Astrenmed

Atlas de Histologia • Tecido Epitelial

Doença de Crohn (intestinal)

Enterite regional • ileíte terminal • Crohn’s disease

Doença inflamatória intestinal crônica, transmural e segmentar, que pode atingir qualquer ponto do tubo digestivo — sobretudo o íleo terminal. Na lâmina: dano ao epitélio das criptas com criptite e abscessos de cripta, distorção arquitetural, agregados linfoides em toda a parede e granulomas não caseosos.

Mucosa intestinalInflamação transmuralLesões salteadasGranuloma não caseoso
18–22 min de leitura Atualizado em outubro de 2026

Reconheça a lesão

A doença de Crohn lesa o epitélio de revestimento e das criptas, mas não para na mucosa: a inflamação atravessa a parede até a serosa.

Histopatologia

Figura 1. Íleo terminal com doença de Crohn em HE, pequeno aumento: mucosa com vilosidades achatadas e criptas distorcidas, úlcera em fissura que penetra a parede e agregados linfoides na submucosa e na subserosa. No detalhe, granuloma epitelioide não caseoso.

Principais achados
  1. 1
    Lesões salteadas, com mucosa normal entre segmentos doentes
  2. 2
    Criptite e abscessos de cripta (neutrófilos no epitélio e na luz)
  3. 3
    Distorção arquitetural: criptas ramificadas, encurtadas e desalinhadas
  4. 4
    Metaplasia pseudopilórica no íleo; metaplasia de células de Paneth no cólon
  5. 5
    Agregados linfoides em toda a parede, até a subserosa
  6. 6
    Granulomas epitelioides não caseosos; úlceras em fissura e fibrose

Em 30 segundos

O essencial de visão geral

  1. Doença inflamatória intestinal crônica, transmural e salteada; mais comum no íleo terminal.
  2. Lâmina: criptite, abscessos de cripta, distorção arquitetural e agregados linfoides transmurais.
  3. Granulomas não caseosos em cerca de um terço dos casos: apoiam, mas não são obrigatórios.
  4. Complicações típicas da inflamação transmural: estenoses, fístulas e abscessos.

O que é a doença de Crohn

É uma das duas grandes doenças inflamatórias intestinais, ao lado da retocolite ulcerativa. Resulta de uma resposta imune desregulada contra a microbiota intestinal, em pessoas com predisposição genética e falhas na barreira epitelial.

Ao contrário da retocolite, que fica restrita à mucosa do cólon e é contínua a partir do reto, o Crohn atinge qualquer segmento, da boca ao ânus, em lesões salteadas e com inflamação de toda a parede.

Crohn = transmural, salteado, qualquer segmento (íleo terminal acima de tudo) e granuloma não caseoso. Retocolite = mucosa, contínua, a partir do reto.

Quem tem e onde atinge

O pico de início é entre 15 e 35 anos, com segundo pico menor após os 60. A incidência cresce em países em industrialização, inclusive no Brasil. O tabagismo aumenta o risco e piora a evolução.

Íleo terminal

Local mais comum, isolado ou com o cólon direito (ileocolite).

Cólon

Colite de Crohn, muitas vezes com reto poupado.

Trato digestivo alto

Esôfago, estômago e duodeno; úlceras aftoides orais.

Perianal

Fissuras, fístulas e abscessos; pode ser a primeira manifestação.

Em 30 segundos

O essencial de fisiopatologia

  1. Base: genética + microbiota + barreira epitelial + resposta imune.
  2. Mutações de NOD2 prejudicam o reconhecimento de bactérias pelas células epiteliais e de Paneth.
  3. Resposta de linfócitos Th1 e Th17, com TNF, IL-12 e IL-23, sustenta a inflamação.
  4. Macrófagos ativados formam granulomas; fibroblastos causam fibrose e estenose.

Da barreira à inflamação crônica

O epitélio intestinal separa o organismo de trilhões de bactérias. Muco, junções oclusivas, defensinas das células de Paneth e IgA mantêm essa separação. No Crohn, a barreira falha e a resposta imune contra a microbiota não se desliga.

  1. Barreira

    Menos defensinas e muco; junções frouxas.

  2. Bactérias

    Atravessam o epitélio.

  3. Inata

    Falha em eliminar (NOD2, autofagia).

  4. Th1/Th17

    TNF, IFN-γ, IL-17, IL-23.

