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Intubação Orotraqueal

Sequência rápida de intubação • via aérea no paciente crítico

Cerca de 4 em cada 10 intubações de pacientes críticos cursam com hipoxemia, hipotensão ou parada cardíaca. A diferença entre um procedimento tranquilo e uma catástrofe raramente está na laringoscopia — está no que se faz antes dela: reconhecer a via aérea difícil, pré-oxigenar direito e corrigir a hemodinâmica antes de induzir.

Pré-oxigenar com VNIOtimizar antes de induzirVideolaringoscopia de rotinaCapnografia confirma
25 min de leitura Atualizado em outubro de 2026

Em 30 segundos

O essencial de visão geral

  1. Cerca de 40% das intubações de pacientes críticos cursam com hipoxemia, hipotensão ou parada cardíaca — contra cerca de 2% no ambiente eletivo.
  2. Na maior parte dos casos difíceis, o problema é fisiológico e não técnico: o paciente para porque já estava hipoxêmico, chocado ou acidótico.
  3. Quatro perguntas indicam via aérea definitiva: oxigena? ventila? protege a via aérea? qual o curso esperado?
  4. Intubar quem ainda tem reserva é uma boa decisão; se tentar suporte não invasivo, defina critérios e prazo para reavaliar.

A intubação do paciente crítico é outra coisa

Intubar no centro cirúrgico e intubar na emergência ou na terapia intensiva são procedimentos com o mesmo gesto técnico e riscos completamente diferentes. No ambiente eletivo, a taxa de complicações graves é da ordem de 2%; no paciente crítico, aproximadamente 40% apresentam hipoxemia, hipotensão ou parada cardíaca no período periprocedimento.

A razão é simples: o paciente crítico chega sem reserva. Não tem reserva de oxigênio, porque já está hipoxêmico; não tem reserva hemodinâmica, porque já está vasodilatado ou hipovolêmico; e frequentemente compensa uma acidose com hiperventilação que a apneia da indução interrompe. A sequência rápida transforma essas três fragilidades em risco imediato.

≈ 2%Complicações graves na intubação eletiva
≈ 40%Hipoxemia, hipotensão ou parada no paciente crítico

O erro conceitual mais comum é tratar a intubação como um problema técnico. Na maior parte dos casos difíceis, o problema é fisiológico: o tubo passa sem dificuldade, mas o paciente para porque estava hipoxêmico, chocado ou acidótico antes de o laringoscópio entrar.

Indicações

As indicações clássicas se organizam em quatro perguntas objetivas. Responder "sim" a qualquer uma delas indica via aérea definitiva — e as duas primeiras não exigem gasometria para serem respondidas: esforço, fadiga e trajetória clínica valem tanto quanto o número.

1. Há falência de oxigenação?

Hipoxemia refratária apesar de oxigênio em alto fluxo ou ventilação não invasiva, com sinais de esforço e de fadiga.

2. Há falência de ventilação?

Hipercapnia com acidose respiratória progressiva, rebaixamento associado ou fadiga da musculatura respiratória.

3. A via aérea está protegida?

Rebaixamento do nível de consciência com perda de reflexos, sangramento, vômitos, trauma de face ou pescoço, queimadura de via aérea e anafilaxia com edema.

4. Qual é o curso esperado?

Paciente que ainda compensa, mas cuja deterioração é previsível: sepse em progressão, intoxicação com rebaixamento crescente, necessidade de transporte ou de procedimento prolongado.

A quarta pergunta é a mais negligenciada e a mais valiosa. Intubar um paciente que ainda tem reserva é infinitamente mais seguro do que intubá-lo trinta minutos depois, hipoxêmico, hipotenso e à beira da parada. "Intubação eletiva no paciente crítico" existe, e é uma boa decisão.

Antes de decidir: existe alternativa?

Nem toda insuficiência respiratória precisa de tubo. Em alguns cenários, o suporte não invasivo ou a reversão específica da causa resolvem o problema com menos risco — mas a mesma estratégia, aplicada ao paciente errado ou por tempo demais, apenas adia uma intubação que será feita em condições piores.

Vale tentar primeiro

  • Ventilação não invasiva no edema agudo cardiogênico e na exacerbação de doença pulmonar obstrutiva crônica — cenários em que a evidência é robusta.
  • Cateter nasal de alto fluxo na insuficiência respiratória hipoxêmica.
  • Reversão específica — naloxona em intoxicação por opioide, glicose na hipoglicemia, broncodilatador na crise asmática.
  • Otimização hemodinâmica em choque, que às vezes reverte a taquipneia compensatória.

Não insistir

  • Ventilação não invasiva em paciente que não protege a via aérea ou que vomita.
  • Tentativa prolongada em quem já mostra fadiga franca — o atraso encurta a janela segura.
  • Cateter de alto fluxo em quem tem hipercapnia progressiva com rebaixamento.
  • "Mais alguns minutos" repetidos sem reavaliação objetiva.

