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Emergência & UTI • Toxicologia

Descontaminação no paciente intoxicado

Carvão ativado • irrigação intestinal • pele e olhos • eliminação aumentada

Durante décadas a regra foi "carvão só na primeira hora". As recomendações internacionais publicadas em 2026 desmontaram esse limite: a janela se estende conforme a substância, surgiu o conceito de dose adicional e a decisão passou a ser uma avaliação de risco individualizada. O que não mudou: a maioria dos intoxicados não se beneficia de nenhuma descontaminação, e suporte clínico continua valendo mais do que qualquer procedimento.

Carvão: 50 g ou 1 g/kgJanela além de 1 horaVia aérea decide tudoIpeca e lavagem: fora de rotina
19 min de leitura Atualizado em outubro de 2026

Em 30 segundos

O essencial de visão geral

  1. Descontaminar é reduzir a quantidade de tóxico que ainda pode ser absorvida — pelo tubo digestivo, pela pele, pelos olhos ou pela via respiratória.
  2. Suporte clínico vem antes de qualquer descontaminação: a maioria dos intoxicados sobrevive sem ela, e a via aérea desprotegida pode matar por causa dela.
  3. Em 2026 a janela do carvão deixou de ser "só a primeira hora": para muitos venenos vai até 6 horas, e além disso quando a absorção continua.
  4. Descontaminar, eliminar e antagonizar são estratégias diferentes, com listas de substâncias diferentes.

O que é descontaminação

Descontaminar é reduzir a quantidade de tóxico que ainda pode ser absorvida. Age antes ou durante a absorção, e por isso o tempo importa. É diferente da eliminação aumentada, que retira o tóxico já absorvido, e do antídoto, que neutraliza o efeito.

Na prática, quatro portas de entrada precisam ser consideradas em todo intoxicado: trato gastrointestinal, pele, olhos e via respiratória. A descontaminação gastrointestinal domina as discussões, mas a dérmica e a ocular são as que mais frequentemente ficam esquecidas — e as que têm o melhor custo-benefício quando feitas cedo.

Nada disso vem antes do suporte.

Via aérea, respiração, circulação, glicemia e temperatura são a prioridade. Um paciente estabilizado sobrevive à maioria das intoxicações sem qualquer descontaminação; um paciente com via aérea desprotegida pode morrer por causa dela.

O que mudou em 2026

No fim de março de 2026 foram publicadas as recomendações do Clinical Toxicology Recommendations Collaborative (Hoegberg e colaboradores, Clinical Toxicology), fruto de trabalho conjunto das principais sociedades internacionais de toxicologia clínica. Elas substituem os posicionamentos de 1997, 1999 e 2005 sobre carvão ativado e trazem três mudanças de fundo:

  • O limite de 1 hora caiu. Para muitos venenos, o carvão é apropriado até 6 horas após a ingestão, conforme avaliação individualizada de risco.
  • Surgiu a "dose adicional". Um segundo aporte de carvão, com finalidade de completar a descontaminação, quando há suspeita de absorção contínua — não confundir com dose múltipla.
  • Listas por substância. Quarenta e três venenos ou categorias foram avaliados, com recomendação explícita a favor, contra ou de avaliação individualizada.
Por que a janela se estendeu

Estudos de esvaziamento gástrico em pacientes intoxicados mostraram tempo de esvaziamento duas a três vezes mais longo do que nos mesmos indivíduos após a recuperação. Endoscopias em intoxicados encontraram conteúdo em fase de comprimido ou de solução em parcela relevante dos pacientes entre 1 e 4 horas, e ainda em alguns entre 4 e 12 horas. Ou seja: o tóxico frequentemente continua lá muito depois da primeira hora.

Descontaminação não é eliminação

A confusão entre os dois conceitos é a origem de boa parte dos erros de prescrição. Descontaminar impede que o tóxico entre; eliminar retira o que já entrou. As doses múltiplas de carvão pertencem ao segundo grupo, e não ao primeiro — e é por isso que a lista de substâncias é diferente.

A regra que resume tudo: descontaminação é uma intervenção com benefício incerto e risco concreto. Ela só se justifica quando a substância adsorve ou pode ser removida, a quantidade ingerida é potencialmente tóxica, o tempo decorrido ainda permite ganho, não há contraindicação, e o procedimento pode ser feito com segurança.

Se falhar qualquer um desses cinco itens, a resposta provavelmente é não descontaminar — e investir em suporte, monitorização e antídoto quando existir.

Descontaminar, eliminar, antagonizar

Vale olhar as quatro estratégias lado a lado, porque elas agem em momentos diferentes da intoxicação. O suporte clínico é a única que serve a todos os pacientes; as demais dependem da substância, do tempo e da cinética — e uma não substitui a outra.

EstratégiaQuando ageExemplosLimitação principal
DescontaminaçãoAntes ou durante a absorçãoCarvão em dose única, irrigação intestinal total, lavagem gástrica, irrigação de pele e olhosJanela de tempo e risco de aspiração
Eliminação aumentadaDepois da absorçãoCarvão em doses múltiplas, alcalinização urinária, hemodiáliseVale só para substâncias com cinética favorável
AntídotoEm qualquer momento, sobre o efeitoN-acetilcisteína, naloxona, flumazenil, atropina e pralidoxima, fragmentos Fab antidigoxinaExiste para poucas substâncias e nem sempre disponível
Suporte clínicoSempreVia aérea, ventilação, volume, vasopressor, controle de convulsão e de temperaturaNenhuma — é o que salva a maioria dos pacientes

Carvão ativado aparece em duas linhas da tabela porque tem dois papéis distintos: dose única e dose adicional descontaminam; doses múltiplas aumentam a eliminação. As indicações e as listas de substâncias não são as mesmas.

Os cinco números que orientam

Poucos números sustentam quase todas as decisões deste artigo. Eles servem como âncora na beira do leito, mas nenhum deles decide sozinho: a substância, a dose ingerida e a segurança do procedimento continuam mandando.

50 g ou 1 g/kgDose de carvão no adulto e na criança, respectivamente, até o limite da dose de adulto.
Até 6 horasJanela em que o carvão é apropriado para muitos venenos, conforme avaliação individualizada.
A cada 4 horasIntervalo da dose múltipla, ou meia dose a cada 2 horas para melhor tolerância.
1 a 2 L/hVelocidade da irrigação intestinal total com polietilenoglicol no adulto.
15 a 30 minTempo mínimo de irrigação ocular contínua antes de reavaliar o pH da superfície.

O Disque-Intoxicação (0800 722 6001) conecta com o Centro de Informação e Assistência Toxicológica de referência. Em qualquer dúvida sobre indicação, dose ou janela, essa ligação vale mais do que qualquer tabela — inclusive esta.

