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Atlas de Oftalmologia • Nervo Óptico

Escavação glaucomatosa

Aumento da escavação do disco óptico • glaucomatous cupping

Aumento da depressão central do disco óptico à custa do afinamento do anel neurorretiniano, pela perda de axônios das células ganglionares. O que define glaucoma não é o tamanho da escavação, e sim o padrão: anel fino nos polos, entalhe, assimetria entre os olhos e progressão.

Tipo
Achado de fundo de olho
Estrutura
Disco óptico (anel neural)
Mecanismo
Perda de axônios + remodelação
Pista no exame
Anel fino nos polos, E/D vertical
10–12 min de leitura Atualizado em outubro de 2026

Reconheça o achado

O disco óptico é a porta de saída de cerca de 1–1,2 milhão de axônios. O anel neurorretiniano (rosado) é feito desses axônios; a escavação (pálida, central) é o espaço sem fibras. No glaucoma, o anel afina e a escavação cresce — principalmente no sentido vertical.

Imagem clínica

Figura 1. Disco óptico com escavação glaucomatosa: relação escavação/disco vertical aumentada, anel neurorretiniano afinado no polo inferior e vasos que se curvam na borda da escavação.

Roteiro de observação
  1. 1
    Tamanho do discoDisco grande tem escavação grande (fisiológica); disco pequeno com escavação "moderada" já é suspeito.
  2. 2
    Anel neurorretinianoSiga a borda dos vasos, não a palidez. Veja se o anel respeita a ordem Inferior ≥ Superior ≥ Nasal ≥ Temporal (ISNT).
  3. 3
    Entalhe e hemorragiaProcure afinamento focal (notch) e hemorragia em chama na margem do disco.
  4. 4
    Vasos e fibrasVaso circunlinear desnudado, vaso em baioneta e defeito em cunha na camada de fibras nervosas.

Em 30 segundos

O essencial de visão geral

  1. Escavação glaucomatosa = anel neurorretiniano que afina; o número E/D sozinho não faz o diagnóstico.
  2. Sempre interpretar a escavação em relação ao tamanho do disco.
  3. Sinais de alarme: entalhe, hemorragia de disco, quebra da regra ISNT, assimetria de E/D ≥ 0,2 entre os olhos.
  4. O diagnóstico de glaucoma exige correlação com campo visual e/ou OCT, e com a pressão intraocular.

O que é a escavação glaucomatosa

Todo disco normal tem alguma escavação. Ela é fisiológica quando o anel neurorretiniano é íntegro, regular e segue a regra ISNT; seu tamanho depende sobretudo do tamanho do disco. A relação E/D vertical média fica em torno de 0,3–0,4, mas discos grandes podem ter E/D de 0,7 sem doença.

Na neuropatia óptica glaucomatosa, os axônios das células ganglionares morrem e a lâmina crivosa se deforma para trás. O anel afina — primeiro nos polos inferior e superior —, a escavação se aprofunda e se alonga verticalmente. É um sinal estrutural, que costuma preceder a perda detectável de campo visual.

Avalie o anel, não a escavação: largura em cada setor, entalhes, hemorragias e mudança ao longo do tempo. Uma escavação grande e estável num disco grande é normal; uma escavação "pequena" que cresceu é glaucoma.

Escavação fisiológica ou glaucomatosa?

A pergunta clássica do ambulatório é o "disco suspeito". Nenhum sinal isolado decide; a soma de sinais e, sobretudo, a documentação da progressão é que confirmam a doença.

A favor de fisiológica

  • Disco grande (macrodisco)
  • Anel íntegro e regular, regra ISNT preservada
  • Escavação redonda, simétrica entre os olhos
  • Sem hemorragia nem defeito de fibras
  • Estável em fotos e OCT seriados

A favor de glaucomatosa

  • Escavação vertical oval; anel fino nos polos
  • Entalhe (notch) focal do anel
  • Hemorragia em chama na margem do disco
  • Assimetria de E/D ≥ 0,2 entre os olhos
  • Defeito em cunha da camada de fibras; aumento documentado

Do disco normal à escavação total

Em cada imagem, siga o mesmo roteiro: tamanho do disco, contorno da escavação pelos vasos, largura do anel em cada setor e sinais focais (entalhe, hemorragia, vasos desnudados).

Escavação vertical com anel inferior fino

A escavação é mais alta que larga e o anel inferior ficou mais estreito que o superior: a regra ISNT foi quebrada. Repare como os vasos inferiores se dobram ao sair da escavação — é esse dobramento que marca a borda verdadeira.

RetinografiaRegra ISNTE/D vertical

Hemorragia de disco (de Drance)

Pequena hemorragia em chama cruzando a margem inferotemporal do disco. É transitória (semanas a meses) e marca progressão iminente no setor onde aparece; procure um entalhe ou defeito de fibras ali.