Se optar por tentar suporte não invasivo, defina critérios objetivos e um prazo para reavaliar — por exemplo, melhora de frequência respiratória, esforço e gasometria em uma a duas horas. Sem esse contrato explícito, a tentativa vira postergação.

A conversa que precede o procedimento

A decisão de intubar não é apenas técnica. Em minutos, ela define o rumo de uma internação e, na doença avançada, pode contrariar o que o paciente desejaria. Por isso, sempre que o tempo permitir, quatro cuidados precedem o laringoscópio.

  • Metas de cuidado — em doença avançada, verifique diretivas antecipadas e converse com o paciente enquanto ele ainda pode decidir. Intubar sem essa conversa é uma decisão irreversível tomada por omissão.
  • Consentimento possível — no paciente lúcido, explique brevemente o que vai acontecer; leva segundos e reduz o sofrimento.
  • Comunicação com a família quando o tempo permitir, sobretudo se a chance de extubação for baixa.
  • Registro da indicação, do plano de via aérea e das dificuldades encontradas — informação essencial para quem for extubar ou reintubar depois.

Guia de Intubação Rápida

Este artigo é a referência completa: indicações, avaliação da via aérea, pré-oxigenação, técnica, confirmação e manejo da falha. Para o cálculo rápido à beira do leito — doses por peso, diluições, sequência e tempos —, use o Guia de Intubação Rápida do MedFoco, desenhado para consulta em segundos durante o procedimento. O volume corrente pelo peso predito também tem calculadora própria: Volume Corrente e Peso Predito.

Em 30 segundos

O essencial de via aérea difícil

  1. A dificuldade anatômica se prevê com MACOCHA e LEMON e se resolve com equipamento, técnica e operador.
  2. A dificuldade fisiológica — hipoxemia, choque, acidose grave e falência de VD — se resolve com otimização antes de induzir.
  3. MACOCHA de 3 ou mais pontos indica risco elevado; escore baixo não garante intubação fácil.
  4. Índice de choque acima de 0,9 sinaliza risco de colapso pós-indução: trate esse número antes de aspirar a seringa.

Dois tipos de dificuldade

A pergunta clássica da anestesia — "vou conseguir ver as cordas?" — cobre só metade do problema no paciente crítico. A outra metade é saber se ele aguenta o que a intubação faz com a fisiologia: apneia, vasodilatação da indução e pressão positiva no tórax.

Dificuldade anatômica

A que se aprende primeiro: abertura bucal reduzida, pescoço curto, mobilidade cervical limitada, Mallampati alto, obesidade, massa cervical, trauma de face, radioterapia prévia. Prevista pelos escores clássicos e resolvida com equipamento e técnica.

Dificuldade fisiológica

A que mais mata: hipoxemia grave, choque, acidose metabólica intensa, falência de ventrículo direito. A laringoscopia é fácil, mas o paciente não tolera a apneia, a indução ou a pressão positiva. Resolvida com otimização prévia, não com um laringoscópio melhor.

Na emergência e na terapia intensiva, a maior parte dos pacientes é fisiologicamente difícil. Perguntar apenas "consigo ver as cordas?" é insuficiente — a pergunta completa é "este paciente tolera ficar apneico e receber pressão positiva agora?".

Calculadora — escore MACOCHA

Escore desenvolvido e validado especificamente para prever intubação difícil no paciente crítico, ao contrário dos escores de origem anestésica. Tem sete itens — quatro do paciente, dois da doença e um do operador —, varia de 0 a 12 pontos, e valores de 3 ou mais identificam risco elevado.

Escore MACOCHA (validado em terapia intensiva)

Fatores do paciente: Mallampati III ou IV (5 pontos), síndrome da apneia obstrutiva do sono (2), mobilidade cervical reduzida (1), abertura bucal menor que 3 cm (1). Fatores da doença: coma (1), hipoxemia grave — saturação abaixo de 80% (1). Fator do operador: não anestesiologista (1). Some os itens de 1 ponto no terceiro campo.

Responda os três campos para ver a pontuação e a conduta sugerida.

Ferramenta de apoio. O escore tem bom valor preditivo negativo, mas escore baixo não garante intubação fácil. Independentemente do resultado, tenha sempre o plano de resgate verbalizado e o material de via aérea difícil ao alcance da mão.

Avaliação anatômica — regra LEMON

A regra LEMON organiza o exame da via aérea em cinco letras que podem ser percorridas em menos de um minuto. No paciente crítico, nem todas são aplicáveis — o Mallampati exige colaboração —, mas olhar, medir e palpar o pescoço sempre é possível.

