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Coloboma de íris

Coloboma uveal • pupila em buraco de fechadura • iris coloboma

Falha congênita de tecido causada pelo fechamento incompleto da fissura óptica embrionária. Na íris, deixa a pupila em forma de buraco de fechadura, quase sempre na posição inferonasal. A íris é só a parte visível: o exame precisa procurar coloboma de corpo ciliar, cristalino, coroide, retina e nervo óptico — e síndromes associadas.

Íris e úveaCongênitoGenético (isolado ou sindrômico)Fundo de olho obrigatório
14–17 min de leitura Atualizado em outubro de 2026

Reconheça o achado

Imagem clínica

Coloboma de íris típico: defeito inferior contínuo com a pupila, dando o aspecto de buraco de fechadura. Toque para ampliar.

Principais achados
  1. 1
    Pupila em gota, fenda ou buraco de fechadura
  2. 2
    Defeito inferonasal, contínuo com a margem pupilar
  3. 3
    Esfíncter e borda pupilar interrompidos no setor do defeito
  4. 4
    Fotofobia e ofuscamento quando a abertura é ampla
  5. 5
    Coloboma de coroide: área branca, escavada, com esclera à vista, abaixo do disco
  6. 6
    Microftalmia, microcórnea ou nistagmo em casos extensos

Em 30 segundos

O essencial de visão geral

  1. Coloboma é falta de tecido por fechamento incompleto da fissura óptica (5ª–7ª semana de gestação).
  2. O coloboma típico é inferonasal: pupila em gota ou buraco de fechadura.
  3. Pode envolver íris, corpo ciliar, cristalino (entalhe), coroide, retina e nervo óptico — isolados ou combinados.
  4. Parte importante dos casos tem outras anomalias; pense em CHARGE e examine sempre o fundo de olho dos dois olhos.

O que é coloboma

Coloboma (do grego koloboma, "mutilado") é uma ausência localizada de tecido ocular. O coloboma uveal típico resulta da falha de fusão das bordas da fissura óptica e, por isso, sempre segue a mesma linha: inferonasal na íris e abaixo do disco óptico no fundo.

Na íris pode ser completo (o defeito vai da pupila até a raiz da íris) ou incompleto (um entalhe na margem pupilar, ou uma ponte de estroma com o epitélio pigmentado preservado). Coloboma fora da posição inferonasal é chamado atípico e tem outros mecanismos.

Coloboma de íris é a ponta do iceberg: o que define a visão é o que está atrás — coroide, mácula e nervo óptico. Todo paciente precisa de fundo de olho sob midríase nos dois olhos.

Epidemiologia

O coloboma uveal é raro, mas responde por uma parcela relevante da cegueira infantil. É bilateral em boa parte dos casos e frequentemente faz parte do espectro microftalmia–anoftalmia–coloboma (MAC).

0,5–2,6Casos por 10.000 nascimentos (coloboma uveal)
até 10%Da cegueira infantil em algumas séries
5ª–7ª semJanela de fechamento da fissura óptica

Em 30 segundos

O essencial de quadro clínico

  1. Íris: pupila em fechadura; fotofobia e ofuscamento proporcionais ao tamanho da abertura.
  2. Cristalino: entalhe inferior por falta de zônula (coloboma do cristalino).
  3. Coroide e retina: área branca escavada abaixo do disco; escotoma no campo superior.
  4. Nervo óptico ou mácula envolvidos: baixa visual importante, nistagmo e estrabismo.

Onde o coloboma aparece

Como a fissura percorre o olho inteiro, o defeito pode aparecer em qualquer ponto dessa linha — às vezes só na íris, às vezes só no fundo, às vezes em toda a extensão. A apresentação clínica depende do segmento que falta.

Íris

Pupila em gota ou fechadura, inferonasal. Completo ou incompleto (entalhe da margem).

Corpo ciliar e zônula

Falta de zônula no setor inferior; o cristalino fica achatado ali.

Cristalino

Entalhe na borda inferior (coloboma do cristalino); pode haver astigmatismo lenticular.

Coroide e retina

Área branca, bem delimitada, escavada, com vasos na borda; retina fina e displásica por cima.

Mácula

Se o defeito alcança a fóvea, a acuidade é baixa desde o nascimento.

Nervo óptico

Escavação inferior do disco; diferencial com morning glory e fosseta.

Sintomas e sinais

Muitos colobomas de íris isolados são assintomáticos e só chamam atenção pela forma da pupila. Quando a abertura é grande, entra mais luz e a imagem fica menos nítida — o mesmo efeito de uma pupila dilatada.

  • Alteração estética da pupila, notada pelos pais
  • Fotofobia e ofuscamento; às vezes diplopia monocular (duas aberturas por onde passa luz)
  • Baixa visual quando há acometimento de mácula ou nervo óptico
  • Defeito de campo visual superior, correspondente ao coloboma inferior de coroide
  • Nistagmo e estrabismo em casos bilaterais com baixa visão
  • Microftalmia e microcórnea associadas em casos graves

Genética e síndromes associadas

A maioria dos colobomas isolados não tem causa identificada, mas dezenas de genes do desenvolvimento ocular já foram implicados. Coloboma bilateral, com microftalmia ou com malformações em outros órgãos indica avaliação genética. Fatores ambientais (álcool, talidomida, deficiência de vitamina A, infecções congênitas) também são descritos.

