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Atlas de Oftalmologia • Retina

Microaneurismas

Microaneurismas retinianos • retinal microaneurysms

Pequenas dilatações saculares da parede dos capilares retinianos, vistas como pontos vermelhos bem delimitados no polo posterior. São o primeiro sinal clínico da retinopatia diabética e, quando vazam, a origem do edema e dos exsudatos duros da mácula.

Tipo
Sinal microvascular
Tamanho
Em geral < 125 µm
Mecanismo
Perda de pericitos, parede fraca
Pista no exame
Pontos que brilham na angiografia
8–10 min de leitura Atualizado em outubro de 2026

Reconheça o achado

Compare a retinografia com o esquema. O microaneurisma é um "balão" na parede de um capilar; como o capilar é invisível ao exame, o que se vê é um ponto vermelho isolado, redondo, de bordas nítidas, geralmente no polo posterior e ao redor da mácula.

Imagem clínica

Figura 1. Retinopatia diabética não proliferativa leve: pontos vermelhos pequenos e nítidos temporais à fóvea. Compare com o calibre de uma veia na borda do disco (cerca de 125 µm).

Roteiro de observação
  1. 1
    TamanhoMenores que o calibre de uma veia principal na borda do disco; maiores sugerem hemorragia.
  2. 2
    BordasNítidas e redondas; bordas borradas sugerem hemorragia puntiforme.
  3. 3
    LocalizaçãoPolo posterior, temporal à mácula; em diabetes, padrão difuso e bilateral.
  4. 4
    VizinhançaAnéis de exsudatos duros ao redor indicam vazamento crônico.

O que são microaneurismas

São dilatações focais dos capilares, geralmente do lado venoso, com diâmetro de algumas dezenas de micrômetros. Na retinopatia diabética, a perda dos pericitos (células de suporte dos capilares) e o espessamento da membrana basal enfraquecem a parede; a isquemia local e fatores de crescimento estimulam a proliferação endotelial.

Microaneurismas aparecem e desaparecem: alguns trombosam e ficam brancos ou somem. A taxa de renovação (novos que surgem) acompanha a atividade da doença. Na escala clínica internacional, retinopatia com só microaneurismas é a retinopatia diabética não proliferativa leve.

Por que importam

Os microaneurismas em si não reduzem a visão. O problema é o vazamento perto da fóvea, que causa edema macular diabético — a principal causa de baixa visual no diabético.

Microaneurisma ou hemorragia puntiforme?

À oftalmoscopia, os dois podem ser indistinguíveis — por isso os sistemas de classificação muitas vezes os somam como "H/Ma". A angiografia separa: o microaneurisma enche de contraste (ponto claro); a hemorragia bloqueia (ponto escuro).

Microaneurisma

  • Ponto vermelho pequeno, borda nítida
  • Angiografia: hiperfluorescente, pode vazar
  • Pode ficar branco se trombosar

Hemorragia puntiforme

  • Ponto vermelho um pouco maior, borda menos nítida
  • Angiografia: hipofluorescente (bloqueio)
  • Reabsorve em semanas a meses
AchadoO que éDiferença
Hemorragias puntiformes
O que éSangue nas camadas médias
DiferençaBloqueiam a fluorescência; somem com o tempo.
IRMA
O que éVasos intrarretinianos tortuosos
DiferençaSegmentos lineares, não pontos; marcam isquemia.
Macroaneurisma arterial
O que éDilatação grande de arteríola
DiferençaIdoso hipertenso; lesão única sobre arteríola, com hemorragia em vários planos.

Microaneurismas em quatro imagens

Ao olhar uma retinografia de diabético, conte os pontos vermelhos, veja se há exsudatos ao redor e compare com a angiografia ou a OCTA, que mostram muito mais microaneurismas do que o exame clínico.

RDNP leve

Poucos pontos vermelhos nítidos no polo posterior, sem hemorragias maiores, exsudatos ou manchas algodonosas. Só microaneurismas = retinopatia leve; reexame anual costuma bastar se o controle sistêmico for bom.

Retinopatia levePolo posterior

Angiofluoresceinografia

Dezenas de pontos brancos (hiperfluorescentes) nas fases iniciais, muitos mais do que os vistos na foto colorida. Nas fases tardias, os que vazam ficam "borrados".

AngiografiaHiperfluorescência

Anel circinado

Grupo de microaneurismas no centro de um anel de exsudatos duros amarelados. O anel marca o limite onde o plasma vazado foi reabsorvido e os lipídios precipitaram.

Exsudatos circinadosVazamento

Microaneurismas na OCT e OCTA

Na OCT, lesões redondas hiper-refletivas com bordas nas camadas nucleares internas; na OCTA, dilatações saculares nos plexos capilares, ao lado de áreas sem fluxo (não perfusão).

OCTOCTA

Microaneurismas são pequenos: examine o polo posterior com pupila dilatada e magnificação (biomicroscopia de fundo com lente de 78/90 D) ou analise retinografias de boa qualidade.

Exame passo a passo

  1. Contexto clínico

    Diabetes (tipo e tempo), hipertensão, gestação, doença renal; HbA1c e pressão arterial.

  2. Fundo dilatado

    Polo posterior e quatro quadrantes; contar e localizar os pontos vermelhos.

