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Atlas de Oftalmologia • Retina

Diálise retiniana

Desinserção da retina na ora serrata • retinal dialysis

Rotura circunferencial em que a retina se solta da ora serrata, ao longo da sua inserção anterior. É a rotura típica do jovem e do trauma ocular contuso: o vítreo continua preso à borda posterior, o descolamento costuma progredir devagar e muitas vezes só é descoberto meses depois.

Tipo
Rotura retiniana periférica
Estrutura
Retina na ora serrata
Mecanismo
Trauma ou fragilidade congênita
Pista no exame
Temporal inferior ou nasal superior
8–10 min de leitura Atualizado em outubro de 2026

Reconheça o achado

Na diálise, a borda anterior da rotura é a própria ora serrata — não há retina à frente dela. A borda posterior, lisa e sem retalho, continua presa ao gel vítreo, que costuma estar ainda formado (paciente jovem, sem DPV).

Imagem clínica

Figura 1. Diálise na periferia temporal inferior com descolamento raso de retina. Observe a borda posterior da rotura acompanhando a curva da ora, a retina descolada transparente e a linha de demarcação pigmentada, sinal de cronicidade.

Roteiro de observação
  1. 1
    LocalizaçãoTemporal inferior (forma espontânea do jovem) ou nasal superior (muito sugestiva de trauma).
  2. 2
    FormaDefeito circunferencial, paralelo à ora, de uma a várias horas de relógio, sem retalho tracionado.
  3. 3
    Retina descoladaDescolamento raso, que pode ser convexo e com pouca mobilidade; cistos intrarretinianos sugerem longa evolução.
  4. 4
    Linhas de demarcaçãoFaixas pigmentadas paralelas à ora marcam "paradas" do descolamento ao longo de meses.

O que é diálise retiniana

A diálise é uma rotura da retina na sua inserção anterior, a ora serrata. Difere da rotura em ferradura porque não depende do descolamento posterior do vítreo: aparece em jovens, com vítreo formado, por fragilidade periférica do desenvolvimento ou por trauma contuso que deforma o globo e arranca a retina na base vítrea.

Responde por uma fração pequena dos descolamentos regmatogênicos em geral, mas por uma parte importante dos descolamentos traumáticos e da população jovem. A evolução lenta faz com que muitos pacientes procurem atendimento só quando a mácula é atingida.

Depois de trauma contuso

Todo olho com contusão importante merece mapeamento da periferia com depressão escleral — logo que o olho permitir e de novo nas semanas seguintes. A diálise pode estar presente sem sintomas e o descolamento pode surgir meses depois.

Diálise, rotura gigante ou ferradura?

As três roturas podem ser grandes e periféricas. O que separa é a posição em relação à ora e o comportamento do vítreo.

Diálise

  • Na ora serrata
  • Vítreo preso à borda posterior
  • Jovem, trauma; evolução lenta

Rotura gigante

  • Posterior à ora, ≥ 90° (3 horas)
  • Vítreo descolado da borda posterior
  • Retalho que dobra; evolução rápida

Ferradura

  • Borda posterior da base vítrea
  • Retalho tracionado pelo vítreo
  • DPV agudo, 50–70 anos

Quatro apresentações da diálise

A diálise é extremamente periférica: muitas vezes só aparece com depressão escleral ou em imagens de campo amplo. Procure a borda posterior lisa paralela à ora e os sinais de cronicidade.

Diálise temporal inferior com descolamento

Rotura em arco ao longo da ora, no quadrante temporal inferior, com descolamento raso que avança em direção ao polo posterior. Em jovem sem trauma, é a apresentação clássica — vale examinar o outro olho, pois a forma espontânea pode ser bilateral.

Temporal inferiorJovemDescolamento raso

Linhas de demarcação

Faixas pigmentadas, paralelas à ora, no limite posterior da retina descolada. Indicam descolamento de meses ou anos. Não são uma "barreira" confiável: o descolamento pode ultrapassá-las.

CronicidadePigmento

Avulsão da base vítrea

Faixa acinzentada suspensa no vítreo, em "alça de balde" (bucket handle): é a base vítrea arrancada, com epitélio da pars plana e retina. É praticamente patognomônica de trauma contuso.

TraumaAlça de balde

Cistos intrarretinianos

Retina descolada de longa data, fina e com cistos (macrocistos). Junto com as linhas de demarcação, mostra que o descolamento é antigo e de progressão lenta.

MacrocistosDescolamento crônico

A diálise só é vista com pupila bem dilatada, oftalmoscopia indireta e depressão escleral (quando o olho permite, após trauma). O oftalmoscópio direto não alcança a ora serrata.

Exame passo a passo

  1. História

    Trauma contuso (bola, soco, elástico, acidente), mesmo meses antes; queixa vaga de sombra ou baixa visual lenta; poucas fotopsias (sem DPV).

  2. Segmento anterior

    Sinais de contusão: hifema, recessão angular, iridodiálise, anel de Vossius, facodonese.

  3. Oftalmoscopia indireta 360°

    Começar pelos quadrantes temporal inferior e nasal superior; procurar descolamento raso e linhas de demarcação.

  4. Depressão escleral

    Traz a ora para a vista e mostra a borda posterior lisa da diálise; adiar no trauma aberto ou com hifema recente.