Em 30 segundos

O essencial de carvão ativado

  1. O carvão adsorve o tóxico no lúmen; não adsorve metais, íons, álcoois nem cáusticos.
  2. Três estratégias com nomes parecidos: dose única e dose adicional descontaminam; doses múltiplas aumentam a eliminação.
  3. Reflexos de via aérea ausentes ou em risco em paciente não intubado e risco de perfuração são recomendações fortes contra.
  4. Não se intuba nem se passa sonda apenas para dar carvão — salvo risco real de toxicidade ameaçadora à vida.

Como funciona e como se prescreve

O carvão ativado é um pó com enorme superfície de contato que adsorve moléculas no lúmen gastrointestinal, impedindo que passem para a circulação. Não adsorve tudo: substâncias muito pequenas, iônicas ou muito polares escapam quase completamente.

A relação alvo entre a massa de carvão e a massa de tóxico é de aproximadamente 10 para 1. Isso explica por que ingestões maciças podem exceder a capacidade de uma dose única — e é exatamente o raciocínio por trás do conceito de dose adicional.

Dose única · descontaminação

50 g no adulto; 1 g/kg na criança, sem ultrapassar a dose de adulto. Objetivo: impedir a absorção do que ainda está no tubo digestivo.

Dose adicional · conceito novo

Mesma dose da dose única, administrada a qualquer momento após a primeira, quando há evidência ou suspeita de absorção contínua. Não é dose múltipla.

Doses múltiplas · eliminação aumentada

Começa com a mesma dose e repete a cada 4 horas, ou meia dose a cada 2 horas — esta última costuma ser mais bem tolerada por volume.

Como administrar

Suspensão em água, preferencialmente ingerida pelo próprio paciente. O sabor é desagradável e o volume é grande: reserve alguém da equipe para preparar, misturar e estimular a ingestão — isso muda a taxa de sucesso.

A janela de tempo, revisada

A recomendação de administrar o carvão apenas na primeira hora nasceu de estudos em voluntários que receberam doses subtóxicas, com o carvão ofertado quase imediatamente — um cenário que quase nunca se repete na emergência real. A janela agora é escalonada pela substância e pela formulação.

Até 1 hora

Momento de maior benefício esperado. Se a substância adsorve, a dose é potencialmente tóxica e não há contraindicação, o carvão é apropriado.

De 1 a 6 horas

Para muitos venenos, o carvão continua apropriado nessa faixa, conforme avaliação individualizada de risco: tipo e quantidade da substância, formulação, coingestões, comorbidades e disponibilidade de antídoto.

Além de 6 horas

Apropriado quando há suspeita de absorção contínua: formação de farmacobezoar, formulações de liberação modificada, ou quantidade ingerida que ultrapassa os limites de solubilidade da substância.

Qualquer tempo, se a substância não adsorve

Não há papel para o carvão na intoxicação por arsênio, césio, cobre, etanol, metanol, etilenoglicol, ferro, chumbo, lítio e metformina — independentemente do tempo decorrido.

O tempo máximo recomendado varia por substância e por formulação. As faixas acima são o marco geral; para uma ingestão específica, consulte o centro de informação toxicológica, que trabalha com a tabela detalhada veneno a veneno.

Substâncias: quando indicar

A relação abaixo resume as recomendações de 2026 para as principais substâncias avaliadas. A coluna de dose única indica se a substância adsorve e se o carvão é apropriado; as demais indicam os cenários específicos de dose adicional e de doses múltiplas.

SubstânciaDose únicaDose adicionalDoses múltiplas
CarbamazepinaApropriadoSimSim
FenobarbitalApropriadoSimSim
TeofilinaApropriadoSimSim
TálioApropriadoSimSim
Glicosídeos cardíacosApropriadoNãoSim
ColchicinaApropriadoNãoSim
DapsonaApropriadoNãoSim
FenitoínaApropriadoNãoSim
ParacetamolApropriadoSimNão
SalicilatosApropriadoSimNão
ValproatoApropriadoSimNão
ParaquatApropriadoSimNão
VerapamilApropriadoSimNão
Antidepressivos tricíclicosApropriadoNãoNão
BetabloqueadoresApropriadoNãoNão
Bloqueadores de canal de cálcioApropriadoNãoNão
BupropionaApropriadoNãoNão
CloroquinaApropriadoNãoNão
IsoniazidaApropriadoNãoNão
OrganofosforadosApropriadoNãoNão
SulfonilureiasApropriadoNãoNão
Inibidores do fator Xa e varfarinaApropriadoNãoNão
Ferro, lítio, chumbo, arsênio, cobreSem papelNãoNão
Etanol, metanol, etilenoglicolSem papelNãoNão
Metformina e césioSem papelNãoNão

Também constam da lista de substâncias em que o carvão é apropriado: antiarrítmicos, cianeto, cocaína, difenidramina, disopiramida, ibuprofeno, lamotrigina, metotrexato, moclobemida, opioides, quinidina e quinina, inibidores seletivos da recaptação de serotonina e venlafaxina. "Apropriado" não significa obrigatório — a dose ingerida, o tempo e as contraindicações continuam decidindo.

Contraindicações

As contraindicações abaixo foram formalizadas em 2026 e vêm com força de recomendação explícita. As três primeiras são recomendações fortes contra; todas giram em torno do mesmo risco — o carvão que vai para o pulmão ou para a cavidade abdominal.

  • Reflexos protetores de via aérea ausentes em paciente não intubado.
  • Reflexos protetores em risco ou com expectativa de se tornarem ausentes.
  • Risco de perfuração gastrointestinal.
  • Situações em que a administração aumentaria o risco de aspiração (recomendação fraca contra).
  • Peristaltismo ausente (recomendação fraca contra).
  • Pacientes que provavelmente necessitarão de endoscopia digestiva alta (recomendação fraca contra).

Duas situações exigem avaliação individualizada, e não proibição automática: peristaltismo diminuído (mas presente) e existência de um antídoto oral eficaz, que poderia ser adsorvido pelo carvão.

Via aérea: a decisão mais difícil

Intubar para conseguir administrar carvão é uma decisão delicada, porque a intubação em intoxicados tem taxa relevante de eventos adversos: hipotensão entre 1,5% e 11,8%, dessaturação entre 3,4% e 7,1% e parada cardíaca em 0,4% nos estudos disponíveis. Já a aspiração de carvão em paciente intubado é descrita em faixa baixa, de 1% a 4%.

O ensaio francês NICO (Freund e colaboradores, JAMA 2023), com 237 intoxicados em coma (Glasgow ≤ 8) em 20 serviços de emergência, mostrou que adiar a intubação — salvo critério de urgência — reduziu admissões em UTI, tempo de internação e eventos adversos em comparação com a intubação de rotina. É mais um argumento para não intubar apenas para dar carvão.