CondiçãoGene / alteraçãoPistas
Síndrome CHARGECHD7 (maioria)Coloboma, cardiopatia, atresia de coanas, atraso de crescimento, anomalias genitais e de orelha/surdez
Espectro MAC isoladoSOX2, OTX2, PAX6, SHH, MAB21L2 e outrosMicroftalmia/anoftalmia no mesmo paciente ou na família
Síndrome papilorrenalPAX2Coloboma/displasia do disco + hipoplasia renal: pedir função renal e ultrassom
Síndrome do olho de gatoTetrassomia parcial do 22q11Coloboma de íris, atresia anal, apêndices pré-auriculares
Trissomia do 13 (Patau)CromossômicaMicroftalmia, coloboma, fenda labiopalatina, polidactilia
Hipoplasia dérmica focal (Goltz)PORCNLesões de pele lineares, alterações de membros e dentes

Lista didática, não exaustiva. Painéis genéticos de MAC estão disponíveis em centros de referência.

Em 30 segundos

O essencial de diagnóstico

  1. Diagnóstico clínico, pela forma e posição do defeito.
  2. Fundo de olho sob midríase nos dois olhos é obrigatório.
  3. Exames de imagem documentam o polo posterior; genética e avaliação sistêmica conforme o contexto.

Roteiro de avaliação

A sequência abaixo garante que nada da fissura passe despercebido. Na criança pequena, o exame sob sedação pode ser necessário para ver bem o fundo.

  1. História

    Presente desde o nascimento? Familiares com coloboma ou microftalmia? Exposições na gestação, prematuridade, malformações conhecidas.

  2. Função visual

    Acuidade adequada à idade, refração sob cicloplegia (astigmatismo e anisometropia), motilidade, nistagmo.

  3. Biomicroscopia

    Extensão do defeito na íris, transiluminação, diâmetro corneano, entalhe do cristalino (melhor visto sob midríase).

  4. Fundo de olho

    Coloboma de coroide (local, tamanho, relação com mácula e disco), retina, disco óptico. Comparar com o outro olho.

  5. Imagem

    Retinografia de campo amplo para documentar; OCT para mácula e bordas; ultrassom B quando o fundo não é visível ou há suspeita de descolamento.

  6. Avaliação sistêmica

    Pediatria e genética; conforme as pistas, ecocardiograma, audiometria, ultrassom renal, avaliação de coanas.

Diagnóstico diferencial

Nem todo defeito de íris é coloboma. A posição inferonasal, a presença desde o nascimento e a ausência de sinais de trauma ou cirurgia são o que sustenta o diagnóstico.

CondiçãoAchado-chaveComo diferenciar
Iridectomia cirúrgica
Achado-chaveDefeito periférico, em geral superior
Como diferenciarHistória de cirurgia (glaucoma, catarata); bordas retas.
Iridodiálise
Achado-chaveDesinserção na raiz da íris
Como diferenciarTrauma; abertura na periferia com pupila em "D".
Achado-chaveAusência quase total da íris, bilateral
Como diferenciarCoto de íris visível só na gonioscopia; hipoplasia foveal, nistagmo; PAX6.
Achado-chaveMais de uma abertura
Como diferenciarAbertura separada da pupila; ICE e Axenfeld-Rieger são causas de pseudopolicoria.
Achado-chavePupila deslocada, redonda
Como diferenciarNão falta tecido: a pupila só está fora do centro.
Síndrome iridocorneoendotelial
Achado-chaveAtrofia e buracos de íris adquiridos
Como diferenciarAdulto, unilateral, endotélio em "metal batido", sinéquias anteriores e glaucoma.

Quatro apresentações do coloboma de íris

Use as legendas como roteiro: posição do defeito, continuidade com a pupila, extensão até a raiz da íris e o que mais olhar no mesmo olho.

Entalhe discreto da margem pupilar

Íris castanha com pupila levemente alongada para baixo, como uma gota curta. É o coloboma incompleto: a falha é pequena e pode passar despercebida. Compare com o outro olho e examine o fundo — colobomas posteriores podem existir com íris quase normal.

IncompletoInferiorFácil de perder

Buraco de fechadura completo

Íris âmbar com a pupila prolongada até a periferia inferior, em fechadura. Observe a borda pupilar que continua pelas margens do defeito e a ausência de estroma no setor — o defeito chega à raiz da íris (coloboma completo).

CompletoFechaduraTípico

Pupila em gota invertida

Pupila larga que se afunila para baixo. A hiperemia conjuntival desta foto não faz parte do coloboma: num olho vermelho com pupila irregular, afaste causas adquiridas (sinéquias de uveíte, trauma) antes de chamar o defeito de congênito.

