MedFoco

Atlas de Oftalmologia • Retina

Exsudatos duros

Exsudatos lipídicos • hard exudates • estrela macular (forma radial)

Depósitos amarelos, cerosos e de bordas nítidas na retina, formados por lipídios e proteínas que sobram quando o plasma vazado de vasos doentes é reabsorvido. São o "rastro" do vazamento crônico: em anel ao redor de microaneurismas na retinopatia diabética, em estrela macular na hipertensão maligna e na neurorretinite.

Tipo
Sinal de exsudação crônica
Camada
Plexiforme externa (Henle)
Mecanismo
Quebra da barreira hematorretiniana
Pista no exame
Anel circinado ou estrela
8–10 min de leitura Atualizado em outubro de 2026

Reconheça o achado

Compare a foto com o esquema. O exsudato duro não é "pus": é gordura precipitada. O plasma vaza de microaneurismas ou capilares doentes, a parte aquosa é reabsorvida e lipoproteínas ficam na camada plexiforme externa. Por isso o formato do depósito desenha o caminho do vazamento.

Imagem clínica

Figura 1. Exsudatos duros amarelos em anel circinado temporal à fóvea, em diabético. No centro do anel há microaneurismas — a fonte do vazamento.

Roteiro de observação
  1. 1
    Cor e brilhoAmarelo-esbranquiçado, aspecto ceroso e reluzente.
  2. 2
    BordasNítidas, em pontos ou placas confluentes (diferente da mancha algodonosa, de bordas borradas).
  3. 3
    PadrãoAnel circinado (fonte no centro), estrela macular (radial) ou placa sob a fóvea.
  4. 4
    Distância da fóveaExsudatos a até 500 µm do centro com espessamento adjacente definem edema clinicamente significativo (ETDRS).

O que são exsudatos duros

São depósitos extracelulares de lipídios e proteínas, parte deles dentro de macrófagos, localizados principalmente na camada plexiforme externa. Indicam que a barreira hematorretiniana interna está rompida há tempo suficiente para o material se acumular.

Demoram meses para desaparecer depois que o vazamento cessa. Exsudatos que se acumulam sob a fóvea podem formar uma placa que evolui para fibrose e perda visual permanente. Níveis elevados de lipídios no sangue se associam a mais exsudatos e a maior risco de perda visual no diabético.

Exsudato perto da fóvea

Exsudatos duros dentro ou próximos da mácula em diabético pedem OCT para edema macular. Em paciente jovem com estrela macular e edema de disco, pense em neurorretinite; com pressão muito alta, em hipertensão maligna.

Exsudato duro, mancha algodonosa ou drusa?

Três lesões claras do fundo de olho com significados muito diferentes. Olhe a cor, as bordas e a profundidade.

Exsudato duro

  • Amarelo, ceroso, bordas nítidas
  • Camada plexiforme externa
  • Vazamento crônico

Mancha algodonosa

  • Branca, fofa, bordas borradas
  • Camada de fibras nervosas
  • Microinfarto (isquemia aguda)

Drusa

  • Amarelada, arredondada, mais profunda
  • Sob o epitélio pigmentar
  • Envelhecimento / DMRI

Quatro padrões de exsudatos duros

O padrão diz onde está a fonte do vazamento e ajuda a pensar na causa.

Anel circinado diabético

Anel amarelo incompleto em volta de um grupo de microaneurismas. A área dentro do anel está espessada (edema). Tratar a fonte faz o anel regredir em meses.

CircinadoDiabetesEdema macular

Estrela macular

Exsudatos dispostos em raios a partir da fóvea, seguindo as fibras de Henle. Com edema de disco unilateral em jovem, pense em neurorretinite (Bartonella); bilateral com hipertensão grave, em retinopatia hipertensiva maligna.

EstrelaNeurorretiniteHipertensão

Placa subfoveal

Placa amarela densa sob a fóvea. Pode evoluir para cicatriz fibrótica com perda visual permanente, mesmo após o edema ser tratado.

PlacaPrognóstico ruim

Exsudação maciça (Coats)

Exsudação amarela extensa, inclusive sub-retiniana, com telangiectasias e aneurismas periféricos, em menino. Pode causar leucocoria e descolamento exsudativo.

CoatsCriançaLeucocoria

A biomicroscopia de fundo com lente (78/90 D) mostra a profundidade e a relação com o espessamento macular; a OCT confirma edema e localiza os depósitos.

Exame passo a passo

  1. Contexto

    Diabetes, hipertensão, dislipidemia, doença renal; idade; quadro agudo (febre, arranhão de gato) ou crônico.

  2. Padrão e fonte

    Anel (procure microaneurismas no centro), estrela (disco e pressão arterial), placa (fóvea), exsudação maciça (periferia).

  3. Mácula

    Distância da fóvea; espessamento à biomicroscopia.

  4. OCT

    Pontos hiper-refletivos nas camadas externas, com sombra posterior; cistos e líquido do edema.

  5. Angiografia

    Exsudatos não vazam: mostram a fonte (microaneurismas, telangiectasias, macroaneurisma, neovascularização).

