MedFoco

Atlas de Oftalmologia • Cristalino

Afacia

Ausência do cristalino • aphakia

Ausência do cristalino no eixo visual. Quase sempre é adquirida — após cirurgia de catarata sem lente intraocular, trauma ou luxação da lente para o vítreo —; a forma congênita é rara. Sem o cristalino, o olho perde cerca de um terço do seu poder de foco: alta hipermetropia, nenhuma acomodação e iridodonese.

Alteração de posiçãoAlta hipermetropiaIridodoneseLente de contato ou LIO secundária
12–14 min de leitura Atualizado em outubro de 2026

Reconheça o achado

Imagem clínica

Afacia: pupila negra e profunda, sem o reflexo do cristalino; a íris perde o apoio e tremula. Toque para ampliar.

Principais achados
  1. 1
    Câmara anterior profunda, íris plana
  2. 2
    Iridodonese ao movimento ocular
  3. 3
    Ausência do reflexo do cristalino no corte óptico (só córnea e vítreo)
  4. 4
    Pupila muito negra; às vezes vítreo na câmara anterior
  5. 5
    Restos capsulares, anel de Soemmering ou pérolas de Elschnig
  6. 6
    Hipermetropia alta e perda da acomodação

Em 30 segundos

O essencial de visão geral

  1. Afacia = ausência do cristalino na área pupilar.
  2. Pseudofacia = cristalino substituído por lente intraocular; facia = cristalino natural presente.
  3. O cristalino responde por cerca de 15–20 D do poder refrativo do olho: sem ele, hipermetropia alta.
  4. Correção: óculos, lente de contato ou implante secundário de lente.

O que é afacia

Afacia descreve um olho sem cristalino no eixo visual. Pode ser total (retirado ou ausente) ou funcional (lente luxada para o vítreo, fora da pupila). O termo vale tanto para o adulto operado sem implante quanto para a criança deixada afácica de propósito após a cirurgia de catarata congênita.

Antes das lentes intraoculares, todo operado de catarata era afácico e usava os "óculos fundo de garrafa". Hoje a afacia é mais comum em cirurgia infantil, em complicações cirúrgicas com perda do suporte capsular e em traumas.

Afácico = hipermetrope alto e sem acomodação. Sem correção, o olho só enxerga vultos; com correção, a qualidade depende da opção óptica e da saúde da retina.

Causas

Cirúrgica

Cirurgia de catarata sem implante: infantil (planejada), intracapsular antiga, complicação com perda de suporte capsular, lensectomia via pars plana.

Traumática

Trauma perfurante com expulsão ou absorção da lente; contusão com luxação para o vítreo.

Luxação espontânea

Marfan, homocistinúria, pseudoexfoliação, catarata hipermadura: lente cai para o vítreo.

Congênita (rara)

Primária: o cristalino não se forma (associada a malformações graves). Secundária: a lente se forma e é reabsorvida (ex.: rubéola).

Em 30 segundos

O essencial de quadro clínico

  1. Visão muito borrada sem correção, para longe e perto.
  2. Com óculos: ampliação de ~25–30%, distorção e escotoma em anel ("jack-in-the-box").
  3. Unilateral com óculos: aniseiconia intolerável e diplopia.
  4. Cianopsia (visão azulada) pode ocorrer sem o filtro do cristalino.

Sintomas

Visão borrada

Imagem focada atrás da retina; melhora muito com +10 a +12 D.

Perda da leitura

Sem acomodação: adição para perto em qualquer idade.

Ampliação

Óculos aumentam a imagem em ~25–30%: objetos parecem mais perto.

Escotoma em anel

Borda da lente dos óculos cria faixa cega; objetos "saltam" no campo.

Aniseiconia

Afacia unilateral com óculos: imagens de tamanhos diferentes, diplopia.

Cianopsia

Mais luz azul chega à retina sem o filtro amarelado da lente.

Sinais ao exame

O exame mostra o que falta. Sem a lente, a íris perde o apoio posterior e tremula; o corte óptico não encontra as interfaces do cristalino; e as imagens de Purkinje III e IV (reflexos das superfícies da lente) desaparecem.