  3. Procurar o que vem junto

    Hemorragias, exsudatos, manchas algodonosas, IRMA, veias em rosário, neovasos — definem a gravidade.

  4. Mácula

    Espessamento e exsudatos perto da fóvea; OCT confirma o edema.

  5. Exames de imagem

    Retinografia para rastreamento e seguimento; angiografia ou OCTA quando há dúvida ou para planejar laser.

Onde o microaneurisma entra na classificação

Nível (escala internacional)Achados
Sem retinopatia aparenteNenhuma alteração
RDNP leveSomente microaneurismas
RDNP moderadaMais que só microaneurismas, mas menos que a grave
RDNP grave (regra 4-2-1)Hemorragias graves nos 4 quadrantes, veias em rosário em 2 ou IRMA em 1, sem neovasos
RD proliferativaNeovasos e/ou hemorragia vítrea ou pré-retiniana

Wilkinson et al., Ophthalmology 2003; AAO Diabetic Retinopathy PPP 2025.

Modelo de registro

AO: microaneurismas esparsos no polo posterior, sem hemorragias, exsudatos ou manchas algodonosas; sem IRMA, veias em rosário ou neovasos. Mácula sem espessamento (OCT normal). Conclusão: retinopatia diabética não proliferativa leve, sem edema macular.

Classifique a retinopatia e o edema macular separadamente.

Causas de microaneurismas

Diabetes é de longe a causa mais comum, mas qualquer doença que lese capilares ou cause isquemia retiniana pode produzi-los. Microaneurismas unilaterais ou setoriais pedem outra explicação.

Retinopatia diabética

Bilateral, difusa, polo posterior; acompanha hemorragias e exsudatos.

Retinopatia hipertensiva

Com estreitamento arteriolar, cruzamentos AV, hemorragias em chama.

Oclusão venosa

Setorial (ramo) ou do olho todo (central); unilateral.

Síndrome isquêmica ocular

Unilateral, média periferia; estenose carotídea.

Retinopatia por radiação

Meses a anos após radioterapia de cabeça ou olho.

Outras

Telangiectasia macular, doença de Coats, anemia falciforme, HIV, hiperviscosidade.

Diferencial

CondiçãoAchado-chaveComo diferenciar
Hemorragias puntiformes
Achado-chavePontos vermelhos de borda menos nítida
Como diferenciarBloqueio na angiografia.
Achado-chaveContexto mais comum
Como diferenciarClassificar gravidade e edema macular.
Achado-chaveAlterações arteriolares
Como diferenciarEstreitamento, cruzamentos AV, chama de vela.
Pigmento / drusas pequenas
Achado-chavePontos escuros ou amarelos
Como diferenciarCor diferente; drusas são amarelas e sub-retinianas.

Não se trata o microaneurisma isolado: trata-se a doença de base e, quando há edema macular, o edema.

O que fazer com o achado

CenárioConduta
Diabético com só microaneurismas (RDNP leve), sem edemaControle glicêmico, pressórico e lipídico; reexame em cerca de 12 meses.
Microaneurismas com edema macular que envolve o centro e baixa visualEncaminhar à retina: anti-VEGF intravítreo é a primeira linha.
Edema que não envolve o centroObservação próxima ou laser focal nos microaneurismas que vazam.
Microaneurismas unilaterais ou setoriaisInvestigar oclusão venosa, síndrome isquêmica ocular e outras causas.

AAO Diabetic Retinopathy PPP 2025; SBD — Manejo da retinopatia diabética (2023).

Referências bibliográficas

  1. 1
    Diretriz2025
    Lim JI, Kim SJ, Bailey ST, et al.; American Academy of Ophthalmology Preferred Practice Pattern Retina/Vitreous Committee. Diabetic Retinopathy Preferred Practice Pattern®. Ophthalmology. 2025;132(4):P75–P162.
  2. 2
    Artigo2003
    Wilkinson CP, Ferris FL 3rd, Klein RE, et al. Proposed international clinical diabetic retinopathy and diabetic macular edema disease severity scales. Ophthalmology. 2003;110(9):1677–1682.
  3. 3
    Artigo1985
    Early Treatment Diabetic Retinopathy Study Research Group. Photocoagulation for diabetic macular edema. ETDRS report number 1. Arch Ophthalmol. 1985;103(12):1796–1806.
  4. 4
    Documento oficial2023
    Sociedade Brasileira de Diabetes. Diretriz Oficial da SBD — Manejo da retinopatia diabética. 2023.
  5. 5
    Livro-texto2025
    American Academy of Ophthalmology. Basic and Clinical Science Course (BCSC), Section 12: Retina and Vitreous. San Francisco: AAO; 2024–2025.
  6. 6
    Livro-texto2020
    Bowling B. Kanski’s Clinical Ophthalmology: A Systematic Approach. 9. ed. Elsevier; 2020.

Fontes das imagens

As imagens deste atlas têm finalidade educacional e foram produzidas a partir de referências clínicas reais e de representações anatômicas didáticas.

Parte delas pode ter sido editada ou aprimorada digitalmente para destacar as estruturas e os achados descritos no texto.

Aviso importante

Material educacional. Não substitui a avaliação oftalmológica, os protocolos institucionais nem a consulta às bulas.

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