LetraElementoO que avaliar
LLook — olhar externamenteTrauma de face, barba densa, dentes proeminentes, língua grande, pescoço curto e largo, massas cervicais.
EEvaluate — regra 3-3-2Três dedos de abertura bucal, três dedos entre mento e osso hioide, dois dedos entre hioide e cartilagem tireoide.
MMallampatiClasses III e IV indicam visualização faríngea limitada; difícil de aplicar no paciente crítico não colaborativo.
OObstruction — obstruçãoEstridor, disfonia, edema, abscesso, corpo estranho, tumor, hematoma cervical, queimadura de via aérea.
NNeck — mobilidade cervicalArtrite, espondilite, colar cervical, imobilização por trauma e cirurgia cervical prévia.

Avalie também a dificuldade de ventilar com bolsa-válvula-máscara, que é o que garante segurança quando a intubação falha: barba, obesidade, idade avançada, ausência de dentes e roncador são os preditores clássicos. E examine o pescoço pensando na via aérea cirúrgica, identificando a membrana cricotireóidea antes de precisar dela — quando ela não é palpável, o ultrassom à beira do leito ajuda a marcá-la.

Os matadores fisiológicos

Quatro condições transformam uma laringoscopia fácil em parada cardíaca. Todas têm em comum o fato de que a indução, a apneia e a pressão positiva retiram a compensação que mantinha o paciente vivo — e todas podem ser parcialmente corrigidas nos minutos que antecedem o procedimento.

Hipoxemia

Reserva mínima: a dessaturação ocorre em segundos após a apneia. Exige pré-oxigenação com pressão positiva, oxigenação apneica e, por vezes, abordagem acordada.

Hipotensão e choque

A indução vasodilata e a pressão positiva reduz o retorno venoso. Otimize volume e tenha vasopressor pronto antes de induzir.

Acidose metabólica grave

O paciente compensa com ventilação-minuto altíssima. A apneia interrompe essa compensação e o pH despenca — planeje apneia mínima e ventilação vigorosa após o tubo.

Falência de ventrículo direito

Hipoxemia, hipercapnia e pressão positiva aumentam a pós-carga do ventrículo direito e podem precipitar colapso. Considere vasopressor e volume com cautela extrema.

Uma regra prática útil: se o índice de choque — frequência cardíaca dividida pela pressão arterial sistólica — estiver acima de 0,9, o risco de colapso hemodinâmico pós-indução é significativo. Trate esse número antes de aspirar a seringa.

Cenários especiais: choque séptico e acidose grave

No choque séptico, o risco principal é o colapso hemodinâmico pós-indução, que pode evoluir para parada. Na acidose metabólica grave, é a queda abrupta do pH durante a apneia. Nos dois casos, o preparo vale mais do que a escolha do laringoscópio.

Choque séptico

Volume e vasopressor antes; ou com dose reduzida de indutor — a cetamina não protege mais a pressão (no RSI trial, teve mais colapso cardiovascular); vasopressor em bolus preparado.

Acidose metabólica grave

Minimizar tempo de apneia, considerar ventilação com bolsa entre indução e laringoscopia, e ajustar o ventilador para alta ventilação-minuto logo após.

Cenários especiais: crise asmática e hipertensão intracraniana

Na crise asmática grave, o perigo está depois do tubo: hiperinsuflação dinâmica, hipotensão e barotrauma. Na hipertensão intracraniana, tanto os picos pressóricos da laringoscopia quanto a hipotensão da indução reduzem a perfusão cerebral — ambos são deletérios.

Crise asmática grave

como indutor, tubo calibroso, frequência baixa com tempo expiratório longo; desconectar do ventilador se houver hipotensão súbita.

Hipertensão intracraniana

Manter pressão de perfusão, evitar hipoxemia e hipercapnia, considerar dose adequada de indutor e evitar tosse.

Cenários especiais: trauma cervical, obesidade e gestação

Três situações em que a anatomia e a fisiologia pioram ao mesmo tempo. No trauma, o risco é lesão medular secundária e via aérea distorcida; na obesidade e na gestação, a dessaturação é rápida, a ventilação com máscara é difícil e, na gestante, somam-se edema de via aérea e risco de aspiração.

Trauma com suspeita cervical

Estabilização manual alinhada com abertura anterior do colar, videolaringoscopia e material de resgate cirúrgico pronto.

Obesidade

Posição em rampa com meato acústico alinhado ao esterno, pré-oxigenação com VNI e doses calculadas conforme a droga.

Gestante

Deslocamento uterino à esquerda, tubo de menor calibre, pré-oxigenação otimizada e operador mais experiente.

Cenários especiais: hemorragia digestiva ou vômitos

Sangue ou vômito na orofaringe trazem dois riscos simultâneos: aspiração maciça e visão obscurecida — e a lente do videolaringoscópio é a primeira a sofrer. A preparação da aspiração, aqui, é tão importante quanto a das drogas.

