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Atlas de Oftalmologia • Córnea

Leucoma corneano

Opacidade corneana densa • corneal leukoma

Cicatriz branca e densa da córnea, que ocupa mais da metade do estroma e não deixa ver a íris através dela. É o grau mais intenso das opacidades cicatriciais (nébula → mácula → leucoma) e a sequela comum de úlceras, traumas e queimaduras. Quando a íris fica presa atrás da cicatriz após uma perfuração, fala-se em leucoma aderente.

Tipo
Sinal corneano (cicatriz)
Estrutura
Estroma: mais da metade da espessura
Mecanismo
Fibrose estromal desorganizada
Pista no exame
Branco opaco; íris não visível
9–11 min de leitura Atualizado em outubro de 2026

Reconheça o achado

Compare a fotografia com o esquema. A córnea é transparente porque suas fibras de colágeno são finas, paralelas e regularmente espaçadas. A cicatriz troca essa organização por colágeno grosso e desordenado, que espalha a luz: quanto mais profunda e espessa, mais branca.

Imagem clínica

Figura 1. Leucoma corneano central: opacidade branca, densa e bem delimitada, através da qual a íris e a pupila não são vistas. Observe vasos, contorno, espessura e se há íris aderida à face posterior.

Roteiro de observação
  1. 1
    DensidadeÍris visível através (nébula), vista de forma vaga (mácula) ou não visível (leucoma).
  2. 2
    PosiçãoCentral (eixo visual) ou periférica — a posição pesa mais na visão do que o tamanho.
  3. 3
    ProfundidadeCorte óptico: superficial, médio, profundo ou de espessura total.
  4. 4
    VizinhançaVasos, afinamento ou ectasia, íris aderida, pupila deformada, epitélio íntegro.

Em 30 segundos

O essencial de visão geral

  1. Leucoma = cicatriz corneana densa; a íris não é vista através dela.
  2. Graus: nébula (tênue) → mácula (semidensa) → leucoma (densa).
  3. Leucoma aderente: íris presa à cicatriz após perfuração; risco de glaucoma secundário.
  4. Nébula central pode baixar mais a visão que leucoma periférico (astigmatismo irregular).

O que é leucoma corneano

Leucoma é uma cicatriz: o resultado da cura de uma agressão que atingiu o estroma. Os ceratócitos se transformam em fibroblastos e miofibroblastos, que depositam colágeno irregular e matriz desorganizada. A camada de Bowman não se regenera, e o estroma perde a transparência.

Ele é, portanto, um achado inativo — o que o diferencia de um infiltrado ou de uma úlcera em atividade. Cicatrizes recentes podem clarear em parte nos primeiros meses; o leucoma denso e antigo tende a ser permanente.

Antes de chamar uma opacidade de leucoma, confirme que ela é cicatricial e inativa: epitélio íntegro, sem infiltrado, sem reação de câmara anterior.

Leucoma aderente e estafiloma anterior

Quando uma úlcera ou ferida perfura a córnea, a íris avança e tampona o orifício. A cicatriz se forma com a íris incorporada: é o leucoma aderente (uma sinéquia anterior). A pupila fica deformada e puxada para a cicatriz, e o ângulo pode se fechar.

Leucoma aderente

  • Íris presa à face posterior da cicatriz
  • Pupila em pera, apontando para o leucoma
  • Câmara anterior rasa no setor
  • Risco de glaucoma secundário

Estafiloma anterior

  • Cicatriz fina e ectásica, revestida por íris
  • Abaulamento azulado-escuro da córnea
  • Quase sempre com glaucoma
  • Prognóstico visual reservado

Do tênue ao denso

Use as legendas como roteiro: densidade (a íris aparece?), posição em relação à pupila, profundidade e o que está colado atrás da cicatriz.

Leucoma central denso

Opacidade branca no eixo visual que oculta a pupila. A visão depende da área livre ao redor; em crianças, risco de ambliopia de privação.

LeucomaEixo visual

Nébula e mácula

Opacidades acinzentadas, mais tênues: através delas ainda se vê a íris. Mesmo assim, se centrais, distorcem a imagem por astigmatismo irregular.

NébulaMácula

Leucoma aderente

Cicatriz com íris aderida e pupila deformada, puxada em direção ao leucoma. Meça a pressão intraocular e avalie o ângulo.

Sinéquia anteriorPós-perfuração

Leucoma vascularizado

Vasos estromais chegando à cicatriz, comuns após ceratite herpética, queimaduras ou tracoma. Aumentam o risco de rejeição de um futuro transplante.

