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Síndrome de dispersão pigmentar

Dispersão pigmentar • glaucoma pigmentar • pigment dispersion syndrome (PDS) • pigmentary glaucoma

Em olhos de jovens míopes, a íris periférica se curva para trás e roça nas zônulas do cristalino. O atrito arranca pigmento do epitélio posterior da íris, que se espalha pelo segmento anterior: fuso de Krukenberg na córnea, defeitos radiais de transiluminação na íris e malha trabecular muito pigmentada. Parte dos pacientes desenvolve glaucoma pigmentar, com picos de pressão após exercício ou dilatação.

Íris e ânguloJovem míopePigmento no segmento anteriorGlaucoma pigmentar
15–18 min de leitura Atualizado em outubro de 2026

Reconheça o achado

Imagem clínica

Dispersão pigmentar: fuso de Krukenberg vertical no endotélio central e câmara anterior profunda em jovem míope. Toque para ampliar.

Principais achados
  1. 1
    Fuso de Krukenberg: faixa vertical de pigmento no endotélio central-inferior
  2. 2
    Defeitos de transiluminação radiais, em fenda, na média periferia da íris
  3. 3
    Íris periférica côncava (arqueada para trás) e câmara anterior profunda
  4. 4
    Malha trabecular com faixa de pigmento escura, densa e homogênea em 360°
  5. 5
    Grânulos de pigmento na superfície da íris e na cápsula posterior (linha de Scheie / anel de Zentmayer)
  6. 6
    Pigmento circulante no aquoso nas "tempestades de pigmento"

Em 30 segundos

O essencial de visão geral

  1. Íris periférica côncava roça nas zônulas e solta pigmento do seu epitélio posterior.
  2. Tríade: fuso de Krukenberg, transiluminação radial médio-periférica e pigmento trabecular denso e homogêneo.
  3. Típica de homens jovens míopes; picos de PIO após exercício ou midríase.
  4. Glaucoma pigmentar: ≈ 10% em 5 anos e 15% em 15 anos; tratado como o glaucoma de ângulo aberto.

O que é

Síndrome de dispersão pigmentar (SDP) é a liberação anormal de grânulos de melanina do epitélio pigmentado da íris, com deposição em todo o segmento anterior. Quando o pigmento sobrecarrega a malha trabecular e a pressão sobe, fala-se em hipertensão ocular pigmentar; com dano do nervo óptico, em glaucoma pigmentar.

É, portanto, um espectro: dispersão sem pressão alta → pressão alta sem dano → glaucoma pigmentar. Muitos pacientes ficam no primeiro estágio por toda a vida.

Defeitos de transiluminação radiais na média periferia + fuso de Krukenberg + ângulo com faixa de pigmento homogênea em jovem míope = dispersão pigmentar.

Por que a pressão sobe

Os grânulos são levados pela corrente do aquoso até a malha trabecular. As células trabeculares fagocitam o pigmento; quando sobrecarregadas, degeneram e se desprendem, e a malha perde a capacidade de filtrar. A pressão tende a subir em surtos, quando muito pigmento é liberado de uma vez.

Miopia

Câmara funda e íris longa favorecem a concavidade.

Sexo masculino

Glaucoma pigmentar mais frequente e mais precoce em homens.

Genética

Herança familiar descrita; variantes em PMEL associadas em estudos recentes.

Exercício

Movimentos bruscos liberam pigmento e causam picos de PIO.

Midríase

Dilatação pupilar aumenta o atrito e a liberação.

PIO inicial

PIO > 21 mmHg ao diagnóstico é o principal fator de conversão.

Epidemiologia

É mais comum em brancos, rara em negros e asiáticos (nos quais a íris é mais espessa). Homens e mulheres têm a síndrome em proporções semelhantes, mas o glaucoma pigmentar predomina nos homens. A doença é bilateral, embora possa ser assimétrica; olho mais míope ou com íris mais côncava costuma ser o mais afetado.

20–45 anosFaixa típica do diagnóstico
MíopesPerfil refrativo predominante
10% / 15%Conversão para glaucoma em 5 e 15 anos

Em 30 segundos

O essencial de quadro clínico

  1. Geralmente assintomática; sintomas aparecem nos picos de PIO.
  2. Córnea: fuso de Krukenberg (não é obrigatório nem exclusivo).
  3. Íris: transiluminação radial, pigmento na superfície, heterocromia quando assimétrica.
  4. Ângulo: aberto e amplo, com faixa escura homogênea na malha posterior.

