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Atlas de Histologia • Tecido Nervoso

Doença de Parkinson

Parkinsonismo idiopático • Parkinson’s disease

Doença neurodegenerativa com perda de neurônios dopaminérgicos pigmentados da substância negra e acúmulo de alfa-sinucleína nos corpos de Lewy. Falta dopamina no estriado, e surgem bradicinesia, rigidez e tremor de repouso, além de sintomas não motores que podem anteceder o quadro motor em anos.

Substância negraCorpos de LewyTremor de repousoLevodopa
15–18 min de leitura Atualizado em outubro de 2026

Reconheça a lesão

A doença de Parkinson tem uma assinatura macroscópica e outra microscópica: a substância negra perde a cor e os neurônios que sobram carregam corpos de Lewy.

Histopatologia

Figura 1. Substância negra (pars compacta) em HE, 400x: poucos neurônios pigmentados restantes; um deles contém um corpo de Lewy — inclusão citoplasmática esférica, eosinofílica, com núcleo denso e halo pálido. Ao redor, neuromelanina livre e gliose.

Principais achados
  1. 1
    Palidez macroscópica da substância negra e do locus ceruleus
  2. 2
    Perda de neurônios pigmentados da pars compacta
  3. 3
    Neuromelanina livre no neurópilo e fagocitada por macrófagos
  4. 4
    Corpos de Lewy: esfera eosinofílica com núcleo denso e halo claro
  5. 5
    Neuritos de Lewy: prolongamentos espessados com alfa-sinucleína
  6. 6
    Gliose reativa (astrócitos) e ativação da micróglia

Em 30 segundos

O essencial de visão geral

  1. Perda de neurônios dopaminérgicos pigmentados da pars compacta da substância negra, que projetam para o estriado (via nigroestriatal).
  2. Os sintomas motores surgem quando já se perdeu grande parte desses neurônios (em torno de 60–80%).
  3. Corpos de Lewy: inclusões de alfa-sinucleína agregada; aparecem também no locus ceruleus, núcleo dorsal do vago, bulbo olfatório e córtex.
  4. Clínica: bradicinesia, rigidez, tremor de repouso e, mais tarde, instabilidade postural.

O que é a doença de Parkinson

É a segunda doença neurodegenerativa mais comum, depois da doença de Alzheimer. Pertence ao grupo das sinucleinopatias, ao lado da demência com corpos de Lewy e da atrofia de múltiplos sistemas.

O núcleo do problema é a morte progressiva dos neurônios dopaminérgicos nigroestriatais. Como a doença atinge também outros sistemas (noradrenérgico, serotoninérgico, colinérgico, autonômico), o quadro vai muito além do movimento.

Substância negra pálida + neurônios pigmentados perdidos + corpos de Lewy (alfa-sinucleína) nos sobreviventes = doença de Parkinson na neuropatologia.

Quem tem e fatores de risco

A idade é o principal fator de risco; a maioria dos casos é esporádica, resultado da soma de suscetibilidade genética e exposição ambiental.

Idade

Rara antes dos 50 anos; a incidência sobe muito após os 60. Um pouco mais comum em homens.

Genética

Formas monogênicas são minoria: SNCA e LRRK2 (dominantes), PRKN, PINK1 e DJ-1 (recessivas, início precoce). Variantes de GBA aumentam o risco.

Ambiente

Pesticidas e a neurotoxina MPTP (contaminante de opioide sintético), que destrói seletivamente a substância negra.

Associações inversas

Tabagismo e consumo de café associam-se a menor risco em estudos observacionais (não são recomendações).

Em 30 segundos

O essencial de fisiopatologia

  1. A alfa-sinucleína mal dobrada forma oligômeros e fibrilas que se agregam nos corpos e neuritos de Lewy.
  2. Disfunção mitocondrial (complexo I), estresse oxidativo e falha da degradação de proteínas convergem na morte neuronal.
  3. Menos dopamina no estriado desequilibra as vias direta e indireta dos núcleos da base.
  4. A patologia segue uma progressão anatômica (estágios de Braak), do tronco encefálico baixo ao córtex.

Da proteína agregada ao neurônio que morre

A alfa-sinucleína é uma proteína pré-sináptica normal. Na doença, ela adota conformação anormal, se agrega e parece se propagar de célula a célula, "semeando" novos agregados.

  1. Mal dobramento

    Alfa-sinucleína forma oligômeros tóxicos.

  2. Agregação

    Fibrilas insolúveis com ubiquitina.