Aspiração potente e testada, considerar duas aspirações, técnica de aspiração contínua durante a laringoscopia e cabeceira elevada. Evite pressão inspiratória alta se precisar ventilar com bolsa.

Em 30 segundos

O essencial de preparo

  1. A sequência rápida tem sete etapas; pré-oxigenação e pré-otimização hemodinâmica concentram quase todo o ganho de segurança.
  2. Aspiração testada, bougie ao alcance e vasopressor em bolus preparado: sem os três, o preparo não terminou.
  3. Briefing de 30 segundos com papéis, planos A, B, C e D e gatilhos numéricos para mudar de plano.
  4. Posicionamento correto — alinhamento auditivo-esternal e cabeceira a 25–30 graus — melhora visão e pré-oxigenação ao mesmo tempo.

Os sete passos da sequência rápida

A sequência rápida de intubação é tradicionalmente organizada em sete etapas. O valor do modelo não está na memorização, e sim em garantir que nada essencial seja pulado sob pressão de tempo.

  1. Preparação

    Material, equipe, monitorização, acesso venoso, drogas aspiradas e identificadas, plano verbalizado.

  2. Pré-oxigenação

    Idealmente com ventilação não invasiva, por pelo menos 3 minutos, com cabeceira elevada.

  3. Pré-otimização

    Corrigir hipotensão, hipovolemia e, quando possível, a acidose; vasopressor preparado.

  4. Paralisia com indução

    Indutor seguido imediatamente do bloqueador neuromuscular, em doses ajustadas ao estado hemodinâmico.

  5. Posicionamento

    Alinhamento do meato acústico externo com o esterno, em rampa nos obesos.

  6. Passagem do tubo com confirmação

    Laringoscopia, passagem sob visão, insuflação do balonete e capnografia em onda.

  7. Pós-intubação

    Fixação, ventilação protetora, sedação e analgesia, radiografia e reavaliação hemodinâmica.

Duas etapas concentram quase todo o ganho de segurança e são justamente as mais atropeladas quando há pressa: pré-oxigenação e pré-otimização hemodinâmica. Se houver tempo para apenas uma coisa além do básico, invista nelas.

Checklist de material

O material de via aérea difícil só ajuda se estiver aberto, testado e ao alcance da mão antes da indução. Procurar um bougie na gaveta ou descobrir que a aspiração não funciona com o paciente apneico consome exatamente os segundos que a reserva de oxigênio não tem.

Via aérea

  • Videolaringoscópio testado e lâmina adequada; laringoscópio direto como reserva.
  • Dois tubos: o escolhido e um meio número menor, com balonete testado.
  • Bougie ao alcance da mão — não guardado na gaveta.
  • Dispositivo supraglótico de tamanho apropriado, já aberto.
  • Cânula orofaríngea e nasofaríngea.
  • Bolsa-válvula-máscara com reservatório e válvula de PEEP.
  • Aspiração potente, testada e posicionada à direita do operador.
  • Material de cricotireoidostomia aberto e visível nos casos de risco.

Fármacos e monitorização

  • Indutor e bloqueador aspirados, rotulados e com dose conferida em voz alta.
  • Vasopressor em bolus preparado e vasopressor em infusão disponível.
  • Cristaloide conectado e correndo, se indicado.
  • Sedação e analgesia pós-intubação já preparadas.
  • Monitor com oximetria, pressão arterial em ciclos curtos e eletrocardiograma.
  • Capnografia em onda conectada e testada antes da indução.
  • Ventilador testado, com parâmetros iniciais já programados.
  • Dois acessos venosos funcionantes, quando possível.

Três itens que salvam procedimentos e frequentemente não estão prontos: aspiração testada, bougie ao alcance e vasopressor em bolus já preparado. Se algum dos três não estiver pronto, o preparo não terminou.

Equipe e papéis definidos

A maior parte dos eventos graves em via aérea tem um componente de fator humano: ninguém avisou que a saturação caía, ninguém lembrou do plano B, ninguém se sentiu autorizado a interromper. Definir papéis antes da indução resolve boa parte disso.

  • Operador principal — realiza a laringoscopia; idealmente o mais experiente disponível nos casos de risco.
  • Segundo profissional — monitoriza sinais vitais em voz alta, entrega o bougie e assume o resgate se necessário.
  • Responsável pelas drogas — administra e confirma em voz alta o que foi injetado e quando.
  • Responsável pela via aérea de resgate — nos casos de alto risco, alguém com o material cirúrgico preparado.
  • Briefing de 30 segundos — diga em voz alta: indicação, plano A, plano B, plano C, plano D e o gatilho para mudar de plano.
  • Verbalização contínua — saturação, pressão e tempo de tentativa anunciados sem que ninguém precise perguntar.
O briefing que muda o desfecho

"Vamos intubar por insuficiência respiratória. Plano A é videolaringoscopia, com bougie na mão. Se falhar, plano B é máscara laríngea. Se não oxigenar, plano C é máscara facial com duas mãos. Se ainda assim não oxigenar, plano D é cricotireoidostomia, e o material está aqui. Aviso a saturação a cada 15 segundos. Se cair abaixo de 90%, eu interrompo e ventilamos."