  5. Dano

    Úlcera, granuloma, fibrose.

Genes e ambiente

Centenas de variantes genéticas aumentam um pouco o risco; as mais estudadas explicam o tropismo pelo íleo, onde se concentram as células de Paneth.

FatorFunção normalEfeito no Crohn
NOD2Sensor de peptidoglicano bacteriano no citoplasmaMenos defensinas e menor eliminação de bactérias; doença ileal fibroestenosante
ATG16L1 e IRGMAutofagia de bactérias intracelularesCélulas de Paneth com grânulos anormais; persistência bacteriana
IL23RReceptor da via IL-23/Th17Variantes alteram a intensidade da resposta Th17
Tabagismo—Aumenta o risco e as recidivas (no Crohn; o oposto na retocolite)
MicrobiotaSimbiose com o hospedeiroDisbiose; menos diversidade bacteriana

Por que a lesão é transmural

A inflamação acompanha os vasos linfáticos e se organiza em agregados linfoides por toda a parede. Úlceras profundas em fissura atravessam a muscular e podem perfurar, formando fístulas para alças vizinhas, bexiga, vagina ou pele. A cicatrização repetida deposita colágeno e hipertrofia a musculatura, estreitando a luz (estenose).

Penetrante

Úlcera em fissura → fístula ou abscesso.

Estenosante

Fibrose e hipertrofia muscular → obstrução.

Inflamatório

Sem estenose nem fístula; pode evoluir para as outras formas.

Em 30 segundos

O essencial de quadro clínico

  1. Diarreia crônica, dor abdominal, perda de peso e fadiga; febre nos surtos.
  2. Ileal: dor na fossa ilíaca direita, má absorção de vitamina B12 e de sais biliares.
  3. Doença perianal em parte importante dos pacientes.
  4. Manifestações extraintestinais em articulações, pele, olhos e vias biliares.

Sintomas conforme a localização

O segmento acometido explica o quadro: o íleo terminal absorve vitamina B12 e sais biliares; o cólon participa da absorção de água e da continência.

Ileal

Dor em cólica pós-prandial na FID, massa palpável, diarreia, anemia por falta de B12, cálculos biliares.

Colônica

Diarreia com sangue e muco, tenesmo; lembra a retocolite.

Delgado extenso

Má absorção, desnutrição, deficiências de ferro, zinco e vitaminas.

Crianças

Atraso de crescimento e da puberdade pode ser o único sinal.

Classificação de Montreal

Organiza a doença por idade, localização e comportamento — este último muda com o tempo, em geral de inflamatório para estenosante ou penetrante.

EixoCategorias
A — IdadeA1 ≤ 16 anos · A2 17–40 · A3 > 40
L — LocalizaçãoL1 ileal · L2 colônica · L3 ileocolônica · L4 trato alto (modificador)
B — ComportamentoB1 inflamatório · B2 estenosante · B3 penetrante
pDoença perianal associada

Manifestações extraintestinais

Algumas acompanham a atividade intestinal (artrite periférica, eritema nodoso); outras seguem curso próprio (espondilite, colangite esclerosante).

  • Articulações: artrite periférica, sacroileíte, espondilite anquilosante.
  • Pele: eritema nodoso, pioderma gangrenoso.
  • Olhos: episclerite, uveíte anterior.
  • Fígado e vias biliares: colangite esclerosante primária (mais rara que na retocolite), colelitíase.
  • Rim: cálculos de oxalato de cálcio por hiperabsorção de oxalato.

Complicações

Decorrem da inflamação transmural e da cronicidade. Muitas exigem cirurgia ao longo da vida.

  • Obstrução intestinal por estenose fibrótica.
  • Fístulas enteroentéricas, enterovesicais, enterovaginais e enterocutâneas; abscessos intra-abdominais.
  • Adenocarcinoma colorretal na colite extensa e de longa duração; adenocarcinoma do delgado.
  • Síndrome do intestino curto após ressecções repetidas.

Em 30 segundos

O essencial de histopatologia e diagnóstico

  1. Biópsias de íleo e de todos os segmentos do cólon e reto, em frascos separados, mesmo de mucosa normal.
  2. Distribuição focal e salteada entre biópsias e dentro da mesma biópsia.
  3. Cronicidade (distorção, metaplasia, plasmocitose basal) separa DII de colite infecciosa aguda.
  4. Granuloma não caseoso, longe de cripta rota, é o achado mais específico.

