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Anafilaxia

Reação de hipersensibilidade sistêmica grave • choque anafilático

Reação de hipersensibilidade sistêmica grave, de início rápido, com risco de morte por comprometimento respiratório e/ou circulatório. A adrenalina intramuscular é o tratamento de primeira linha, não tem contraindicação absoluta e não deve ser adiada por nenhuma outra medida.

Adrenalina IM primeiroRisco de via aéreaChoque distributivoReação bifásica
14 min de leitura Atualizado em outubro de 2026

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O essencial de visão geral

  1. Anafilaxia é uma reação de hipersensibilidade sistêmica grave, de início rápido, com risco de morte por comprometimento respiratório e/ou circulatório.
  2. O diagnóstico é clínico: nenhum exame deve atrasar o tratamento, e a adrenalina é indicada diante de suspeita razoável.
  3. O atraso da adrenalina IM é o fator mais consistentemente associado à morte.
  4. A ausência de urticária não afasta o diagnóstico — sobretudo no choque de instalação muito rápida.

O que é

A anafilaxia é uma reação de hipersensibilidade sistêmica grave, geralmente de início rápido, capaz de causar comprometimento respiratório e/ou circulatório com risco de morte. Na maioria dos casos é mediada por IgE, com degranulação de mastócitos e basófilos, mas também pode ocorrer por mecanismos não mediados por IgE (reações antes chamadas de "anafilactoides"), cujo manejo é idêntico.

É um diagnóstico clínico e uma emergência: nenhum exame deve atrasar o tratamento. As diretrizes atuais reforçam que não é necessário preencher formalmente os critérios diagnósticos para indicar a adrenalina quando a suspeita é razoável.

O atraso na administração da adrenalina é o fator mais consistentemente associado à mortalidade na anafilaxia.

Principais desencadeantes

Variam com a idade e o contexto. Em qualquer episódio, identificar o agente faz parte do tratamento — a exposição deve ser interrompida imediatamente.

  • Alimentos — leite, ovo, amendoim, castanhas, frutos do mar, trigo; causa mais comum em crianças.
  • Medicamentos — antibióticos (betalactâmicos), AINEs, contrastes iodados e, no perioperatório, bloqueadores neuromusculares.
  • Ferroadas de insetos — himenópteros (abelhas, vespas, formigas).
  • Látex — atenção em profissionais de saúde e pacientes multioperados.
  • Cofatores — exercício, álcool, AINEs, infecção aguda e menstruação podem amplificar a reação.
  • Idiopática — quando nenhum gatilho é identificado após investigação alergológica. Antes de rotular como idiopática, considere alergia à alfa-gal (carne de mamífero, após picada de carrapato) e doença mastocitária (AAAAI/ACAAI 2023).
Fluxograma

Manejo da anafilaxia

Do reconhecimento à adrenalina IM imediata, ao suporte (posição, oxigênio, volume), à reavaliação a cada 5 minutos e ao escalonamento para a anafilaxia refratária.

Clique para ampliar o fluxograma.

Epidemiologia

A prevalência estimada ao longo da vida situa-se em torno de 1,6% a 5,1% da população. A anafilaxia fatal é rara, mas o subtratamento é frequente: a adrenalina segue subutilizada tanto no ambiente pré-hospitalar quanto na emergência.

Prevalência

~1,6–5,1% ao longo da vida.

Letalidade

Baixa, mas evitável; ligada ao atraso da adrenalina.

Crianças

Alimentos são o gatilho mais frequente.

Adultos

Medicamentos e ferroadas ganham peso.

Reação bifásica

Minoria dos casos; mais provável em quadros graves.

Fisiopatologia

A reexposição ao alérgeno provoca ligação cruzada de IgE na superfície de mastócitos e basófilos, com degranulação e liberação maciça de histamina, triptase, leucotrienos, prostaglandinas e PAF.

O resultado é vasodilatação, aumento da permeabilidade capilar (com extravasamento de grande parte do volume intravascular em minutos), broncoconstrição, edema de mucosa e depressão miocárdica — combinação que produz choque distributivo e obstrução de via aérea.

