquisada (ISNCSCI, revisão de 2019).

GrauDenominaçãoDefinição
ACompletaNenhuma função motora ou sensitiva preservada nos segmentos sacrais S4 e S5.
BIncompleta sensitivaSensibilidade preservada abaixo do nível neurológico, incluindo S4 e S5, sem função motora preservada.
CIncompleta motoraFunção motora preservada abaixo do nível, com mais da metade dos músculos-chave com força menor que 3.
DIncompleta motoraFunção motora preservada abaixo do nível, com pelo menos metade dos músculos-chave com força de 3 ou mais.
ENormalFunção motora e sensitiva normais em paciente que teve déficit prévio documentado.

Para C e D, a lesão precisa ser sensitiva incompleta com contração anal voluntária ou com preservação sacral sensitiva e função motora em mais de três níveis abaixo do nível motor de cada lado.

Durante o choque medular, a arreflexia impede classificar a lesão como definitivamente completa. O exame precisa ser repetido depois do retorno dos reflexos — o bulbocavernoso costuma ser o primeiro a voltar e marca o fim dessa fase.

Em 30 segundos

O essencial de hemodinâmica

  1. A medula lesada perde a autorregulação: o fluxo passa a depender da PAM.
  2. Meta clássica de PAM 85–90 mmHg por 7 dias; a AO Spine-Praxis sugere 75–80 a 90–95 mmHg por 3–7 dias, com evidência muito baixa.
  3. Noradrenalina é o vasopressor preferido em lesões acima de T6; fenilefrina isolada pode agravar a bradicardia.
  4. Pressão arterial invasiva sempre que houver meta a cumprir.

A meta pressórica e sua controvérsia

A lógica é a de pressão de perfusão medular: a medula lesada tem autorregulação comprometida, o edema eleva a pressão intraespinhal e o fluxo passa a depender diretamente da pressão arterial média. Manter a pressão alta busca salvar tecido na zona de penumbra ao redor da lesão.

  • Recomendação clássica de 2013: a diretriz conjunta das sociedades americanas de neurocirurgia recomendava corrigir prontamente pressão sistólica abaixo de 90 mmHg e manter a pressão arterial média entre 85 e 90 mmHg pelos primeiros 7 dias. É a meta mais difundida e a mais cobrada em provas.
  • Atualização AO Spine-Praxis (2023, publicada em 2024): o grupo revisou a evidência e passou a sugerir um limite inferior de 75 a 80 mmHg e um limite superior de 90 a 95 mmHg, por 3 a 7 dias. A mudança reconhece que a faixa estreita de 85 a 90 era difícil de manter e que a qualidade da evidência é muito baixa — a recomendação é fraca (condicional). As recomendações AO Spine de 2026 mantiveram essa faixa.
  • O que é consenso: hipotensão faz mal à medula lesada e deve ser evitada. A divergência é sobre quanto elevar e por quanto tempo, não sobre o princípio.
  • O custo da meta: manter pressão alta por dias exige vasopressor prolongado, com risco de arritmia, isquemia e complicações de acesso central. O balanço deve ser individualizado, sobretudo em idosos e cardiopatas.
  • Pressão de perfusão medular: conceitualmente é a pressão arterial média menos a pressão intraespinhal, de forma análoga à perfusão cerebral. A medida direta ainda é experimental e restrita a centros de pesquisa; a AO Spine (2026) não faz recomendação de manejo guiado por ela.
  • Monitorização: pressão arterial invasiva é fortemente recomendada quando há meta a cumprir, porque a medida não invasiva intermitente perde episódios curtos de hipotensão que somados fazem diferença.

Na prática brasileira, a maioria dos protocolos ainda adota pressão arterial média de pelo menos 85 mmHg por 7 dias. Se o seu serviço já incorporou a faixa mais permissiva, o essencial é que a meta esteja escrita, seja monitorada e tenha responsável definido.

Sangramento associado: sem hipotensão permissiva

A diretriz europeia de sangramento no trauma (Rossaint, 6ª edição, 2023) recomenda PAS de 80–90 mmHg até o controle do sangramento apenas no trauma sem lesão neurológica, e afirma que a estratégia de hipotensão permissiva e reposição restritiva é contraindicada no TCE e nas lesões medulares. No politraumatizado com lesão medular, controle o sangramento e reponha com hemocomponentes sem sacrificar a perfusão da medula.