A lâmina, aumento a aumento

Leia a biópsia em três perguntas: há cronicidade? há atividade? há algo que aponte para Crohn (focalidade, granuloma, acometimento ileal)? A peça cirúrgica acrescenta a visão da parede inteira.

  1. Pequeno aumento

    Arquitetura das criptas: no cólon normal são retas e paralelas, como tubos de ensaio; no Crohn, ramificadas, encurtadas e com espaço entre elas. Inflamação variando de um campo a outro.

  2. Médio aumento

    Plasmócitos na base da mucosa (plasmocitose basal), metaplasia pseudopilórica no íleo, células de Paneth no cólon esquerdo, agregados linfoides.

  3. Grande aumento

    Neutrófilos no epitélio da cripta (criptite) e na luz (abscesso de cripta); granulomas: agregados de macrófagos epitelioides, com ou sem células gigantes, sem necrose central.

  4. Peça cirúrgica

    Agregados linfoides na subserosa ("em rosário"), úlceras em fissura, fibrose e hipertrofia da muscular da mucosa e da muscular própria.

Crohn × retocolite ulcerativa

Em cerca de 10% das colites crônicas não é possível decidir; fala-se em DII não classificada. Os pontos abaixo pesam a favor de um lado ou de outro.

Doença de Crohn

  • Qualquer segmento; íleo frequente
  • Salteada; reto muitas vezes poupado
  • Transmural, agregados na subserosa
  • Granulomas não caseosos
  • Fissuras, fístulas, estenoses
  • Gordura envolvendo a alça

Retocolite ulcerativa

  • Só cólon (íleo apenas por refluxo)
  • Contínua a partir do reto
  • Limitada à mucosa
  • Sem granulomas
  • Pseudopólipos; megacólon tóxico
  • Parede fina, sem fístulas

Exames que completam

Nenhum exame isolado faz o diagnóstico; ele resulta da soma de clínica, endoscopia, imagem e histologia, com exclusão de infecções.

ExameO que mostra
Calprotectina fecalInflamação intestinal (neutrófilos); separa de causas funcionais e acompanha a atividade
IleocolonoscopiaÚlceras aftoides, longitudinais e serpiginosas; aspecto em pedra de calçamento; áreas normais entre lesões
Entero-RM / entero-TCEspessamento e realce da parede, estenoses, fístulas, abscessos
Cápsula endoscópicaLesões do delgado fora do alcance da colonoscopia (após excluir estenose)
Laboratório e infecçãoPCR, hemograma, ferritina, B12; coprocultura, C. difficile, rastreio de tuberculose
Peça cirúrgica

Íleo com aspecto em pedra de calçamento

Úlceras lineares que se cruzam isolam ilhas de mucosa edemaciada. A parede é espessa e rígida, a luz estreita e a gordura do mesentério avança sobre a serosa ("gordura envolvente").

Diagnóstico diferencial

Ileíte e granulomas têm outras causas importantes — principalmente a tuberculose intestinal, que não pode ser tratada com imunossupressão.

CondiçãoAchado-chaveComo diferenciar
Retocolite ulcerativa
Achado-chaveColite contínua a partir do reto
Como diferenciarInflamação só da mucosa, sem granulomas nem lesões salteadas; íleo poupado.
Tuberculose intestinal
Achado-chaveIleocecal, granulomas
Como diferenciarGranulomas grandes e confluentes, com necrose caseosa; úlceras transversais; BAAR, cultura, PCR.
Ileíte infecciosa (Yersinia)
Achado-chaveDor em FID aguda, adenite mesentérica
Como diferenciarCurso agudo, sem cronicidade na biópsia; cultura e sorologia.
Lesão por AINE
Achado-chaveÚlceras e estenoses em diafragma
Como diferenciarUso de anti-inflamatório; ausência de granulomas e de inflamação crônica difusa.
Linfoma intestinal
Achado-chaveEspessamento de alça, perda de peso
Como diferenciarInfiltrado linfoide monomórfico; imuno-histoquímica e clonalidade.

Galeria histopatológica

Da cripta à serosa: compare cada imagem com a mucosa intestinal normal.

Abscesso de cripta

HE, 400x. Cripta cortada transversalmente com a luz cheia de neutrófilos e restos celulares; o epitélio ao redor tem neutrófilos entre as células (criptite) e menos células caliciformes. Marca atividade, não é específico de Crohn.

