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Retinopatia de Purtscher

Purtscher retinopathy • retinopatia Purtscher-like (sem trauma)

Microangiopatia oclusiva aguda da retina que surge após trauma (sobretudo compressão torácica ou craniana) ou, na forma Purtscher-like, após pancreatite aguda, embolia gordurosa, parto, doenças autoimunes e microangiopatias trombóticas. O fundo de olho mostra manchas algodonosas, hemorragias e as típicas Purtscher flecken no polo posterior.

Retina — polo posteriorTrauma ou pancreatiteManchas algodonosas + fleckenTratar a causa
11–13 min de leitura Atualizado em outubro de 2026

Reconheça o achado

Imagem clínica

Retinopatia de Purtscher: manchas algodonosas e Purtscher flecken ao redor do disco, com hemorragias intrarretinianas. Toque para ampliar.

Principais achados
  1. 1
    Manchas algodonosas múltiplas ao redor do disco e na mácula
  2. 2
    Purtscher flecken: áreas poligonais de branqueamento retiniano com faixa clara junto às arteríolas
  3. 3
    Hemorragias intrarretinianas em número pequeno a moderado
  4. 4
    Pseudomancha vermelho-cereja em casos com isquemia macular
  5. 5
    Edema de disco discreto em alguns casos
  6. 6
    Frequentemente bilateral

Em 30 segundos

O essencial de visão geral

  1. Microangiopatia oclusiva aguda das arteríolas pré-capilares da retina.
  2. Purtscher clássica: após trauma; Purtscher-like: pancreatite, parto, autoimunes, microangiopatias, embolia gordurosa.
  3. Tríade de fundo de olho: manchas algodonosas, Purtscher flecken e hemorragias no polo posterior.
  4. Sem tratamento ocular comprovado; prognóstico variável.

O que é

Otmar Purtscher descreveu em 1910 áreas brancas e hemorragias na retina de um homem que caíra de uma árvore e batera a cabeça. Depois, quadros idênticos foram vistos sem trauma, em pancreatite, parto, lúpus e outras condições: são chamados de Purtscher-like.

O mecanismo mais aceito é a ativação do complemento (C5a), que agrega leucócitos e forma microêmbolos que ocluem arteríolas de 20–100 µm. Êmbolos de gordura, fibrina, plaquetas ou líquido amniótico também participam, conforme a causa.

As Purtscher flecken são o sinal mais específico: branqueamento poligonal da retina interna com uma faixa clara de cerca de 50 µm preservada junto às arteríolas e vênulas.

Causas

Na revisão sistemática de Miguel et al. (2013), trauma e pancreatite aguda foram as causas mais frequentes. A incidência estimada é baixa, da ordem de 0,24 casos por milhão de habitantes por ano no Reino Unido (Agrawal e McKibbin, 2007), possivelmente subestimada.

Trauma

Compressão torácica, trauma craniano, fraturas de ossos longos (embolia gordurosa), manobras de reanimação.

Pancreatite aguda

Alcoólica ou biliar; também carcinoma de pâncreas.

Obstétricas

Pré-eclâmpsia, HELLP, embolia de líquido amniótico, parto.

Autoimunes

Lúpus, dermatomiosite, esclerodermia, vasculites.

Hematológicas

PTT, SHU, outras microangiopatias trombóticas.

Renais e outras

Insuficiência renal crônica, procedimentos (injeções periorbitárias de corticoide, bloqueios).

Em 30 segundos

O essencial de quadro clínico

  1. Perda visual indolor, súbita, em 24–48 h após o evento desencadeante.
  2. Uni ou bilateral (bilateral em boa parte dos casos).
  3. Acuidade varia de 20/20 a conta-dedos; escotomas centrais ou paracentrais.
  4. Achados restritos ao polo posterior.

Sintomas e sinais

Os sintomas dependem de quanto a mácula e o disco foram atingidos. Defeito pupilar aferente relativo pode estar presente quando o acometimento é assimétrico.

Baixa visual súbita

Indolor; horas a 2 dias após o evento.

Escotomas

Centrais, paracentrais ou arqueados.

Algodonosas

Achado mais frequente (cerca de 9 em cada 10 casos na revisão de 2013).

Purtscher flecken

Presentes em cerca de 6 em cada 10 casos; muito sugestivas.

Hemorragias

Em chama de vela ou pontuais, em número moderado.

Pseudomancha vermelho-cereja

Quando a isquemia envolve a mácula.

Evolução no tempo

  1. 0–48 h

    Algodonosas, flecken e hemorragias aparecem.

  2. Semanas

    Branqueamento começa a regredir.

  3. 1–3 meses

    Lesões desaparecem; pode restar palidez do disco.

  4. Sequela

    Afinamento da retina interna, atrofia óptica, escotomas.

Em 30 segundos

O essencial de diagnóstico

  1. Diagnóstico clínico com critérios (≥ 3 de 5).
  2. OCT: hiper-refletividade e espessamento da retina interna na fase aguda; afinamento depois.
  3. Angiografia: não perfusão de arteríolas e capilares, vazamento tardio.
  4. Sem causa evidente: investigar pancreatite, microangiopatia trombótica, lúpus e doença renal.

Critérios diagnósticos (≥ 3 de 5)

Propostos na revisão sistemática de Miguel et al. (2013) e usados até hoje em relatos e séries:

  • Purtscher flecken.
  • Hemorragias retinianas em número baixo a moderado (1 a 10).
  • Manchas algodonosas, em geral restritas ao polo posterior.
  • Causa provável ou plausível.
  • Exames complementares compatíveis com o diagnóstico.

Exames complementares

OCT

Retina interna hiper-refletiva e espessada; na evolução, afinamento da camada de células ganglionares.