  • Câmara anterior profunda e íris plana ou levemente côncava.
  • Iridodonese após movimento rápido do olho.
  • Cicatriz de cirurgia (incisão corneana ou escleral), iridectomia periférica nas cirurgias antigas.
  • Restos capsulares, anel de Soemmering (córtex residual entre as cápsulas) ou cápsula posterior aberta.
  • Vítreo na câmara anterior ou na incisão em casos complicados.

Em 30 segundos

O essencial de diagnóstico

  1. Lâmpada de fenda: não há lente no eixo; avaliar restos capsulares (definem as opções de LIO).
  2. Refração: hipermetropia alta; ceratometria e biometria para a LIO secundária.
  3. Ultrassom B se a lente pode estar luxada no vítreo.
  4. PIO, gonioscopia, fundo de olho e OCT macular em todo afácico.

Avaliação do olho afácico

  1. História

    Cirurgia (idade, técnica, intercorrências), trauma, doença sistêmica (Marfan, homocistinúria).

  2. Acuidade e refração

    Com correção afácica; adição para perto.

  3. Biomicroscopia

    Suporte capsular (anel de cápsula anterior, cápsula posterior), vítreo na câmara anterior, endotélio corneano.

  4. Pressão intraocular e gonioscopia

    Glaucoma afácico, sinéquias anteriores periféricas.

  5. Fundo e mácula

    Retina periférica (descolamento), edema macular cistoide (OCT); ultrassom se lente no vítreo.

Afacia, pseudofacia ou subluxação?

CondiçãoAchado-chaveComo diferenciar
Pseudofacia
Achado-chaveLente intraocular no eixo
Como diferenciarÓptica da LIO visível e brilhante; refração próxima da emetropia.
Achado-chaveBorda da lente na pupila
Como diferenciarParte da pupila com lente e parte afácica; facodonese.
Achado-chaveLente presente que treme
Como diferenciarHá cristalino no eixo; o tremor é dele, não só da íris.
Achado-chavePupila "enorme"
Como diferenciarFalta a íris, não a lente; o equador do cristalino fica visível.

Galeria oftalmológica

Observe a profundidade da câmara anterior, a ausência de reflexos da lente e o que sobrou da cápsula — é isso que define onde uma futura lente intraocular poderá ser apoiada.

Pupila afácica

Pupila redonda e muito negra, sem o brilho do cristalino ou de uma LIO. A câmara anterior é profunda. Compare com o olho pseudofácico, em que a borda da óptica reflete a luz.

AfaciaInspeção

Corte óptico sem lente

O feixe da lâmpada de fenda atravessa a córnea, a câmara anterior e entra direto no vítreo, sem as faixas do cristalino.

Lâmpada de fendaCorte óptico

Restos capsulares e anel de Soemmering

Em retroiluminação, o anel de córtex residual preso entre as cápsulas na periferia. Um anel de cápsula preservado pode sustentar uma LIO no sulco.

Suporte capsularRetroiluminação

Óculos de afácico

Lentes positivas espessas ("fundo de garrafa") que ampliam o olho do paciente para quem o observa. Hoje usados sobretudo em crianças com afacia bilateral.

Correção ópticaBilateral

Em 30 segundos

O essencial de correção

  1. Bilateral: óculos são opção simples; lente de contato dá campo e imagem melhores.
  2. Unilateral: óculos causam aniseiconia → lente de contato ou LIO.
  3. Lactente: lente de contato após a cirurgia de catarata; LIO secundária anos depois.
  4. LIO secundária: saco/sulco se há cápsula; fixação escleral, iriana ou câmara anterior se não há.

Comparação das opções

OpçãoAmpliação aproximadaVantagensDesvantagens
Óculos de afácico~25–30%Baratos, fáceis de trocarEscotoma em anel, distorção, peso; inviáveis na unilateral
Lente de contato~7–10%Campo normal; tolerável na unilateral; ajustável na criançaManuseio, perdas, ceratite infecciosa
LIO secundáriaMínimaCorreção permanente, sem dependência diáriaCirurgia; riscos conforme o tipo de fixação

Valores aproximados de livros-texto; dependem da distância vértice e da refração.

Lente intraocular secundária

O local de apoio depende do que restou da cápsula. Com anel de cápsula anterior adequado, a lente vai para o sulco ciliar (ou para o saco reaberto). Sem suporte, as opções são fixação na esclera (com sutura ou técnicas intraesclerais sem sutura), fixação na íris ou lente de câmara anterior.