Planos A, B, C e D

As diretrizes da Difficult Airway Society de 2025 mantêm um algoritmo linear com quatro planos e deslocam a ênfase para maximizar o sucesso da primeira tentativa e manter a oxigenação contínua durante todo o processo. Cada plano tem um objetivo diferente: o A busca o tubo; o B e o C buscam oxigênio; o D é o resgate cirúrgico.

PlanoAçãoQuando mudar
AIntubação traqueal — videolaringoscopia como padrão, com bougie ou estilete; otimizar entre as tentativas: outro operador, outra lâmina, reposicionar, manipulação laríngea externa, bougie.No máximo 3 tentativas + 1 por operador mais experiente — teto, não meta. No paciente crítico, mude antes se houver dessaturação ou se uma tentativa otimizada falhar sem perspectiva de melhora.
BDispositivo supraglótico de segunda geração para oxigenar e ventilar — uma pausa estratégica, não uma derrota.Se não oxigenar adequadamente após até três tentativas de posicionamento.
CVentilação com máscara facial, duas mãos, cânulas e bloqueio neuromuscular completo.Se a máscara também falhar, a situação é "não intubo, não oxigeno" — prepare o plano D já ao entrar no plano C.
DVia aérea cirúrgica — cricotireoidostomia por bisturi-bougie-tubo.Cenário de "não intubo, não oxigeno" — a decisão precisa ser declarada em voz alta e executada sem hesitação.

Oxigenar é a missão; o tubo é apenas um meio. A causa de desfecho catastrófico não é a falha da primeira tentativa — é persistir num plano que já falhou enquanto o paciente dessatura.

Estabeleça antes os gatilhos numéricos de mudança de plano — número de tentativas e limiar de saturação. A principal causa de desfecho catastrófico não é a falha da primeira tentativa, e sim a persistência em um plano que já falhou, enquanto o paciente dessatura.

Posicionamento

A posição da cabeça e do tronco muda simultaneamente a visão da glote e a reserva de oxigênio. A elevação da cabeceira aumenta a capacidade residual funcional e reduz regurgitação — a diretriz de sequência rápida da Society of Critical Care Medicine sugere a posição semissentada.

  • Alinhamento auditivo-esternal — meato acústico externo na mesma altura do manúbrio esternal, com a face paralela ao teto.
  • Coxim occipital no adulto de biotipo normal; no obeso, use rampa com coxins sob tronco, ombros e cabeça.
  • Cabeceira elevada a 25 a 30 graus — melhora a capacidade residual funcional, prolonga o tempo até a dessaturação e reduz a regurgitação.
  • Altura da maca ajustada: o rosto do paciente na altura do apêndice xifoide do operador.
  • Criança pequena — coxim sob os ombros, pela proeminência occipital.
  • Trauma cervical — estabilização manual alinhada, com a parte anterior do colar aberta para permitir abertura bucal.

Posicionamento ruim é a causa mais comum e mais barata de laringoscopia difícil. Trinta segundos ajustando coxins valem mais do que qualquer troca de lâmina — e a posição correta melhora simultaneamente a visão e a pré-oxigenação.

Em 30 segundos

O essencial de pré-oxigenação

  1. No crítico com shunt e capacidade residual reduzida, a reserva de oxigênio pode durar menos de um minuto de apneia.
  2. VNI por pelo menos 3 minutos com FiO₂ 100% reduziu a hipoxemia de 18,5% para 9,1% (PREOXI), sem aumento de aspiração.
  3. Some oxigenação apneica por cateter nasal e, se necessário, ventile com bolsa-válvula-máscara suave entre a indução e a laringoscopia.
  4. Otimize a hemodinâmica antes de induzir: vasopressor pronto, volume só para quem precisa e dose reduzida de indutor no choque.

Por que pré-oxigenar muda tudo

Pré-oxigenar é substituir o nitrogênio da capacidade residual funcional por oxigênio, criando um reservatório que sustenta o paciente durante a apneia. No indivíduo saudável, esse reservatório dá vários minutos. No paciente crítico com shunt, consumo elevado e capacidade residual reduzida, pode dar menos de um minuto.