Angiofluoresceinografia

Oclusão arteriolar e capilar, áreas de não perfusão, vazamento tardio.

Laboratório

Amilase/lipase, hemograma com esfregaço, LDH, haptoglobina, creatinina, complemento, FAN.

Exame

OCT na fase aguda

Faixas hiper-refletivas na camada plexiforme interna e de fibras nervosas correspondendo às áreas brancas do fundo.

Diagnóstico diferencial

CondiçãoAchado-chaveComo diferenciar
Achado-chaveBranqueamento difuso + mancha vermelho-cereja
Como diferenciarUnilateral, sem flecken; idoso com fatores vasculares.
Achado-chaveAlgodonosas, hemorragias, estrela macular
Como diferenciarPA muito elevada; alterações arteriolares crônicas.
Achado-chaveMicroaneurismas e exsudatos
Como diferenciarEvolução crônica; diabetes.
Retinopatia por HIV / anemia / leucemia
Achado-chaveAlgodonosas e hemorragias
Como diferenciarContexto sistêmico; hemograma e sorologias.
Achado-chaveBranqueamento após trauma ocular direto
Como diferenciarRetina externa, sem algodonosas; trauma contuso no olho.
Síndrome de Terson
Achado-chaveHemorragias intraoculares após hemorragia subaracnóidea
Como diferenciarHemorragia vítrea/sub-hialoide, sem flecken.

Galeria

Procure a distribuição peripapilar e macular das lesões e a faixa clara ao lado dos vasos nas áreas brancas — o detalhe que diferencia flecken de manchas algodonosas.

Purtscher após trauma torácico

Múltiplas manchas algodonosas e áreas de branqueamento ao redor do disco, com poucas hemorragias. Compare os dois olhos: o envolvimento costuma ser bilateral.

TraumaBilateralPolo posterior

Purtscher flecken em detalhe

Áreas poligonais brancas entre os vasos, com uma faixa de retina normal acompanhando as arteríolas. As algodonosas, ao contrário, ficam sobre os vasos e têm bordas felpudas.

FleckenSinal específico

Purtscher-like na pancreatite

Quadro idêntico ao traumático em paciente com pancreatite aguda. A história, não o fundo de olho, define o termo "like".

PancreatitePurtscher-like

Fase de resolução

Semanas depois: lesões brancas quase desaparecidas, disco discretamente pálido. A OCT mostrará afinamento da retina interna.

EvoluçãoSequela

Em 30 segundos

O essencial de tratamento

  1. Tratar a causa sistêmica (pancreatite, trauma, MAT, lúpus).
  2. Nenhuma terapia ocular tem benefício comprovado em estudo controlado.
  3. Corticoide sistêmico em altas doses: relatos isolados, evidência fraca.
  4. Seguimento oftalmológico com OCT para documentar a evolução.

O que se sabe

Como a doença é rara e heterogênea, não há ensaios clínicos. Séries de casos não demonstraram diferença consistente entre pacientes tratados com corticoide e observados. Outras abordagens relatadas (oxigênio hiperbárico, plasmaférese em MAT, inibidores do complemento) dependem da doença de base.

Fazer

  • Identificar e tratar a causa
  • Excluir microangiopatia trombótica
  • Documentar com retinografia e OCT
  • Orientar sobre o prognóstico

Considerar caso a caso

  • Corticoide sistêmico (decisão compartilhada; evidência fraca)
  • Terapias específicas da doença de base

Evolução visual

As lesões agudas regridem em 1 a 3 meses. Parte dos olhos recupera visão útil; outros estabilizam com escotomas. Atrofia óptica e afinamento da retina interna explicam os escotomas residuais.

93%Manchas algodonosas (achado mais frequente)
63%Purtscher flecken
65%Hemorragias retinianas

Números da revisão sistemática de Miguel et al., Eye 2013 (68 casos, 110 olhos). Na mesma revisão, não houve diferença significativa de ganho visual entre corticoide e observação.

Referências bibliográficas

  1. 1
    Artigo2013
    Miguel AI, Henriques F, Azevedo LF, Loureiro AJ, Maberley DA. Systematic review of Purtscher’s and Purtscher-like retinopathies. Eye (Lond). 2013;27(1):1–13.
  2. 2
    Artigo2006
    Agrawal A, McKibbin MA. Purtscher’s and Purtscher-like retinopathies: a review. Surv Ophthalmol. 2006;51(2):129–136.
  3. 3
    Artigo2007
    Agrawal A, McKibbin M. Purtscher’s retinopathy: epidemiology, clinical features and outcome. Br J Ophthalmol. 2007;91(11):1456–1459.
  4. 4
    Revisão online2026
    EyeWiki — American Academy of Ophthalmology. Purtscher Retinopathy and Purtscher-like Retinopathy. Acesso em 2026.
  5. 5
    Livro-texto2020
    Bowling B. Kanski’s Clinical Ophthalmology: A Systematic Approach. 9. ed. Elsevier; 2020.
  6. 6
    Livro-texto2025
    American Academy of Ophthalmology. Basic and Clinical Science Course (BCSC), Section 12: Retina and Vitreous. San Francisco: AAO; 2024–2025.

Fontes das imagens

As imagens deste atlas têm finalidade educacional e foram produzidas a partir de referências clínicas reais e de representações anatômicas didáticas.

Parte delas pode ter sido editada ou aprimorada digitalmente para destacar as estruturas e os achados descritos no texto.

Aviso importante

Material educacional. Não substitui a avaliação oftalmológica, os protocolos institucionais nem a consulta às bulas. Não há tratamento ocular padronizado; condutas sistêmicas dependem da doença de base e da equipe assistente.

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