HEAtividadeNeutrófilos

Granuloma não caseoso

HE, 200–400x. Agregado compacto de macrófagos epitelioides (citoplasma rosado, núcleos alongados em "sola de sapato"), às vezes com célula gigante multinucleada, sem necrose central, na lâmina própria ou na submucosa.

HEMacrófagosEspecífico

Distorção arquitetural

HE, 100x, mucosa colônica. Criptas ramificadas, de tamanhos diferentes e afastadas da muscular da mucosa, com plasmócitos na base. Compare com a mucosa normal, em que as criptas são retas e paralelas como tubos de ensaio.

HECronicidadeCólon

Inflamação transmural

HE, 20–40x, peça de íleo. Úlcera em fissura penetrando a submucosa, fibrose, hipertrofia muscular e agregados linfoides enfileirados na subserosa, como contas de um rosário. Esse padrão de parede inteira só se vê na peça cirúrgica.

HEPeça cirúrgicaTransmural

Em 30 segundos

O essencial de tratamento

  1. Indução: budesonida na doença ileocecal leve a moderada; corticoide sistêmico na moderada a grave.
  2. Manutenção: anti-TNF, ustequinumabe, vedolizumabe ou outros biológicos; tiopurinas como poupadores.
  3. Corticoide não serve para manutenção; mesalazina tem pouco papel no Crohn.
  4. Cirurgia para estenose fibrótica, fístula complexa, abscesso ou falha clínica — com ressecção econômica.

Estratégia de tratamento

A escolha leva em conta atividade, extensão, comportamento e fatores de mau prognóstico (início jovem, doença extensa, perianal, ulceração profunda). Nesses pacientes, o biológico entra cedo. O alvo é remissão clínica com cicatrização endoscópica, acompanhada por calprotectina e endoscopia.

Parar de fumar

Reduz recidivas e cirurgias; é a medida isolada mais eficaz fora dos fármacos.

Antes do biológico

Rastreio de tuberculose latente e hepatite B; atualizar vacinas.

Nutrição

Repor ferro, B12, vitamina D; nutrição enteral exclusiva induz remissão em crianças.

Cirurgia

Ressecção do segmento doente ou estrituroplastia; drenagem e setons na doença perianal.

Rotas de tratamento

Cada rota é um cenário de cuidado. O nome do medicamento abre a ficha; a escolha do biológico é individualizada pelo gastroenterologista.

Referências bibliográficas

  1. 1
    Livro-texto2021
    Kumar V, Abbas AK, Aster JC. Robbins & Cotran Patologia: bases patológicas das doenças. 10. ed. Rio de Janeiro: Elsevier; 2021.
  2. 2
    Livro-texto2023
    Junqueira LC, Carneiro J. Histologia Básica. 14. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan; 2023.
  3. 3
    Artigo2017
    Torres J, Mehandru S, Colombel JF, Peyrin-Biroulet L. Crohn’s disease. Lancet. 2017;389(10080):1741–1755.
  4. 4
    Diretriz2013
    Magro F, Langner C, Driessen A, et al. European consensus on the histopathology of inflammatory bowel disease. J Crohns Colitis. 2013;7(10):827–851.
  5. 5
    Diretriz2020
    Torres J, Bonovas S, Doherty G, et al. ECCO Guidelines on Therapeutics in Crohn’s Disease: Medical Treatment. J Crohns Colitis. 2020;14(1):4–22.
  6. 6
    Diretriz2018
    Lichtenstein GR, Loftus EV, Isaacs KL, et al. ACG Clinical Guideline: Management of Crohn’s Disease in Adults. Am J Gastroenterol. 2018;113(4):481–517.

Fontes das imagens

As imagens deste atlas têm finalidade educacional e foram produzidas a partir de lâminas histológicas reais e de representações didáticas.

Parte delas pode ter sido editada ou aprimorada digitalmente para destacar as estruturas e os achados descritos no texto.

Aviso importante

Material educacional. Não substitui o laudo anatomopatológico, a avaliação clínica, os protocolos institucionais nem a consulta às bulas. Doses de imunossupressores e biológicos são individualizadas e devem seguir o especialista, a bula e o protocolo local.

Atlas Astrenmed de Histologia • Conteúdo para educação médica. O diagnóstico e a conduta dependem da avaliação clínica individual.
Rolar para cima