  3. Inclusões

    Corpos e neuritos de Lewy.

  4. Falha celular

    Mitocôndria, lisossomo e sinapse comprometidos.

  5. Morte

    Perda neuronal e gliose.

Por que a substância negra é tão vulnerável

Os neurônios da pars compacta têm axônios enormes e muito ramificados, alta demanda energética e metabolizam dopamina, que gera radicais livres. Vários genes da doença convergem nas mesmas vias.

Mitocôndria

Defeito do complexo I; PINK1 e parkina controlam a remoção de mitocôndrias lesadas (mitofagia).

Lisossomo

GBA e LRRK2 afetam a via lisossômica e a autofagia; a alfa-sinucleína não é degradada.

Dopamina

Sua oxidação gera espécies reativas e quinonas; a neuromelanina é o resíduo visível.

O circuito dos núcleos da base

A dopamina estimula a via direta (receptores D1, facilita o movimento) e inibe a via indireta (D2, freia o movimento). Sem ela, predomina a via indireta: o globo pálido interno e a substância negra reticulada inibem demais o tálamo, e o córtex motor recebe menos estímulo — daí a bradicinesia.

Via direta (D1)

  • Estriado → GPi/SNr
  • Libera o tálamo
  • Hipoativa sem dopamina

Via indireta (D2)

  • Estriado → GPe → núcleo subtalâmico → GPi
  • Inibe o tálamo
  • Hiperativa sem dopamina

Estágios de Braak

Braak propôs que a patologia de Lewy começa no bulbo e no bulbo olfatório e sobe pelo tronco encefálico. Isso explica por que hiposmia, constipação e distúrbio do sono REM aparecem antes do tremor.

EstágiosRegiões com corpos de LewyCorrelação clínica
1–2Núcleo motor dorsal do vago, bulbo olfatório, locus ceruleusPré-motor: hiposmia, constipação, sono REM
3–4Substância negra, amígdala, mesocórtexSintomas motores
5–6Neocórtex associativo e primárioDeclínio cognitivo e demência

Nem todos os casos seguem essa sequência; o modelo é útil para entender o quadro pré-motor.

Em 30 segundos

O essencial de quadro clínico

  1. Tétrade motora: bradicinesia, rigidez, tremor de repouso e instabilidade postural (tardia).
  2. Início assimétrico, que se mantém ao longo da doença.
  3. Sintomas não motores: hiposmia, constipação, depressão, sono REM, hipotensão ortostática, demência tardia.
  4. Quedas e demência precoces sugerem outro diagnóstico.

Sinais motores

O exame deve provocar a bradicinesia com movimentos repetidos (bater dedos, abrir e fechar a mão): além da lentidão, a amplitude decai a cada repetição.

Bradicinesia

Lentidão e decremento de amplitude; micrografia, hipomimia, voz baixa, piscar raro.

Tremor de repouso

Cerca de 4–6 Hz, "em contar moedas"; some ao mover e reaparece na postura (tremor reemergente).

Rigidez

Resistência plástica em todo o arco; com tremor sobreposto, "roda denteada".

Marcha e postura

Passos curtos, arrastados, sem balançar os braços, postura fletida; congelamento e quedas tardias.

Sintomas não motores

Refletem a patologia fora da substância negra e pesam muito na qualidade de vida.

  • Pré-motores: hiposmia, constipação, distúrbio comportamental do sono REM (encenar os sonhos), depressão.
  • Autonômicos: hipotensão ortostática, urgência urinária, sialorreia, disfunção sexual.
  • Cognitivos e psiquiátricos: apatia, ansiedade, alucinações, demência na fase avançada.
  • Outros: dor, fadiga, seborreia.

Sinais de alerta: pode não ser Parkinson

Parkinsonismo simétrico, de evolução rápida e com pouca resposta à levodopa pede outro diagnóstico.

  • Quedas nos primeiros anos e paralisia do olhar vertical (paralisia supranuclear progressiva).
  • Disautonomia grave precoce e sinais cerebelares (atrofia de múltiplos sistemas).
  • Demência antes ou junto com o parkinsonismo, flutuação e alucinações (demência com corpos de Lewy).
  • Uso de antipsicóticos, metoclopramida, flunarizina ou cinarizina (parkinsonismo induzido por fármaco).

