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Atlas de Histologia • Tecido Epitelial

Displasia epitelial

Neoplasia intraepitelial • NIC, LSIL/HSIL • epithelial dysplasia

Lesão pré-maligna em que o epitélio perde a maturação ordenada: células atípicas, núcleos grandes e hipercromáticos e mitoses fora da camada basal. Fica restrita ao epitélio, com membrana basal íntegra, e é graduada pela altura que a atipia alcança — leve, moderada ou grave.

Restrita ao epitélioLesão precursoraHPV, tabaco, refluxoGraduada em terços
15–18 min de leitura Atualizado em outubro de 2026

Reconheça a lesão

Para reconhecer displasia, compare a base com a superfície do epitélio. O que falta é a maturação: células imaturas e atípicas ocupam camadas onde deveriam estar células achatadas e diferenciadas.

Histopatologia

Figura 1. Displasia de alto grau do colo uterino (NIC 3/HSIL, HE, 200x): células atípicas, de núcleos grandes e hipercromáticos, ocupam quase toda a espessura do epitélio; mitoses no terço superior; a membrana basal está íntegra e o estroma abaixo não é invadido.

Principais achados
  1. 1
    Atipia nuclear: aumento, hipercromasia, pleomorfismo, contorno irregular
  2. 2
    Relação núcleo-citoplasma aumentada
  3. 3
    Perda de polaridade e de maturação em direção à superfície
  4. 4
    Mitoses acima da camada basal, algumas atípicas
  5. 5
    Membrana basal íntegra, sem células no estroma
  6. 6
    No colo: coilócitos (efeito citopático do HPV) na lesão de baixo grau

Em 30 segundos

O essencial de visão geral

  1. Proliferação de células atípicas com maturação desordenada, restrita ao epitélio.
  2. Membrana basal íntegra: sem invasão, sem metástase.
  3. Grau pela altura da atipia: terço inferior (leve), dois terços (moderada), mais que isso (grave).
  4. É precursora: o alto grau pode evoluir para carcinoma invasivo.

O que é displasia

Displasia significa “crescimento desordenado”. É uma proliferação de células geneticamente alteradas que ainda está contida no epitélio — por isso também é chamada de neoplasia intraepitelial.

Combina atipia citológica (o aspecto de cada célula) com desorganização arquitetural (a relação entre as células). Quando a atipia ocupa toda a espessura, chama-se carcinoma in situ; quando rompe a membrana basal, carcinoma invasivo.

Displasia = atipia + maturação desordenada, com membrana basal íntegra. O grau é a altura que as células atípicas alcançam no epitélio.

Onde aparece

Qualquer epitélio pode sofrer displasia. Os locais abaixo concentram o rastreamento porque o precursor é comum e acessível.

Colo uterino

NIC na zona de transformação; HPV de alto risco. O modelo clássico.

Boca e laringe

Sob leucoplasia ou eritroplasia; tabaco e álcool.

Esôfago

Displasia escamosa (terço médio) ou glandular sobre Barrett.

Cólon

Todo adenoma é, por definição, displásico (baixo ou alto grau).

Pele

Ceratose actínica (displasia parcial) e doença de Bowen (in situ).

Brônquio

Sobre metaplasia escamosa, em fumantes.

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O essencial de fisiopatologia

  1. Agressão crônica gera mutações nas células-tronco da camada basal.
  2. As células alteradas proliferam sem obedecer ao programa de maturação.
  3. No colo: HPV de alto risco, com E6 (p53) e E7 (RB); p16 sobe.
  4. Baixo grau pode regredir; alto grau tende a persistir e progredir.

Onde a displasia fica na sequência do câncer

A displasia é a etapa visível entre a adaptação (hiperplasia, metaplasia) e o carcinoma. Cada passo exige novas alterações genéticas.

  1. Agressão

    HPV, tabaco, refluxo.

  2. Adaptação

    Hiperplasia ou metaplasia.

  3. Baixo grau

    Atipia no terço basal.