Consequências clínicas diretas

  • Vasodilatação + extravasamento → hipotensão e choque.
  • Edema de mucosa → estridor, rouquidão, obstrução de via aérea.
  • Broncoconstrição → sibilos, hipoxemia, insuficiência respiratória.
  • Hiperpermeabilidade cutânea → urticária, angioedema, prurido, rubor.
  • Ação sobre músculo liso GI → cólica, vômitos, diarreia.

Por que a adrenalina funciona: ação α1 (vasoconstrição, reduz edema de mucosa), β1 (inotropismo e cronotropismo) e β2 (broncodilatação e inibição da liberação de mediadores) — reverte simultaneamente os quatro eixos do quadro.

Quadro clínico por sistema

Pele e mucosas

Urticária, prurido, rubor, angioedema de lábios, língua e úvula. Presente na maioria — mas pode faltar, sobretudo no choque de instalação muito rápida.

Respiratório

Dispneia, sibilos, tosse, estridor, rouquidão, sensação de "aperto na garganta", hipoxemia.

Cardiovascular

Hipotensão, taquicardia, tontura, síncope, hipoperfusão, incontinência; raramente bradicardia e parada cardíaca.

Gastrointestinal

Cólica abdominal intensa, náuseas, vômitos e diarreia — sintomas persistentes contam como órgão-alvo nos critérios.

Neurológico

Sensação de morte iminente, agitação, confusão e rebaixamento do nível de consciência.

Lactentes

Manifestações inespecíficas: irritabilidade, choro persistente, hipotonia súbita, regurgitação e sonolência — exigem alto índice de suspeição. Na falta de critérios próprios para a faixa etária, use os da WAO ou do NIAID/FAAN (AAAAI/ACAAI 2023).

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O essencial de critérios

  1. Anafilaxia é altamente provável quando qualquer um de dois critérios (WAO 2020) está presente.
  2. Com alérgeno conhecido, hipotensão, broncoespasmo ou envolvimento laríngeo bastam — mesmo sem pele.
  3. Os critérios padronizam o diagnóstico; não autorizam nem impedem o tratamento. Nem a decisão de dar adrenalina nem a resposta a ela confirmam o diagnóstico.
  4. A triptase documenta o episódio, mas nunca atrasa o tratamento.

Critérios diagnósticos

Diagnóstico clínico. A anafilaxia é altamente provável quando qualquer um dos dois critérios abaixo está presente (critérios revisados da WAO, incorporados à atualização de 2023 do Practice Parameter da AAAAI/ACAAI).

#CenárioAchados necessários (início agudo: minutos a poucas horas)
1Sem alérgeno conhecido
Exposição não identificada ou não confirmada
Acometimento de pele e/ou mucosa (urticária generalizada, prurido, rubor, edema de lábios, língua ou úvula)
E pelo menos um dos seguintes:
• Respiratório: dispneia, broncoespasmo, estridor, hipoxemia;
• Cardiovascular: hipotensão ou sinais de hipoperfusão (síncope, colapso, incontinência);
• Gastrointestinal grave: cólica abdominal intensa ou vômitos repetidos (sobretudo após alérgeno não alimentar).
2Alérgeno conhecido ou altamente provável para aquele pacientePelo menos um dos seguintes, mesmo sem acometimento de pele:
• Hipotensão (ver tabela por faixa etária abaixo);
• Broncoespasmo;
• Envolvimento laríngeo — estridor, disfonia, sensação de aperto na garganta, disfagia.

Os critérios servem para padronizar o diagnóstico, não para autorizar o tratamento: diante de suspeita razoável, a adrenalina é indicada ainda que os critérios não estejam formalmente preenchidos. Atualização (AAAAI/ACAAI 2023): o inverso também vale — nem a decisão de aplicar adrenalina nem a resposta a ela devem ser usadas como marcador para confirmar o diagnóstico.

Uma parcela relevante dos episódios cursa sem urticária ou angioedema. A ausência de manifestações cutâneas nunca afasta anafilaxia.