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O essencial de histopatologia e diagnóstico

  1. Diagnóstico em vida é clínico; a confirmação definitiva é neuropatológica.
  2. Macroscopia: substância negra e locus ceruleus despigmentados.
  3. HE: perda de neurônios pigmentados, neuromelanina livre, gliose e corpos de Lewy.
  4. Alfa-sinucleína na imuno-histoquímica é o marcador de escolha dos corpos e neuritos de Lewy.

Substância negra: normal × Parkinson

No mesencéfalo normal, a pars compacta forma uma faixa escura bem visível a olho nu. Na doença, a faixa clareia e, ao microscópio, os neurônios multipolares grandes de citoplasma castanho ficam escassos.

Substância negra normal

  • Faixa negra nítida no corte
  • Neurônios grandes, muitos, com neuromelanina
  • Pigmento só dentro do citoplasma
  • Pouca glia reativa

Doença de Parkinson

  • Faixa pálida ou ausente
  • Neurônios escassos; corpos de Lewy
  • Neuromelanina livre e em macrófagos
  • Gliose astrocitária

O corpo de Lewy

No tronco encefálico, o corpo de Lewy clássico é uma inclusão citoplasmática única ou múltipla, redonda, com núcleo eosinofílico denso e halo periférico pálido. No córtex, os corpos de Lewy são menos definidos, sem halo, e exigem imuno-histoquímica.

TécnicaO que mostra
HEEsfera eosinofílica com halo claro no citoplasma de neurônio pigmentado
Alfa-sinucleína (IHQ)Corpos e neuritos de Lewy marcados em castanho; padrão-ouro atual
Ubiquitina / p62Também positivos, porém menos específicos
Microscopia eletrônicaFilamentos de 7–20 nm radiados ao redor de um centro granular denso
Imuno-histoquímica

Alfa-sinucleína revela o que o HE esconde

A imuno-histoquímica marca corpos de Lewy no tronco e no córtex e os finos neuritos de Lewy no neurópilo, que passam despercebidos no HE.

Diagnóstico clínico e exames de apoio

Os critérios da Movement Disorder Society (2015) partem da síndrome parkinsoniana e pesam critérios de apoio, de exclusão absoluta e sinais de alerta.

  1. Síndrome parkinsoniana

    Bradicinesia associada a tremor de repouso, rigidez ou ambos.

  2. Critérios de apoio

    Resposta clara à terapia dopaminérgica, discinesia induzida por levodopa, tremor de repouso, hiposmia.

  3. Exclusão

    Sinais cerebelares, paralisia do olhar vertical para baixo, bloqueador dopaminérgico, ausência de resposta a doses altas de levodopa.

  4. RM de encéfalo

    Em geral normal; ajuda a excluir lesões vasculares, hidrocefalia e atrofias típicas de outras doenças.

  5. SPECT do transportador de dopamina

    Captação estriatal reduzida e assimétrica; distingue parkinsonismo degenerativo de tremor essencial ou parkinsonismo por fármaco.

Diagnóstico diferencial

Na lâmina, o diferencial se faz pelo tipo de inclusão e pelas regiões acometidas; na clínica, pelo tempo de evolução, simetria e resposta à levodopa.

CondiçãoAchado-chaveComo diferenciar
Achado-chavePlacas de beta-amiloide e emaranhados de tau
Como diferenciarDemência amnésica dominante; córtex e hipocampo atróficos; substância negra preservada no início.
Demência com corpos de Lewy
Achado-chaveMesma inclusão, distribuição cortical precoce
Como diferenciarDemência antes ou até 1 ano após o parkinsonismo; flutuação e alucinações visuais.
Paralisia supranuclear progressiva
Achado-chaveTauopatia: emaranhados globosos e astrócitos em tufo
Como diferenciarQuedas precoces, paralisia do olhar vertical, rigidez axial; sem corpos de Lewy.
Atrofia de múltiplos sistemas
Achado-chaveInclusões de alfa-sinucleína em oligodendrócitos
Como diferenciarInclusões gliais citoplasmáticas (não neuronais); disautonomia e sinais cerebelares precoces.
Achado-chaveInfartos lacunares nos núcleos da base
Como diferenciarPredomínio em membros inferiores, marcha de pequenos passos, pouco tremor; lesões na RM.

Galeria neuropatológica

Do mesencéfalo a olho nu à inclusão no citoplasma: compare cada imagem com o tecido normal.

Mesencéfalo: normal × Parkinson

Cortes axiais do mesencéfalo lado a lado. À esquerda, a substância negra forma uma faixa escura em "V" entre os pedúnculos e o tegmento; à direita, a faixa está pálida, quase invisível. Observe que o restante do mesencéfalo tem aspecto semelhante: a perda é seletiva.

