Astrenmed

Atlas de Histologia • Técnicas e colorações

Impregnação argêntica

Impregnação pela prata • silver impregnation, reticulin stain

Família de técnicas em que sais de prata se depositam como prata metálica negra sobre estruturas finas que o HE não mostra: fibras reticulares, prolongamentos neuronais, membranas basais e alguns microrganismos.

Tipo
Impregnação metálica (prata)
Usa-se em
Fígado, linfoide, medula, SNC
Resultado
Fibras e neurônios em negro
Para que serve
Arcabouço reticular e neurônios
9–11 min de leitura Atualizado em outubro de 2026

Reconheça a impregnação

A prata não é um corante: ela precipita sobre a estrutura e fica negra. O resultado é um desenho de linhas finas e escuras sobre fundo claro — a "rede" de reticulina ou o "fio" de um axônio.

Lâmina histológica

Figura 1. Fígado, impregnação para reticulina (Gordon-Sweets), 200x. Rede negra de fibras reticulares acompanha as traves de hepatócitos e os sinusoides; o colágeno grosso do espaço porta fica castanho-dourado.

Roteiro de observação
  1. 1
    Fibras negras finasFibras reticulares (colágeno III com glicoproteínas): rede delicada e ramificada.
  2. 2
    Fibras castanhasColágeno I grosso fica marrom-dourado — ajuda a separar os dois.
  3. 3
    FundoClaro ou contracorado (vermelho nuclear) — células quase sem detalhe.
  4. 4
    PadrãoRede contínua e regular = arcabouço preservado; rede rota ou ausente = colapso ou tumor.

Em 30 segundos

O essencial de visão geral

  1. Não é coloração por afinidade de carga: a prata se deposita como metal negro sobre a estrutura.
  2. Fibras reticulares (colágeno tipo III) são argirófilas: por isso também são chamadas de fibras de reticulina.
  3. No sistema nervoso, métodos de Golgi, Cajal e Bielschowsky mostram neurônios, axônios, emaranhados neurofibrilares e placas.
  4. Variantes com prata também detectam fungos (Grocott), espiroquetas (Warthin-Starry) e membrana basal glomerular (Jones).

O que é a impregnação argêntica

Na impregnação, o tecido recebe uma solução de prata (em geral prata amoniacal); a prata se fixa em certas estruturas e é depois reduzida a prata metálica, que é opaca e negra. O tom pode ser ajustado com cloreto de ouro (viragem).

Estruturas que ligam a prata mas precisam de um redutor externo são argirófilas; as que reduzem a prata sozinhas são argentafins. A diferença foi usada para classificar células endócrinas do intestino antes da imuno-histoquímica.

Principais métodos e o que mostram

O nome do método indica o alvo. Na prova, associe cada um à estrutura que ele revela.

MétodoAlvoUso típico
Gomori / Gordon-Sweets (reticulina)Fibras reticularesFígado, linfonodo, baço, medula óssea
Golgi (cromato de prata)Neurônio inteiro, ao acasoMorfologia de dendritos e espinhas
Cajal / BielschowskyNeurofibrilas, axôniosEmaranhados e placas (Alzheimer), nervos
Grocott (metenamina-prata)Parede de fungosPneumocystis, Aspergillus, Candida
Warthin-StarryEspiroquetas e bacilos finosSífilis, Helicobacter, Bartonella
Jones (metenamina-prata)Membrana basal glomerularBiópsia renal

Fontana-Masson (argentafim) cora melanina em negro.

A prata em quatro alvos

Roteiro: identifique o que ficou negro, depois a forma (rede, fio, contorno, bastonete) e o tecido onde está.

Linfonodo: arcabouço reticular

Linfonodo, reticulina, 100x. Rede negra delicada forma o estroma de sustentação dos seios e da paracórtex; os folículos têm rede mais frouxa. No HE, esse arcabouço é invisível — só se veem os linfócitos.

Reticulina100xÓrgão linfoide

Golgi: neurônio inteiro

Córtex cerebral, método de Golgi. Poucos neurônios, ao acaso, aparecem completos em negro: corpo piramidal, dendrito apical, dendritos basais com espinhas e axônio. A impregnação incompleta é justamente o que permite ver cada célula isolada.

GolgiSNCNeurônio

Bielschowsky: placas e emaranhados

Córtex na doença de Alzheimer, Bielschowsky, 400x. Placas senis (neuríticas) como aglomerados de neuritos negros ao redor de um núcleo; emaranhados neurofibrilares em chama dentro de neurônios piramidais.

BielschowskyAlzheimer400x

Grocott: fungos em negro

Pulmão, Grocott (metenamina-prata), 400x. Hifas ou cistos de Pneumocystis com parede negra sobre fundo verde-claro. As células do hospedeiro quase desaparecem: o método é feito para achar o agente.

