Astrenmed

Atlas de Histologia • Tecido Epitelial

Adenocarcinoma

Carcinoma glandular • adenocarcinoma

Neoplasia maligna do epitélio glandular: as células tumorais tentam formar túbulos, ácinos ou papilas e muitas produzem muco. É o carcinoma mais comum de pulmão, cólon, estômago, mama, próstata e pâncreas, e o grau depende de quanto o tumor ainda forma glândulas.

Epitélio glandularNeoplasia malignaTúbulos, ácinos, papilasMucina e imuno-histoquímica
16–20 min de leitura Atualizado em outubro de 2026

Reconheça a lesão

O adenocarcinoma se reconhece pela tentativa de formar glândulas e pela produção de muco. A malignidade está na arquitetura desorganizada e na invasão de camadas que não têm glândulas.

Histopatologia

Figura 1. Adenocarcinoma colorretal moderadamente diferenciado (HE, 100x): glândulas irregulares, fusionadas e cribriformes, revestidas por células colunares com núcleos alongados e estratificados, invadindo a submucosa. Na luz, necrose com restos celulares (necrose “suja”).

Principais achados
  1. 1
    Glândulas irregulares, angulosas, fusionadas ou cribriformes
  2. 2
    Glândulas “costas com costas”, sem estroma normal entre elas
  3. 3
    Células colunares ou cúbicas com núcleos grandes, estratificados e nucléolos
  4. 4
    Muco intracitoplasmático ou lagos de muco extracelular
  5. 5
    Necrose intraluminal e mitoses atípicas
  6. 6
    Invasão do estroma com desmoplasia; invasão vascular e perineural

Em 30 segundos

O essencial de visão geral

  1. Neoplasia maligna com diferenciação glandular: luzes, túbulos, ácinos, papilas ou muco.
  2. Mais comum em cólon, pulmão, mama, próstata, estômago e pâncreas.
  3. Precursores frequentes: adenoma, esôfago de Barrett, neoplasias intraepiteliais.
  4. O grau mede quanto ainda forma glândulas; o estádio, quanto se espalhou.

O que é o adenocarcinoma

É o carcinoma que reproduz o epitélio glandular. O prefixo “adeno” indica glândula; o tumor benigno equivalente é o adenoma, que muitas vezes é a etapa anterior.

A diferenciação aparece de duas formas: arquitetural (luzes, túbulos, papilas) e citológica (produção de muco ou de produtos do órgão, como PSA ou tireoglobulina). Quando nenhuma das duas é visível, a imuno-histoquímica ajuda.

Diferenciação glandular (luzes ou muco) + invasão = adenocarcinoma. O grau depende da proporção de glândulas formadas.

Principais sítios

Cada órgão tem seu padrão histológico, seus precursores e seu sistema de graduação próprio.

Pulmão

Tipo mais comum de câncer de pulmão; periférico; frequente em não fumantes e mulheres.

Cólon e reto

Quase todos os cânceres colorretais; surgem de adenomas.

Mama

Carcinoma ductal (tipo não especial) e lobular são adenocarcinomas.

Próstata

Zona periférica; glândulas pequenas sem camada basal.

Estômago e esôfago

Gástrico intestinal ou difuso; esôfago distal sobre Barrett.

Pâncreas e vias biliares

Ductal infiltrativo, muito desmoplásico; prognóstico ruim.

Em 30 segundos

O essencial de fisiopatologia

  1. Mutações acumuladas transformam epitélio glandular normal em adenoma e depois em carcinoma.
  2. No cólon: APC → KRAS → TP53 (via cromossômica) ou falha de reparo de DNA (instabilidade de microssatélites).
  3. Metaplasia intestinal (Barrett, estômago) cria epitélio glandular onde não havia.
  4. Alterações-alvo: EGFR e ALK (pulmão), HER2 (mama, estômago), receptor de andrógeno (próstata).

Sequência adenoma–carcinoma (cólon)

É o modelo clássico de carcinogênese em etapas. Cada mutação dá uma vantagem e corresponde a uma mudança visível no microscópio — por isso retirar pólipos na colonoscopia previne câncer.

  1. Mucosa normal

    Criptas retas, caliciformes.

  2. APC

    Foco de criptas aberrantes.

  3. KRAS

    Adenoma que cresce.

  4. TP53

    Displasia de alto grau.

  5. Invasão

    Atravessa a muscular da mucosa.

Vias moleculares principais

Há duas grandes rotas no cólon, e elas mudam o tratamento: tumores com instabilidade de microssatélites respondem bem à imunoterapia.

