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Oncocercose

Cegueira dos rios • river blindness • infecção por Onchocerca volvulus

Filariose causada pelo nematódeo Onchocerca volvulus, transmitida por picadas repetidas de borrachudos (Simulium) que se criam em rios de correnteza. Os vermes adultos vivem em nódulos sob a pele; as microfilárias migram para a pele e para o olho, e a inflamação contra elas causa prurido intenso, ceratite, uveíte, coriorretinite e atrofia óptica. A ivermectina mudou a história da doença.

Conjuntiva, córnea, úvea, retinaFilarioseRios e borrachudosIvermectina
16–20 min de leitura Atualizado em outubro de 2026

Reconheça o achado

Imagem clínica

Infográfico da oncocercose ocular (imagem ilustrativa). Na doença real, as microfilárias do olho são microscópicas; o verme visível na conjuntiva é característico de Loa loa. Toque para ampliar.

Principais achados
  1. 1
    Hiperemia e irritação conjuntival, prurido e lacrimejamento
  2. 2
    Microfilárias vivas na câmara anterior ou na córnea
  3. 3
    Ceratite puntata ("flocos de neve") por microfilárias mortas
  4. 4
    Ceratite esclerosante, de baixo para cima, com perda visual
  5. 5
    Uveíte anterior, sinéquias, pupila em pera, glaucoma secundário
  6. 6
    Coriorretinite atrófica e atrofia óptica

Em 30 segundos

O essencial de visão geral

  1. Filariose por Onchocerca volvulus, transmitida por Simulium (borrachudo).
  2. Adultos em nódulos subcutâneos; microfilárias na pele e no olho.
  3. Olho: ceratite puntata e esclerosante, uveíte anterior, coriorretinite, atrofia óptica.
  4. Tratamento: ivermectina repetida ± doxiciclina 6 semanas; controle por tratamento em massa.

O que é oncocercose

A oncocercose é uma doença tropical negligenciada. O borrachudo infectado inocula larvas que se desenvolvem em vermes adultos dentro de nódulos subcutâneos (oncocercomas). As fêmeas vivem mais de uma década e liberam milhões de microfilárias, que migram pela pele e chegam ao olho.

O nome "cegueira dos rios" vem da associação com comunidades ribeirinhas, onde os vetores se criam. Programas de tratamento em massa com ivermectina eliminaram a transmissão em vários países das Américas; o foco remanescente no continente está na área Yanomami, entre o Brasil e a Venezuela.

O dano vem da inflamação contra microfilárias mortas. Por isso o tratamento é feito com cuidado e repetido, e a dietilcarbamazina, que mata as microfilárias de forma abrupta, é proscrita.

Ciclo de vida

  1. Picada

    Simulium inocula larvas L3.

  2. Nódulo

    Adultos no subcutâneo (meses).

  3. Microfilárias

    Migram pela pele e para o olho.

  4. Novo vetor

    Borrachudo ingere microfilárias ao picar.

Em 30 segundos

O essencial de quadro clínico

  1. Segmento anterior: microfilárias, ceratite puntata, ceratite esclerosante, uveíte.
  2. Segmento posterior: coriorretinite atrófica, atrofia óptica.
  3. Pele: prurido, dermatite, despigmentação ("pele de leopardo"), nódulos.
  4. Evolução lenta e cumulativa, proporcional à carga parasitária.

Manifestações oculares

O acometimento ocular segue, em linhas gerais, a carga e a duração da infecção. As lesões anteriores podem regredir com o tratamento; as posteriores e a ceratite esclerosante avançada costumam ser irreversíveis.

Inflamação conjuntival

Hiperemia, prurido, lacrimejamento, sensação de corpo estranho; nódulos límbicos.

Ceratite puntata

Opacidades em "flocos de neve" em torno de microfilárias mortas; reversíveis.

Ceratite esclerosante

Opacificação e vascularização progressivas, a partir da córnea inferior e lateral; causa importante de cegueira.

Uveíte anterior

Sinéquias, pupila em forma de pera, glaucoma secundário e catarata.

Coriorretinite

Atrofia do epitélio pigmentado e coriocapilar, mais temporal ao disco; perda de campo visual.

Neuropatia óptica

Neurite e atrofia óptica; perda visual irreversível.