Infusão de droga vasoativa

Converte a dose desejada em velocidade de bomba de infusão, usando as diluições mais comuns. Confira sempre a diluição padronizada no seu serviço antes de aplicar. Fórmula: mL/h = dose (mcg/kg/min) × peso (kg) × 60 ÷ concentração (mcg/mL).

Noradrenalina em BIC: dose por peso → mL/h

Ajuste por peso • diluições padrão • resultado em mL/h. Faixa habitual 0,05 a 0,5 mcg/kg/min, titulada pela meta de PAM.

Velocidade na bomba (mL/h)—
Dose por minuto (mcg/min)—
Faixa da dose—

Exemplo: 70 kg a 0,1 mcg/kg/min = 7 mcg/min = 420 mcg/h → ≈ 6,6 mL/h com 64 mcg/mL. Acima de 0,5 mcg/kg/min, reavalie a causa da refratariedade (hemorragia oculta!) e considere associar outro agente.

Outras drogas — velocidade em mL/h para o peso informado

Fenilefrina 10 mg em 100 mL (100 mcg/mL) • Dopamina 250 mg em 250 mL (1.000 mcg/mL) • Adrenalina 5 mg em 100 mL (50 mcg/mL) • Dobutamina 250 mg em 250 mL (1.000 mcg/mL).

Fenilefrina 0,5 mcg/kg/minInício da faixa (0,5–5)
—
Fenilefrina 1 mcg/kg/min100 mcg/mL
—
Dopamina 5 mcg/kg/minInício da faixa (5–20)
—
Dopamina 10 mcg/kg/min1.000 mcg/mL
—
Adrenalina 0,05 mcg/kg/minFaixa 0,01–0,5
—
Dobutamina 2,5 mcg/kg/minFaixa 2,5–20 (inotrópico)
—

A fenilefrina é frequentemente prescrita em microgramas por minuto, e não por quilo — verifique a forma de prescrição adotada no seu serviço. Fenilefrina: sem atividade beta, pode agravar a bradicardia em lesões acima de T6. Dobutamina: inotrópico, não vasopressor — pode piorar a hipotensão por vasodilatação. Ferramenta de apoio: a prescrição final deve sempre ser conferida. Mais diluições: Guia de Diluições em UTI e Conversor de Infusões.

Escolha do vasopressor

DrogaPerfilVantagemCuidado
Alfa potente com beta-1 discretoPrimeira escolha: corrige a vasoplegia e ainda sustenta a frequência cardíacaNecessita acesso central para uso prolongado; risco de isquemia periférica
Alfa-1 puroPrática, disponível e útil em bólus na sala de anestesiaSem atividade beta: causa bradicardia reflexa e pode agravar o quadro em lesão cervical
Dose-dependente, com efeito beta e alfaAumenta a frequência cardíaca, o que interessa na bradicardia associadaMais arritmias que a noradrenalina; caiu em desuso como primeira linha
Alfa e beta potentesReserva para hipotensão refratária com bradicardia graveTaquiarritmias, hiperlactatemia e hiperglicemia
DobutaminaBeta-1 predominanteConsiderada quando há disfunção contrátil associadaVasodilatação com piora da hipotensão — não é vasopressor
Receptores V1, independente do sistema adrenérgicoAdjuvante poupador de catecolamina em vasoplegia refratáriaNão corrige bradicardia; risco de isquemia digital e mesentérica

A diretriz AO Spine-Praxis concluiu que a evidência disponível não permite recomendar formalmente um vasopressor específico. Ainda assim, a prática predominante e o raciocínio fisiológico favorecem a noradrenalina em lesões acima de T6, justamente por evitar a bradicardia reflexa da fenilefrina.

Em 30 segundos

O essencial de conduta

  1. Duas prioridades em paralelo: sustentar a perfusão da medula e remover a compressão — sem esquecer que a hemorragia vem primeiro.
  2. Volume até a euvolemia; vasopressor precoce (noradrenalina) se a hipotensão persistir; meta de PAM escrita e monitorada de forma invasiva.
  3. Bradicardia sintomática: atropina 1 mg IV a cada 3–5 min (máximo 3 mg); marca-passo ou infusão cronotrópica se refratária.
  4. Descompressão cirúrgica em até 24 horas; metilprednisolona não é recomendada de rotina.