Instabilidade cromossômica

  • Maioria dos casos
  • APC, KRAS, TP53
  • Polipose adenomatosa familiar (APC germinativo)
  • Aneuploidia

Instabilidade de microssatélites

  • Falha de reparo de pareamento (MLH1, MSH2, MSH6, PMS2)
  • Síndrome de Lynch ou metilação de MLH1
  • Cólon direito, mucinoso, muitos linfócitos
  • Boa resposta a anti-PD-1

Metaplasia como ponto de partida

Agressão crônica pode trocar um epitélio por outro de tipo glandular — e esse epitélio novo é o terreno do adenocarcinoma.

Esôfago de Barrett

Refluxo crônico troca o epitélio pavimentoso por colunar com caliciformes; risco de adenocarcinoma distal.

Estômago

H. pylori → gastrite crônica atrófica → metaplasia intestinal → displasia → adenocarcinoma tipo intestinal.

Perda de adesão e o carcinoma difuso

Quando a E-caderina (gene CDH1) se perde, as células deixam de formar glândulas e infiltram isoladas. É o que ocorre no adenocarcinoma gástrico difuso (células em anel de sinete) e no carcinoma lobular da mama, que invadem em fila indiana e espessam a parede sem formar massa evidente.

Em 30 segundos

O essencial de quadro clínico

  1. Sintomas dependem do órgão e costumam surgir tarde.
  2. Muitos são detectados no rastreamento: colonoscopia, mamografia, TC de baixa dose, PSA.
  3. Metástases típicas: fígado (digestivos), osso, pulmão, cérebro, peritônio.
  4. Paraneoplasias: tromboflebite migratória (pâncreas, pulmão), acantose nigricante (estômago).

Apresentação por órgão

A localização dita os sintomas. O padrão comum é o crescimento silencioso até que a massa obstrua, sangre ou metastatize.

ÓrgãoComo se apresentaPrecursor ou rastreamento
Cólon direitoAnemia ferropriva, fadiga, massa palpávelAdenoma; colonoscopia
Cólon esquerdo e retoMudança do hábito intestinal, fezes afiladas, sangueAdenoma; colonoscopia, sangue oculto
PulmãoNódulo periférico; muitas vezes achado de imagemHiperplasia adenomatosa atípica; TC de baixa dose
MamaNódulo endurecido, retração de pele ou mamiloCarcinoma ductal in situ; mamografia
PróstataAssintomático; PSA elevado; dor óssea se metastáticoNeoplasia intraepitelial de alto grau
EstômagoDispepsia, saciedade precoce, emagrecimentoMetaplasia intestinal, displasia
PâncreasIcterícia indolor (cabeça), dor lombar, emagrecimentoPanIN, IPMN

Sinais de disseminação

Alguns achados de exame físico têm nome próprio e apontam para adenocarcinoma abdominal metastático.

Linfonodo de Virchow

Supraclavicular esquerdo: tumores abdominais, sobretudo gástrico.

Nódulo da Irmã Maria José

Umbilical: carcinomatose peritoneal.

Tumor de Krukenberg

Ovários com células em anel de sinete, em geral de origem gástrica.

Fatores de risco

  • Idade e história familiar; síndromes hereditárias (Lynch, polipose adenomatosa familiar, BRCA1/2).
  • Doença inflamatória intestinal de longa duração (colite ulcerativa, doença de Crohn colônica).
  • Refluxo crônico (Barrett) e infecção por H. pylori.
  • Tabagismo (pulmão, pâncreas), obesidade, dieta pobre em fibras e rica em carne processada.
  • Exposição prolongada a estrogênio (mama, endométrio).

Em 30 segundos

O essencial de histopatologia e diagnóstico

  1. Diagnóstico histológico: biópsia endoscópica, por agulha ou peça cirúrgica.
  2. Pista de linhagem: luzes glandulares e mucina (PAS, mucicarmim, alcian blue).
  3. Grau: proporção de glândulas formadas, com sistemas próprios (Gleason, Nottingham).
  4. Metástase de origem desconhecida: CK7/CK20 e marcadores de órgão.

O que procurar, aumento a aumento

A arquitetura decide mais que a citologia: glândulas bonitas no lugar errado continuam sendo câncer.

  1. Panorâmica (40x)

    Glândulas aglomeradas, sem o espaçamento regular do órgão normal; invasão de submucosa, muscular ou gordura.