  4. Alto grau

    Atipia em mais de 2/3.

  5. Invasão

    Membrana basal rompida.

HPV: infecção produtiva × transformante

No colo, o grau da displasia reflete o que o vírus está fazendo. Na lesão de baixo grau o HPV se replica e produz partículas; na de alto grau os genes E6 e E7 se expressam intensamente (muitas vezes com o DNA viral integrado) e desligam os supressores de tumor.

LSIL (NIC 1)

  • Infecção produtiva
  • Coilócitos nas camadas superiores
  • Atipia limitada ao terço inferior
  • Regride na maioria das vezes

HSIL (NIC 2–3)

  • Infecção transformante
  • E6 degrada p53; E7 inativa RB
  • p16 em bloco; Ki-67 até a superfície
  • Risco real de carcinoma

Por que algumas regridem

Se o estímulo some e as alterações genéticas ainda são poucas, a resposta imune e a renovação do epitélio podem eliminar o clone alterado. Por isso parar de fumar, tratar o refluxo ou eliminar a infecção por HPV muda a evolução das lesões de baixo grau — mas raramente basta no alto grau.

Regressão

Comum no baixo grau, sobretudo em jovens.

Persistência

Estímulo mantido; precisa de vigilância.

Progressão

Mais provável no alto grau.

Mudanças celulares que o microscópio mostra

Núcleo grande e escuro reflete mais DNA (aneuploidia) e cromatina condensada de forma anormal. Mitose alta no epitélio mostra que a proliferação escapou da camada basal. A perda de polaridade indica falha das moléculas de adesão e do citoesqueleto que orientam as células.

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O essencial de quadro clínico

  1. Quase sempre assintomática.
  2. Colo: achado de citologia alterada ou teste de HPV positivo.
  3. Boca: leucoplasia (placa branca) ou eritroplasia (placa vermelha) que não sai à raspagem.
  4. Esôfago e cólon: achado de endoscopia de vigilância ou de pólipo.

Como se apresenta em cada local

A displasia é diagnosticada pelo exame dirigido, não pela queixa. O que muda entre os órgãos é como ela é procurada.

LocalComo é encontradaAspecto ao exame
Colo uterinoCitologia (Papanicolaou) e teste de HPVNa colposcopia: área acetobranca, mosaico, pontilhado; iodo-negativa ao Lugol
Cavidade oralExame da boca em fumantes e etilistasLeucoplasia, eritroplasia ou lesão mista
EsôfagoVigilância endoscópica do Barrett; cromoscopia com Lugol no escamosoMucosa irregular ou nodular; muitas vezes plana
CólonColonoscopia de rastreamentoPólipo (adenoma) ou lesão plana
PeleExame dermatológicoCeratose actínica: placa áspera em área fotoexposta

Fatores de risco

  • Infecção persistente por HPV de alto risco (16 e 18 são os mais importantes).
  • Tabagismo — também aumenta a persistência do HPV no colo.
  • Álcool, sobretudo associado ao tabaco (boca, faringe, esôfago).
  • Refluxo gastroesofágico crônico (Barrett) e doença inflamatória intestinal.
  • Imunossupressão: HIV e transplantados têm lesões mais extensas e recorrentes.

Sinais de que pode haver invasão

Displasia não sangra nem ulcera por si. Lesão que sangra, endurece, ulcera ou forma massa sugere que já há carcinoma invasivo e pede biópsia profunda.

Sangramento

Pós-coito ou espontâneo; mucosa friável.

Endurecimento ou úlcera

Lesão palpável, elevada ou ulcerada.

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O essencial de histopatologia e diagnóstico

  1. O diagnóstico definitivo é a biópsia; a citologia só rastreia.
  2. Grau pela altura da atipia no epitélio, em terços.
  3. Nomenclatura atual no colo: LSIL (NIC 1) e HSIL (NIC 2 e 3).
  4. p16 em bloco confirma HSIL quando há dúvida com imitadores.