Definição de hipotensão por faixa etária

Faixa etáriaPressão arterial sistólica (PAS)
1 mês a 1 ano< 70 mmHg
1 a 10 anos< 70 mmHg + (2 × idade em anos)
11 a 17 anos< 90 mmHg
Adulto< 90 mmHg ou queda > 30% da PAS basal do paciente

Hipotensão isolada, após exposição a alérgeno conhecido, já é suficiente para o diagnóstico.

PAM estimada e índice de choque

Apoio à reavaliação hemodinâmica entre as doses de adrenalina. PAM = PAD + (PAS − PAD) / 3; índice de choque = FC / PAS (alterado acima de 0,8–0,9 no adulto).

PAM estimada (mmHg)—
Índice de choque—
Leitura rápida—

Adulto. Em crianças, use os cortes de PAS por idade da tabela acima. O índice de choque perde valor em uso de betabloqueador e marca-passo.

Papel dos exames

Nenhum exame confirma ou exclui a anafilaxia na sala de emergência — o tratamento é sempre clínico e imediato. A triptase serve para documentar o episódio e investigar doença mastocitária.

Triptase sérica aguda

Colher o mais precocemente possível, idealmente dentro de 2 horas do início dos sintomas (no perioperatório, idealmente em até 30 minutos). Nunca retardar o tratamento para colher.

Triptase basal

Nova dosagem após a recuperação completa (habitualmente ≥ 24 h) serve de comparação. Elevação persistente sugere investigar mastocitose ou síndrome de ativação mastocitária.

Regra "20% + 2"

Elevação aguda significativa: triptase aguda > (1,2 × basal) + 2 ng/mL. Confirma ativação mastocitária mesmo com valor absoluto "normal" (AAAAI/ACAAI 2023).

Triptase basal ≥ 8 ng/mL

Considerar alfa-triptasemia hereditária (≈ 6% da população) e, em anafilaxia grave por ferroada ou recorrente, doença mastocitária clonal.

Diagnósticos diferenciais

CondiçãoAchado-chaveComo diferenciar
Crise de asma grave
Achado-chaveBroncoespasmo isolado
Como diferenciarSem outros sistemas envolvidos (pele, hipotensão, GI).
Angioedema hereditário ou por IECA
Achado-chaveEdema sem urticária
Como diferenciarMediado por bradicinina: sem urticária e sem resposta à adrenalina.
Síncope vasovagal
Achado-chaveBradicardia, palidez
Como diferenciarSem urticária ou broncoespasmo; recuperação rápida em decúbito.
Achado-chaveSéptico, cardiogênico, hipovolêmico
Como diferenciarContexto clínico, POCUS e ausência de exposição/pele.
Pânico, disfunção de cordas vocais, hiperventilação
Achado-chaveDispneia ansiosa
Como diferenciarSem hipotensão, hipoxemia ou lesões cutâneas objetivas.
Síndrome escombroide e síndrome carcinoide
Achado-chaveRubor, cefaleia, diarreia
Como diferenciarEscombroide: peixe malconservado, vários comensais afetados; carcinoide: episódios recorrentes de flushing.
Corpo estranho em via aérea
Achado-chaveEstridor súbito
Como diferenciarEngasgo presenciado, ausência de sinais sistêmicos.

Na dúvida entre anafilaxia e um diferencial, a adrenalina IM tem margem de segurança elevada — o risco de tratar é muito menor que o de não tratar.

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O essencial de conduta imediata

  1. Retire o gatilho, chame ajuda e aplique adrenalina IM no vasto lateral — nada adia a adrenalina.
  2. Decúbito dorsal com pernas elevadas; nunca sentar ou levantar o paciente hipotenso.
  3. Oxigênio de alto fluxo, monitorização e cristaloide em bolus se hipotensão: adulto 500–1000 mL; criança 10–20 mL/kg.
  4. Antecipe a via aérea: estridor, rouquidão e edema de língua pedem o profissional mais experiente já.

Sequência inicial

Aplique a abordagem ABCDE em paralelo às medidas abaixo. A adrenalina IM é a única intervenção que não pode ser adiada por nenhuma outra.