GotaDiferencialOlho vermelho

Pupila excêntrica com defeito inferior

Íris castanho-escura com pupila oval deslocada para baixo e pequeno prolongamento. Diferencie de corectopia (pupila deslocada, sem falta de tecido): no coloboma, a margem pupilar e o esfíncter estão interrompidos no setor do defeito.

ExcêntricaCorectopia?Esfíncter

O que procurar no fundo de olho

Achado associado

Coloboma de coroide e retina

Área branca, escavada e bem delimitada abaixo do disco óptico, onde se vê a esclera. A retina sobre ela é fina e displásica; descolamentos de retina podem começar por roturas dentro ou na borda do coloboma.

  • Relação com a mácula e com o disco
  • Pigmento e vasos na borda
  • Sinais de descolamento de retina

Em 30 segundos

O essencial de tratamento

  1. Não há tratamento farmacológico para o defeito em si.
  2. Prioridade na criança: refração, oclusão e prevenção de ambliopia.
  3. Fotofobia e estética: lentes de contato de íris pintada, óculos com filtro, cirurgia em casos selecionados.
  4. Coloboma de coroide: seguimento do fundo de olho e tratamento rápido de descolamento de retina.

Reabilitação visual

O objetivo é dar ao olho a melhor visão que a anatomia permite. Na criança, isso significa corrigir o erro refrativo cedo e tratar a ambliopia enquanto o sistema visual ainda é plástico.

Correção óptica

Óculos para astigmatismo e anisometropia (frequentes com entalhe do cristalino e microftalmia).

Oclusão

Tampão do olho melhor quando há ambliopia, com seguimento regular.

Fotofobia

Lentes de contato de íris pintada (pupila artificial), lentes fotossensíveis ou filtros e boné.

Baixa visão

Recursos ópticos, apoio escolar e orientação quando há acometimento macular ou do nervo óptico.

Opções cirúrgicas (casos selecionados)

A cirurgia é considerada quando o ofuscamento ou a diplopia monocular atrapalham muito, ou quando o paciente vai operar catarata. A escolha depende do tamanho do defeito e do estado do cristalino.

TécnicaQuandoObservação
Sutura de íris (técnica de McCannel ou Siepser)Defeitos pequenos a moderadosAproxima as bordas e reconstrói a pupila.
Anel de tensão capsular com segmento de íris / LIO com íris artificialDurante cirurgia de catarataCompensa a falta de zônula e de íris ao mesmo tempo.
Prótese de íris personalizadaDefeitos amplosImplante em centros especializados; risco de inflamação e glaucoma.

Seguimento e complicações

O coloboma de coroide exige fundo de olho periódico e orientação sobre sintomas de descolamento de retina. O laser profilático na borda do coloboma é usado por alguns serviços, mas a indicação não é consenso.

Sinais de alerta

Moscas volantes novas, flashes, sombra no campo visual ou piora súbita da visão num paciente com coloboma de coroide = avaliação de retina no mesmo dia. Neovascularização de coroide na borda do coloboma também pode reduzir a visão central.

O que define a visão

O prognóstico é muito variável. O coloboma restrito à íris costuma permitir visão normal ou quase normal; o envolvimento da fóvea ou do disco óptico, microftalmia e nistagmo indicam baixa visual desde cedo.

Melhor prognóstico

  • Só íris
  • Coroide poupando mácula e disco
  • Unilateral, sem ambliopia

Pior prognóstico

  • Fóvea ou disco óptico envolvidos
  • Microftalmia, nistagmo
  • Descolamento de retina

Referências bibliográficas

  1. 1
    Livro-texto2025
    American Academy of Ophthalmology. Basic and Clinical Science Course (BCSC), Section 6: Pediatric Ophthalmology and Strabismus. San Francisco: AAO; 2024–2025.
  2. 2
    Livro-texto2025
    American Academy of Ophthalmology. Basic and Clinical Science Course (BCSC), Section 2: Fundamentals and Principles of Ophthalmology (embriologia ocular). San Francisco: AAO; 2024–2025.
  3. 3
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  4. 4
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    Yanoff M, Duker JS. Ophthalmology. 6. ed. Elsevier; 2023.
  5. 5
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    George A, Cogliati T, Brooks BP. Genetics of syndromic ocular coloboma: CHARGE and COACH syndromes. Exp Eye Res. 2020;193:107940. doi:10.1016/j.exer.2020.107940
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  8. 8
    Livro-texto2021
    Remington LA. Clinical Anatomy and Physiology of the Visual System. 4. ed. Elsevier; 2021.

Fontes das imagens

As imagens deste atlas têm finalidade educacional e foram produzidas a partir de referências clínicas reais e de representações anatômicas didáticas.

Parte delas pode ter sido editada ou aprimorada digitalmente para destacar as estruturas e os achados descritos no texto.

Aviso importante

Material educacional. Não substitui a avaliação oftalmológica, os protocolos institucionais nem a consulta às bulas.

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