O que procurar, aumento a aumento

Leia o epitélio de baixo para cima e compare com uma área normal vizinha, quando houver.

  1. Panorâmica (40x)

    Epitélio mais azulado (basofílico) e mais espesso que o vizinho; transição brusca entre normal e alterado.

  2. Médio aumento (100x)

    Até que altura vão as células de aspecto basal? Terço inferior, dois terços ou toda a espessura.

  3. Grande aumento (400x)

    Núcleos grandes, hipercromáticos, irregulares; mitoses acima da base; coilócitos no baixo grau.

  4. Membrana basal

    Contínua e lisa, sem células isoladas ou ninhos no estroma. Glândulas endocervicais tomadas pela lesão não são invasão.

Graduação e nomenclaturas

Os sistemas de três graus estão sendo trocados por dois (baixo e alto), que são mais reprodutíveis e se ligam diretamente à conduta.

Altura da atipiaDisplasiaColo (NIC)Sistema de dois graus
Terço inferiorLeveNIC 1LSIL — baixo grau
Até dois terçosModeradaNIC 2HSIL — alto grau
Mais de dois terçosGraveNIC 3HSIL — alto grau
Toda a espessuraCarcinoma in situNIC 3HSIL — alto grau

Boca e laringe usam leve, moderada e grave (ou baixo e alto grau). Esôfago de Barrett e adenomas do cólon: displasia de baixo grau ou de alto grau, por critérios citológicos e arquiteturais.

Exames complementares

A imuno-histoquímica não diagnostica displasia sozinha, mas ajuda nos casos difíceis — sobretudo para separar NIC 2 verdadeira de metaplasia imatura e atrofia.

ExameAchadoUso
p16Marcação forte e contínua “em bloco” da camada basal para cimaConfirma HSIL associada a HPV de alto risco
Ki-67Células em proliferação acima do terço inferiorMostra proliferação fora da base
Teste de HPVDNA ou RNA de tipos de alto riscoRastreamento e seguimento após tratamento
Colposcopia com ácido acético e LugolÁrea acetobranca; iodo-negativaGuiar a biópsia para a área mais alterada

p16 em bloco

Achado característico

Imuno-histoquímica para p16 na HSIL

Marcação marrom contínua, nuclear e citoplasmática, de todas as células da camada basal até pelo menos o terço inferior, formando uma faixa sem interrupções. Marcação em mosaico, salpicada, não tem o mesmo valor.

Diagnóstico diferencial

O desafio é não chamar de displasia um epitélio que só está reagindo, e não deixar passar a invasão.

CondiçãoAchado-chaveComo diferenciar
Atipia reativa ou reparativa
Achado-chaveNúcleos grandes com nucléolo, junto de inflamação
Como diferenciarCromatina fina, núcleos uniformes entre si, maturação preservada; p16 negativo ou em mosaico.
Achado-chaveCélulas imaturas em toda a espessura
Como diferenciarNúcleos uniformes, sem hipercromasia nem atipia; pode haver muco no topo; p16 negativo.
Achado-chaveAtipia em toda a espessura
Como diferenciarExtremo da displasia grave; no colo, ambos são HSIL/NIC 3.
Achado-chaveNinhos no estroma
Como diferenciarMembrana basal rompida, desmoplasia, células isoladas com queratinização no estroma.
Atrofia pós-menopausa
Achado-chaveEpitélio fino só de células parabasais
Como diferenciarSem atipia real nem mitoses; p16 negativo; melhora com estrogênio tópico.

Galeria histopatológica

Uma escada de graus: em cada imagem, meça até onde sobem as células de aspecto basal.

Epitélio normal × LSIL (NIC 1)

HE, 100x. À esquerda, ectocérvice normal amadurecendo até a superfície. À direita, atipia restrita ao terço inferior e coilócitos nas camadas superiores — células com halo claro ao redor de núcleo enrugado e hipercromático.