  1. Não intubar só para o carvão

    A intubação não deve ser feita apenas para administrar carvão em pacientes sem expectativa de complicações clinicamente significativas.

  2. Intubação já indicada

    Quando a intubação já está indicada por outro motivo — via aérea comprometida, insuficiência respiratória, rebaixamento importante, convulsão refratária ou instabilidade hemodinâmica —, é razoável passar sonda gástrica para viabilizar a descontaminação.

  3. Grande ingestão ameaçadora

    Em paciente com risco clinicamente significativo de toxicidade ameaçadora à vida após grande ingestão, é razoável intubar para viabilizar a descontaminação com segurança, sobretudo quando não existem outras opções terapêuticas.

  4. Sonda sem intubação: não

    Sonda nasogástrica ou orogástrica sem intubação não deve ser passada apenas com a finalidade de administrar carvão.

Quando a intubação já foi feita por outra indicação — inclusive para transporte ou para viabilizar hemodiálise —, a relação risco-benefício muda a favor do carvão, porque o custo do procedimento já foi pago.

Efeitos adversos

O carvão é inerte e não é absorvido, então seus riscos são mecânicos: ir para o lugar errado (pulmão), ser vomitado ou parar no intestino. Quase todos se previnem com a mesma disciplina — via aérea protegida, administração lenta e reavaliação do abdome antes de cada nova dose.

Aspiração

É a complicação grave. Infrequente, mas com relatos de óbito e de síndrome do desconforto respiratório agudo de instalação rápida. Associa-se sobretudo a proteção inadequada de via aérea e a passagem de sonda.

Vômito

Frequente e problemático: aumenta o risco de aspiração e faz perder a dose. Administração lenta e ambiente calmo ajudam mais do que antiemético isolado.

Obstrução e bezoar

Descritos com doses múltiplas, sobretudo em paciente com peristaltismo reduzido por opioide ou anticolinérgico. Ausculte e reavalie antes de cada dose.

Sorbitol

Formulações com sorbitol podem causar diarreia volumosa, desidratação e distúrbio eletrolítico. Se usar, no máximo na primeira dose — nunca repetidamente.

Rotas de tratamento

Condutas — como usar os cards. Cada rota abre o detalhamento com indicação, dose, alvo e cuidados; o nome do medicamento abre a ficha completa. As doses são referências: confira a apresentação disponível e o protocolo do seu serviço antes de prescrever. Três estratégias com nomes parecidos e finalidades diferentes, mais a decisão de via aérea que condiciona todas elas.

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O essencial de outras vias gi

  1. Fora o carvão, as técnicas gastrointestinais têm indicações estreitas e riscos maiores.
  2. Irrigação intestinal total é a escolha para liberação prolongada, substâncias que não adsorvem e pacotes de droga.
  3. Lavagem gástrica é excepcional; ipeca, catárticos e indução de vômito saíram de cena.
  4. Na ingestão de cáusticos quase tudo é proibido — inclusive neutralizar.

Panorama das modalidades

Fora o carvão, as demais técnicas de descontaminação gastrointestinal têm indicações estreitas e riscos maiores. Duas delas — indução de vômito e catárticos — foram essencialmente abandonadas, e a lavagem gástrica ficou restrita a situações excepcionais.

ModalidadeStatus atualQuando ainda cabeRisco principal
Carvão em dose únicaPrimeira escolhaSubstância adsorvível, dose potencialmente tóxica, dentro da janelaAspiração
Irrigação intestinal totalIndicação estreitaLiberação prolongada, substâncias que não adsorvem, pacotes ingeridosVômito, aspiração, distensão
Lavagem gástricaExcepcionalIngestão ameaçadora à vida, muito recente, sem alternativa terapêuticaAspiração, perfuração, hipoxemia, arritmia
Xarope de ipecaNão usarSem indicação estabelecida na prática hospitalar atualVômito prolongado, aspiração, atraso do carvão
Catárticos isoladosNão usarNenhuma indicação como terapia isoladaDesidratação e distúrbio eletrolítico
Endoscopia ou cirurgiaCasos selecionadosRuptura ou obstrução por pacote, corpo estranho, bezoar sintomáticoDo próprio procedimento

Irrigação intestinal total

Consiste em administrar grande volume de solução de polietilenoglicol com eletrólitos para arrastar o conteúdo intestinal, sem causar desvio significativo de líquidos ou eletrólitos. É a técnica de escolha quando a substância não adsorve ao carvão ou quando a formulação prolonga a permanência no intestino.

Considerar

  • Formulações de liberação prolongada ou revestimento entérico em dose potencialmente tóxica.
  • Substâncias que não adsorvem ao carvão: ferro, lítio, potássio, chumbo e outros metais.
  • Pacotes ingeridos de drogas, em paciente assintomático e sem obstrução.
  • Ingestões maciças com evidência radiológica de material remanescente.

Contraindicações

  • Obstrução, perfuração ou íleo.
  • Hemorragia digestiva significativa.
  • Instabilidade hemodinâmica.
  • Via aérea desprotegida ou rebaixamento do nível de consciência.
  • Vômitos incoercíveis.

Velocidade e objetivo da irrigação

O volume é o que faz a técnica funcionar e também o que a faz falhar: quase ninguém bebe 1 a 2 litros por hora, e a sonda nasogástrica acaba sendo necessária — por isso a exigência de via aérea preservada e de paciente cooperativo. A velocidade varia com a faixa etária.

Faixa etáriaVelocidadeObservação
Adulto e adolescente1 a 2 L por horaVia oral ou por sonda; a sonda quase sempre é necessária pelo volume
Criança de 6 a 12 anosCerca de 1 L por horaAjustar conforme tolerância e distensão abdominal
Criança de 9 meses a 6 anosCerca de 500 mL por horaVigiar hipotermia e desconforto respiratório
Objetivo final

Efluente retal límpido. No caso de pacotes ingeridos, acrescente a confirmação por imagem de que não há material remanescente antes de encerrar. Mantenha o paciente sentado quando possível e reavalie o abdome com frequência.

Se o paciente já recebeu carvão, saiba que a solução de polietilenoglicol pode provocar dessorção do tóxico já ligado ao carvão. Não é motivo para não usar as duas técnicas quando ambas estão indicadas, mas é motivo para não repetir carvão logo antes de iniciar a irrigação sem discutir o caso.

Lavagem gástrica

Deixou de ser procedimento de rotina há mais de duas décadas. Não há evidência de que melhore desfecho clínico, e a lista de complicações é substancial: pneumonia aspirativa, laringoespasmo, hipoxemia, arritmia, perfuração de esôfago e de estômago, e distúrbio hidroeletrolítico. O posicionamento de 2013 da AACT/EAPCCT manteve essa posição.