Sequência de abordagem

Duas prioridades correm em paralelo: sustentar a perfusão da medula e remover a compressão, sem nunca perder de vista que a hemorragia vem primeiro no politraumatizado.

  1. Restrição do movimento da coluna

    Proteção da coluna e transferências em bloco, mantendo a restrição do movimento até a liberação por imagem e exame.

  2. Exclua hemorragia

    FAST, radiografia de tórax e pelve, exame dirigido. Não rotule como neurogênico sem essa etapa.

  3. Volume até a euvolemia

    Cristaloide em alíquotas e reavaliação — evitando tanto a hipovolemia quanto a sobrecarga.

  4. Vasopressor precoce

    Se a hipotensão persistir após volume adequado. é a escolha preferencial.

  5. Bradicardia

    Trate a bradicardia sintomática com ; considere marca-passo transcutâneo ou transvenoso nos casos refratários.

  6. Meta de PAM

    Estabeleça e registre a meta de pressão arterial média, com pressão invasiva e reavaliação contínua.

  7. Via aérea

    Avalie a via aérea e a mecânica respiratória: lesões cervicais altas exigem antecipar a intubação, e não esperar a fadiga.

  8. Acione a cirurgia de coluna

    A descompressão dentro de 24 horas melhora o desfecho neurológico de forma consistente.

  9. Suporte

    Prevenção de lesão por pressão, profilaxia de tromboembolismo venoso, sonda vesical, controle térmico e profilaxia gástrica.

Hemorragia primeiro, perfusão medular sempre, descompressão em até 24 horas.

Rotas de tratamento

Cada rota é um cenário. Abra a rota em que o seu paciente está: a tabela mostra dose, via e cuidados, e o nome de cada medicamento abre a ficha completa. Confira sempre o protocolo institucional, a apresentação disponível no seu serviço e a bula vigente.

Restrição do movimento e transferência

O que define o desfecho funcional a longo prazo é descompressão no tempo certo, ventilação antecipada e prevenção rigorosa de complicações — e tudo começa por não piorar a lesão no transporte. Hoje se fala em restrição do movimento da coluna, seletiva e baseada em critérios (ATLS 11ª edição), e não em imobilização rígida indiscriminada: o objetivo é evitar lesão adicional sem criar complicações pela própria imobilização. No trauma penetrante, a imobilização de rotina não é recomendada e pode retardar o tratamento definitivo.

  • Colar cervical rígido e de tamanho adequado, associado a coxins laterais e fixação da cabeça quando indicado.
  • Prancha rígida é dispositivo de transporte, não de permanência: retirar assim que possível pelo risco de lesão por pressão.
  • Rolamento em bloco em toda mobilização, com equipe treinada, mantendo o alinhamento da cabeça, do tronco e da pelve.
  • Cuidados do colar: pode dificultar a via aérea, elevar a pressão intracraniana e causar lesão de pele — reavalie a necessidade diariamente.
  • Liberação só após avaliação clínica e por imagem adequadas (NEXUS ou Canadian C-Spine quando aplicáveis); em paciente não avaliável, mantenha a restrição até a reavaliação.

Imobilização prolongada sobre prancha rígida gera lesão por pressão em poucas horas em paciente sem sensibilidade — retire cedo.

Descompressão cirúrgica precoce

É a intervenção com evidência mais consistente para melhorar o desfecho neurológico, e o tempo até a descompressão é uma variável modificável. A recomendação é descomprimir dentro de 24 horas da lesão, quando clinicamente viável e independentemente do nível — recomendação forte na atualização AO Spine-Praxis (evidência de qualidade moderada), que superou a de 2017.

< 24 hJanela recomendada para a descompressão
≈ 2×Chance de melhora de ≥ 2 graus na escala de deficiência aos 6 e aos 12 meses
+4,5Pontos no escore motor em comparação com a cirurgia após 24 horas

Os objetivos são descomprimir a medula e estabilizar a coluna, permitindo mobilização e reabilitação precoces. O benefício da cirurgia ultraprecoce (menos de 12 horas) ainda não está estabelecido. A ressonância antes da cirurgia é desejável quando não gera atraso relevante, e o pré-requisito é estabilidade hemodinâmica suficiente — a hemorragia com risco imediato de morte tem precedência. Na prática, acione a cirurgia de coluna desde a admissão, e não depois de completar toda a investigação.