EstratégiaComo fazerQuando preferir
Ventilação não invasivaMáscara bem acoplada, FiO₂ de 100%, pressão expiratória final positiva a partir de 5 cmH₂O e pressão inspiratória adequada, por pelo menos 3 minutos.Estratégia preferencial no paciente crítico, sobretudo com hipoxemia (PaO₂/FiO₂ abaixo de 150) e obesidade.
Cateter nasal de alto fluxoFluxo alto com FiO₂ de 100%, mantido durante a apneia.Alternativa útil, especialmente quando permite manter oxigênio durante a laringoscopia prevista como difícil.
Máscara não reinalanteFluxo no máximo disponível, acima de 15 L/min, com máscara bem acoplada.Opção quando não há disponibilidade de ventilação não invasiva; é a estratégia menos eficaz.
Bolsa-válvula-máscara com PEEPCom válvula de pressão expiratória final positiva e vedação de duas mãos, acompanhando a respiração espontânea.Recurso amplamente disponível; exige técnica correta de vedação.
Oxigenação apneicaCateter nasal a 15 L/min, ou fluxo alto, mantido durante a apneia e a laringoscopia.Adjuvante simples e barato; deve ser somado a qualquer das estratégias acima.

O ensaio PREOXI, publicado em 2024, mostrou que pré-oxigenar com ventilação não invasiva reduziu a hipoxemia de 18,5% para 9,1% em comparação com máscara de oxigênio, com menor incidência de parada cardíaca e sem aumento de aspiração. É a mudança de prática mais relevante da última década nesse tema.

Calculadora — gravidade da hipoxemia antes da indução

Quantificar a hipoxemia ajuda a escolher a estratégia de pré-oxigenação. A diretriz de sequência rápida da Society of Critical Care Medicine (2023) sugere VNI quando a relação PaO₂/FiO₂ está abaixo de 150 e alto fluxo quando a laringoscopia é prevista como difícil; sem gasometria, a relação SpO₂/FiO₂ serve de aproximação.

FiO₂ por dispositivo • PaO₂/FiO₂ e SpO₂/FiO₂ • Índice ROX

Selecione o dispositivo em uso para estimar a FiO₂, ou informe o valor exato em alto fluxo ou VNI. Relação PaO₂/FiO₂ abaixo de 150 favorece pré-oxigenação com VNI. O índice ROX = (SpO₂/FiO₂) ÷ frequência respiratória prevê falha do alto fluxo.

PaO₂/FiO₂—
SpO₂/FiO₂—
Índice ROX—
Leitura rápida—

As FiO₂ dos dispositivos de baixo fluxo são estimativas. A relação SpO₂/FiO₂ só é confiável com saturação entre 80% e 97%. Nenhum índice substitui a avaliação de esforço e fadiga; no paciente que piora, a decisão de intubar não espera a gasometria.

Ventilar entre a indução e a laringoscopia

O dogma clássico da sequência rápida dizia para não ventilar após a indução, pelo receio de insuflação gástrica e aspiração. A evidência atual mudou essa recomendação para a maior parte dos pacientes críticos: no ensaio PreVent (2019), a ventilação com bolsa-válvula-máscara reduziu a hipoxemia grave de 22,8% para 10,9%.

  • Ventilar com bolsa-válvula-máscara entre a indução e a laringoscopia reduz de forma importante a hipoxemia grave, sem aumento demonstrado de aspiração.
  • Como ventilar — volumes pequenos, frequência baixa, pressão suave, com vedação de duas mãos e válvula de pressão expiratória final positiva.
  • Manter a ventilação não invasiva durante esse intervalo, retirando a máscara apenas imediatamente antes da laringoscopia, é uma alternativa elegante.
  • Quando evitar — vômito ativo, sangramento maciço de via aérea alta e obstrução de via aérea superior.
  • Manter oxigenação apneica por cateter nasal em todos os casos, do início ao fim.

Não confunda ventilar de forma suave e controlada com "apertar a bolsa com força". A insuflação gástrica ocorre sobretudo com pressões inspiratórias altas — volumes pequenos e pressão baixa são seguros e eficazes.

Calculadora — risco periprocedimento e otimização

Marque o que está presente antes de induzir. O resultado indica o nível de risco — hemodinâmico, de hipoxemia e outros riscos fisiológicos — e gera um plano de otimização específico para o que foi marcado.

Risco periprocedimento e plano de otimização

Risco hemodinâmico: índice de choque acima de 0,9 (frequência cardíaca maior que a PAS) e hipotensão ou vasopressor em curso. Risco de hipoxemia: SpO₂ abaixo de 93% apesar de oxigênio em alto fluxo e obesidade, gestação ou outra condição que reduza a capacidade residual funcional.

Preencha os cinco itens para ver o nível de risco e o plano de otimização.