HEColoCoilócitos

HSIL (NIC 3)

HE, 200x. Células atípicas ocupam praticamente toda a espessura, com mitoses perto da superfície. Note que a membrana basal continua lisa e o estroma está livre.

HEColoAlto grau

Displasia oral sob leucoplasia

HE, 100x. Epitélio da mucosa oral com hiperqueratose na superfície e, na metade inferior, células atípicas, cristas epiteliais em forma de gota e mitoses suprabasais. A queratina explica o aspecto branco da lesão.

HEBocaLeucoplasia

Barrett com displasia

HE, 200x. Mucosa colunar com caliciformes (metaplasia intestinal) e, ao lado, glândulas com núcleos alongados, estratificados e hipercromáticos que chegam à superfície sem maturar — displasia. Compare com as glândulas não displásicas vizinhas.

HEEsôfagoGlandular

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O essencial de conduta

  1. Conduta guiada pelo grau, pelo local e pelo risco do paciente.
  2. Baixo grau: em geral seguimento, com remoção do fator causal.
  3. Alto grau: excisão ou ablação da área alterada.
  4. Após o tratamento: vigilância, porque recidiva e novas lesões são possíveis.

Conduta por local

As condutas abaixo resumem os princípios das diretrizes atuais; a escolha final considera idade, desejo reprodutivo, extensão da lesão e resultados anteriores.

Local e grauConduta habitual
Colo — LSIL (NIC 1)Seguimento com citologia e/ou teste de HPV; a maioria regride
Colo — HSIL (NIC 2–3)Excisão da zona de transformação (cirurgia de alta frequência, CAF/LEEP, ou conização); em jovens com NIC 2, observação pode ser considerada
BocaCessar tabaco e álcool; excisão das lesões com displasia moderada ou grave; seguimento prolongado
Esôfago de BarrettDisplasia confirmada: ressecção endoscópica de lesões visíveis e ablação (por exemplo, radiofrequência) do restante
CólonPolipectomia completa e colonoscopia de vigilância conforme número, tamanho e grau
PeleCeratose actínica: crioterapia, tratamentos tópicos ou terapia fotodinâmica; fotoproteção

Prevenção

Prevenir displasia é prevenir câncer. As medidas abaixo atuam nos principais estímulos.

Vacina contra HPV

Reduz muito as lesões de alto grau do colo; melhor antes do início da vida sexual.

Rastreamento

Citologia e/ou teste de HPV no colo, nos intervalos recomendados.

Cessar tabagismo

Reduz displasia de boca, laringe, brônquio e colo.

Fotoproteção

Previne ceratose actínica.

Prognóstico

Tratada no alto grau, a displasia tem cura muito alta. O risco persiste se o estímulo continua — HPV persistente, tabagismo, refluxo — e o seguimento após o tratamento é parte da conduta.

Margem comprometida

Após excisão do colo com margem comprometida por HSIL, o seguimento é mais rigoroso; teste de HPV negativo no controle indica baixo risco de recidiva.

Referências bibliográficas

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    Livro-texto2021
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    Ross MH, Pawlina W. Histologia: texto e atlas — correlações com biologia celular e molecular. 8. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan; 2021.
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    Diretriz2020
    Perkins RB, Guido RS, Castle PE, et al. 2019 ASCCP risk-based management consensus guidelines for abnormal cervical cancer screening tests and cancer precursors. J Low Genit Tract Dis. 2020;24(2):102–131.

Fontes das imagens

As imagens deste atlas têm finalidade educacional e foram produzidas a partir de lâminas histológicas reais e de representações didáticas.

Parte delas pode ter sido editada ou aprimorada digitalmente para destacar as estruturas e os achados descritos no texto.

Aviso importante

Material educacional. Não substitui o laudo anatomopatológico, a avaliação clínica, os protocolos institucionais nem a consulta às bulas. Intervalos de rastreamento e indicações de tratamento variam com a idade, o histórico e o protocolo local; siga as diretrizes vigentes.

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