Em regiões com retaguarda cirúrgica limitada, definir cedo para onde transferir costuma valer mais do que qualquer ajuste medicamentoso.

Metilprednisolona e outras terapias adjuvantes

Tema historicamente controverso: sociedades diferentes chegaram a conclusões opostas a partir dos mesmos estudos. A diretriz AO Spine de 2017 considerou que a infusão de alta dose por 24 horas pode ser oferecida a adultos que se apresentam em até 8 horas da lesão; as sociedades americanas de neurocirurgia (AANS/CNS 2013) não recomendam o uso, por ausência de benefício consistente e aumento de complicações. Hoje a tendência é não usar de rotina, e qualquer uso é decisão individualizada e compartilhada.

Se for usar

  • Esquema: 30 mg/kg em bólus seguidos de 5,4 mg/kg/h por 24 horas.
  • Somente se iniciado em até 8 horas da lesão.
  • Registre a justificativa, a janela temporal e a discussão com a equipe e a família.

Não usar

  • Após 8 horas da lesão.
  • Esquema de 48 horas — não recomendado por nenhuma das diretrizes, pelo aumento expressivo de complicações.
  • Trauma penetrante, lesão de cauda equina, paciente pediátrico, gestante e uso concomitante de corticoide por outra razão.

Os riscos são infecção, pneumonia, sepse, sangramento digestivo, hiperglicemia e miopatia do doente crítico. Não confunda com a compressão medular neoplásica, em que o corticoide tem indicação estabelecida e lógica completamente diferente do trauma. Quanto ao riluzol, as recomendações AO Spine de 2026 não fazem recomendação (nem a favor, nem contra) sobre o uso rotineiro na lesão cervical aguda: o ensaio RISCIS não mostrou benefício significativo na lesão cervical, embora análises secundárias mantenham a questão em aberto.

A conduta varia muito entre serviços brasileiros. Verifique o protocolo institucional antes de prescrever ou de suspender.

Via aérea e ventilação

A insuficiência respiratória em lesões cervicais é progressiva e previsível, e antecipar a intubação é mais seguro do que reagir à fadiga instalada. O diafragma é inervado pelo frênico, de C3 a C5: lesões acima de C5 comprometem gravemente a ventilação. Entre C5 e T1 o diafragma é preservado, mas a perda da musculatura intercostal e abdominal produz respiração paradoxal e tosse ineficaz. Os sinais de alerta são respiração diafragmática com uso paradoxal do abdome, fala entrecortada, queda da capacidade vital e retenção de secreção.

Quando intubar

Antecipe: piora progressiva da mecânica, capacidade vital em queda ou necessidade de transporte prolongado.

Técnica

Preserve o alinhamento cervical com estabilização manual em linha; considere videolaringoscopia e tenha plano de resgate definido.

Indução

Cuidado com a hipotensão: tenha vasopressor correndo e prefira agentes com menor repercussão hemodinâmica.

Succinilcolina

Segura nas primeiras 48 horas; depois deve ser evitada pelo risco de hipercalemia grave por proliferação de receptores.

Após a intubação: ventilação protetora, higiene brônquica agressiva e planejamento precoce de traqueostomia em lesões cervicais altas. A função respiratória pode deteriorar em dias, à medida que o edema medular ascende nas primeiras 48 a 72 horas — causa clássica de piora inesperada; reavalie diariamente. Doses de indução: Guia de Intubação Rápida.

Profilaxia de tromboembolismo

O paciente com lesão medular aguda tem um dos maiores riscos de tromboembolismo venoso da medicina, pela combinação de imobilidade, estase e estado inflamatório — risco muito elevado nas primeiras semanas, sobretudo em lesões completas e em membros inferiores plégicos. O método preferido é a heparina de baixo peso molecular (), iniciada assim que o risco de sangramento permitir.

  • Dose: habitualmente 40 mg SC a cada 24 horas; alguns protocolos de trauma usam 30 mg a cada 12 horas.
  • Início: o mais precoce possível, tipicamente nas primeiras 72 horas, considerando o risco de sangramento e o momento cirúrgico.
  • Métodos mecânicos: compressão pneumática intermitente e meias elásticas, sobretudo enquanto a profilaxia farmacológica estiver contraindicada.
  • Ajustes: reduzir a dose ou trocar por heparina não fracionada em disfunção renal significativa.
  • Filtro de veia cava: reservado a contraindicação absoluta à anticoagulação ou a evento recorrente apesar de profilaxia adequada.
  • Duração: prolongada, frequentemente por semanas a meses conforme a mobilidade e o protocolo de reabilitação.

