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Síndrome de Sjögren

Doença de Sjögren • síndrome seca autoimune • Sjögren’s syndrome

Doença autoimune sistêmica em que linfócitos infiltram as glândulas exócrinas — sobretudo salivares e lacrimais — e destroem o epitélio secretor. O resultado é boca seca (xerostomia) e olho seco (xeroftalmia), com risco aumentado de linfoma.

Glândulas exócrinasAutoimune (anti-Ro/SSA)Boca e olho secosSialadenite linfocítica focal
16–20 min de leitura Atualizado em outubro de 2026

Reconheça a lesão

O Sjögren é uma doença do epitélio glandular exócrino: o infiltrado começa ao redor dos ductos e, aos poucos, substitui os ácinos secretores.

Histopatologia

Figura 1. Glândula salivar labial (menor) em HE, pequeno aumento: lóbulos de ácinos mucosos com um agregado denso de linfócitos ao redor de um ducto intralobular — um foco. Os ácinos vizinhos têm aspecto normal, o que distingue a sialadenite focal da inflamação inespecífica.

Principais achados
  1. 1
    Focos de 50 ou mais linfócitos ao redor de ductos intralobulares
  2. 2
    Ácinos vizinhos de aspecto preservado (padrão focal)
  3. 3
    Escore de focos ≥ 1 por 4 mm² de tecido glandular
  4. 4
    Centros germinativos ectópicos em parte dos casos
  5. 5
    Atrofia acinar e fibrose nas fases avançadas
  6. 6
    Parótida: lesões linfoepiteliais (ilhas epimioepiteliais) nos ductos

Em 30 segundos

O essencial de visão geral

  1. Doença autoimune que atinge glândulas exócrinas: salivares e lacrimais principalmente.
  2. Lâmina: sialadenite linfocítica focal periductal, com escore de focos ≥ 1 por 4 mm².
  3. Marcadores: anti-Ro/SSA (e anti-La/SSB), fator reumatoide, hipergamaglobulinemia.
  4. Primária ou secundária (associada a artrite reumatoide, lúpus, esclerodermia); risco de linfoma MALT.

O que é a síndrome de Sjögren

É uma doença autoimune crônica em que o próprio epitélio glandular funciona como alvo e como participante da resposta imune. Linfócitos T e B se acumulam nas glândulas, formam focos e, aos poucos, reduzem a secreção.

Embora a secura seja a marca da doença, um terço ou mais dos pacientes tem manifestações fora das glândulas: articulações, pele, pulmão, rim, nervos e sangue.

Sjögren = epitelite autoimune das glândulas exócrinas. Na lâmina, o achado que vale ponto é o foco linfocítico periductal em glândula de ácinos preservados.

Quem tem e formas da doença

É uma das doenças autoimunes sistêmicas mais comuns, com nítido predomínio feminino (cerca de 9 mulheres para 1 homem) e pico entre 40 e 60 anos.

Primária

Ocorre isolada, sem outra doença do tecido conjuntivo.

Associada (secundária)

Junto a artrite reumatoide, lúpus, esclerodermia ou tireoidite autoimune.

Gestação

Anti-Ro materno atravessa a placenta: lúpus neonatal e bloqueio cardíaco congênito.

Linfoma

Risco muito maior que o da população; quase sempre linfoma B de zona marginal (MALT), muitas vezes na parótida.

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O essencial de fisiopatologia

  1. O epitélio glandular apresenta antígenos e produz citocinas: é parte ativa da doença.
  2. Interferon tipo I e o fator BAFF estimulam linfócitos B autorreativos.
  3. Anticorpos e citocinas inibem a secreção antes mesmo de os ácinos serem destruídos.
  4. A estimulação crônica de linfócitos B explica o risco de linfoma.

Da agressão inicial ao foco linfocítico

Em pessoas geneticamente predispostas, um gatilho (provavelmente viral) lesa o epitélio glandular e expõe antígenos como Ro e La. A partir daí a inflamação se perpetua.

  1. Gatilho

    Infecção viral ou lesão do epitélio.

  2. Epitélio

    Expressa HLA de classe II e libera interferon.

  3. Linfócitos T

    CD4 se acumulam ao redor dos ductos.