  1. Interromper a exposição

    Interromper imediatamente a exposição ao agente suspeito (suspender a infusão, retirar o ferrão, cessar o alimento).

  2. Chamar ajuda

    Chamar ajuda e acionar a equipe de emergência.

  3. ADRENALINA IM IMEDIATA

    Vasto lateral da coxa. Não adiar. : 0,5 mg no adulto; 0,01 mg/kg na criança.

  4. Posicionar

    Decúbito dorsal com elevação dos membros inferiores. Se houver dispneia, sentar; se gestante, decúbito lateral esquerdo. Nunca deixar de pé ou levantar bruscamente.

  5. Oxigênio

    Oxigênio de alto fluxo por máscara com reservatório (10–15 L/min), alvo de SpO₂ ≥ 94%.

  6. Monitorizar

    Monitorização contínua: PA, ECG, SpO₂ e frequência respiratória.

  7. Acesso e volume

    Dois acessos venosos calibrosos e em bolus se hipotensão ou má perfusão.

  8. Reavaliar

    Reavaliar a cada 5 minutos: se resposta inadequada, repetir a adrenalina IM (o ERC 2025 recomenda repetir se não houver melhora em 5 minutos).

ADRENALINA IM IMEDIATA — vasto lateral da coxa. Não adiar. Anti-histamínico, corticoide, nebulização ou exames nunca vêm antes dela.

Posicionamento — detalhe que salva

Mortes súbitas foram descritas após pacientes anafiláticos serem colocados sentados ou de pé: a vasodilatação maciça reduz o retorno venoso e pode gerar a síndrome do "ventrículo vazio".

Regra geral

Decúbito dorsal com membros inferiores elevados.

Se dispneia

Posição sentada, mantendo o paciente sempre monitorizado.

Gestante

Decúbito lateral esquerdo, para evitar compressão aortocava.

Inconsciente ventilando

Posição lateral de segurança, com via aérea vigiada.

Reposição volêmica

A anafilaxia cursa com vasodilatação e extravasamento capilar. A expansão é associada à adrenalina — nunca em substituição a ela. O ERC 2025 recomenda bolus de cristaloide precoce, com monitorização da resposta.

Adulto — 500–1000 mL

Bolus rápido (5–10 min), repetindo conforme a resposta. SF 0,9% ou Ringer lactato.

Pediátrico — 10–20 mL/kg

Bolus rápido; repetir conforme a resposta hemodinâmica. SF 0,9% ou Ringer lactato. O algoritmo do RCUK 2021 usa 10 mL/kg por bolus, repetido conforme a resposta; 20 mL/kg segue aceito em outras diretrizes.

Reavaliar perfusão, PA e ausculta pulmonar após cada bolus; atenção à sobrecarga em cardiopatas e nefropatas. Na anafilaxia refratária, volumes totais grandes podem ser necessários.

Via aérea — antecipar sempre

O edema de via aérea superior evolui em minutos e pode transformar uma intubação simples em uma via aérea impossível. Diante de sinais de alerta, chame o profissional mais experiente e prepare o material antes da deterioração.

Estridor

Obstrução de via aérea superior já instalada.

Rouquidão / disfonia

Sugere edema laríngeo e de cordas vocais.

Edema de língua e lábios

Angioedema progressivo ameaça a permeabilidade.

Sialorreia / disfagia

Incapacidade de manejar as próprias secreções.

Prepare tubos de menor calibre, videolaringoscópio, dispositivo supraglótico e kit de cricotireoidostomia (cenário "não intubo, não ventilo").

Monitor e ECG — o que esperar

A taquicardia sinusal é a regra e acompanha a vasodilatação. Dor torácica, infradesnivelamento de ST ou arritmia durante a reação levantam a hipótese de síndrome de Kounis — síndrome coronariana aguda desencadeada pela liberação de mediadores mastocitários. A adrenalina continua indicada; trate a isquemia em paralelo e repita o ECG após a estabilização.

Traçados na anafilaxia

Taquicardia compensatória e isquemia na síndrome de Kounis.