Manifestações extraoculares

AchadoDescrição
Prurido e dermatite papularSintoma mais precoce e mais incapacitante; escoriações
OncocercomasNódulos firmes e indolores sobre proeminências ósseas (quadril, costelas; cabeça nas Américas)
Despigmentação"Pele de leopardo" nas pernas
Atrofia cutâneaPele fina e enrugada ("pele de lagarto")
LinfadenopatiaInguinal; "virilha pendente" nos casos crônicos

Em 30 segundos

O essencial de diagnóstico

  1. Epidemiologia + clínica de pele e olho.
  2. Skin snip: microfilárias na pele (padrão de referência).
  3. Lâmpada de fenda após 2–5 min de cabeça baixa: microfilárias na câmara anterior.
  4. Sorologia (Ov-16), PCR e nodulectomia em cenários específicos.

Avaliação

  1. História epidemiológica

    Local de moradia, tempo de exposição, trabalho próximo a rios; viagens à África ou à área Yanomami.

  2. Pele e linfonodos

    Prurido, escoriações, despigmentação, nódulos palpáveis.

  3. Lâmpada de fenda

    Após o paciente ficar de cabeça baixa por alguns minutos: microfilárias na câmara anterior; ceratite puntata e esclerosante; uveíte.

  4. Fundo de olho e campo visual

    Coriorretinite atrófica, palidez de disco.

  5. Coinfecção por Loa loa

    Pacientes da África Central/Ocidental: gota espessa diurna para quantificar microfilaremia antes da ivermectina.

Exames

Skin snip

Fragmentos superficiais de pele (escápula, crista ilíaca, panturrilha) em soro fisiológico; microfilárias emergem em horas. Baixa sensibilidade em infecções leves.

PCR

DNA de O. volvulus no skin snip; mais sensível.

Sorologia (Ov-16)

Anticorpos IgG4; útil na vigilância pós-eliminação; não distingue infecção atual de passada.

Nodulectomia

Verme adulto no nódulo excisado: confirma o diagnóstico.

Diagnóstico diferencial

CondiçãoAchado-chaveComo diferenciar
Loíase (Loa loa)
Achado-chaveVerme adulto visível sob a conjuntiva
Como diferenciarEdema de Calabar; microfilárias no sangue diurno; África Central.
Achado-chaveCicatriz tarsal, triquíase
Como diferenciarFolículos no tarso superior; sem lesões de pele.
Achado-chaveInfiltrado e dor
Como diferenciarAguda; defeito epitelial; cultura.
Achado-chaveRetinocoroidite focal
Como diferenciarLesão ativa adjacente a cicatriz; vitreíte.
Achado-chaveCélulas e precipitados
Como diferenciarSífilis, tuberculose, toxocaríase: investigar conforme contexto.

Galeria oftalmológica

Algumas imagens desta galeria são ilustrativas e ampliam o parasita para fins didáticos. Leia as legendas como roteiro: o que é típico da oncocercose e o que aponta para outro diagnóstico.

Inflamação do segmento anterior (ilustração)

Hiperemia conjuntival, córnea turva e parasita representado em tamanho aumentado. Na prática, as microfilárias de O. volvulus medem cerca de 0,3 mm e são vistas como filamentos móveis na câmara anterior à lâmpada de fenda.

IlustrativaSegmento anteriorMicrofilárias

Ceratite esclerosante avançada

Córnea opaca, esbranquiçada e vascularizada, com vasos invadindo a partir da periferia. É a fase em que a perda visual da córnea já não regride com o antiparasitário.

Ceratite esclerosanteCegueiraTardia

Verme sob a conjuntiva: pense em Loa loa

Verme adulto enrolado e visível sob a conjuntiva bulbar hiperemiada. Esse aspecto é típico da loíase; na oncocercose, os adultos ficam em nódulos subcutâneos. Em pacientes vindos da África, os dois parasitas podem coexistir.

DiferencialLoa loaConjuntiva

Nódulo subcutâneo (oncocercoma)

Nódulo firme e indolor na região periocular/frontal, onde vivem os vermes adultos. Nas Américas, os nódulos na cabeça eram frequentes e foram associados a maior risco ocular; a excisão confirma o diagnóstico.