Sulco ou saco capsular

Quando há suporte capsular; mais fisiológico.

Fixação escleral

Sem suporte; hápticos presos na esclera. Risco de inclinação e exposição de sutura.

Fixação iriana

Lente presa ao estroma da íris (face anterior ou posterior).

Câmara anterior

Apoio no ângulo; exige câmara profunda e endotélio saudável.

Afacia na criança

Após cirurgia de catarata congênita no primeiro semestre, muitos serviços deixam o olho afácico e corrigem com lente de contato, trocando o grau à medida que o olho cresce. A LIO secundária costuma ser considerada após os primeiros anos. Em todas as fases, oclusão e adição para perto fazem parte do tratamento.

Lente de contato perdida ou mal adaptada em lactente = privação visual. Família precisa de treino e acesso rápido à reposição.

Em 30 segundos

O essencial de complicações

  1. Glaucoma afácico: risco duradouro, sobretudo após cirurgia no primeiro ano de vida.
  2. Descolamento de retina: maior com perda vítrea, miopia axial e trauma.
  3. Edema macular cistoide e ceratopatia bolhosa (vítreo em contato com o endotélio).
  4. Ambliopia na criança e ceratite associada à lente de contato.

O que vigiar

ComplicaçãoPor quêComo detectar
Glaucoma afácicoÂngulo imaturo e alterado pela cirurgia infantil; inflamação; vítreoPIO em toda consulta, gonioscopia, escavação, aumento do diâmetro corneano na criança
Glaucoma por bloqueio pupilarVítreo bloqueia a pupila (afacia sem iridectomia)Dor, PIO alta, íris abaulada
Descolamento de retinaMovimento do vítreo sem a barreira da lenteFlashes, moscas volantes, sombra no campo
Edema macular cistoideInflamação e tração vítreaBaixa visual tardia; OCT
Ceratopatia bolhosaVítreo ou LIO de CA lesando o endotélioEdema corneano, visão nublada pela manhã
Ceratite infecciosaUso de lente de contatoOlho vermelho doloroso, infiltrado
Glaucoma silencioso

Na criança afácica, o glaucoma pode surgir anos após a cirurgia, sem sintomas. Medir a pressão periodicamente por toda a vida.

Referências bibliográficas

  1. 1
    Livro-texto2025
    American Academy of Ophthalmology. Basic and Clinical Science Course (BCSC), Section 11: Lens and Cataract. San Francisco: AAO; 2024–2025.
  2. 2
    Livro-texto2025
    American Academy of Ophthalmology. Basic and Clinical Science Course (BCSC), Section 3: Clinical Optics and Vision Rehabilitation. San Francisco: AAO; 2024–2025.
  3. 3
    Livro-texto2025
    American Academy of Ophthalmology. Basic and Clinical Science Course (BCSC), Section 6: Pediatric Ophthalmology and Strabismus. San Francisco: AAO; 2024–2025.
  4. 4
    Livro-texto2020
    Bowling B. Kanski’s Clinical Ophthalmology: A Systematic Approach. 9. ed. Elsevier; 2020.
  5. 5
    Artigo2020
    Lambert SR, Cotsonis G, DuBois L, et al. Long-term effect of intraocular lens vs contact lens correction on visual acuity after cataract surgery during infancy: a randomized clinical trial. JAMA Ophthalmol. 2020;138(4):365–372.
  6. 6
    Livro-texto2023
    Yanoff M, Duker JS. Ophthalmology. 6. ed. Elsevier; 2023.

Fontes das imagens

As imagens deste atlas têm finalidade educacional e foram produzidas a partir de referências clínicas reais e de representações anatômicas didáticas.

Parte delas pode ter sido editada ou aprimorada digitalmente para destacar as estruturas e os achados descritos no texto.

Aviso importante

Material educacional. Não substitui a avaliação oftalmológica, os protocolos institucionais nem a consulta às bulas. A escolha entre lente de contato e implante secundário depende da idade, do suporte capsular e da saúde ocular; é decisão do especialista.

Atlas MedFoco de Oftalmologia • Conteúdo para educação médica. O diagnóstico e a conduta dependem da avaliação clínica individual.
Rolar para cima