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Manchas de Bitot

Xerose conjuntival com mancha de Bitot (X1B) • Bitot’s spots

Placas branco-acinzentadas, espumosas e secas na conjuntiva bulbar temporal, junto ao limbo. São o sinal conjuntival clássico da deficiência de vitamina A (estágio X1B da xeroftalmia, OMS) e indicam que a córnea está em risco: o tratamento é vitamina A em altas doses, sem demora.

Tipo
Sinal de xeroftalmia (X1B)
Estrutura
Conjuntiva bulbar interpalpebral
Mecanismo
Ceratinização por falta de vitamina A
Pista no exame
Placa espumosa que não molha
9–11 min de leitura Atualizado em outubro de 2026

Reconheça o achado

Compare a fotografia com o esquema. A mancha de Bitot é a conjuntiva que deixou de ser mucosa: sem vitamina A, o epitélio perde as células caliciformes, ceratiniza e acumula debris e bacilos que dão o aspecto de espuma.

Imagem clínica

Figura 1. Mancha de Bitot típica: placa triangular, branco-acinzentada e de superfície espumosa na conjuntiva bulbar temporal, com a base voltada para o limbo. A conjuntiva ao redor é seca e enrugada.

Roteiro de observação
  1. 1
    OndeConjuntiva bulbar exposta na fenda palpebral, quase sempre temporal, junto ao limbo; costuma ser bilateral.
  2. 2
    FormaTriangular ou oval, com a base no limbo; superfície espumosa ou "queijo cremoso".
  3. 3
    BrilhoA conjuntiva vizinha é opaca e enrugada (xerose X1A) — a lágrima não molha.
  4. 4
    CórneaProcure xerose corneana, úlcera ou amolecimento: muda a urgência e o estágio.

Em 30 segundos

O essencial de visão geral

  1. Mancha de Bitot = xerose conjuntival com placa espumosa, estágio X1B da xeroftalmia (OMS).
  2. Típica de crianças de 2–6 anos desnutridas, em regiões com deficiência de vitamina A.
  3. Costuma vir com cegueira noturna (XN), o sintoma mais precoce.
  4. Tratar com vitamina A em altas doses no dia do diagnóstico, no dia seguinte e ≥ 2 semanas depois.

O que são as manchas de Bitot

Descritas por Pierre Bitot em 1863, em crianças desnutridas de Bordeaux, as manchas são placas de epitélio conjuntival ceratinizado. Elas aparecem na área exposta da fenda palpebral, onde a evaporação é maior, e quase sempre do lado temporal.

Não são uma doença isolada: são um marcador clínico de deficiência de vitamina A. A deficiência ainda é importante em países de baixa renda, mas também aparece em adultos de qualquer lugar após cirurgia bariátrica, doença hepática, má absorção, alcoolismo ou dietas muito restritivas.

Mancha de Bitot em criança = deficiência de vitamina A até prova em contrário. Tratar no mesmo dia protege a córnea e reduz a mortalidade infantil.

Classificação da xeroftalmia (OMS)

A OMS organiza os sinais oculares da deficiência de vitamina A em estágios. A mancha de Bitot é um estágio conjuntival e reversível; o risco de cegueira começa quando a córnea é atingida (X2 em diante).

CódigoEstágioO que se vê
XNCegueira noturnaDificuldade de enxergar ao entardecer; sintoma mais precoce.
X1AXerose conjuntivalConjuntiva seca, opaca, enrugada, sem brilho.
X1BMancha de BitotXerose + placa espumosa/ceratinizada temporal.
X2Xerose corneanaCórnea seca, opaca, com ceratite puntata.
X3AUlceração/ceratomalácia < 1/3 da córneaÚlcera ou amolecimento localizado.
X3BUlceração/ceratomalácia ≥ 1/3 da córneaLiquefação extensa; perfuração e perda do olho.
XSCicatriz corneanaLeucoma, estafiloma ou phthisis como sequela.
XFFundo xeroftálmicoPontos branco-amarelados na retina periférica.

X3A e X3B são emergências: a córnea pode perfurar em horas a dias. Fonte: OMS (Vitamin A supplements, 1997) e Sommer, Vitamin A Deficiency and Its Consequences.

Do sinal conjuntival à córnea

As fotos seguem a progressão da xeroftalmia. Use as legendas como roteiro: localização, aspecto da superfície e, sobretudo, o estado da córnea.

Mancha de Bitot clássica

Placa triangular espumosa na conjuntiva temporal, base no limbo. Observe a superfície "de sabão" e a conjuntiva ao redor sem brilho. Procure a lesão do outro lado — costuma ser bilateral.

X1BTemporalBilateral

Xerose conjuntival

Conjuntiva seca, enrugada e opaca, com pregas concêntricas ao limbo quando o olho se move. É o terreno em que a mancha aparece (X1A).