  1. Indicação excepcional

    Considere apenas diante de ingestão com risco de vida, muito recente, em que não existe outra opção terapêutica eficaz.

  2. Via aérea primeiro

    Via aérea protegida é pré-requisito: paciente com rebaixamento precisa estar intubado antes do procedimento.

  3. Posição e sonda

    Posicione em decúbito lateral esquerdo com cabeceira levemente rebaixada, usando sonda orogástrica de grosso calibre.

  4. Lavar até limpar

    Infunda alíquotas de soro fisiológico morno (cerca de 200 a 300 mL no adulto; 10 mL/kg na criança) e aspire, repetindo até o retorno ficar limpo.

  5. Não realizar

    Não realize em ingestão de cáusticos ou de hidrocarbonetos, nem quando há risco de perfuração ou hemorragia digestiva.

  6. Carvão ao final

    Administre o carvão pela própria sonda ao final, quando indicado, antes de retirá-la.

O que saiu de cena

Algumas técnicas sobrevivem mais na memória coletiva do que nas evidências. O problema delas não é só a falta de benefício: todas atrasam ou atrapalham o que funciona — o carvão, o antídoto oral e a endoscopia.

Xarope de ipeca

Não deve ser administrado de rotina. Não melhora desfecho, provoca vômito prolongado, aumenta o risco de aspiração e atrasa o carvão e os antídotos orais. Foi retirado inclusive do uso domiciliar.

Catárticos

Sem papel como terapia isolada. Uma dose única associada ao carvão não tem benefício demonstrado, e o uso repetido causa desidratação, hipernatremia e distúrbio eletrolítico, especialmente em crianças.

Indução de vômito em casa

Contraindicada. Orientar a família a induzir vômito atrasa o atendimento e pode transformar uma ingestão leve em uma aspiração grave.

Neutralização química

Nunca tentar neutralizar ácido com base ou vice-versa: a reação é exotérmica e agrava a lesão. Vale para o tubo digestivo, para a pele e para os olhos.

Cáusticos: o cenário em que quase tudo é proibido

Na ingestão de ácidos e álcalis fortes, praticamente todas as técnicas de descontaminação gastrointestinal estão contraindicadas — a lesão já ocorreu no contato, e qualquer manobra tende a agravá-la.

  • Não induzir vômito — reexpõe o esôfago ao agente.
  • Não fazer lavagem gástrica — risco de perfuração de tecido já lesado.
  • Não dar carvão — não adsorve, obscurece a endoscopia e aumenta o risco em caso de perfuração.
  • Não neutralizar — a reação libera calor e piora a queimadura.
O que se faz

Manter o paciente em jejum, avaliar via aérea precocemente, analgesia, antiemético, tomografia ou endoscopia digestiva alta conforme protocolo, e avaliação cirúrgica. Pequenos goles de água ou leite podem ser oferecidos somente se imediatos, se o paciente estiver consciente, deglutindo bem e sem vômitos; volumes maiores provocam vômito e pioram tudo.

Rotas de tratamento

Outras vias gastrointestinais. Técnicas de indicação estreita, em que a decisão de não fazer costuma ser tão importante quanto a de fazer. Abra a rota do cenário do seu paciente; o nome do medicamento abre a ficha.

Em 30 segundos

O essencial de decisão

  1. A pergunta certa não é "qual descontaminação eu faço?", e sim "este paciente ganha alguma coisa com ela?".
  2. Cheque as contraindicações antes da indicação: elas prevalecem sempre.
  3. A janela é por substância e formulação, não a regra antiga de 1 hora.
  4. Na dúvida, ligue para o CIATox: 0800 722 6001.

O caminho da decisão

A pergunta não é "qual descontaminação eu faço?", e sim "este paciente ganha alguma coisa com descontaminação?". Na maioria das vezes, a resposta honesta é não. A sequência abaixo organiza o raciocínio na ordem em que ele precisa acontecer.

  1. Estabilize primeiro

    Via aérea, ventilação, circulação, glicemia capilar e temperatura. Nada de descontaminação em paciente instável.

  2. Substância, quantidade e horário

    Sem esses três dados, a decisão fica no terreno da avaliação individualizada e da consulta ao centro de toxicologia.

  3. A dose é potencialmente tóxica?

    Se não for, pare aqui: a descontaminação só acrescenta risco.

  4. Existe antídoto ou tratamento melhor?

    N-acetilcisteína, atropina, fragmentos Fab e outros mudam completamente o peso da decisão.

  5. A substância adsorve ao carvão?

    Se não adsorve, considere irrigação intestinal total quando houver indicação, ou nenhuma descontaminação.

  6. O tempo ainda permite ganho?

    Use a janela por substância e formulação, e não a regra antiga de 1 hora.

  7. Existe contraindicação?

    Reflexos de via aérea ausentes ou em risco e risco de perfuração impedem o carvão, sem exceção.

  8. É seguro aqui e agora?

    Equipe, monitorização e material de via aérea disponíveis.

  9. Na dúvida, ligue

    O centro de informação toxicológica trabalha com a tabela detalhada por substância e por formulação.

Contraindicações ao carvão — marque o que se aplica

Os três primeiros itens são recomendações fortes contra: a presença de qualquer um deles contraindica o carvão. Os três seguintes são recomendações fracas contra, e os dois últimos exigem avaliação individualizada. Escolha, em cada grupo, o item presente — ou "nenhum".

Contraindicações ao carvão ativado

8 itens em três grupos. Itens de recomendação forte bloqueiam o carvão.

Responda os três grupos para ver a interpretação.

Ausência de contraindicação não é indicação. Este bloco responde apenas à pergunta "posso dar?", e não à pergunta "devo dar?" — que depende da substância, da dose e do tempo decorrido.

Indicação por substância e tempo

Combina a substância ingerida, o tempo decorrido e a formulação para indicar qual estratégia de carvão é apropriada, com base nas recomendações internacionais de 2026. As substâncias foram agrupadas pelo perfil de recomendação — dose única, dose adicional e doses múltiplas —, que é o que muda a conduta.

Carvão: substância × tempo × formulação

Dose única · dose adicional · doses múltiplas.

Escolha substância, tempo e formulação.

Ferramenta de apoio construída a partir das listas de substâncias das recomendações de 2026. O tempo máximo exato varia por substância e por formulação e não está reproduzido aqui item a item: confirme com o centro de informação toxicológica antes de decidir em casos limítrofes. Contraindicações prevalecem sobre qualquer indicação.

Calculadora de doses por peso

Converte as doses de referência para o peso informado. Confira sempre a apresentação disponível no seu serviço. Na criança, a dose de carvão é de 1 g/kg, sem ultrapassar a dose de adulto de 50 g; no adulto e no adolescente a dose é fixa, e a calculadora já aplica o teto.