  4. Linfócitos B

    BAFF ativa B; anti-Ro e anti-La.

  5. Foco

    Agregado organizado; centros germinativos.

Por que a glândula seca

A secura não depende só da destruição dos ácinos: no início, boa parte do epitélio ainda existe, mas secreta pouco.

Destruição

Apoptose de células acinares e ductais; atrofia e fibrose nas fases tardias.

Inibição funcional

Citocinas inflamatórias e, possivelmente, anticorpos contra receptores muscarínicos M3 reduzem a secreção.

Transporte de água

Alteração na distribuição da aquaporina-5 na membrana apical das células acinares.

Do foco ao linfoma

Os linfócitos B ficam sob estímulo antigênico contínuo nas glândulas. Com o tempo, um clone pode se expandir e escapar do controle, originando um linfoma de zona marginal extranodal (MALT). Infiltrados ductais com lesões linfoepiteliais, centros germinativos e certos marcadores clínicos sinalizam maior risco.

  • Aumento persistente de parótida ou de linfonodos.
  • Púrpura palpável e crioglobulinemia.
  • Complemento C4 baixo e gamopatia monoclonal.
  • Neutropenia e alta atividade sistêmica.

Autoanticorpos

AnticorpoFrequênciaSignificado
Anti-Ro/SSAMaioria dos pacientesÚnico sorológico dos critérios 2016; risco de lúpus neonatal
Anti-La/SSBMenos frequente; quase sempre com anti-RoIsolado não pontua nos critérios
Fator reumatoide e FANFrequentesInespecíficos; hipergamaglobulinemia policlonal
CrioglobulinasMinoriaVasculite e maior risco de linfoma

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O essencial de quadro clínico

  1. Tríade frequente: secura, fadiga e dor.
  2. Xerostomia: dificuldade para engolir seco, cáries cervicais, candidíase, alteração do paladar.
  3. Xeroftalmia: sensação de areia, ardor, fotofobia; ceratoconjuntivite seca.
  4. Extraglandular: articulações, pele, pulmão, rim, nervos e sangue.

Manifestações glandulares

Todas as glândulas exócrinas podem ser acometidas, mas a clínica é dominada pelas salivares e lacrimais.

Boca

Língua seca e lisa, saliva espessa ou ausente, cáries de colo, queilite angular, candidíase.

Olhos

Ceratoconjuntivite seca; filamentos na córnea; Schirmer reduzido.

Parótidas

Aumento bilateral, recorrente ou persistente; endurecimento unilateral levanta suspeita de linfoma.

Outras mucosas

Nariz, traqueia (tosse seca), pele seca e vagina (dispareunia).

Manifestações extraglandulares

Seguem dois padrões: infiltração linfocítica de epitélios (rim, pulmão, fígado) — a mesma lesão das glândulas — e doença por imunocomplexos (púrpura, glomerulonefrite, neuropatia).

ÓrgãoManifestaçãoMecanismo
ArticulaçõesArtralgia, artrite não erosivaInflamatório
PelePúrpura palpável, xeroseVasculite (crioglobulinas)
PulmãoDoença intersticial, bronquioliteInfiltrado linfocítico
RimNefrite intersticial, acidose tubular distalInfiltrado linfocítico tubular
NervosNeuropatia sensitiva, ganglionopatiaVasculite ou infiltrado
SangueCitopenias, gamopatia, hipergamaglobulinemiaAutoimune / B ativado

Sinais de alerta para linfoma

A maior parte dos pacientes nunca desenvolve linfoma, mas o risco é bem maior que o da população geral. Alguns achados pedem investigação com imagem e biópsia.

  • Parótida que cresce de forma persistente, endurecida ou assimétrica.
  • Linfonodomegalia, esplenomegalia, sintomas B.
  • Púrpura, C4 baixo, crioglobulinemia, gamopatia monoclonal.

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O essencial de histopatologia e diagnóstico

  1. Biópsia de glândulas salivares menores do lábio inferior: simples e com baixo risco.
  2. Ao menos 4 glândulas, com área total suficiente (idealmente ≥ 8 mm²).
  3. Foco = ≥ 50 linfócitos; escore de focos = focos por 4 mm². Escore ≥ 1 pontua 3.
  4. Diagnóstico pelos critérios ACR/EULAR 2016 (soma ≥ 4), excluídas outras causas.