X1ASem brilho

Xerose corneana

Córnea sem brilho, com aspecto granular e ceratite puntata. A doença saiu da conjuntiva: o risco de úlcera e ceratomalácia passou a ser iminente.

X2Córnea em risco

Ceratomalácia

Amolecimento e liquefação do estroma em olho pouco inflamado. Emergência: vitamina A imediata e proteção do globo. A sequela é leucoma ou perda do olho.

X3BEmergência

O diagnóstico é clínico: inspeção com boa luz (lanterna ou lâmpada de fenda) e uma história dirigida para alimentação, doenças e visão noturna.

Exame passo a passo

  1. História

    Cegueira noturna ("não enxerga ao anoitecer"), dieta pobre em leite, ovos, fígado e vegetais alaranjados/verde-escuros, desmame precoce, diarreia, sarampo, cirurgia bariátrica, hepatopatia.

  2. Inspeção da fenda

    Peça para olhar para o lado nasal e examine a conjuntiva temporal; depois o lado nasal. Na criança pequena, abrir as pálpebras com delicadeza (a córnea pode estar frágil).

  3. Teste do brilho

    A conjuntiva xerótica não reflete a luz como uma mucosa úmida e forma pregas quando o olho gira.

  4. Córnea

    Brilho, ceratite puntata, úlcera, amolecimento. Fluoresceína ajuda a ver defeitos epiteliais.

  5. Estado geral

    Peso, altura, sinais de desnutrição, infecções em curso — a deficiência de vitamina A raramente vem sozinha.

Exames complementares

Não são necessários para tratar. O retinol sérico (< 0,70 µmol/L indica deficiência na população; < 0,35 µmol/L, deficiência grave) é útil em estudos e em adultos com má absorção, mas cai durante infecções. A citologia de impressão mostra perda de células caliciformes e metaplasia escamosa.

Como registrar

Modelo de registro

Queixa de dificuldade visual ao entardecer há 2 meses (XN). AO: conjuntiva bulbar interpalpebral seca, sem brilho, com placa espumosa triangular branco-acinzentada temporal, base no limbo, de cerca de 3 × 2 mm (mancha de Bitot — X1B). Córneas transparentes e brilhantes, sem defeito epitelial à fluoresceína. Hipótese: deficiência de vitamina A (xeroftalmia XN/X1B, OMS). Iniciada vitamina A 200.000 UI VO.

Modelo didático: registre o estágio OMS de cada olho e a dose administrada com data — as próximas doses dependem disso.

Por que falta vitamina A

A deficiência resulta de ingestão insuficiente, absorção ruim ou consumo aumentado. Na criança, as infecções (sarampo, diarreia) esgotam rapidamente reservas já baixas e precipitam a lesão ocular.

Desnutrição infantil

Pré-escolares em regiões de baixa renda; desmame precoce e dieta pobre em fontes de retinol e carotenoides.

Sarampo e diarreia

Aumentam o consumo e a perda de vitamina A; o sarampo pode precipitar ceratomalácia em poucos dias.

Cirurgia bariátrica

Sobretudo técnicas disabsortivas; xeroftalmia pode surgir anos depois sem suplementação adequada.

Má absorção de gordura

Fibrose cística, doença celíaca, doença de Crohn, pancreatite crônica, colestase.

Hepatopatia e alcoolismo

O fígado armazena e libera o retinol; cirrose e álcool reduzem a oferta à periferia.

Dietas restritivas

Seletividade alimentar grave (inclusive no autismo), anorexia nervosa, dietas muito limitadas.

Mancha de Bitot ou outra lesão?

Lesões interpalpebrais brancas ou amareladas são comuns. A mancha de Bitot se distingue pela superfície espumosa e seca, pelo contexto nutricional e pela cegueira noturna associada.

CondiçãoAchado-chaveComo diferenciar
Achado-chaveNódulo amarelado elevado, nasal mais que temporal
Como diferenciarAdultos expostos ao sol; superfície lisa, não espumosa; sem cegueira noturna.
Achado-chavePrega fibrovascular que invade a córnea
Como diferenciarTriangular com ápice na córnea e vasos; não é placa seca.
Achado-chaveLesão gelatinosa ou leucoplásica no limbo
Como diferenciarUnilateral, vasos nutridores, crescimento; leucoplasia não melhora com vitamina A — biópsia.
Achado-chaveXerose com simbléfaro
Como diferenciarEncurtamento de fórnice, simbléfaro; adultos; ceratinização difusa.
Achado-chaveXerose por cicatrização
Como diferenciarLinhas de Arlt no tarso, triquíase, fossetas de Herbert.
Mancha de Bitot "inativa"
Achado-chavePlaca persistente em criança maior
Como diferenciarPode não regredir com vitamina A e nem sempre indica deficiência atual; avaliar dieta e cegueira noturna.