Sintomas

Fora dos surtos, não há queixa. Nos surtos, a PIO pode chegar a valores muito altos de forma súbita, com edema epitelial de córnea transitório. O dano do nervo óptico, como em todo glaucoma de ângulo aberto, é silencioso.

Visão borrada

Após exercício intenso ou dilatação.

Halos coloridos

Edema de córnea no pico de PIO.

Dor leve

Pressão ou desconforto ocular no surto.

Os sinais no segmento anterior

O pigmento segue a circulação do aquoso: sobe pela frente da íris, desce pelo endotélio por correntes de convecção e sai pelo ângulo. Por isso o fuso é vertical e central, e o ângulo é pigmentado por igual.

Fuso de Krukenberg

Faixa vertical marrom no endotélio, central ou um pouco abaixo; pode ser discreta e diminuir com o tempo.

Transiluminação radial

Defeitos em fenda, radiais, na média periferia da íris; melhor vistos com retroiluminação ou infravermelho.

Íris côncava e pigmentada

Perfil arqueado para trás; grânulos nos sulcos da íris, que pode parecer mais escura (heterocromia nos casos assimétricos).

Linha de Scheie / anel de Zentmayer

Pigmento na cápsula posterior, na inserção das zônulas — visível com pupila dilatada.

O ângulo

Ângulo aberto e amplo, com inserção posterior da íris e configuração côncava. A malha trabecular posterior forma uma faixa escura, densa e homogênea em 360° (graus 3–4). Pode haver pigmento sobre a linha de Schwalbe.

Sinal da reversão do pigmento

Com a idade, a liberação diminui e a malha clareia de cima para baixo: a parte superior fica mais pigmentada que a inferior (o contrário do habitual). É uma pista de dispersão pigmentar "queimada" em pacientes mais velhos.

Dispersão pigmentar × pseudoexfoliação

CaracterísticaDispersão pigmentarPseudoexfoliação
Idade20–45 anosAcima de 60 anos
RefraçãoMiopiaQualquer
TransiluminaçãoRadial, em fenda, média periferiaIrregular, peripupilar
Pigmento no ânguloDenso e homogêneo em 360°Irregular, manchado; linha de Sampaolesi
Cápsula do cristalinoPigmento na cápsula posterior (Zentmayer)Material branco em três zonas na cápsula anterior
LateralidadeBilateralFrequentemente unilateral

Em 30 segundos

O essencial de diagnóstico

  1. Diagnóstico clínico com lâmpada de fenda, retroiluminação e gonioscopia.
  2. OCT de segmento anterior ou UBM mostram a concavidade da íris e o contato iridozonular.
  3. Avaliar glaucoma: PIO (com atenção a picos), disco, OCT, campo visual.
  4. Examinar a periferia da retina: míopes com SDP têm mais degeneração lattice e descolamento.

Roteiro de exame

  1. Biomicroscopia

    Endotélio (fuso de Krukenberg), profundidade da câmara, pigmento na superfície da íris, células de pigmento no aquoso.

  2. Retroiluminação

    Com feixe coaxial estreito através da pupila, procurar defeitos radiais na média periferia (ambiente escuro, pupila não dilatada).

  3. Gonioscopia

    Grau e distribuição do pigmento; configuração côncava da íris (pode acentuar durante a gonioscopia de indentação).

  4. Imagem do segmento anterior

    OCT de segmento anterior ou biomicroscopia ultrassônica: íris arqueada para trás e contato com as zônulas.

  5. Nervo óptico e retina

    Escavação, OCT de fibras, perimetria; mapeamento da periferia retiniana com pupila dilatada.

Modelo de registro

AO: fuso de Krukenberg central. Defeitos de transiluminação radiais médio-periféricos. Câmara anterior profunda, íris periférica côncava. Gonioscopia: ângulo amplo (Shaffer 4), pigmentação trabecular 4+ homogênea em 360°. PIO 19/20 mmHg. Discos com E/D 0,3 AO. Retina periférica sem roturas. Conduta: OCT de CFNR e campo visual basais; orientar sintomas após exercício.