NeovascularizaçãoAlto risco

Tatuagem corneana

Conduta estética

Antes e depois da ceratopigmentação

Leucoma branco em olho sem potencial visual, antes e depois de pigmento intraestromal simulando íris e pupila. O objetivo é estético e, às vezes, reduzir ofuscamento.

O exame responde a quatro perguntas: é cicatriz inativa? Qual a densidade? Qual a profundidade? O que há atrás? As respostas definem o prognóstico e a cirurgia possível.

Exame passo a passo

  1. Acuidade visual e refração

    Com e sem buraco estenopeico; a melhora com estenopeico ou lente rígida indica componente de astigmatismo irregular.

  2. Luz difusa

    Tamanho, forma, posição em relação à pupila; vasos; grau (nébula, mácula, leucoma).

  3. Corte óptico e retroiluminação

    Profundidade da cicatriz, afinamento ou ectasia; nébulas tênues aparecem melhor na retroiluminação.

  4. Fluoresceína

    Epitélio íntegro confirma inatividade; Seidel se houver suspeita de fístula.

  5. Câmara anterior e íris

    Íris aderida, pupila deformada, profundidade da câmara; gonioscopia quando possível.

  6. Pressão e segmento posterior

    Tonometria (glaucoma no leucoma aderente); ecografia B quando o fundo não é visível.

Exames de imagem

A tomografia de coerência óptica de segmento anterior mede a profundidade da cicatriz e a espessura residual — decide entre PTK, transplante lamelar e penetrante. A biomicroscopia ultrassônica (UBM) mostra íris e ângulo atrás de leucomas densos.

Como registrar

Modelo de registro

OD: leucoma corneano paracentral inferior de 4 × 3 mm, denso, ocupando cerca de 2/3 da espessura estromal ao corte óptico, com 2 vasos estromais oriundos do limbo às 6 h. Epitélio íntegro (fluoresceína negativa). Íris aderida à face posterior às 6 h, com pupila discretamente desviada inferiormente (leucoma aderente). CA formada. PIO 18 mmHg. AV OD 20/200, sem melhora com estenopeico. Antecedente de úlcera bacteriana perfurada há 2 anos.

Modelo didático: registre tamanho, posição em relação ao eixo visual, profundidade, vasos e aderência de íris.

Principais causas

Qualquer agressão que destrua a camada de Bowman e atinja o estroma pode deixar leucoma. No mundo, infecções e traumas lideram; em crianças, entram também as causas congênitas.

Ceratites infecciosas

Bacterianas, fúngicas, herpéticas (cicatrizes recorrentes e vascularizadas), Acanthamoeba. Úlcera perfurada deixa leucoma aderente.

Trauma

Lacerações, corpo estranho, ferimentos perfurantes; em recém-nascidos, trauma de fórceps (estrias de Descemet).

Queimaduras químicas e térmicas

Álcalis em especial; associam deficiência límbica e vascularização extensa.

Tracoma e xeroftalmia

Causas evitáveis de cegueira corneana: triquíase crônica e ceratomalácia por falta de vitamina A.

Congênitas

Anomalia de Peters, esclerocórnea, glaucoma congênito, mucopolissacaridoses, distrofias endoteliais congênitas.

Pós-cirúrgicas

Haze após cirurgia refrativa de superfície, cicatriz de incisão, falência de enxerto.

Leucoma ou outra opacidade?

Nem toda mancha branca na córnea é cicatriz. Infiltrados ativos, edema, depósitos e opacidades congênitas mudam totalmente a conduta.

CondiçãoAchado-chaveComo diferenciar
Achado-chaveInfiltrado com defeito epitelial
Como diferenciarDor, hiperemia, fluoresceína positiva, reação de câmara anterior; bordas mal definidas.
Achado-chaveCórnea espessa e acinzentada
Como diferenciarPregas de Descemet, bolhas epiteliais; potencialmente reversível com transplante endotelial.
Achado-chaveFaixa calcificada interpalpebral
Como diferenciarComeça na periferia às 3 e 9 h, aspecto de "queijo suíço"; sai com EDTA.
Achado-chaveAnel periférico com intervalo lúcido
Como diferenciarDepósito lipídico circunferencial; não afeta a visão.
Achado-chaveOpacidade central ao nascer
Como diferenciarDefeito de Descemet e endotélio, com ou sem aderências iridocorneanas; congênita.
Achado-chaveReflexo pupilar branco
Como diferenciarA opacidade está atrás da córnea transparente (catarata, retinoblastoma).