  2. Médio aumento (100x)

    Glândulas fusionadas, cribriformes ou angulosas; estroma desmoplásico; lagos de muco ou necrose na luz.

  3. Grande aumento (400x)

    Núcleos grandes, estratificados e vesiculosos com nucléolo; perda de polaridade; mitoses atípicas; muco no citoplasma.

  4. Bordas

    Adenoma residual, invasão linfovascular e perineural, margens e linfonodos.

Grau e padrões especiais

Cada órgão tem seu sistema, mas a lógica é a mesma: menos glândulas e mais atipia = grau maior.

ÓrgãoSistemaO que avalia
CólonBaixo × alto grauProporção de glândulas formadas (≥ 50% = baixo grau)
PróstataGleason / grupos ISUP 1–5Padrões arquiteturais predominantes; soma de dois padrões
MamaNottingham (graus 1–3)Formação de túbulos, pleomorfismo nuclear, mitoses
PulmãoPadrão predominanteLepídico (melhor) → acinar, papilar → micropapilar, sólido (pior)
EstômagoLaurenIntestinal (glândulas) × difuso (anel de sinete)

Imuno-histoquímica: de onde veio?

Numa metástase de adenocarcinoma, as citoqueratinas 7 e 20 e um marcador de órgão costumam apontar o primário.

PrimárioCK7 / CK20Marcadores de órgão
PulmãoCK7+ / CK20−TTF-1, napsina A
Cólon e retoCK7− / CK20+CDX2, SATB2
MamaCK7+ / CK20−GATA3, receptores de estrogênio e progesterona
PróstataCK7− / CK20−PSA, NKX3.1
Estômago e pâncreasCK7+ / CK20 variávelCDX2 variável; sem marcador exclusivo

Em adição, há biomarcadores que guiam o tratamento: HER2 e receptores hormonais (mama), EGFR, ALK, ROS1 e PD-L1 (pulmão), proteínas de reparo de DNA ou MSI (cólon, estômago, endométrio).

Células em anel de sinete

Achado característico

Adenocarcinoma pouco coeso (difuso)

Células isoladas com um grande vacúolo de muco que empurra o núcleo para a periferia, em forma de crescente. Infiltram a parede do estômago sem formar glândulas. O PAS cora o muco em magenta e ajuda a vê-las.

Diagnóstico diferencial

Na lâmina, a dúvida mais comum é entre lesão glandular benigna ou pré-invasiva e carcinoma invasivo — e, no tumor pouco diferenciado, entre adenocarcinoma e carcinoma escamoso.

CondiçãoAchado-chaveComo diferenciar
Achado-chaveGlândulas atípicas confinadas à mucosa
Como diferenciarNão atravessa a muscular da mucosa (cólon); sem desmoplasia.
Achado-chaveQueratina e pontes intercelulares
Como diferenciarSem luzes ou muco; p40 e CK5/6 positivos; TTF-1 negativo no pulmão.
Achado-chaveAtipia sem invasão
Como diferenciarMembrana basal íntegra; na mama, células mioepiteliais preservadas (p63).
Achado-chaveMuitas glândulas, citologia branda
Como diferenciarMantém camada basal ou mioepitelial e arquitetura lobular.
Mesotelioma epitelioide
Achado-chaveTumor pleural com túbulos e papilas
Como diferenciarCalretinina, WT1 e D2-40 positivos; TTF-1 e CEA negativos.

Galeria histopatológica

Quatro órgãos, um mesmo princípio: procure as luzes glandulares, depois a invasão e, por fim, a citologia.

Adenoma × adenocarcinoma de cólon

HE, 40x. À esquerda, adenoma tubular restrito à mucosa; à direita, glândulas atípicas atravessando a muscular da mucosa e invadindo a submucosa. Compare as criptas normais ao lado: retas, paralelas, cheias de caliciformes.

HECólonInvasão

Adenocarcinoma de pulmão

HE, 100x. Padrão acinar com glândulas irregulares em estroma fibroso e, na borda, padrão lepídico: células atípicas revestindo septos alveolares preservados. O lepídico puro, pequeno, tem excelente prognóstico.

HEPulmãoAcinar e lepídico

Adenocarcinoma de próstata

HE, 200x. Glândulas pequenas, aglomeradas, com uma só camada de células de nucléolo evidente, infiltrando entre glândulas benignas maiores. Falta a camada de células basais — confirmada por imuno-histoquímica (p63 e citoqueratina de alto peso negativas).