  5. Olho contralateral

    Na forma espontânea temporal inferior, a diálise pode ser bilateral.

  6. Imagem complementar

    Retinografia de campo amplo documenta; ultrassom B quando há hemorragia vítrea; OCT se a mácula estiver ameaçada.

Como registrar

Modelo de registro

OE: diálise retiniana das 4 às 6 h (temporal inferior), na ora serrata, sem retalho. Descolamento de retina raso associado, até cerca de 3 diâmetros de disco da arcada temporal inferior, mácula colada. Linha de demarcação pigmentada. Vítreo formado, sem DPV. Sem avulsão de base vítrea. OD: periferia sem roturas.

Desenhe a extensão em horas de relógio e o limite do descolamento; registre se a mácula está colada ("mácula on") ou descolada.

Duas origens principais

A localização da diálise ajuda a inferir a causa: o quadrante nasal superior é exposto ao impacto direto no trauma, enquanto a forma espontânea prefere o temporal inferior.

Traumática

Contusão comprime o globo no sentido anteroposterior e estica o equador; a base vítrea traciona a ora. Mais em homens jovens. Nasal superior é muito sugestiva; temporal inferior também ocorre.

Espontânea (do desenvolvimento)

Jovens, sem trauma lembrado; geralmente temporal inferior; pode ser bilateral. Sugere fragilidade congênita da periferia.

Associações hereditárias

Vitreorretinopatias hereditárias (como a síndrome de Stickler) predispõem a roturas grandes e descolamentos no jovem.

Iatrogênica

Rara: entrada de instrumentos pela pars plana na vitrectomia pode causar diálise junto às esclerotomias.

Diferencial

CondiçãoAchado-chaveComo diferenciar
Rotura gigante
Achado-chave≥ 90° de extensão, posterior à ora
Como diferenciarHá retina anterior à rotura; borda posterior móvel, que se dobra.
Achado-chaveRetalho em U tracionado
Como diferenciarOcorre com DPV agudo em adultos; não fica na ora.
Achado-chaveElevação lisa, fixa, temporal inferior
Como diferenciarSem linha de demarcação; escotoma absoluto; laser branqueia a camada externa.
Achado-chaveRetina fina, cistos e demarcação
Como diferenciarProcurar a rotura causal: na ora, sugere diálise.
Ora serrata com baías e pérolas
Achado-chaveVariantes anatômicas da ora
Como diferenciarBaías fechadas e pérolas da ora não são roturas; não há descolamento.

A conduta depende de haver ou não descolamento. Por o vítreo estar formado e a rotura ser anterior, a introflexão escleral é a técnica clássica quando há descolamento.

Para onde cada cenário leva

CenárioConduta habitual
Diálise sem descolamentoRetinopexia (laser ou crioterapia) para selar a borda posterior; seguimento.
Diálise com descolamentoCirurgia de retina, em geral introflexão escleral (buckle) com crioterapia; vitrectomia em casos selecionados.
Trauma recente com hifema ou globo abertoTratar o trauma primeiro; mapeamento com depressão assim que for seguro.
Forma espontâneaExaminar o outro olho e tratar diálises encontradas.

Decisões cirúrgicas são do retinólogo. O prognóstico é bom quando a mácula ainda está colada.

Quando a diálise é urgência

  • Descolamento que se aproxima da mácula ou queda recente da acuidade.
  • Sombra no campo visual após trauma, mesmo meses depois.
  • Avulsão da base vítrea ou hemorragia vítrea pós-trauma sem visão da periferia.

Referências bibliográficas

  1. 1
    Diretriz2025
    Kim SJ, Bailey ST, Kovach JL, et al.; American Academy of Ophthalmology Preferred Practice Pattern Retina/Vitreous Committee. Posterior Vitreous Detachment, Retinal Breaks, and Lattice Degeneration Preferred Practice Pattern®. Ophthalmology. 2025;132(4):P163–P196.
  2. 2
    Livro-texto2025
    American Academy of Ophthalmology. Basic and Clinical Science Course (BCSC), Section 12: Retina and Vitreous. San Francisco: AAO; 2024–2025.
  3. 3
    Livro-texto2020
    Bowling B. Kanski’s Clinical Ophthalmology: A Systematic Approach. 9. ed. Elsevier; 2020.
  4. 4
    Livro-texto2023
    Yanoff M, Duker JS. Ophthalmology. 6. ed. Elsevier; 2023.
  5. 5
    Livro-texto2018
    Schachat AP, Wilkinson CP, Hinton DR, Sadda SR, Wiedemann P, eds. Ryan’s Retina. 6. ed. Elsevier; 2018.
  6. 6
    Revisão online2026
    EyeWiki — American Academy of Ophthalmology. Retinal Dialysis. Acesso em 2026.

Fontes das imagens

As imagens deste atlas têm finalidade educacional e foram produzidas a partir de referências clínicas reais e de representações anatômicas didáticas.

Parte delas pode ter sido editada ou aprimorada digitalmente para destacar as estruturas e os achados descritos no texto.

Aviso importante

Material educacional. Não substitui a avaliação oftalmológica, os protocolos institucionais nem a consulta às bulas.

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