Taquicardia sinusal

Resposta esperada ao choque distributivo e à própria adrenalina.

  • Onda P antes de cada QRS
  • QRS estreito e regular
  • FC ≈ 125 bpm

Traçados esquemáticos gerados por computador (25 mm/s, 10 mm/mV) para estudo e comparação. Confirme sempre no ECG de 12 derivações do paciente.

Em 30 segundos

O essencial de adrenalina

  1. Via de escolha: intramuscular, no vasto lateral da coxa, com a solução 1 mg/mL (1:1000) — 1 mg = 1 mL.
  2. Dose: 0,01 mg/kg (0,01 mL/kg), máximo 0,5 mg no adulto e 0,3 mg na criança pré-púbere segundo a AAAAI; o ERC 2025 padroniza 0,5 mg no adulto.
  3. Repetir a cada 5 minutos se não houver melhora; após duas doses sem resposta, pense em anafilaxia refratária.
  4. Nunca bolus IV da solução não diluída fora da parada cardíaca.

Adrenalina IM — primeira linha

Via de escolha: intramuscular, no vasto lateral (face ântero-lateral da coxa), que garante pico sérico mais rápido e previsível que a via subcutânea ou o deltoide. Concentração para uso IM: 1 mg/mL (1:1000) — nessa apresentação, 1 mg = 1 mL, o que torna o cálculo direto.

Adulto — 0,3–0,5 mg

= 0,3–0,5 mL da solução 1 mg/mL (1:1000). IM — vasto lateral • repetir a cada 5–15 min. O ERC 2025 e o RCUK 2021 padronizam 0,5 mg para adultos e maiores de 12 anos.

Pediátrico — 0,01 mg/kg

= 0,01 mL/kg de 1 mg/mL • máx. 0,5 mg (0,5 mL). IM — vasto lateral • repetir a cada 5–15 min.

Repetir a cada 5–15 minutos enquanto a resposta for inadequada (ERC 2025: repetir se não houver melhora em 5 minutos). A maioria responde a 1–2 doses; a necessidade de doses repetidas caracteriza anafilaxia refratária e indica adrenalina IV em infusão.

Dose por faixa etária (quando o peso não é conhecido)

As diretrizes europeias (RCUK 2021, mantidas pelo ERC 2025) usam doses fixas por idade, que dispensam o peso na beira do leito e reduzem erro de cálculo.

IdadeDose IMVolume (1 mg/mL)
Adulto e > 12 anos0,5 mg (500 mcg)0,5 mL
6 a 12 anos0,3 mg (300 mcg)0,3 mL
6 meses a 6 anos0,15 mg (150 mcg)0,15 mL
< 6 meses0,1–0,15 mg (100–150 mcg)0,1–0,15 mL

Fonte: RCUK 2021 (Dodd et al., Resuscitation 2021). A AAAAI/ACAAI usa 0,01 mg/kg com teto de 0,3 mg na criança e 0,5 mg no adulto.

Calculadora — adrenalina IM

Cálculo por peso (0,01 mg/kg), válido para qualquer faixa etária, com teto de 0,5 mg (0,5 mL) por dose. Serve para adulto e para criança, com a solução 1 mg/mL (1:1000). No adulto, o valor calculado costuma coincidir com a dose usual de 0,3–0,5 mg. Ferramenta de apoio: confira sempre a concentração da ampola disponível no seu serviço.

Adrenalina IM por peso

Digite o peso: a calculadora mostra a dose em mg e o volume a aspirar da solução 1 mg/mL. Peso ≥ 50 kg: faixa adulta.

0,01 mg/kg (máx. 0,5 mg)
—

Teto de 0,5 mg (0,5 mL) por dose. Pode ser repetida a cada 5–15 minutos. Em adultos, use 0,3–0,5 mg mesmo que o cálculo por peso resulte no teto.