HEPróstataSem células basais

Adenocarcinoma mucinoso

HE e PAS, 100x. Grupos de células tumorais flutuando em lagos de muco extracelular, que ocupam mais da metade do tumor. O PAS cora o muco em magenta. No cólon, associa-se à instabilidade de microssatélites.

HEPASMuco

Em 30 segundos

O essencial de tratamento

  1. Doença localizada: ressecção cirúrgica com margens livres e linfadenectomia.
  2. Adjuvância ou neoadjuvância conforme estádio: quimioterapia e/ou radioterapia.
  3. Tumores hormônio-dependentes: hormonioterapia (mama com receptores, próstata).
  4. Biomarcadores abrem terapia-alvo e imunoterapia.

Princípios por órgão

O laudo patológico — tipo, grau, margens, linfonodos e biomarcadores — é a base da decisão. Os esquemas específicos variam e seguem as diretrizes oncológicas de cada órgão; aqui ficam os princípios.

ÓrgãoConduta principalAlvo ou detalhe do laudo
CólonColectomia com linfadenectomia; quimioterapia adjuvante se linfonodos positivosMSI/proteínas de reparo; RAS e BRAF na doença metastática
RetoNeoadjuvância seguida de excisão total do mesorreto, em casos selecionadosMargem circunferencial
PulmãoRessecção nos estádios iniciais; sistêmico nos avançadosEGFR, ALK, ROS1, PD-L1
MamaCirurgia conservadora ou mastectomia, radioterapia; hormonioterapiaReceptores hormonais, HER2, Ki-67
PróstataVigilância ativa (baixo risco), prostatectomia ou radioterapiaGrupo ISUP, PSA, estádio
EstômagoGastrectomia com quimioterapia perioperatóriaHER2, MSI, PD-L1

Rastreamento e prevenção

Como muitos adenocarcinomas têm precursor visível, o rastreamento reduz a mortalidade — sobretudo no cólon, onde retirar o adenoma impede o câncer.

Colonoscopia

Detecta e remove adenomas; sangue oculto nas fezes como alternativa.

Mamografia

Encontra carcinoma in situ e tumores pequenos.

TC de baixa dose

Rastreamento de pulmão em tabagistas pesados.

Erradicar H. pylori

Reduz o risco de câncer gástrico.

Prognóstico

O estádio é o fator mais importante; dentro do mesmo estádio, pesam o grau, a invasão linfovascular e perineural e o perfil molecular.

Favorável

  • Próstata de baixo grau
  • Pulmão lepídico pequeno
  • Cólon MSI-alto em estádio inicial
  • Mama com receptores hormonais

Desfavorável

  • Pâncreas ductal
  • Gástrico difuso
  • Padrões sólido e micropapilar no pulmão
  • Invasão linfovascular

Referências bibliográficas

  1. 1
    Livro-texto2021
    Kumar V, Abbas AK, Aster JC. Robbins & Cotran Patologia: bases patológicas das doenças. 10. ed. Rio de Janeiro: Elsevier; 2021.
  2. 2
    Livro-texto2021
    Ross MH, Pawlina W. Histologia: texto e atlas — correlações com biologia celular e molecular. 8. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan; 2021.
  3. 3
    Livro-texto2023
    Junqueira LC, Carneiro J. Histologia Básica: texto e atlas. 14. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan; 2023.
  4. 4
    Diretriz2019
    WHO Classification of Tumours Editorial Board. Digestive System Tumours. 5th ed. Lyon: International Agency for Research on Cancer; 2019.
  5. 5
    Diretriz2021
    WHO Classification of Tumours Editorial Board. Thoracic Tumours. 5th ed. Lyon: International Agency for Research on Cancer; 2021.
  6. 6
    Diretriz2019
    WHO Classification of Tumours Editorial Board. Breast Tumours. 5th ed. Lyon: International Agency for Research on Cancer; 2019.

Fontes das imagens

As imagens deste atlas têm finalidade educacional e foram produzidas a partir de lâminas histológicas reais e de representações didáticas.

Parte delas pode ter sido editada ou aprimorada digitalmente para destacar as estruturas e os achados descritos no texto.

Aviso importante

Material educacional. Não substitui o laudo anatomopatológico, a avaliação clínica, os protocolos institucionais nem a consulta às bulas. Esquemas de cirurgia, quimioterapia, hormonioterapia e terapia-alvo variam por órgão, estádio e biomarcadores e devem seguir a equipe oncológica e as diretrizes vigentes.

Atlas Astrenmed de Histologia • Conteúdo para educação médica. O diagnóstico e a conduta dependem da avaliação clínica individual.
Rolar para cima