MacroscopiaMesencéfaloDespigmentação

Perda neuronal na pars compacta

HE em 100x. Poucos neurônios grandes com citoplasma castanho de neuromelanina; entre eles, grânulos de pigmento livres no neurópilo e dentro de macrófagos, e núcleos de astrócitos reativos. Compare com a densidade de neurônios pigmentados de um caso controle.

HENeuromelaninaGliose

Corpo de Lewy clássico

HE em 400–1000x. No citoplasma de um neurônio pigmentado, esfera rosa com centro mais denso e halo pálido periférico, empurrando a neuromelanina. Procure o núcleo do neurônio para não confundir com uma hemácia ou um núcleo picnótico.

HECorpo de LewyInclusão citoplasmática

Alfa-sinucleína: corpos e neuritos de Lewy

Imuno-histoquímica para alfa-sinucleína (cromógeno castanho, contracoloração com hematoxilina). Corpos de Lewy marcados no citoplasma e neuritos de Lewy como fios espessados e tortuosos no neurópilo. Esses neuritos quase não se veem no HE.

Imuno-histoquímicaAlfa-sinucleínaNeuritos

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O essencial de tratamento

  1. Levodopa (sempre com inibidor da descarboxilase periférica) é o fármaco mais eficaz para os sintomas motores.
  2. Agonistas dopaminérgicos e inibidores da MAO-B são alternativas iniciais em quadros leves ou para reduzir flutuações.
  3. Exercício físico regular, fisioterapia e fonoterapia fazem parte do tratamento desde o diagnóstico.
  4. Estimulação cerebral profunda para flutuações e discinesias refratárias em pacientes selecionados.

Princípios

O tratamento é sintomático e individualizado pela incapacidade, idade e efeitos adversos. Adiar a levodopa não protege contra complicações motoras: o tratamento começa quando os sintomas atrapalham a vida, com a menor dose eficaz. Com os anos surgem o "wearing-off" (efeito que acaba antes da próxima dose) e as discinesias de pico de dose.

Responde bem

  • Bradicinesia
  • Rigidez
  • Tremor (variável)

Responde mal

  • Instabilidade postural e quedas
  • Congelamento tardio da marcha
  • Disfagia, disartria, demência

Rotas de tratamento

Cada rota é um cenário. Doses são tituladas pelo neurologista conforme resposta e tolerância; as indicadas são as de início habituais.

Fármacos que pioram o parkinsonismo

  • Antipsicóticos típicos (haloperidol) e a maioria dos atípicos; se necessário, preferir quetiapina ou clozapina.
  • Antieméticos antidopaminérgicos: metoclopramida, bromoprida; prefira domperidona.
  • Flunarizina e cinarizina.

Referências bibliográficas

  1. 1
    Livro-texto2021
    Kumar V, Abbas AK, Aster JC. Robbins & Cotran Patologia: bases patológicas das doenças. 10. ed. Rio de Janeiro: Elsevier; 2021.
  2. 2
    Livro-texto2023
    Junqueira LC, Carneiro J. Histologia Básica. 14. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan; 2023.
  3. 3
    Artigo2015
    Postuma RB, Berg D, Stern M, et al. MDS clinical diagnostic criteria for Parkinson’s disease. Mov Disord. 2015;30(12):1591–1601.
  4. 4
    Artigo2003
    Braak H, Del Tredici K, Rüb U, et al. Staging of brain pathology related to sporadic Parkinson’s disease. Neurobiol Aging. 2003;24(2):197–211.
  5. 5
    Artigo2021
    Bloem BR, Okun MS, Klein C. Parkinson’s disease. Lancet. 2021;397(10291):2284–2303.

Fontes das imagens

As imagens deste atlas têm finalidade educacional e foram produzidas a partir de lâminas histológicas reais e de representações didáticas.

Parte delas pode ter sido editada ou aprimorada digitalmente para destacar as estruturas e os achados descritos no texto.

Aviso importante

Material educacional. Não substitui o laudo anatomopatológico, a avaliação clínica, os protocolos institucionais nem a consulta às bulas. Doses de antiparkinsonianos são tituladas individualmente pelo neurologista, conforme resposta, efeitos adversos e bula.

Atlas Astrenmed de Histologia • Conteúdo para educação médica. O diagnóstico e a conduta dependem da avaliação clínica individual.
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