Volume a aspirar por peso (1 mg/mL)

PesoDose (mg)Volume (mL)
10 kg0,10 mg0,10 mL
15 kg0,15 mg0,15 mL
20 kg0,20 mg0,20 mL
30 kg0,30 mg0,30 mL
40 kg0,40 mg0,40 mL
≥ 50 kg / adulto0,30–0,50 mg (teto)0,30–0,50 mL

Regra prática: na solução 1 mg/mL, o volume em mL é numericamente igual à dose em mg — e igual a 0,01 × peso (kg), respeitando o teto de 0,5 mL.

Autoinjetor e adrenalina intranasal

Indicado para uso extra-hospitalar por pacientes com risco de recorrência. Aplicar através da roupa, na face lateral da coxa, e procurar imediatamente um serviço de emergência após o uso.

PesoDose do autoinjetor
7,5–15 kg0,1 mg (onde disponível) ou 0,15 mg
15–25 kg0,15 mg
≥ 25 kg0,30 mg (consenso: trocar para 0,3 mg a partir de 25 kg)
≥ 45 kg / adolescentes e adultos maiores0,30 mg ou 0,50 mg, conforme a apresentação disponível

Faixas clássicas: 0,15 mg de 7,5 a 25 kg e 0,3 mg acima de 25 kg. O parâmetro AAAAI/ACAAI 2023 admite 0,1 ou 0,15 mg abaixo de 15 kg e, por consenso, a troca para 0,3 mg aos 25 kg e para 0,5 mg aos 45 kg (quando houver), para evitar subdose.

Recomenda-se que o paciente porte duas unidades. No Brasil o dispositivo tem disponibilidade limitada: o autoinjetor não tem registro na Anvisa (acesso por importação), e a agência já determinou apreensão de unidades vendidas irregularmente. Quando indisponível, o preparo com ampola e seringa deve ser feito por profissional treinado.

Novidade: adrenalina intranasal

O spray nasal de adrenalina (neffy®) foi aprovado pela FDA em agosto de 2024 na dose de 2 mg para pacientes com ≥ 30 kg e, em março de 2025, na dose de 1 mg para crianças de 15 a menos de 30 kg. É alternativa sem agulha para uso comunitário — não substitui a adrenalina IM no hospital. Sem registro na Anvisa identificado até esta revisão.

Erros comuns com a adrenalina

  • Adiar a adrenalina para "tentar" anti-histamínico ou corticoide primeiro.
  • Usar a via subcutânea ou o deltoide em vez do vasto lateral.
  • Confundir concentrações: 1 mg/mL (1:1000) para IM e 0,1 mg/mL (1:10.000) para uso IV diluído.
  • Administrar bolus IV da solução não diluída — risco de arritmia, crise hipertensiva e isquemia miocárdica.
  • Não repetir a dose diante de resposta insuficiente.
  • Deixar de tratar por receio em idosos ou coronariopatas — a anafilaxia não tratada é mais perigosa que a adrenalina.

Em 30 segundos

O essencial de adjuvantes

  1. Anti-histamínicos aliviam prurido e urticária; corticoides têm início lento e não previnem reação bifásica.
  2. Nenhum dos dois trata obstrução de via aérea, broncoespasmo grave ou choque — são adjuvantes, jamais substitutos da adrenalina.
  3. O RCUK 2021 retirou ambos do tratamento inicial de emergência: anti-H1 oral não sedativo para a pele depois de estabilizar; corticoide só na refratária ou com asma.
  4. Broncoespasmo persistente: salbutamol; estridor: adrenalina nebulizada como complemento da IM.

Medicações de segunda linha

Anti-histamínicos aliviam prurido e urticária; corticoides têm início de ação lento e não demonstraram prevenir reações bifásicas. Nenhum dos dois trata obstrução de via aérea, broncoespasmo grave ou choque. São adjuvantes — jamais substitutos da adrenalina.

Nenhum adjuvante deve atrasar a adrenalina, mesmo por poucos minutos.

Atualização das diretrizes

O RCUK 2021 sugere que anti-histamínicos não façam parte do tratamento inicial de emergência; depois da estabilização, um anti-H1 oral não sedativo (ex.: ) pode aliviar os sintomas cutâneos. Os anti-H1 sedativos injetáveis podem causar sonolência e hipotensão e confundir a avaliação neurológica. Corticoide de rotina não é recomendado — fica como terceira linha na anafilaxia refratária ou com asma associada.