Carvão ativado por peso

Dose única (e dose adicional, que usa a mesma quantidade) e meia dose para o esquema de 2 em 2 horas.

Carvão — dose única / adicional1 g/kg, máximo 50 g
—
Meia dose (esquema 2/2 h)0,5 g/kg, máximo 25 g
—

A dose adicional usa a mesma quantidade da dose única. O esquema de doses múltiplas começa com a dose plena e repete a cada 4 horas, ou usa a meia dose a cada 2 horas quando o volume é mal tolerado.

Irrigação intestinal — velocidade por faixa etária

Adulto ou adolescente: 1.000 a 2.000 mL/h. Criança de 6 a 12 anos: cerca de 1.000 mL/h. Criança de 9 meses a 6 anos: cerca de 500 mL/h. Em todos, até efluente retal límpido.

Nível de consciência e via aérea

O Glasgow documenta a evolução e ajuda a prever quem vai perder a via aérea — que é a contraindicação forte mais comum ao carvão. Mas ele não mede reflexos de proteção: um paciente com Glasgow 12 que vomita repetidamente pode ser mais arriscado que outro com Glasgow 10 estável. Reavalie antes de cada dose.

Escala de Coma de Glasgow (com GCS-P)

Soma e notação por componentes. Tendência de queda durante a observação conta tanto quanto o valor absoluto: "reflexos em risco" também contraindicam o carvão.

Escala de Coma de Glasgow—
GCS-P (Glasgow-Pupilas)—
Componente mais grave—
Via aérea—
Classificação—

No intoxicado, Glasgow ≤ 8 não obriga à intubação (NICO, 2023): a decisão depende de reflexos, ventilação, vômitos e trajetória. Para o carvão, o que importa é se os reflexos protetores estão presentes e vão continuar presentes.

Em 30 segundos

O essencial de pele e olhos

  1. A primeira vítima potencial é a equipe: proteja-se antes de tocar no paciente.
  2. Retirar toda a roupa remove a maior parte do contaminante; depois, água morna abundante por 15 a 20 minutos.
  3. No olho, irrigação imediata por 15 a 30 minutos, com pH conferido após parar — alvo 7,0 a 7,4.
  4. Nunca neutralizar; álcalis são piores que ácidos.

Antes de tocar no paciente

Na descontaminação externa, a primeira vítima potencial é a equipe. Contaminação secundária de profissionais de saúde já foi descrita com organofosforados, agentes corrosivos e solventes — e paralisa o pronto-socorro inteiro.

Equipamento de proteção

Luvas resistentes a produtos químicos (não apenas látex de procedimento), avental impermeável, óculos ou protetor facial e máscara. Em exposição a agente desconhecido ou volátil, proteção respiratória adequada.

Zonas de atendimento

Zona quente onde está o agente, zona morna onde se descontamina e zona fria onde se trata. O paciente só entra na área assistencial depois de descontaminado.

Ventilação

Ambiente arejado, de preferência ao ar livre ou em área com exaustão. Agentes voláteis exalados pelo paciente podem intoxicar quem está ao redor.

Resíduos

Roupas e objetos contaminados em saco duplo identificado. Efluente da irrigação conforme a rotina institucional de resíduo químico.

Em exposição a agrotóxico organofosforado, o odor característico e a sudorese do paciente já indicam presença do agente na pele e nas roupas. Descontaminar antes de qualquer procedimento invasivo — inclusive antes de intubar, sempre que a condição clínica permitir.

Descontaminação da pele

É simples, barata e frequentemente esquecida. A medida isolada de maior impacto é a mais óbvia: retirar toda a roupa, o que remove a maior parte do contaminante retido nos tecidos.

  1. Retire toda a roupa

    Incluindo sapatos, meias, cinto, relógio e joias. Corte as peças em vez de puxá-las pela cabeça, para não contaminar face e olhos.

  2. Remova o material sólido

    Escovando delicadamente com material seco, antes de qualquer água — pós reagem com água em alguns casos.

  3. Irrigue com água morna

    Corrente e abundante, por 15 a 20 minutos, em fluxo suave e contínuo, de cima para baixo.

  4. Sabão neutro

    Nas substâncias lipofílicas, como agrotóxicos e solventes, esfregando com delicadeza para não abradar a pele.

  5. Áreas esquecidas

    Couro cabeludo, axilas, dobras, região inguinal, leito ungueal e entre os dedos.

  6. Vigie hipotermia

    Especialmente em criança, idoso e paciente com grande área exposta. Use água morna e seque e aqueça ao final.

  7. Reavalie

    Pele e clínica após a irrigação: persistência de sintomas pode indicar descontaminação incompleta.

Não use escova dura, esponja abrasiva nem água quente: abrasão e vasodilatação aumentam a absorção do agente pela pele.

Agentes com manejo diferente

A regra "tire a roupa e lave com muita água" vale para quase tudo — e o "quase" é importante. Alguns agentes reagem com a água, outros são pouco solúveis nela, e um deles mata pelo cálcio, não pela queimadura.

AgenteParticularidadeO que fazer
Sódio e potássio metálicosReagem violentamente com a água, com liberação de calor e chamaNão irrigar com água. Remover fragmentos mecanicamente e cobrir com óleo mineral; acionar apoio especializado
Ácido fluorídricoPenetra profundamente e sequestra cálcio; a dor é desproporcional à lesão visível e pode causar hipocalcemia sistêmica fatalIrrigação abundante seguida de tópico; monitorizar cálcio, magnésio, potássio e eletrocardiograma
FenolPouco solúvel em água; a irrigação isolada pode ser insuficienteÁgua em grande volume é aceitável; polietilenoglicol de baixo peso molecular é alternativa descrita quando disponível
Cal virgem e pós secosReagem com a água formando substância cáusticaEscovar o pó a seco primeiro, depois irrigar copiosamente
Organofosforados e carbamatosAlta lipossolubilidade, com absorção cutânea contínua e risco de contaminação da equipeRetirar roupas, lavar com água e sabão neutro, com equipe protegida; repetir se os sintomas persistirem
Hidrocarbonetos e solventesDissolvem a barreira lipídica da pele e podem causar dermatite químicaÁgua e sabão; evitar solventes para "limpar" a pele, que só aumentam a absorção

Ácido fluorídrico: olhe o ECG

O íon fluoreto atravessa a pele e se liga ao cálcio e ao magnésio. Mesmo queimaduras pequenas — sobretudo com solução concentrada ou área acima de alguns por cento da superfície corporal — podem causar hipocalcemia, hipomagnesemia e hipercalemia, com QT longo e fibrilação ventricular. Por isso todo paciente exposto precisa de ECG e cálcio iônico seriados.

O que procurar no ECG

Hipocalcemia pelo fluoreto: o sinal precoce é o QT que se alonga.