É uma das medidas mais esquecidas nas primeiras 24 horas, justamente quando a equipe está concentrada na estabilização hemodinâmica.

Cuidados de suporte

A lesão medular gera um conjunto de disfunções previsíveis, e antecipá-las evita complicações que prolongam a internação e comprometem a reabilitação. Muitos desses cuidados parecem secundários no dia da admissão, mas são eles que determinam a qualidade da recuperação nos meses seguintes — e alguns, como a bexiga, também protegem contra bradicardia e disreflexia.

Pele

Risco altíssimo de lesão por pressão em área sem sensibilidade. Mudança de decúbito programada, colchão adequado e inspeção diária.

Bexiga

Sonda vesical na fase aguda, com transição planejada para cateterismo intermitente. A distensão vesical desencadeia bradicardia e, mais tarde, disreflexia.

Intestino

Programa intestinal com laxativo e horário definido. O íleo paralítico é comum nas primeiras 48 a 72 horas.

Temperatura

Poiquilotermia: o paciente não regula a temperatura abaixo da lesão. Monitorar e aquecer ou resfriar ativamente conforme o ambiente.

Nutrição e estômago

Enteral precoce quando possível, com atenção à gastroparesia e ao íleo. Profilaxia gástrica na fase aguda, pelo risco de úlcera de estresse e sangramento digestivo.

Dor, reabilitação e apoio

Dor neuropática e espasmos surgem depois da fase flácida e exigem tratamento específico. Reabilitação assim que houver estabilidade clínica; apoio ao paciente e à família desde a fase aguda, com informação clara sobre prognóstico.

Disreflexia autonômica

Complicação da fase crônica, oposta ao choque neurogênico: crise hipertensiva grave desencadeada por estímulo abaixo da lesão, capaz de causar hemorragia cerebral e morte. Surge após semanas a meses em pacientes com nível em T6 ou acima, quando os reflexos medulares já retornaram: o estímulo gera descarga simpática reflexa e vasoconstrição intensa, sem modulação descendente do encéfalo. O quadro é hipertensão súbita, cefaleia pulsátil, sudorese e rubor acima da lesão, palidez e piloereção abaixo, com bradicardia reflexa. O gatilho mais comum é a distensão vesical (sonda obstruída ou retenção), seguida de impactação fecal, lesão de pele, unha encravada e roupa apertada.

  1. Sentar o paciente

    Sentar e baixar as pernas, para aproveitar o efeito ortostático; afrouxar roupas e dispositivos compressivos.

  2. Remover o estímulo

    Desobstruir ou passar sonda vesical, examinar o reto e inspecionar a pele.

  3. Medicar se persistir

    Anti-hipertensivo de ação rápida e curta duração apenas se a pressão permanecer elevada após as medidas iniciais; evitar agentes de ação prolongada, pelo risco de hipotensão grave quando o estímulo for removido.

A pressão basal do lesado medular alto costuma ser baixa — uma sistólica de 140 mmHg já pode representar crise. É a razão pela qual o cuidado com a bexiga é prioridade permanente, e não apenas um detalhe de enfermagem.

Raquianestesia alta — manejo no centro cirúrgico

Simpatectomia farmacológica por dispersão cefálica excessiva do anestésico: instala-se em minutos e é a causa iatrogênica clássica de choque neurogênico. Reconhece-se por hipotensão progressiva com bradicardia, náusea, vômito, dispneia e formigamento em membros superiores após o bloqueio; dificuldade de falar em frases longas e fraqueza de mãos sinalizam bloqueio alto, que no extremo leva a apneia e perda de consciência. Diferentemente do trauma, não há lesão estrutural: o objetivo é apenas sustentar a circulação até o bloqueio regredir.

  • Primeiras medidas: interromper a progressão do bloqueio, elevar membros inferiores, ofertar oxigênio e expandir volume.
  • Vasopressor: bólus de 50 a 100 mcg ou de 5 a 10 mg; efedrina é preferida quando há bradicardia associada.
  • Bradicardia: 1 mg IV a cada 3–5 min (máx. 3 mg; AHA 2025); em caso de colapso iminente.
  • Suporte ventilatório: ventilação assistida ou intubação se houver comprometimento da musculatura respiratória.
  • Na gestante: somar sempre o deslocamento uterino para a esquerda; noradrenalina e fenilefrina são as opções habituais para preservar o fluxo uteroplacentário.