A lâmina, aumento a aumento

A pergunta da biópsia é: o infiltrado é focal e periductal, ao lado de ácinos normais? Inflamação difusa com fibrose e ductos dilatados não conta como foco.

  1. Pequeno aumento

    Lóbulos de glândula salivar menor (predominantemente mucosa); localize agregados basofílicos densos e meça a área glandular total.

  2. Médio aumento

    Confirme que o agregado envolve um ducto intralobular e que os ácinos vizinhos estão preservados.

  3. Grande aumento

    Linfócitos pequenos e plasmócitos; conte se há 50 ou mais células. Procure linfócitos invadindo o epitélio ductal.

  4. Calcular

    Número de focos × 4 ÷ área glandular em mm² = escore de focos.

Sialadenite focal × inespecífica

Com a idade e com obstrução ductal é comum haver inflamação crônica leve nas glândulas labiais. Ela não deve ser confundida com o padrão do Sjögren.

Sialadenite linfocítica focal

  • Agregados densos de ≥ 50 linfócitos
  • Periductais, entre ácinos normais
  • Predomínio de linfócitos
  • Sugere Sjögren (escore ≥ 1)

Sialadenite crônica inespecífica

  • Infiltrado esparso, misto
  • Atrofia acinar, fibrose, ductos dilatados
  • Muitos plasmócitos e às vezes neutrófilos
  • Não pontua nos critérios

Exames que completam o diagnóstico

Biópsia e anti-Ro valem 3 pontos cada; os testes de secura somam 1 ponto cada. Uma pessoa anti-Ro negativa precisa da biópsia para alcançar a classificação.

  1. Teste de Schirmer

    Papel-filtro na pálpebra inferior por 5 min; ≤ 5 mm indica produção lacrimal reduzida.

  2. Coloração da superfície ocular

    Fluoresceína e lissamina verde marcam o epitélio lesado de córnea e conjuntiva.

  3. Fluxo salivar não estimulado

    Saliva coletada em repouso; ≤ 0,1 mL/min é anormal.

  4. Sorologia

    Anti-Ro/SSA, anti-La/SSB, FAN, fator reumatoide, complemento, eletroforese de proteínas.

  5. Ultrassom das salivares

    Parênquima heterogêneo com áreas hipoecoicas; útil no seguimento e na suspeita de linfoma.

Como contar

Cálculo do escore de focos

Exemplo: 3 focos em 9 mm² de glândula = 3 × 4 ÷ 9 ≈ 1,3 focos/4 mm². Escore ≥ 1 é positivo. Use só a área de tecido glandular, não a de mucosa ou gordura.

Diagnóstico diferencial

Boca e olhos secos são queixas comuns. Antes de classificar como Sjögren, afaste causas medicamentosas e as doenças que os critérios excluem.

CondiçãoAchado-chaveComo diferenciar
Secura por fármacos ou idade
Achado-chaveAnticolinérgicos, antidepressivos, anti-histamínicos
Como diferenciarAnti-Ro negativo; biópsia sem focos.
Doença relacionada à IgG4
Achado-chaveAumento de salivares e lacrimais
Como diferenciarPlasmócitos IgG4+ abundantes, fibrose estoriforme, flebite obliterante; anti-Ro negativo.
Sarcoidose
Achado-chaveParótidas aumentadas, olho seco
Como diferenciarGranulomas não caseosos na glândula; adenopatia hilar.
Hepatite C e HIV
Achado-chaveSíndrome seca e infiltrado salivar
Como diferenciarSorologia positiva; no HIV, infiltrado de CD8 (síndrome de linfocitose infiltrativa difusa).
Linfoma de glândula salivar
Achado-chaveMassa parotídea persistente
Como diferenciarLesões linfoepiteliais com halos de células B monocitoides; clonalidade B.

Galeria histopatológica

Da glândula labial à parótida: siga a relação do infiltrado com os ductos e com os ácinos.

Foco linfocítico periductal

HE, 100x, glândula salivar labial. Agregado arredondado e denso de linfócitos envolvendo um ducto intralobular; ao redor, ácinos mucosos claros de aspecto normal. Esse contraste entre infiltrado denso e ácinos preservados define o padrão focal.