Diagnóstico diferencial

Pigmento no ângulo e na córnea aparece em outras condições. Defeitos de transiluminação também. O padrão radial na média periferia em jovem míope é o que mais sustenta a dispersão pigmentar.

CondiçãoAchado-chaveComo diferenciar
Achado-chaveIdoso; transiluminação peripupilar
Como diferenciarMaterial branco na cápsula anterior; pigmento manchado e linha de Sampaolesi.
Achado-chavePrecipitados ceráticos, atrofia de íris
Como diferenciarCélulas inflamatórias, precipitados difusos; transiluminação setorial ou difusa.
Lente intraocular no sulco
Achado-chavePseudofácico com transiluminação
Como diferenciarAtrito da íris com a háptica (síndrome UGH); defeitos localizados no setor da lente.
Trauma contuso
Achado-chavePigmento unilateral, recessão angular
Como diferenciarHistória de trauma; ângulo com recessão; iridodiálise.
Achado-chaveTransiluminação difusa
Como diferenciarDesde a infância; nistagmo, hipoplasia foveal, baixa visual.
Achado-chavePigmento unilateral
Como diferenciarLesão pigmentada, heterocromia hiperpigmentada; glaucoma melanomalítico.

Galeria: siga o pigmento

O pigmento sai da face posterior da íris e aparece na córnea, na superfície da íris, na cápsula posterior e no ângulo. Cada foto mostra um ponto desse trajeto.

Fuso de Krukenberg

Faixa vertical de pigmento marrom no endotélio central. Observe que é mais larga embaixo e afina para cima, seguindo as correntes de convecção do aquoso.

CórneaEndotélioLâmpada de fenda

Transiluminação radial

Em retroiluminação, fendas claras radiais na média periferia da íris, onde os feixes zonulares rasparam o epitélio pigmentado.

RetroiluminaçãoÍris

Ângulo intensamente pigmentado

Gonioscopia: faixa escura homogênea na malha trabecular, igual em todos os quadrantes, em ângulo amplo com íris côncava.

GonioscopiaMalha trabecular

Íris côncava na OCT de segmento anterior

A íris média-periférica se arqueia para trás, em direção às zônulas. Compare com o perfil plano após iridotomia ou com acomodação relaxada.

OCT de segmento anteriorBloqueio pupilar reverso

Antes e depois da iridotomia

Alterne as vistas e compare o perfil da íris. A iridotomia equaliza as pressões entre as câmaras e aplana a íris.

Antes

Íris arqueada para trás, em contato com as zônulas.

Em 30 segundos

O essencial de tratamento

  1. Dispersão sem PIO alta nem dano: apenas seguimento e orientação.
  2. Glaucoma pigmentar: análogo de prostaglandina na primeira linha; associações como no glaucoma primário.
  3. Trabeculoplastia funciona, mas com energia baixa pelo risco de pico de PIO.
  4. Iridotomia e pilocarpina não são rotina: benefício incerto e riscos em jovens míopes.

Iridotomia: aplana a íris, mas não previne glaucoma

Como a concavidade da íris é causada pelo bloqueio pupilar reverso, a iridotomia a laser aplana a íris e reduz o contato com as zônulas. Mesmo assim, o ensaio clínico randomizado de Scott e colaboradores (2011) e a revisão Cochrane (2016) não mostraram benefício para evitar a conversão a glaucoma. Hoje ela é considerada de forma individual, não como rotina.

Trabeculoplastia (SLT/ALT)

Boa resposta pela malha pigmentada; usar energia baixa e medir a PIO após o laser.

Iridotomia periférica

Pode ser considerada em íris muito côncava com PIO elevada; benefício a longo prazo incerto.

Trabeculectomia

Quando a meta não é atingida; jovens míopes têm mais risco de maculopatia hipotônica.

Orientações

Explicar os sintomas de pico; alguns médicos ajustam o tipo de exercício em quem tem surtos.

Rotas de tratamento

Cada rota é um cenário clínico. As doses são as de bula; o nome de cada colírio abre a ficha. A escolha final é do oftalmologista.