Rotas de tratamento

Como usar esta aba: cada rota abre a posologia completa — apresentação, diluição, dose em mg e em mL (ou mL/kg), frequência e dose máxima; o botão "Ver detalhes" abre a ficha. Confira sempre a apresentação disponível no seu serviço antes de administrar.

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O essencial de refratária

  1. Refratária = sintomas respiratórios ou cardiovasculares persistentes apesar de duas doses adequadas de adrenalina IM e volume apropriado.
  2. O passo seguinte é a adrenalina IV em infusão contínua, em bomba, com monitorização cardíaca — não em bolus.
  3. Mantenha a adrenalina IM enquanto a infusão não estiver pronta: não há intervalo terapêutico "vazio".
  4. Betabloqueado sem resposta: glucagon. Hipotensão persistente: segundo vasopressor.

Anafilaxia refratária

Definida pela persistência de sintomas graves — hipotensão, hipoxemia ou obstrução de via aérea — apesar de duas ou mais doses adequadas de adrenalina IM e reposição volêmica apropriada (definição do RCUK 2021).

Antes de escalonar, reveja

Dose e via corretas? Concentração certa? Volume suficiente? Exposição realmente interrompida? Paciente em uso de betabloqueador?

O passo seguinte é a adrenalina intravenosa em infusão contínua, sempre em ambiente monitorizado (sala de emergência ou UTI), com bomba de infusão e monitorização cardíaca contínua. Bolus IV de adrenalina fica reservado à parada cardíaca ou ao colapso iminente, sob supervisão experiente.

Rotas de tratamento

Cada rota mostra diluição, dose e velocidade em mL/h; o botão "Ver detalhes" abre a ficha com o cálculo rápido. Faça dupla checagem do preparo — erros de diluição são a principal causa de eventos adversos graves.

Onde tratar

Anafilaxia refratária é indicação de vaga em UTI, via aérea definitiva antecipada e reavaliação contínua da volemia. Mantenha a adrenalina IM enquanto a infusão não estiver pronta — não há intervalo terapêutico "vazio".

Parada cardíaca (ERC 2025)

Na parada, siga o algoritmo padrão de suporte avançado: adrenalina IV/IO 1 mg a cada 3–5 minutos (a via IM não serve na PCR), expansão volêmica agressiva, via aérea avançada precoce e busca das causas reversíveis. Remova o agente desencadeante enquanto a reanimação prossegue.

  • Leia também: , e .
  • Para conferir diluições do seu serviço: Guia de Diluições em UTI e Conversor de Infusões (links na coluna lateral).

Em 30 segundos

O essencial de observação e alta

  1. A reação bifásica é o retorno dos sintomas após resolução completa, sem nova exposição; é minoria, mas mais provável nos quadros graves.
  2. O tempo de observação é individualizado: ~2 h após uma única dose com resolução completa; ≥ 6 h com duas doses; ≥ 12 h nas reações graves (RCUK 2021).
  3. Ninguém sai sem plano de ação escrito, prescrição de adrenalina autoinjetável quando disponível e encaminhamento ao alergista.
  4. Corticoide na alta não substitui o plano de ação nem o autoinjetor.

Reação bifásica e tempo de observação

A reação bifásica é o retorno dos sintomas após resolução completa do episódio inicial, sem nova exposição ao alérgeno. Não existe um período único de observação válido para todos: a decisão é individualizada pela gravidade do quadro e pelos fatores de risco — sobretudo gravidade do quadro inicial, necessidade de mais de uma dose de adrenalina e atraso no tratamento.

Risco habitual

Quadro não grave, resposta rápida a uma única dose de adrenalina e paciente assintomático: observação mais curta (a partir de cerca de 1 hora após a resolução) pode ser razoável, desde que haja plano de ação, autoinjetor e acesso a serviço de emergência.

Alto risco

Observação prolongada (6 horas ou mais, frequentemente 12–24 h em casos graves): reação grave, hipotensão, hipoxemia, necessidade de mais de uma dose de adrenalina, asma associada, retardo no tratamento inicial ou dificuldade de acesso ao serviço de saúde.