A evolução é habitualmente reversível com o término do efeito do anestésico, desde que o suporte seja adequado. A prevenção está na atenção à dose, à baricidade e ao posicionamento após a punção.

Fazer e evitar

Quase todos os erros de conduta nascem de duas inversões: tratar como neurogênico um choque que ainda pode ser hemorrágico, e tratar com volume um problema que é de tônus vascular. O resto é perder janelas — da cirurgia, da via aérea e da profilaxia.

Fazer

  • Afastar hemorragia antes de aceitar o diagnóstico.
  • Repor volume até a euvolemia e só então escalar vasopressor.
  • Registrar a meta de pressão arterial média em prescrição.
  • Instalar pressão arterial invasiva quando houver meta a cumprir.
  • Acionar a cirurgia de coluna nas primeiras horas.
  • Repetir e datar o exame neurológico.

Evitar

  • Expandir volume indefinidamente para corrigir vasoplegia.
  • Usar fenilefrina isolada em lesão cervical com bradicardia.
  • Confundir choque neurogênico com choque medular no prontuário.
  • Adiar a intubação em lesão cervical alta até a fadiga instalada.
  • Retardar a imagem da medula quando há déficit progressivo.
  • Prescrever corticoide de forma automática, sem discutir riscos.
  • Aplicar hipotensão permissiva em paciente com lesão medular.

Em 30 segundos

O essencial de cenários especiais

  1. Politraumatizado: hemorragia como prioridade, perfusão medular em paralelo, reavaliação seriada.
  2. Lesão cervical alta: antecipar a intubação; gestante: deslocamento uterino antes de tudo.
  3. Criança: lesão medular sem alteração radiográfica; idoso: síndrome medular central após queda da própria altura.
  4. Fase crônica: disreflexia autonômica — remova o estímulo (bexiga!) antes de medicar.

Politraumatizado

Hemorragia e lesão medular coexistem com frequência, e a bradicardia neurogênica pode mascarar o sangramento: a ausência de taquicardia não tranquiliza ninguém. A hemorragia é tratada como prioridade e a perfusão medular é sustentada em paralelo — os dois objetivos não competem, porque ambos exigem pressão adequada.

Aqui não há hipotensão permissiva: ela protege o coágulo, mas mata tecido medular viável. Reavalie de forma seriada, com hemoglobina e lactato, e volte a procurar sangramento sempre que a resposta ao vasopressor piorar.

Quando a ventilação está em jogo

Em dois cenários o maior risco não é a pressão, e sim a respiração. Na lesão cervical alta a falência é mecânica e previsível pelo nível; no Guillain-Barré, a fraqueza ascendente soma-se a uma disautonomia instável, que alterna crises hipertensivas e hipotensão. Em ambos, monitorar capacidade vital e força inspiratória orienta a intubação antes da fadiga.

Lesão cervical alta

Acima de C5 há comprometimento do diafragma; entre C5 e T1, perda da musculatura intercostal com respiração paradoxal. Antecipar a intubação com técnica que preserve o alinhamento cervical; monitorar capacidade vital e força inspiratória.

Guillain-Barré

Disautonomia com oscilação entre crises hipertensivas e hipotensão, além de arritmias. Monitorização contínua, cautela com drogas de meia-vida longa e vigilância da função respiratória.

Centro cirúrgico e gestação

No ambiente cirúrgico o choque neurogênico costuma ser iatrogênico e de instalação rápida, o que é uma vantagem: a causa é conhecida e a resposta precisa ser imediata. Na gestante, a compressão aortocava pelo útero se soma à vasoplegia e agrava a hipotensão — por isso o deslocamento uterino para a esquerda vem antes de qualquer outra medida.

Raquianestesia alta

Simpatectomia farmacológica com náusea, bradicardia e hipotensão em minutos. Elevar membros inferiores, expandir volume, vasopressor e atropina; suporte ventilatório se houver bloqueio motor alto.

Gestante

Deslocamento uterino para a esquerda antes de tudo. Vasopressor com atenção ao fluxo uteroplacentário.