O que procurar no ECG

Traçado de hipocalcemia: o prolongamento do QT se dá à custa do segmento ST, com onda T de aspecto preservado. Na exposição ao ácido fluorídrico, esse achado pede cálcio EV imediato.

  • Segmento ST longo e retificado
  • QT prolongado
  • Onda T de morfologia preservada

Traçados esquemáticos gerados por computador (25 mm/s, 10 mm/mV) para estudo e comparação. Confirme sempre no ECG de 12 derivações do paciente.

Descontaminação ocular

É a urgência oftalmológica em que cada minuto conta. A irrigação deve começar no local do acidente, continuar no transporte e prosseguir no pronto-socorro — antes de qualquer avaliação detalhada da acuidade visual.

  1. Comece imediatamente

    Com soro fisiológico, ringer lactato ou, na falta deles, água limpa corrente.

  2. Anestésico tópico

    quando disponível: sem ele, o blefaroespasmo impede uma irrigação eficaz.

  3. 15 a 30 minutos contínuos

    Com volume da ordem de 1 a 2 litros por olho — mais nos álcalis.

  4. Everta as pálpebras

    Inspecione os fundos de saco em busca de partículas retidas, removendo-as com cotonete umedecido.

  5. Meça o pH depois

    Na superfície ocular, alguns minutos após interromper a irrigação, e não durante; o alvo é a faixa de 7,0 a 7,4.

  6. pH alterado? Retome

    Volte a irrigar e repita a medida — nos álcalis isso pode levar horas.

  7. Nunca neutralize

    Não use solução de pH oposto: a reação libera calor e agrava a lesão.

  8. Encaminhe

    Avaliação oftalmológica, com registro do agente, do horário e do tempo total de irrigação.

Álcalis são piores que ácidos.

Provocam necrose de liquefação e continuam penetrando em profundidade; ácidos causam necrose de coagulação, que tende a limitar a própria progressão. Diante de soda cáustica, amônia, cal ou cimento, presuma lesão grave e irrigue por muito mais tempo.

Exposição inalatória

Na via respiratória não há o que lavar: descontaminar é tirar o paciente do ambiente — e não criar uma segunda vítima no processo. O resto é suporte, com atenção à lesão que aparece tarde.

Retirar da fonte

É a descontaminação em si. Deve ser feita por equipe com proteção respiratória adequada — nunca por profissional desprotegido.

Oxigênio e via aérea

Oxigênio suplementar, avaliação precoce de estridor e de queimadura de via aérea, com limiar baixo para intubação diante de sinais de acometimento.

Broncoespasmo

Broncodilatador inalatório; corticoide conforme a avaliação clínica. Gases irritantes podem cursar com edema pulmonar de instalação tardia.

Observação prolongada

Agentes de baixa solubilidade, como fosgênio e dióxido de nitrogênio, causam lesão pulmonar horas depois. Paciente assintomático inicial não garante nada.

Rotas de tratamento

Descontaminação externa. Medidas baratas, rápidas e de altíssimo impacto — desde que a equipe esteja protegida antes de começar. Abra a rota da via de exposição.

Em 30 segundos

O essencial de eliminação

  1. Eliminação aumentada age sobre o tóxico já absorvido e só funciona com cinética favorável.
  2. Alcalinização urinária: pH urinário 7,5 a 8,5 — e sem corrigir o potássio, não funciona.
  3. Hemodiálise intermitente é a modalidade preferida; as indicações seguem os critérios do grupo EXTRIP.
  4. Diurese forçada foi abandonada.

Quando o tóxico já entrou

A eliminação aumentada atua sobre a substância já absorvida. Só faz sentido para moléculas com cinética favorável: baixo volume de distribuição, baixa ligação proteica, baixo peso molecular e depuração endógena lenta o suficiente para que a técnica acrescente algo.

Carvão em doses múltiplas

Interrompe a circulação êntero-hepática e promove diálise gastrointestinal. Apropriado em carbamazepina, glicosídeos cardíacos, colchicina, dapsona, fenobarbital, fenitoína, tálio e teofilina.

Alcalinização urinária

Aumenta a excreção de ácidos fracos ao ionizá-los no túbulo. Primeira linha nos salicilatos que não preenchem critério de diálise, e útil em fenobarbital e herbicidas clorofenoxi.

Hemodiálise

Modalidade extracorpórea preferida na maioria das intoxicações dialisáveis. Remove tanto o tóxico quanto corrige acidose e distúrbio eletrolítico associados.

Diurese forçada

Abandonada. Sobrecarga de volume, hiponatremia e edema pulmonar sem ganho demonstrado. Não confundir com hidratação adequada nem com alcalinização.

Alcalinização urinária

O objetivo é manter o pH urinário entre 7,5 e 8,5, o que mantém o ácido fraco ionizado no túbulo e impede a reabsorção. O erro mais comum e mais frustrante da técnica é o mesmo há décadas: não corrigir a hipocalemia.

ItemConduta
IndicaçõesSalicilatos em intoxicação moderada sem critério de diálise; fenobarbital; herbicidas clorofenoxi; metotrexato em dose alta; clorpropamida
Ataque 1 a 2 mEq/kg por via endovenosa em bolus
ManutençãoInfusão contínua de solução com bicarbonato (preparo habitual: 150 mEq em SG 5% até 1 L, com potássio), titulada para manter o pH urinário na faixa alvo
PotássioCorrigir sempre. Em hipocalemia o túbulo troca potássio por hidrogênio e a urina não alcaliniza, por mais bicarbonato que se administre
MonitorizaçãopH urinário a cada 1 hora; pH arterial, sódio, potássio, cálcio e bicarbonato séricos de forma seriada
LimitesSuspender se o pH arterial ultrapassar 7,55, se houver sobrecarga de volume ou hipocalemia refratária
CuidadosCautela em insuficiência cardíaca, insuficiência renal e edema cerebral; hipocalcemia sintomática pode ocorrer com a alcalose

Por que o potássio decide

No túbulo distal, o sódio do bicarbonato é reabsorvido em troca de potássio ou de hidrogênio. Com potássio baixo, o rim poupa potássio e secreta hidrogênio — e a urina continua ácida mesmo com o sangue alcalino (acidúria paradoxal). Além disso, a própria alcalose desloca potássio para dentro da célula e agrava a hipocalemia. Dose o potássio antes e durante, e olhe o ECG.

Hipocalemia no ECG

Sinal de que a alcalinização vai falhar — e de risco arrítmico.

Hipocalemia no ECG

Traçado de hipocalemia: onda T achatada e onda U proeminente, que pode se fundir à T e simular QT longo. Na alcalinização urinária, esse padrão pede reposição de antes de aumentar o bicarbonato.