Quanto tempo observar

A diretriz do Resuscitation Council UK (2021) transforma esses fatores em tempos mínimos objetivos, contados a partir da resolução dos sintomas. A lógica é escalonada: quanto mais adrenalina o paciente precisou e quanto mais difícil for voltar ao hospital, mais tempo ele fica — a apresentação noturna e o alérgeno de absorção lenta também pesam.

Situação após resolução dos sintomasObservação mínima (RCUK 2021)
Uma dose de adrenalina em até 30 min do início, resolução completa, paciente com 2 autoinjetores, treinado e acompanhado2 horas (alta rápida)
Duas doses de adrenalina necessárias ou reação bifásica prévia6 horas
Reação grave (mais de 2 doses), comprometimento respiratório grave, absorção tardia do alérgeno (ex.: medicamento de liberação lenta), apresentação noturna ou acesso limitado a emergência12 horas

Esquema do RCUK 2021 (Dodd et al., Resuscitation 2021). No paciente de baixo risco, o parâmetro AAAAI/ACAAI 2023 aceita observação mais curta (a partir de cerca de 1 hora após a resolução); siga o protocolo institucional.

Antes de dar alta

A alta é o momento em que se previne a próxima anafilaxia. O paciente precisa sair sabendo reconhecer o início de um novo episódio, levando a adrenalina com ele e com um destino claro para a investigação — o corticoide prescrito na alta não substitui nenhum desses três itens.

  • Prescrever adrenalina autoinjetável quando disponível — preferencialmente duas unidades — e treinar o uso.
  • Plano de ação escrito: reconhecer sinais precoces, quando aplicar a adrenalina e procurar emergência imediatamente após o uso.
  • Identificar e orientar a evitação do agente desencadeante (alimento, medicamento, látex, inseto).
  • Encaminhar ao alergista para investigação etiológica e, quando indicado, imunoterapia com veneno de himenópteros.
  • Considerar triptase basal após a recuperação, sobretudo em anafilaxia grave por ferroada ou de causa indeterminada.
  • Registrar a alergia em prontuário e orientar identificação (cartão ou pulseira).

Prevenção de novos episódios

A prevenção a longo prazo depende menos de remédios e mais de organização: saber exatamente qual é o gatilho, ter o autoinjetor sempre à mão e, nos casos de ferroada, oferecer a única terapia que muda a história natural. Medicamentos de uso contínuo que preocupam, como betabloqueadores e IECA, raramente precisam ser suspensos de forma automática.

Evitação do gatilho

Leitura de rótulos, comunicação em restaurantes e alerta em toda prescrição e procedimento.

Autoinjetor acessível

Portátil, dentro da validade e conhecido por familiares, escola ou trabalho.

Imunoterapia com veneno

Reduz de forma expressiva o risco de nova anafilaxia por ferroada de himenópteros.

Perioperatório e contrastes

Após anafilaxia perioperatória, a reexposição depende de investigação alergológica e decisão compartilhada.

Betabloqueador e IECA

Estudos recentes não mostram aumento consistente da frequência de anafilaxia; em pacientes de alto risco, discutir alternativas (betabloqueador seletivo, BRA) em decisão compartilhada (AAAAI/ACAAI 2023).

Erros fatais no atendimento

Atrasar a adrenalina é a principal causa evitável de morte, e costuma vir junto com o erro de tratar apenas com anti-histamínico e/ou corticoide, que aliviam a pele mas não revertem choque nem broncoespasmo. Na mesma linha, sentar ou levantar o paciente hipotenso pode precipitar colapso circulatório.

  • Subestimar o edema de via aérea e perder a janela de intubação.
  • Dar alta precoce sem plano de ação, sem autoinjetor e sem encaminhamento.
  • Não registrar a alergia no prontuário e nas orientações de alta.

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Fontes das imagens

O fluxograma deste artigo foi elaborado pela equipe MedFoco, com finalidade educacional, a partir das diretrizes e referências listadas acima.

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