Cirurgia de coluna eletiva

Perda de sinais no monitoramento neurofisiológico sugere sofrimento medular: elevar imediatamente a pressão arterial, junto com a revisão do gesto cirúrgico.

Criança e idoso

Nos extremos de idade, a imagem engana. A coluna elástica da criança permite lesão medular sem fratura visível, e o idoso com canal estreito lesa a medula por hiperextensão em quedas banais. Em ambos, o exame neurológico vale mais do que a tomografia normal, e as metas pressóricas precisam ser ajustadas ao paciente.

Criança

  • Pode haver lesão medular sem alteração radiográfica, pela elasticidade da coluna infantil.
  • Valorizar o exame neurológico mesmo com tomografia normal e considerar ressonância magnética.
  • Metas pressóricas ajustadas à idade.

Idoso

  • Síndrome medular central por hiperextensão em queda da própria altura, frequentemente sem fratura evidente.
  • Suspeitar diante de déficit maior em membros superiores que inferiores.
  • Metas pressóricas ponderadas pelo risco cardiovascular.

Compressão não traumática e fase crônica

Na compressão medular não traumática — tumor, abscesso ou hematoma epidural — o quadro é de déficit progressivo com dor prévia, e a conduta é imagem urgente e descompressão. Aqui o corticoide tem papel específico na compressão neoplásica, com lógica diferente do trauma.

Fase crônica: disreflexia autonômica

Após semanas, instala-se o risco de hipertensão paroxística grave. Identifique e remova o estímulo desencadeante — bexiga distendida é a causa mais comum — antes de medicar.

Erros comuns

Os erros mais graves são de diagnóstico: rotular a hipotensão como neurogênica antes de excluir hemorragia no politraumatizado, assumir que a ausência de taquicardia afasta sangramento ativo e confundir choque neurogênico (hemodinâmico) com choque medular (neurológico) ao registrar em prontuário. Os demais são de execução — e quase todos custam janela de tempo.

  • Expandir volume de forma indefinida para corrigir um problema que é de tônus vascular.
  • Usar fenilefrina isolada em lesão cervical, agravando a bradicardia por reflexo.
  • Não estabelecer nem registrar a meta de pressão arterial média na prescrição.
  • Manter apenas medida não invasiva intermitente em paciente com meta pressórica a cumprir.
  • Adiar a intubação em lesão cervical alta até que a fadiga respiratória se instale.
  • Retardar o acionamento da cirurgia de coluna e perder a janela de 24 horas.
  • Prescrever metilprednisolona automaticamente, sem discutir a controvérsia e os riscos.
  • Esquecer a profilaxia de tromboembolismo venoso em paciente com risco muito alto.
  • Não avaliar a preservação sacral e classificar a lesão como completa prematuramente.
  • Ignorar a poiquilotermia e deixar o paciente exposto por período prolongado.
  • Não sondar a bexiga e permitir distensão vesical, que é gatilho de bradicardia e de disreflexia.

Resumo do fluxo

Seja qual for o cenário, o raciocínio segue a mesma ordem: primeiro afastar o que mata mais rápido, depois confirmar o padrão e o nível, e só então sustentar a pressão e correr contra o relógio da descompressão.

  1. Sangramento primeiro

    Hipotensão no trauma: procure sangramento primeiro, sempre.

  2. Padrão

    Hipotensão com bradicardia e pele quente e seca sugere choque neurogênico.

  3. Confirme o déficit

    Confirme o déficit neurológico, defina o nível e registre o exame com horário.

  4. Volume

    Reponha volume até a euvolemia, em alíquotas e com reavaliação.

  5. Noradrenalina e atropina

    Inicie noradrenalina se a hipotensão persistir e trate a bradicardia sintomática com atropina.

  6. Meta de PAM

    Estabeleça a meta de pressão arterial média e monitore de forma invasiva.

  7. Via aérea

    Avalie a via aérea: lesão cervical alta exige antecipar a intubação.

  8. Cirurgia de coluna

    Acione a cirurgia de coluna: descompressão dentro de 24 horas melhora o desfecho.

  9. Suporte

    Mantenha os cuidados de suporte e reavalie o exame neurológico diariamente.

Lesão medular em si (classificação, imagem, cirurgia e reabilitação) é aprofundada no artigo Trauma Raquimedular.

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