  • Onda T achatada
  • Onda U proeminente
  • Infradesnível discreto de ST

Traçados esquemáticos gerados por computador (25 mm/s, 10 mm/mV) para estudo e comparação. Confirme sempre no ECG de 12 derivações do paciente.

Calculadora — alcalinização urinária

Converte a dose de ataque para o peso informado e mostra o volume de bicarbonato a 8,4%. No bicarbonato de sódio a 8,4%, 1 mL corresponde a 1 mEq; a ampola de 10 mL tem 10 mEq. Ajuste conforme a rotina do seu serviço e a resposta do pH urinário.

Bicarbonato de sódio — ataque

Faixa de 1 a 2 mEq/kg em bolus EV. Divida o volume por 10 para o número de ampolas de 10 mL.

Ataque — limite inferior1 mEq/kg
—
Ataque — limite superior2 mEq/kg
—

Exemplo: 70 kg → 70 a 140 mEq = 70 a 140 mL de 8,4% ≈ 7 a 14 ampolas de 10 mL. Um preparo comum de manutenção associa bicarbonato a soro glicosado com reposição de potássio, titulado pelo pH urinário. Sem correção da hipocalemia, a alcalinização não acontece.

Situação do pH urinário

Reavaliar a cada hora.

Escolha a faixa do pH urinário.

Tratamento extracorpóreo

As recomendações do grupo internacional EXTRIP organizam quais intoxicações se beneficiam de diálise e a partir de quais critérios. A hemodiálise intermitente é a modalidade preferida na maioria dos casos. Os limiares abaixo são os das revisões do grupo; eles convivem com o quadro clínico, que muitas vezes decide antes do número.

SubstânciaPosiçãoCritérios (EXTRIP)
SalicilatosRecomendadoConcentração > 100 mg/dL (7,2 mmol/L), ou > 90 mg/dL com disfunção renal; alteração do estado mental; hipoxemia nova com necessidade de oxigênio; falha do tratamento padrão. Sugerido se > 90 mg/dL (> 80 com disfunção renal) ou pH ≤ 7,20
MetanolRecomendadoComa, convulsão ou déficit visual novo; pH ≤ 7,15; ânion gap > 24; acidose persistente apesar do tratamento; concentração muito elevada. Associado a fomepizol ou etanol e a cofatores
EtilenoglicolRecomendadoComa, convulsão ou lesão renal aguda; ânion gap > 27 (sugerido 23–27); gap osmolar ou concentração muito elevados, sobretudo sem fomepizol. Corrige a acidose e remove os metabólitos tóxicos
LítioRecomendadoDisfunção renal com lítio > 4,0 mEq/L; rebaixamento, convulsão ou arritmia ameaçadora. Sugerido se > 5,0 mEq/L, confusão ou tempo previsto para < 1,0 mEq/L acima de 36 h
MetforminaRecomendadoLactato > 20 mmol/L, pH ≤ 7,0 ou falha do tratamento padrão. Sugerido com lactato 15–20, pH 7,0–7,1, choque ou rebaixamento
ValproatoRecomendadoConcentração > 1.300 mg/L, edema cerebral ou choque. Sugerido > 900 mg/L com coma ou depressão respiratória, hiperamonemia aguda ou pH ≤ 7,10
TeofilinaRecomendadoIntoxicação grave: convulsão, arritmia ameaçadora, choque ou concentração muito elevada (> 100 mg/L na aguda)
Barbitúricos de longa açãoSugeridoComa prolongado, instabilidade ou falha do tratamento de suporte e do carvão em doses múltiplas
CarbamazepinaSugeridoCasos graves com coma, convulsão ou deterioração apesar do suporte
TálioSugeridoPrecocemente, associado ao azul da Prússia
FenitoínaSugerido (casos selecionados)Coma prolongado presente ou esperado; ataxia incapacitante prolongada. Interromper quando houver melhora clínica
ParacetamolSituações restritasIngestão maciça com concentração muito elevada, alteração do nível de consciência e acidose antes da N-acetilcisteína fazer efeito
Antidepressivos tricíclicos e digoxinaNão recomendadoGrande volume de distribuição e alta ligação proteica tornam a remoção desprezível

Terapias contínuas de substituição renal são aceitáveis quando a hemodiálise intermitente não está disponível, mas removem menos por unidade de tempo. A exsanguineotransfusão tem espaço no neonato. A indicação e o momento devem ser discutidos com nefrologia e toxicologia.

Álcoois tóxicos: gap osmolar

Metanol e etilenoglicol não adsorvem ao carvão, e o tratamento depende de bloqueio da álcool desidrogenase e, muitas vezes, de hemodiálise. Antes do resultado da dosagem — indisponível em muitos serviços —, o gap osmolar e o ânion gap ajudam a sustentar a suspeita e a acionar a diálise cedo.

Osmolaridade e gap osmolar

Unidades brasileiras (mg/dL). Osmolaridade calculada = 2 × Na + glicose/18 + ureia/6 (+ etanol/4,6, se dosado). O gap osmolar é a diferença entre a osmolalidade medida e a calculada; acima de 10 mOsm/kg levanta suspeita de álcool tóxico.

Osmolaridade calculada—
Gap osmolar—
Leitura rápida—

Gap osmolar normal não exclui álcool tóxico em fase tardia, quando o álcool já foi metabolizado e predomina a acidose com ânion gap elevado. Diante de suspeita, acione o centro de toxicologia.

Rotas de tratamento

Eliminação aumentada. Duas técnicas com indicação bem delimitada, e um erro clássico que faz a primeira delas parecer ineficaz. Abra a rota; o nome do medicamento abre a ficha com diluição e velocidade.

Em 30 segundos

O essencial de cenários especiais

  1. Criança, gestante e idoso seguem os mesmos critérios do adulto — com dose e riscos ajustados.
  2. Cáusticos e hidrocarbonetos: nada de vômito, lavagem nem carvão de rotina.
  3. Pacotes de droga: irrigação intestinal no assintomático; cirurgia no sintomático, obstruído ou perfurado.
  4. Substância desconhecida: toxíndrome, ECG e CIATox antes de descontaminar às cegas.

Criança e gestante

Na criança, a ingestão exploratória costuma ser mínima, mas algumas substâncias são letais em um único comprimido, e a cooperação para beber o carvão é limitada. As indicações e contraindicações do adulto se aplicam, com dose de 1 g/kg até 50 g; não passe sonda apenas para forçar o carvão, e avalie sempre a possibilidade de intoxicação intencional no adolescente.

Na gestante, o carvão é inerte e não é absorvido, com risco direto ao feto improvável — e o melhor desfecho fetal depende do desfecho materno. Os critérios são os mesmos do adulto, com atenção ao risco aumentado de vômito e aspiração, que varia ao longo da gestação, e à avaliação obstétrica em paralelo.