GrocottFungos400x

Lâmina com traços negros finos sobre fundo claro, quase sem cor nas células, é impregnação pela prata. A pergunta seguinte é: o que está negro? Rede, fio, contorno de parede ou bastonete.

Aumento a aumento

  1. 40x — tipo de tecido

    Órgão parenquimatoso com rede negra (fígado, linfoide) ou tecido nervoso com fios e corpos negros.

  2. 100x — arquitetura

    Reticulina: a rede segue traves, sinusoides ou cordões? Está regular, colapsada (fibras próximas) ou ausente?

  3. 400x — a fibra

    Fibras reticulares finas e negras; colágeno I mais grosso e castanho. No SNC, siga o prolongamento até o corpo celular.

  4. Agentes

    Em Grocott e Warthin-Starry, procure formas negras isoladas: hifas, leveduras, cistos, bastonetes espiralados.

Pegadinhas

Precipitado de prata forma grãos negros espalhados, inclusive fora do tecido — é artefato. Melanina e pigmentos também ficam negros. Na reticulina, fibras próximas após necrose (colapso) não são fibrose nova.

Descrição-modelo para a prova prática

Modelo de descrição

Corte histológico submetido a impregnação argêntica para reticulina. Observa-se rede de fibras finas, ramificadas e negras (fibras reticulares, argirófilas) formando o arcabouço de [órgão], acompanhando [traves de hepatócitos e sinusoides / seios e cordões]. Fibras colágenas mais grossas coram-se em castanho-dourado. As células aparecem pouco coradas sobre fundo claro.

Em lâmina de SNC, troque por: neurônios e prolongamentos impregnados em negro (método de Golgi/Cajal).

Outras técnicas que mostram fibras ou neurônios

Fibras negras não são exclusivas da prata. A forma e o restante das cores da lâmina separam as técnicas.

TécnicaResultadoComo diferenciar
ResultadoFibras elásticas negras ou marrons
Como diferenciarFibras onduladas e lâminas elásticas em artérias; no Verhoeff–Van Gieson o colágeno é vermelho.
ResultadoColágeno azul, células vermelhas
Como diferenciarTrês cores; mostra colágeno total, não a rede fina.
ResultadoFibras reticulares e membranas basais magenta
Como diferenciarCor magenta, não negra; também cora glicogênio e muco.
ResultadoCorpo neuronal azul-violeta granuloso
Como diferenciarCora RER do pericário; não mostra axônios nem dendritos longos.

A reticulina é uma das colorações especiais mais pedidas em patologia: o arcabouço conta a história de um órgão — se ele foi destruído, colapsou ou foi invadido.

Perguntas que a prata responde

Fígado

Traves espessas (três ou mais células) e perda da reticulina favorecem carcinoma hepatocelular; colapso da rede indica necrose.

Medula óssea

Graduação da fibrose reticulínica em neoplasias mieloproliferativas, como a mielofibrose.

Tumores

Reticulina ao redor de ninhos de células sugere carcinoma; ao redor de cada célula, sarcoma ou linfoma.

Neuropatologia

Bielschowsky mostra placas neuríticas e emaranhados na doença de Alzheimer.

Prata = negro sobre fundo claro. Rede fina = reticulina; fio longo = prolongamento neuronal; contorno de parede = fungo.

Limites da técnica

  • Técnica sensível: vidraria suja e prata envelhecida geram precipitado e falsos achados.
  • Pouca especificidade química: o que fica negro depende do método e do protocolo.
  • Em neuropatologia, a imuno-histoquímica (beta-amiloide, tau) substituiu a prata em muitos serviços.

Referências bibliográficas

  1. 1
    Livro-texto2019
    Suvarna SK, Layton C, Bancroft JD. Bancroft’s Theory and Practice of Histological Techniques. 8. ed. Elsevier; 2019.
  2. 2
    Livro-texto2023
    Junqueira LC, Carneiro J. Histologia Básica: texto e atlas. 14. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan; 2023.
  3. 3
    Livro-texto2021
    Ross MH, Pawlina W. Histologia: texto e atlas — correlações com biologia celular e molecular. 8. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan; 2021.
  4. 4
    Livro-texto2021
    Kumar V, Abbas AK, Aster JC. Robbins & Cotran Patologia: bases patológicas das doenças. 10. ed. Rio de Janeiro: Elsevier; 2021.

Fontes das imagens

As imagens deste atlas têm finalidade educacional e foram produzidas a partir de lâminas histológicas reais e de representações didáticas.

Parte delas pode ter sido editada ou aprimorada digitalmente para destacar as estruturas e os achados descritos no texto.

Aviso importante

Material educacional. Não substitui o laudo anatomopatológico, a avaliação clínica, os protocolos institucionais nem a consulta às bulas.

Atlas Astrenmed de Histologia • Conteúdo para educação médica. O diagnóstico e a conduta dependem da avaliação clínica individual.
Rolar para cima