Como registrar

Modelo de registro

OE: exsudatos duros em anel circinado temporal à fóvea, borda nasal a cerca de 1/3 de diâmetro de disco do centro, com microaneurismas no interior. OCT: espessamento macular que envolve o centro, com cistos intrarretinianos e focos hiper-refletivos. Conclusão: edema macular diabético com envolvimento central.

Registre padrão, distância da fóvea e se o edema envolve o centro (OCT).

Causas de exsudatos duros

Qualquer vaso que vaze cronicamente pode produzir exsudatos. Procure sempre a fonte.

Retinopatia diabética

Causa mais comum; anéis circinados e edema macular.

Hipertensão grave

Estrela macular, hemorragias em chama, manchas algodonosas, edema de disco.

Oclusão venosa

Exsudatos no setor drenado pela veia ocluída, na fase crônica.

Macroaneurisma arterial

Anel de exsudatos em volta de dilatação de arteríola, em idoso hipertenso.

Neurorretinite

Edema de disco + estrela macular; Bartonella henselae é a causa infecciosa clássica.

Doença de Coats

Telangiectasias periféricas com exsudação maciça em meninos.

Neovascularização de coroide

Exsudação lipídica em DMRI exsudativa e vasculopatia polipoidal.

Outras

Retinopatia por radiação, telangiectasia macular, hemangioblastoma (von Hippel-Lindau).

Diferencial

CondiçãoAchado-chaveComo diferenciar
Achado-chaveAmareladas, arredondadas, sub-EPR
Como diferenciarMais profundas, bordas menos brilhantes; idoso; sem vasos vazando.
Mancha algodonosa
Achado-chaveBranca e fofa
Como diferenciarSuperficial, bordas borradas; some em semanas.
Cristais retinianos
Achado-chavePontos brilhantes refringentes
Como diferenciarTamoxifeno, cantaxantina, distrofia de Bietti, telangiectasia macular tipo 2.
Achado-chaveLesões pisciformes amareladas
Como diferenciarStargardt / fundus flavimaculatus; no EPR; autofluorescência.

O exsudato regride quando o vazamento para. A conduta é tratar a fonte e a doença sistêmica.

Para onde cada achado leva

CenárioConduta
Exsudatos com edema macular diabético centralEncaminhar à retina: anti-VEGF intravítreo como primeira linha; laser focal em casos selecionados.
Diabético com exsudatosControle glicêmico, pressórico e lipídico; o fenofibrato reduziu a progressão da retinopatia em estudos (FIELD, ACCORD-Eye) — decisão do clínico.
Estrela macular + pressão muito elevadaEmergência hipertensiva: redução controlada da pressão em ambiente hospitalar.
Estrela macular + edema de disco unilateralInvestigar neurorretinite (sorologia para Bartonella, sífilis, toxoplasmose).
Criança com exsudação maciçaEncaminhar à retina pediátrica (Coats; excluir retinoblastoma).

Referências bibliográficas

  1. 1
    Diretriz2025
    Lim JI, Kim SJ, Bailey ST, et al.; American Academy of Ophthalmology Preferred Practice Pattern Retina/Vitreous Committee. Diabetic Retinopathy Preferred Practice Pattern®. Ophthalmology. 2025;132(4):P75–P162.
  2. 2
    Artigo1985
    Early Treatment Diabetic Retinopathy Study Research Group. Photocoagulation for diabetic macular edema. ETDRS report number 1. Arch Ophthalmol. 1985;103(12):1796–1806.
  3. 3
    Artigo1996
    Chew EY, Klein ML, Ferris FL 3rd, et al. Association of elevated serum lipid levels with retinal hard exudate in diabetic retinopathy. ETDRS report 22. Arch Ophthalmol. 1996;114(9):1079–1084.
  4. 4
    Artigo2004
    Wong TY, Mitchell P. Hypertensive retinopathy. N Engl J Med. 2004;351(22):2310–2317.
  5. 5
    Livro-texto2025
    American Academy of Ophthalmology. Basic and Clinical Science Course (BCSC), Section 12: Retina and Vitreous. San Francisco: AAO; 2024–2025.
  6. 6
    Livro-texto2020
    Bowling B. Kanski’s Clinical Ophthalmology: A Systematic Approach. 9. ed. Elsevier; 2020.
  7. 7
    Documento oficial2023
    Sociedade Brasileira de Diabetes. Diretriz Oficial da SBD — Manejo da retinopatia diabética. 2023.

Fontes das imagens

As imagens deste atlas têm finalidade educacional e foram produzidas a partir de referências clínicas reais e de representações anatômicas didáticas.

Parte delas pode ter sido editada ou aprimorada digitalmente para destacar as estruturas e os achados descritos no texto.

Aviso importante

Material educacional. Não substitui a avaliação oftalmológica, os protocolos institucionais nem a consulta às bulas.

Atlas MedFoco de Oftalmologia • Conteúdo para educação médica. O diagnóstico e a conduta dependem da avaliação clínica individual.
Rolar para cima