Toda criança com mancha de Bitot deve receber vitamina A em altas doses no mesmo dia. A placa regride em dias a poucas semanas; a cegueira noturna melhora em 24–48 horas.

Esquema de tratamento da OMS

O mesmo esquema serve para todos os estágios da xeroftalmia (XN a X3B). A dose depende da idade e é repetida no dia seguinte e novamente após pelo menos 2 semanas. Veja a ficha de .

IdadeDia 1 (diagnóstico)Dia 2≥ 2 semanas depois
< 6 meses50.000 UI VO50.000 UI VO50.000 UI VO
6–11 meses100.000 UI VO100.000 UI VO100.000 UI VO
≥ 12 meses e adultos200.000 UI VO200.000 UI VO200.000 UI VO
Mulheres em idade fértil com XN, X1A ou X1B10.000 UI VO 1x/dia por 2 semanasou 25.000 UI VO 1x/semanapor pelo menos 4 semanas

Na mulher em idade fértil (grávida ou não) as altas doses são evitadas pelo risco teratogênico; com lesão corneana (X2–X3) usa-se o esquema completo de altas doses. Vômitos intensos ou má absorção: formulação hidrossolúvel IM (100.000 UI no lugar de 200.000 UI VO). Fonte: OMS/UNICEF/IVACG, 1997; Wills Eye Manual.

O que mais fazer

  • Tratar a desnutrição e as infecções associadas; corrigir zinco e proteínas, que são necessários para mobilizar o retinol.
  • Lubrificantes sem conservante para conforto; antibiótico tópico se houver defeito epitelial corneano.
  • Sarampo: vitamina A a toda criança doente (dose por idade em 2 dias seguidos), mesmo sem sinais oculares.
  • Orientar fontes alimentares: leite materno, fígado, ovos, laticínios, vegetais verde-escuros, frutas e legumes alaranjados, óleo de dendê.
  • Prevenção: no Brasil, o Programa Nacional de Suplementação de Vitamina A oferta megadoses a crianças de 6–59 meses (100.000 UI aos 6–11 meses; 200.000 UI a cada 6 meses dos 12 aos 59).
Quando é urgência

Xerose corneana, úlcera ou amolecimento (X2–X3) exigem vitamina A imediata e avaliação oftalmológica no mesmo dia: a ceratomalácia pode perfurar a córnea em horas. Evite pressionar o globo ao examinar.

Referências bibliográficas

  1. 1
    Diretriz1997
    World Health Organization, UNICEF, IVACG Task Force. Vitamin A supplements: a guide to their use in the treatment and prevention of vitamin A deficiency and xerophthalmia. 2. ed. Geneva: WHO; 1997.
  2. 2
    Livro-texto1995
    Sommer A. Vitamin A Deficiency and Its Consequences: A Field Guide to Detection and Control. 3. ed. Geneva: World Health Organization; 1995.
  3. 3
    Diretriz2011
    World Health Organization. Guideline: Vitamin A supplementation in infants and children 6–59 months of age. Geneva: WHO; 2011.
  4. 4
    Documento oficial2013
    Brasil. Ministério da Saúde. Manual de condutas gerais do Programa Nacional de Suplementação de Vitamina A. Brasília: Ministério da Saúde; 2013.
  5. 5
    Livro-texto2021
    Gervasio KA, Peck TJ, editores. The Wills Eye Manual: Office and Emergency Room Diagnosis and Treatment of Eye Disease. 8. ed. Philadelphia: Wolters Kluwer; 2021.
  6. 6
    Revisão online2026
    StatPearls. Xerophthalmia. Treasure Island (FL): StatPearls Publishing; NBK431094. Acesso em 2026.
  7. 7
    Livro-texto2025
    American Academy of Ophthalmology. Basic and Clinical Science Course (BCSC), Section 8: External Disease and Cornea. San Francisco: AAO; 2024–2025.
  8. 8
    Livro-texto2020
    Bowling B. Kanski’s Clinical Ophthalmology: A Systematic Approach. 9. ed. Elsevier; 2020.

Fontes das imagens

As imagens deste atlas têm finalidade educacional e foram produzidas a partir de referências clínicas reais e de representações anatômicas didáticas.

Parte delas pode ter sido editada ou aprimorada digitalmente para destacar as estruturas e os achados descritos no texto.

Aviso importante

Material educacional. Não substitui a avaliação oftalmológica, os protocolos institucionais nem a consulta às bulas. Doses de vitamina A são de referência (OMS) e devem ser conferidas com o protocolo do Ministério da Saúde e a apresentação disponível.

Atlas MedFoco de Oftalmologia • Conteúdo para educação médica. O diagnóstico e a conduta dependem da avaliação clínica individual.
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