NóduloVermes adultosNodulectomia

Em 30 segundos

O essencial de tratamento

  1. Ivermectina 150 µg/kg em dose única, repetida (a cada 6 meses no tratamento individual).
  2. Doxiciclina por 6 semanas mata/esteriliza vermes adultos (via Wolbachia).
  3. Excluir Loa loa com microfilaremia alta antes da ivermectina.
  4. Uveíte e ceratite: tratamento ocular pelo oftalmologista; nunca dietilcarbamazina.

Tratamento individual × coletivo

Nas comunidades endêmicas, o tratamento em massa com ivermectina (uma ou duas vezes ao ano), associado ao controle do vetor, interrompe a transmissão. No paciente individual atendido fora da área endêmica, a ivermectina é repetida enquanto houver sinais de infecção, e a doxiciclina reduz o tempo de tratamento ao atingir os vermes adultos.

Ivermectina trata as microfilárias (a causa dos sintomas); doxiciclina atinge os adultos (a fonte de novas microfilárias).

Rotas de tratamento

Cada rota é um cenário. Doses de referência do CDC e da OMS; o nome do medicamento abre a ficha.

O que não fazer

  • Não usar dietilcarbamazina: reação de Mazzotti grave e piora da doença ocular.
  • Não dar ivermectina sem avaliar Loa loa em pacientes de áreas coendêmicas.
  • Não usar doxiciclina em gestantes, lactantes e menores de 8 anos.

Em 30 segundos

O essencial de prevenção

  1. Tratamento em massa com ivermectina interrompe a transmissão.
  2. Proteção individual: roupas compridas e repelente perto de rios.
  3. Vários países das Américas já eliminaram a transmissão.
  4. Lesões posteriores e ceratite esclerosante avançada são irreversíveis.

Prevenção e prognóstico

Não há vacina. A prevenção individual é evitar picadas de borrachudo (ativos durante o dia, perto de rios) com roupas que cobrem o corpo e repelente. O prognóstico visual depende da precocidade: ceratite puntata e microfilárias na câmara anterior regridem com o tratamento; coriorretinite, atrofia óptica e ceratite esclerosante avançada deixam perda permanente.

Ivermectina em massa

Base da eliminação; doada por programas internacionais.

Controle do vetor

Larvicidas em criadouros de Simulium.

Proteção pessoal

Roupas longas e repelente.

Referências bibliográficas

  1. 1
    Diretriz2025
    World Health Organization. Onchocerciasis — fact sheet. Geneva: WHO; 2025.
  2. 2
    Artigo2024
    Centers for Disease Control and Prevention. Clinical Treatment of Onchocerciasis. Atlanta: CDC; 2024.
  3. 3
    Artigo2016
    Abegunde AT, Ahuja RM, Okafor NJ. Doxycycline plus ivermectin versus ivermectin alone for treatment of patients with onchocerciasis. Cochrane Database Syst Rev. 2016;(1):CD011146.
  4. 4
    Livro-texto2020
    Bowling B. Kanski’s Clinical Ophthalmology: A Systematic Approach. 9. ed. Elsevier; 2020.
  5. 5
    Livro-texto2023
    Yanoff M, Duker JS. Ophthalmology. 6. ed. Elsevier; 2023.
  6. 6
    Livro-texto2025
    American Academy of Ophthalmology. BCSC Section 9: Uveitis and Ocular Inflammation. San Francisco: AAO; 2024–2025.
  7. 7
    Diretriz2026
    Organização Pan-Americana da Saúde. Oncocercose. OPAS/OMS. Acesso em 2026.

Fontes das imagens

As imagens deste artigo foram produzidas com finalidade educacional, a partir de referências clínicas e representações anatômicas didáticas, e algumas foram editadas ou ampliadas digitalmente.

Atenção: nas imagens ilustrativas, o parasita aparece em tamanho aumentado. As microfilárias de O. volvulus no olho são microscópicas; vermes visíveis sob a conjuntiva são característicos de Loa loa.

Aviso importante

Material educacional. Não substitui a avaliação oftalmológica, os protocolos institucionais nem a consulta às bulas. O tratamento antiparasitário deve considerar coinfecções e ser conduzido com infectologista ou especialista em medicina tropical.

Atlas MedFoco de Oftalmologia • Conteúdo para educação médica. O diagnóstico e a conduta dependem da avaliação clínica individual.
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