Hemorragia de discoSinal de progressãoSetor inferotemporal

Entalhe focal do anel (notch)

Afinamento localizado do anel no polo inferior, quase alcançando a margem do disco. O vaso que passa no entalhe pode ficar "desnudado" (circunlinear). Correlaciona-se com um defeito arqueado superior no campo visual.

NotchDefeito localizadoCorrelação com campo

Escavação quase total

E/D próximo de 0,9–1,0, anel reduzido a uma borda fina, vasos deslocados para o lado nasal e poros da lâmina crivosa visíveis no fundo. Fase avançada: o campo visual costuma estar reduzido a uma ilha central.

AvançadaLâmina crivosaVasos em baioneta

O mesmo disco em três exames

Retinografia ↔ OCT ↔ campo visual

A escavação ganha valor quando estrutura e função contam a mesma história.

OCT

OCT da camada de fibras nervosas peripapilar: afinamento inferotemporal (setor em vermelho) no mesmo olho da foto-1.

Examine o disco com estereopsia (lâmpada de fenda com lente de 78/90 D, de preferência com pupila dilatada) e documente com retinografia e OCT. O oftalmoscópio direto dá uma visão plana e subestima a escavação.

Os cinco "R" do disco, passo a passo

  1. Reconhecer a margem do disco (tamanho)

    Identifique o anel escleral de Elschnig. Meça o diâmetro vertical com a fenda (corrigindo pela lente): pequeno < 1,5 mm, médio 1,5–2,2 mm, grande > 2,2 mm (lente de 66–78 D, aproximado).

  2. Rim — o anel neurorretiniano

    Defina a borda da escavação pela curvatura dos vasos. Avalie a largura em cada setor (regra ISNT) e procure entalhes.

  3. Retina peripapilar e fibras

    Com luz anerita (verde), procure defeitos em cunha escuros na camada de fibras, sobretudo nos arcos temporais.

  4. Região de atrofia peripapilar

    Atrofia beta (esclera e vasos coroideus visíveis junto ao disco) é mais comum e maior no glaucoma.

  5. Rastrear hemorragias

    Hemorragias em chama na margem do disco são fáceis de perder; procure em toda a circunferência.

Regra ISNT

Em discos normais, o anel costuma ser mais largo no setor Inferior, depois Superior, Nasal e Temporal. A violação dessa ordem sugere glaucoma, mas a regra tem exceções (discos inclinados, míopes, algumas etnias).

Medir e graduar

A relação E/D vertical é a medida mais citada, mas depende do tamanho do disco. Escalas como a Disc Damage Likelihood Scale (DDLS) graduam a menor largura do anel em relação ao diâmetro do disco e corrigem esse viés.

ParâmetroComo medirO que sugere glaucoma
E/D verticalAltura da escavação ÷ altura do discoValor alto para o tamanho do disco; aumento documentado ao longo do tempo
Assimetria E/DDiferença entre os olhos≥ 0,2 (com discos de tamanho semelhante)
DDLSMenor largura do anel ÷ diâmetro do disco, por tamanho de discoEstágios mais altos = anel mais fino ou ausente em algum setor
OCT — CFNR peripapilarEspessura média e por setor vs. banco normativoAfinamento setorial, sobretudo inferotemporal e superotemporal
OCT — BMO-MRWMenor distância da abertura da membrana de Bruch à membrana limitante internaRedução da largura mínima do anel

Banco normativo não inclui todas as populações; alta miopia e discos inclinados geram "doença vermelha" falsa no OCT.

Como registrar

Modelo de registro

Disco óptico OD: tamanho médio, contorno nítido, corado. E/D vertical 0,7 / horizontal 0,5. Anel neurorretiniano afinado no setor inferotemporal com entalhe às 7 h; hemorragia em chama na margem inferotemporal. Defeito em cunha da CFNR inferotemporal. Atrofia peripapilar beta temporal. OE: E/D 0,4, anel íntegro, ISNT preservada. Assimetria de E/D 0,3.

Desenhe ou fotografe o disco: a comparação com o exame anterior é o que mostra progressão.

Quando a escavação cresce

A escavação glaucomatosa aparece em todas as formas de glaucoma. A pressão intraocular é o principal fator de risco modificável, mas o dano também ocorre com pressão normal.

Glaucoma primário de ângulo aberto

Forma mais comum; crônica, assintomática até fases avançadas. Escavação progressiva bilateral, muitas vezes assimétrica.

Glaucoma de pressão normal

Dano típico com PIO dentro da faixa normal. Mais hemorragias de disco e entalhes focais; mais comum em asiáticos e em pacientes com vasoespasmo e enxaqueca.