A conduta depende de três fatores: o potencial visual do olho, a profundidade da cicatriz e o estado do endotélio. Em olhos sem potencial visual, o objetivo passa a ser estético.

Opções conforme o caso

SituaçãoOpçãoComentário
Cicatriz recenteAguardar e acompanharCicatrizes podem clarear parcialmente nos primeiros meses.
Nébula/mácula com astigmatismo irregularLente de contato rígida ou escleralRegulariza a superfície; muitas vezes evita cirurgia.
Opacidade superficial (estroma anterior)Ceratectomia fototerapêutica (PTK) ou ceratectomia superficialRemove a cicatriz anterior; pode induzir hipermetropia.
Leucoma estromal com endotélio saudávelCeratoplastia lamelar anterior profunda (DALK)Preserva o endotélio do paciente; menor risco de rejeição endotelial.
Leucoma de espessura total, aderente ou com endotélio doenteCeratoplastia penetrantePode exigir sinequiólise e controle do glaucoma.
Múltiplas falências de enxerto, olho de alto riscoCeratoprótese (ex.: Boston tipo I)Centros especializados; seguimento rigoroso.
Leucoma central pequeno em criança, sem acesso a transplanteIridectomia ópticaCria uma "pupila" atrás da córnea clara; uso hoje restrito.
Olho sem potencial visualTatuagem corneana (ceratopigmentação); lente de contato cosmética; prótese escleralObjetivo estético; reduz também o ofuscamento.

Em crianças, tratar o leucoma central cedo e associar tratamento da ambliopia. Vascularização, inflamação e deficiência límbica aumentam o risco de rejeição.

Tatuagem corneana

A ceratopigmentação deposita pigmento (hoje, pigmentos minerais micronizados) dentro do estroma, por técnica manual ou em túnel lamelar feito com laser de femtossegundo. Indicada para leucomas em olhos sem potencial visual e para defeitos de íris com ofuscamento.

Cuidado

Complicações incluem inflamação, fotofobia, desbotamento e neovascularização. O uso puramente cosmético em olhos sadios (troca da cor dos olhos) é controverso e desaconselhado por sociedades de oftalmologia, pelo risco de lesão permanente.

Não deixe passar

  • Leucoma aderente: medir a PIO e vigiar glaucoma secundário.
  • Opacidade "nova" com dor, hiperemia ou fluoresceína positiva: é ceratite ativa, não leucoma.
  • Leucoma central em criança: risco de ambliopia de privação — encaminhar cedo.
  • Leucoma herpético: recidivas reativam a cicatriz e ameaçam o enxerto; considerar profilaxia antiviral após transplante.

Referências bibliográficas

  1. 1
    Livro-texto2025
    American Academy of Ophthalmology. Basic and Clinical Science Course (BCSC), Section 8: External Disease and Cornea. San Francisco: AAO; 2024–2025.
  2. 2
    Livro-texto2020
    Bowling B. Kanski’s Clinical Ophthalmology: A Systematic Approach. 9. ed. Elsevier; 2020.
  3. 3
    Livro-texto2022
    Mannis MJ, Holland EJ, editores. Cornea. 5. ed. Elsevier; 2022.
  4. 4
    Artigo2020
    Wilson SE. Corneal wound healing. Exp Eye Res. 2020;197:108089.
  5. 5
    Artigo2010
    Alió JL, Sirerol B, Walewska-Szafran A, Miranda M. Corneal tattooing (keratopigmentation) with new mineral micronised pigments to restore cosmetic appearance in severely impaired eyes. Br J Ophthalmol. 2010;94(2):245–249.
  6. 6
    Artigo2012
    Oliva MS, Schottman T, Gulati M. Turning the tide of corneal blindness. Indian J Ophthalmol. 2012;60(5):423–427.
  7. 7
    Revisão online2026
    EyeWiki — American Academy of Ophthalmology. Deep Anterior Lamellar Keratoplasty (DALK). Acesso em 2026.

Fontes das imagens

As imagens deste atlas têm finalidade educacional e foram produzidas a partir de referências clínicas reais e de representações anatômicas didáticas.

Parte delas pode ter sido editada ou aprimorada digitalmente para destacar as estruturas e os achados descritos no texto.

Aviso importante

Material educacional. Não substitui a avaliação oftalmológica, os protocolos institucionais nem a consulta às bulas. A indicação de cirurgia corneana é individual e definida pelo especialista em córnea, conforme o potencial visual, o endotélio e o risco de rejeição.

Atlas MedFoco de Oftalmologia • Conteúdo para educação médica. O diagnóstico e a conduta dependem da avaliação clínica individual.
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