Seguimento

O risco de conversão é maior nos primeiros anos após o diagnóstico e quando a PIO inicial é alta. Com a idade, a atividade diminui, mas o glaucoma já instalado continua precisando de controle.

  • SDP sem hipertensão: PIO, disco e OCT periodicamente (em geral anual).
  • Hipertensão ou glaucoma pigmentar: seguimento como glaucoma de ângulo aberto, com campo e OCT seriados.
  • Orientar o paciente a procurar atendimento se houver halos ou embaçamento após exercício.
  • Mapeamento da retina periférica, sobretudo antes de mióticos ou cirurgias.

Em 30 segundos

O essencial de prognóstico

  1. Muitos pacientes nunca desenvolvem glaucoma.
  2. Conversão: ≈ 10% em 5 anos e 15% em 15 anos; PIO inicial > 21 mmHg é o principal fator.
  3. A dispersão tende a diminuir após os 50 anos (fase "queimada").
  4. Risco maior de descolamento de retina pela miopia e degeneração lattice.

História natural

Na série de Olmsted County (Siddiqui e colaboradores, 2003), o risco de evoluir de dispersão pigmentar para glaucoma pigmentar foi de cerca de 10% em 5 anos e 15% em 15 anos. Homens jovens, míopes e com PIO elevada no diagnóstico foram os de maior risco.

Menor risco

  • PIO normal ao diagnóstico
  • Mulheres
  • Idade mais avançada (fase inativa)
  • Pouca concavidade da íris

Maior risco

  • PIO > 21 mmHg ao diagnóstico
  • Homem jovem, miopia alta
  • Surtos de pigmento frequentes
  • Krukenberg denso e pigmento trabecular intenso

Complicações

Glaucoma pigmentar

Neuropatia óptica com perda de campo.

Picos agudos de PIO

Após exercício, midríase ou laser.

Descolamento de retina

Mais frequente pela miopia e lattice; agravado por mióticos.

Referências bibliográficas

  1. 1
    Artigo2003
    Siddiqui Y, Ten Hulzen RD, Cameron JD, Hodge DO, Johnson DH. What is the risk of developing pigmentary glaucoma from pigment dispersion syndrome? Am J Ophthalmol. 2003;135(6):794–799.
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    Artigo1979
    Campbell DG. Pigmentary dispersion and glaucoma: a new theory. Arch Ophthalmol. 1979;97(9):1667–1672.
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    Karickhoff JR. Pigmentary dispersion syndrome and pigmentary glaucoma: a new mechanism concept, a new treatment, and a new technique. Ophthalmic Surg. 1992;23(4):269–277.
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    Scott A, Kotecha A, Bunce C, et al. YAG laser peripheral iridotomy for the prevention of pigment dispersion glaucoma: a prospective, randomized, controlled trial. Ophthalmology. 2011;118(3):468–473.
  5. 5
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    Michelessi M, Lindsley K. Peripheral iridotomy for pigmentary glaucoma. Cochrane Database Syst Rev. 2016;2:CD005655.
  6. 6
    Artigo2019
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    Livro-texto2025
    American Academy of Ophthalmology. Basic and Clinical Science Course (BCSC), Section 10: Glaucoma. San Francisco: AAO; 2024–2025.
  8. 8
    Diretriz2021
    Gedde SJ, Vinod K, Wright MM, et al. Primary Open-Angle Glaucoma Preferred Practice Pattern®. Ophthalmology. 2021;128(1):P71–P150.
  9. 9
    Diretriz2021
    European Glaucoma Society. Terminology and Guidelines for Glaucoma, 5th Edition. Br J Ophthalmol. 2021;105(Suppl 1):1–169.
  10. 10
    Livro-texto2020
    Bowling B. Kanski’s Clinical Ophthalmology: A Systematic Approach. 9. ed. Elsevier; 2020.

Fontes das imagens

As imagens deste atlas têm finalidade educacional e foram produzidas a partir de referências clínicas reais e de representações anatômicas didáticas.

Parte delas pode ter sido editada ou aprimorada digitalmente para destacar as estruturas e os achados descritos no texto.

Aviso importante

Material educacional. Não substitui a avaliação oftalmológica, os protocolos institucionais nem a consulta às bulas. Indicação de laser, mióticos e metas de pressão é individualizada; a prescrição é responsabilidade do oftalmologista.

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