Glaucoma de ângulo fechado

Crise aguda pode deixar palidez maior que a escavação; formas crônicas escavam como o ângulo aberto.

Glaucomas secundários

Pseudoexfoliativo, pigmentar, neovascular, uveítico, cortisônico, pós-trauma (recessão angular).

Glaucoma congênito / infantil

Escavação que pode regredir após o controle da pressão (o tecido conjuntivo é elástico). Buftalmo, estrias de Haab, lacrimejamento.

Diferencial: escavação que não é glaucoma

A pista mais útil é a cor do anel: no glaucoma, o anel remanescente costuma ser rosado; palidez maior que a escavação sugere neuropatia óptica não glaucomatosa e pede investigação neurológica.

CondiçãoAchado-chaveComo diferenciar
Escavação fisiológica (macrodisco)
Achado-chaveDisco grande, escavação redonda
Como diferenciarAnel íntegro, ISNT preservada, simétrico e estável no seguimento.
Achado-chaveFase final da mesma doença
Como diferenciarEscavação total com palidez do pouco anel restante e grande perda de campo.
Achado-chavePalidez > escavação, perda de cor
Como diferenciarAcuidade e cores pioram cedo; defeito de campo respeita o meridiano vertical. Ressonância.
Neuropatia isquêmica arterítica (sequela)
Achado-chaveEscavação + palidez após perda súbita
Como diferenciarHistória de perda visual súbita; arterite de células gigantes no idoso.
Achado-chaveEscavação inferior congênita, branca
Como diferenciarPresente desde o nascimento, não progride; pode haver coloboma de íris/coroide.
Achado-chaveEscavação em funil com tufo glial
Como diferenciarDisco aumentado, vasos radiados, unilateral e congênito.
Fosseta do disco óptico
Achado-chaveDepressão cinzenta focal, geralmente temporal
Como diferenciarCongênita; pode causar descolamento seroso macular.

A escavação suspeita não se trata isoladamente: ela abre a investigação de glaucoma. O tratamento (baixar a PIO) é discutido no artigo Atrofia glaucomatosa (neuropatia óptica glaucomatosa).

Do disco suspeito ao diagnóstico

CenárioConduta inicial
E/D aumentada, anel íntegro, disco grandeDocumentar (retinografia, OCT basal) e acompanhar; orientar exame periódico.
Sinais suspeitos (entalhe, assimetria, hemorragia)Tonometria, gonioscopia, paquimetria, perimetria automatizada e OCT de CFNR/disco.
Dano estrutural + defeito de campo correspondenteDiagnóstico de glaucoma: definir PIO-alvo e iniciar tratamento.
Palidez desproporcional, perda de cor ou acuidade, defeito que respeita o meridiano verticalInvestigar neuropatia não glaucomatosa: ressonância de crânio e órbitas.

Paciente < 50 anos, escavação unilateral, PIO normal, palidez do anel ou acuidade reduzida: não rotular como glaucoma antes de excluir compressão do nervo ou do quiasma.

Referências bibliográficas

  1. 1
    Diretriz2021
    Gedde SJ, Vinod K, Wright MM, et al. Primary Open-Angle Glaucoma Preferred Practice Pattern®. Ophthalmology. 2021;128(1):P71–P150.
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    Diretriz2021
    European Glaucoma Society. Terminology and Guidelines for Glaucoma, 5th Edition. Br J Ophthalmol. 2021;105(Suppl 1):1–169.
  3. 3
    Livro-texto2025
    American Academy of Ophthalmology. Basic and Clinical Science Course (BCSC), Section 10: Glaucoma. San Francisco: AAO; 2024–2025.
  4. 4
    Livro-texto2020
    Bowling B. Kanski’s Clinical Ophthalmology: A Systematic Approach. 9. ed. Elsevier; 2020.
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    Jonas JB, Budde WM, Panda-Jonas S. Ophthalmoscopic evaluation of the optic nerve head. Surv Ophthalmol. 1999;43(4):293–320.
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  7. 7
    Artigo2014
    Weinreb RN, Aung T, Medeiros FA. The pathophysiology and treatment of glaucoma: a review. JAMA. 2014;311(18):1901–1911.
  8. 8
    Revisão online2026
    EyeWiki — American Academy of Ophthalmology. Optic Disc Evaluation in Glaucoma. Acesso em 2026.

Fontes das imagens

As imagens deste atlas têm finalidade educacional e foram produzidas a partir de referências clínicas reais e de representações anatômicas didáticas.

Parte delas pode ter sido editada ou aprimorada digitalmente para destacar as estruturas e os achados descritos no texto.

Aviso importante

Material educacional. Não substitui a avaliação oftalmológica, os protocolos institucionais nem a consulta às bulas.

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