Ferramenta de apoio à preparação, não substitui o julgamento clínico nem o protocolo institucional. As sugestões de otimização assumem que há tempo disponível — em via aérea perdida ou parada iminente, a prioridade é oxigenar imediatamente.

Plano de otimização para cada fator marcado

Cada fator de risco pede uma correção diferente, e elas se somam. Sem nenhum fator marcado, o preparo padrão continua obrigatório: pré-oxigenação por pelo menos 3 minutos, cabeceira elevada, oxigenação apneica, capnografia conectada antes de induzir e bougie, dispositivo supraglótico e planos B, C e D verbalizados — mesmo no paciente de baixo risco.

Hemodinâmica e dose do indutor

Prepare vasopressor em bolus ao lado da cama e considere infusão contínua antes da indução; reponha volume apenas se houver hipovolemia (corrigir antes, não depois). Reduza o indutor e mantenha o bloqueador em dose plena (subdosar o bloqueador aumenta tentativas e apneia).

Hipoxemia

Ventilação não invasiva por pelo menos 3 minutos, FiO₂ 100%, cabeceira elevada e rampa se obeso (maior benefício demonstrado); cateter nasal a 15 L/min durante a apneia e a laringoscopia (simples, barato e aditivo); operador mais experiente, videolaringoscópio e bougie (a melhor tentativa é a primeira).

Acidose grave

Minimize o tempo de apneia, considere ventilação com bolsa entre a indução e a laringoscopia e programe ventilação-minuto alta logo após o tubo (a apneia interrompe a compensação respiratória).

Ventrículo direito

Evite hipoxemia e hipercapnia, use pressão positiva com parcimônia e mantenha a pressão sistêmica com vasopressor (a pressão positiva aumenta a pós-carga do VD).

Risco de aspiração

Aspiração potente testada e posicionada, cabeceira elevada, considere sonda gástrica prévia e evite pressão inspiratória alta (sequência rápida sem ventilação vigorosa).

Antes de induzir

Confirme em voz alta: pré-oxigenação em curso, vasopressor pronto, aspiração testada, bougie na mão e capnografia conectada (checklist final de 10 segundos).

Otimização hemodinâmica antes de induzir

A indução retira o tônus simpático que sustentava a pressão, e a pressão positiva reduz o retorno venoso logo em seguida. No paciente limítrofe, essas duas quedas somadas produzem colapso em minutos — por isso a correção precisa vir antes, e não depois da seringa.

  • Volume — cristaloide em pacientes com hipovolemia evidente e responsividade a fluidos; a infusão indiscriminada não demonstrou reduzir colapso (PREPARE II: 21,0% com bolus de 500 mL × 18,2% sem bolus) e pode prejudicar em congestão.
  • Vasopressor em bolus — preparado e ao lado da cama em todo paciente com índice de choque elevado, para uso imediato diante de queda pressórica.
  • Vasopressor em infusão contínua — iniciar antes da indução nos pacientes já hipotensos, em vez de correr atrás do prejuízo depois.
  • Reduzir a dose do indutor — no choque, doses habituais causam colapso; reduza o indutor e mantenha a dose plena do bloqueador neuromuscular.
  • Ventilação com cautela após o tubo — pressão positiva excessiva reduz o retorno venoso e pode precipitar parada em pacientes pré-carga dependentes.
  • Corrigir o corrigível — hipoglicemia, hipercalemia, pneumotórax hipertensivo e tamponamento antes de induzir, sempre que houver tempo.

A parada cardíaca periprocedimento raramente é causada pela laringoscopia. Ela é causada por hipoxemia ou por colapso hemodinâmico — os dois fenômenos que a preparação adequada previne.

Em 30 segundos

O essencial de drogas

  1. Indutor seguido imediatamente de bloqueador neuromuscular; nenhum dos dois dá analgesia adequada, o que torna a analgesia pós-intubação obrigatória.
  2. No choque: menos indutor, bloqueador em dose plena — e vasopressor preparado antes da seringa.
  3. Etomidato e cetamina têm mortalidade semelhante; no RSI trial, a cetamina teve mais colapso cardiovascular na intubação.
  4. Succinilcolina 1,5 mg/kg ou rocurônio 1,2 mg/kg; com rocurônio, a sedação contínua precisa estar pronta antes do tubo.

A lógica da escolha

A sequência rápida usa um indutor — que produz inconsciência — seguido imediatamente de um bloqueador neuromuscular — que produz relaxamento e condições ideais de laringoscopia. Nenhum dos dois produz analgesia adequada isoladamente, o que torna a analgesia pós-intubação obrigatória.

1. Escolha do indutor

Guiada pela hemodinâmica, não pela preferência. Em choque, prefira agentes com menor impacto pressórico e reduza a dose; em normotensos, use dose plena.