HEGlândula labialFoco

Glândula labial normal

HE, 100x. Ácinos mucosos de citoplasma claro e núcleo achatado na base, ductos intercalares e estriados e escassos linfócitos dispersos no estroma. Use como comparação: aqui não há agregados.

HENormalComparação

Centro germinativo ectópico

HE, 200x. Foco grande com centro claro de linfócitos B ativados e macrófagos de corpo tingível, cercado por manto de linfócitos pequenos. Lembra um folículo de linfonodo dentro da glândula e se associa a doença mais ativa.

HELinfócitos BFolículo

Lesão linfoepitelial na parótida

HE, 200–400x. Ducto estriado da parótida infiltrado por linfócitos, com proliferação de células epiteliais e mioepiteliais formando ilhas sólidas (ilhas epimioepiteliais). Halo de células B monocitoides ao redor sugere evolução para linfoma MALT.

HEParótidaRisco de linfoma
Exame clínico

Teste de Schirmer

Tiras de papel-filtro dobradas na pálpebra inferior por 5 minutos: a parte molhada mede a produção de lágrima. Até 5 mm em 5 minutos é resultado anormal.

Em 30 segundos

O essencial de tratamento

  1. Secura: medidas locais primeiro; secretagogos quando ainda há glândula funcionante.
  2. Imunossupressão é guiada pelo órgão acometido e pela gravidade, não pela secura.
  3. Higiene oral e acompanhamento odontológico previnem cáries e perda dentária.
  4. Seguimento periódico para detectar linfoma.

Estratégia de tratamento

As recomendações da EULAR separam o tratamento da secura (sintomático, local ou com secretagogos) do tratamento sistêmico, reservado às manifestações extraglandulares ativas. Fadiga e dor crônica são frequentes e pedem abordagem multiprofissional.

Revisar fármacos

Reduzir anticolinérgicos, antidepressivos tricíclicos e anti-histamínicos que pioram a secura.

Saúde bucal

Flúor tópico, consultas odontológicas regulares, tratamento da candidíase.

Olho seco grave

Ciclosporina tópica, plugs de ponto lacrimal e colírio de soro autólogo, com oftalmologista.

Fadiga e dor

Exercício regular e abordagem da dor; afastar hipotireoidismo e anemia.

Rotas de tratamento

Cada rota é um cenário de cuidado. Imunossupressores sistêmicos são individualizados pelo reumatologista; o nome do medicamento abre a ficha.

Referências bibliográficas

  1. 1
    Livro-texto2021
    Kumar V, Abbas AK, Aster JC. Robbins & Cotran Patologia: bases patológicas das doenças. 10. ed. Rio de Janeiro: Elsevier; 2021.
  2. 2
    Livro-texto2021
    Ross MH, Pawlina W. Histologia: texto e atlas — correlações com biologia celular e molecular. 8. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan; 2021.
  3. 3
    Artigo2017
    Shiboski CH, Shiboski SC, Seror R, et al. 2016 American College of Rheumatology/European League Against Rheumatism classification criteria for primary Sjögren’s syndrome. Arthritis Rheumatol. 2017;69(1):35–45.
  4. 4
    Artigo2018
    Mariette X, Criswell LA. Primary Sjögren’s syndrome. N Engl J Med. 2018;378(10):931–939.
  5. 5
    Artigo2020
    Ramos-Casals M, Brito-Zerón P, Bombardieri S, et al. EULAR recommendations for the management of Sjögren’s syndrome with topical and systemic therapies. Ann Rheum Dis. 2020;79(1):3–18.

Fontes das imagens

As imagens deste atlas têm finalidade educacional e foram produzidas a partir de lâminas histológicas reais e de representações didáticas.

Parte delas pode ter sido editada ou aprimorada digitalmente para destacar as estruturas e os achados descritos no texto.

Aviso importante

Material educacional. Não substitui o laudo anatomopatológico, a avaliação clínica, os protocolos institucionais nem a consulta às bulas. Doses de imunossupressores e biológicos são individualizadas e devem seguir o especialista, a bula e o protocolo local.

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