Criança

1 g/kg até 50 g. Sem sonda só para o carvão. Adolescente: pense em intenção.

Gestante

Mesmos critérios. Vômito e aspiração mais prováveis; obstetrícia em paralelo.

Idoso, bariátrica e obesidade grave

No idoso somam-se polifarmácia, declínio de função orgânica e maior letalidade da tentativa de suicídio por ingestão. Os critérios são os mesmos do adulto, com atenção a peristaltismo reduzido, medicações de manutenção que seriam adsorvidas e menor reserva para tolerar aspiração. Após cirurgia bariátrica ou na obesidade grave, anatomia e trânsito estão alterados e os dados são praticamente inexistentes.

Bariátrica prévia ou obesidade grave: avaliação individualizada, com apoio do centro de toxicologia. Não há dados para extrapolar janela, dose nem segurança da irrigação intestinal.

Cáusticos e hidrocarbonetos

Nos cáusticos, a lesão ocorre no contato e a descontaminação gastrointestinal só agrava: jejum, analgesia, avaliação de via aérea, imagem e endoscopia conforme protocolo. Nos hidrocarbonetos, o risco principal é a pneumonite química por aspiração, e não a toxicidade sistêmica na maioria dos casos — o carvão em geral não tem indicação, salvo aditivo tóxico associado, e a observação respiratória com radiografia conforme a evolução é o que importa.

Cáusticos: nada de carvão, lavagem, vômito ou neutralização. Hidrocarbonetos: não induzir vômito e não fazer lavagem.

Pacotes de droga ingeridos

A ruptura de um único pacote pode ser fatal, e obstrução e perfuração são complicações reais. A tomografia confirma e conta os pacotes; a partir daí a conduta se divide pelo estado clínico, e qualquer sinal de toxicidade muda a rota de imediato.

Assintomático

Irrigação intestinal total até efluente limpo e imagem negativa.

Sintomático, obstruído ou perfurado

Cirurgia de urgência.

Paraquat, ferro e lítio

O paraquat tem altíssima letalidade e não tem antídoto; a descontaminação precoce é uma das poucas medidas com racional. Já ferro e lítio não adsorvem ao carvão em nenhuma circunstância — a resposta, quando há dose tóxica e comprimidos visíveis à imagem, é a irrigação intestinal total.

Paraquat

Carvão o mais precocemente possível, incluindo dose adicional. Oxigênio suplementar apenas se hipoxemia significativa, pelo agravamento da lesão pulmonar oxidativa.

Ferro e lítio

Considerar irrigação intestinal total quando há dose tóxica e comprimidos visíveis à imagem. Ferro tem quelante específico; lítio tem indicação de diálise nos casos graves.

Substância desconhecida

É um cenário mais comum do que os livros sugerem, e o de decisão mais difícil. Toxíndrome, exame físico dirigido, eletrocardiograma e laboratório orientam mais do que qualquer triagem urinária, que tem falsos negativos e falsos positivos e raramente muda a conduta na emergência.

Discuta com o centro de toxicologia antes de descontaminar às cegas — Disque-Intoxicação 0800 722 6001.

Erros comuns na decisão e no carvão

Os erros mais graves deste tema são de dois tipos opostos: fazer demais (carvão para todos, sem olhar via aérea e substância) e fazer de menos (negar o carvão a quem ainda ganharia, por apego à regra antiga). Ambos nascem de pular etapas do raciocínio.

  • Descontaminar antes de estabilizar via aérea, ventilação e circulação.
  • Aplicar a regra antiga de "carvão só na primeira hora" e deixar de tratar ingestões que ainda ganhariam com ele.
  • Fazer o oposto: dar carvão em qualquer intoxicação, independentemente da substância e da dose.
  • Dar carvão em paciente sonolento sem via aérea protegida — o erro que mais causa dano nesta lista.
  • Passar sonda nasogástrica sem intubação apenas para administrar carvão.
  • Intubar somente para viabilizar o carvão em paciente sem risco de toxicidade significativa.
  • Prescrever carvão em intoxicação por ferro, lítio, etanol, metanol, etilenoglicol ou metformina.
  • Confundir doses múltiplas com dose adicional e repetir carvão em substância sem indicação de eliminação aumentada.
  • Usar carvão com sorbitol repetidamente, provocando diarreia e distúrbio eletrolítico.

Erros comuns nas outras técnicas

Fora do carvão, os erros se concentram em técnicas abandonadas que continuam sendo feitas, em descontaminação externa incompleta e em eliminação aumentada mal executada. Quase todos se evitam com uma ligação para o CIATox.

  • Fazer lavagem gástrica de rotina, ou fazê-la horas depois da ingestão.
  • Induzir vômito, ou orientar a família a fazê-lo por telefone.
  • Tentar neutralizar cáustico com substância de pH oposto.
  • Esquecer de retirar as roupas do paciente contaminado, mantendo a exposição ativa.
  • Atender paciente contaminado sem equipamento de proteção e contaminar a equipe.
  • Interromper a irrigação ocular cedo demais, ou medir o pH durante a irrigação em vez de após.
  • Iniciar alcalinização urinária sem corrigir a hipocalemia e concluir que a técnica não funciona.
  • Confundir alcalinização com diurese forçada e sobrecarregar o paciente de volume.
  • Não acionar o centro de informação toxicológica em caso de dúvida.

Resumo do fluxo

Juntando tudo: a descontaminação é um passo dentro do atendimento ao intoxicado, nunca o primeiro. A ordem abaixo protege a equipe, o paciente e a decisão — e deixa a eliminação aumentada no lugar certo, depois da absorção.

  1. Proteja a equipe

    Considere descontaminação externa antes de trazer o paciente para a área assistencial.

  2. Estabilize

    Via aérea, ventilação, circulação, glicemia e temperatura vêm antes de qualquer descontaminação.

  3. Pele e olhos

    Retire as roupas e irrigue pele e olhos quando houver exposição externa, sem esperar exames.

  4. Levante a história

    Substância, quantidade, horário e formulação; considere coingestões.

  5. Dose tóxica e antídoto

    Verifique se a dose é potencialmente tóxica e se existe antídoto ou tratamento específico.

  6. Contraindicações primeiro

    Cheque as contraindicações ao carvão antes de checar a indicação.

  7. Carvão

    Se indicado, administre carvão em dose única e considere dose adicional quando a absorção pode continuar.

  8. Irrigação intestinal

    Nas substâncias que não adsorvem, nas formulações de liberação prolongada e nos pacotes ingeridos.

  9. Eliminação aumentada

    Doses múltiplas de carvão, alcalinização urinária ou diálise, conforme a substância.

  10. Reavalie e ligue

    Monitorize, reavalie e acione o centro de informação toxicológica sempre que houver dúvida.

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Aviso importante

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