2. Escolha do bloqueador

Guiada pelas contraindicações e pela duração desejada. A dose do bloqueador não deve ser reduzida no choque — subdosar piora as condições e aumenta as tentativas.

3. Sequência e tempo

Indutor e bloqueador em rápida sucessão, com a laringoscopia iniciada quando o relaxamento é adequado — geralmente 45 a 60 segundos após o bloqueador.

Erro frequente e perigoso: reduzir a dose do bloqueador junto com a do indutor no paciente chocado. O correto é o oposto — menos indutor, bloqueador em dose plena. Relaxamento incompleto significa mais tentativas, mais tempo de apneia e mais complicação.

Indutores

A escolha entre etomidato e cetamina é uma das discussões mais antigas do tema. O RSI trial, com 2.365 adultos críticos, encerrou a dúvida sobre mortalidade — 28,1% com cetamina × 29,1% com etomidato em 28 dias —, mas mostrou mais colapso cardiovascular com cetamina (22,1% × 17,0%) nos dois minutos após a intubação.

FármacoPerfil hemodinâmicoVantagensCuidados
O mais estável; efeito mínimo sobre pressão e débito.Início rápido, curta duração, amplamente disponível.Supressão adrenal transitória; mioclonias. Não demonstrou diferença de mortalidade em comparação com cetamina; não há indicação de corticoide de rotina após dose única.
Simpaticomimética; tende a preservar a pressão, mas pode causar hipotensão em depleção catecolaminérgica — e causou mais colapso que o etomidato no RSI trial.Broncodilatação, analgesia e preservação do drive respiratório.Aumenta secreções; cautela em coronariopatia grave. O receio clássico quanto à pressão intracraniana foi amplamente revisto.
Hipotensor importante, dose-dependente.Início e término rápidos, boas condições de laringoscopia, efeito anticonvulsivante.Evitar em instabilidade; se usado, reduza muito a dose.
Hipotensor, com início mais lento e efeito menos previsível.Disponível em qualquer serviço; útil como adjuvante.Frequentemente subdosado, resultando em consciência preservada sob bloqueio neuromuscular.

Metanálises e o ensaio randomizado mais recente não mostram diferença de mortalidade entre etomidato e cetamina; a cetamina se associa a mais hipotensão e colapso na intubação, e o etomidato à supressão adrenal transitória, sem impacto claro em desfecho. Use o que você domina, ajustando a dose ao estado hemodinâmico — no paciente instável, o etomidato é a opção com melhor perfil pressórico.

Bloqueadores neuromusculares

O bloqueador é o que garante as condições de laringoscopia e reduz o número de tentativas. A diretriz da Society of Critical Care Medicine recomenda sempre associá-lo ao indutor e considera succinilcolina e rocurônio equivalentes quando não há contraindicação à succinilcolina.

Succinilcolina — 1,5 mg/kg

  • Início muito rápido e duração curta.
  • Vantagem teórica de recuperação espontânea se a intubação falhar — argumento hoje bastante relativizado.
  • Contraindicações: hipercalemia conhecida ou suspeita, queimadura ou trauma extenso após 48 horas, doença neuromuscular, imobilização prolongada, rabdomiólise, histórico de hipertermia maligna.
  • Pode causar bradicardia, sobretudo em crianças e em doses repetidas.

Rocurônio — 1,2 mg/kg

  • Início rápido quando usado em dose adequada para sequência rápida.
  • Duração prolongada, o que exige sedação imediata e contínua após o procedimento.
  • Sem as contraindicações metabólicas da succinilcolina — opção segura na maioria dos cenários críticos.
  • Reversível com , quando disponível.

O risco mais subestimado do rocurônio é o paciente paralisado e acordado: bloqueio prolongado sem sedação adequada. Prepare a sedação contínua antes da intubação e inicie assim que o tubo estiver confirmado.

Rotas de tratamento

Cada rota abre o detalhamento: indicação, posologia, cuidados e situações especiais; o ícone ao lado de cada fármaco abre a ficha completa. Para o cálculo por peso à beira do leito, use também o Guia de Intubação Rápida do MedFoco. Confira sempre a apresentação disponível no seu serviço.

Succinilcolina e potássio no monitor

A succinilcolina eleva o potássio em cerca de 0,5 mEq/L no paciente comum, mas pode provocar hipercalemia grave e parada nos receptores extrajuncionais suprarregulados — queimado ou politraumatizado após 48 horas, denervação, imobilização prolongada, miopatias. Se o ECG pré-indução já mostrar sinais de hipercalemia, troque por rocurônio.

Hipercalemia (T apiculada)
Hipercalemia (T apiculada)

Antes de escolher a succinilcolina em paciente renal, rabdomiolítico ou acamado, procure este padrão no ECG de 12 derivações.

  • Onda T alta, pontiaguda e simétrica, mais evidente de V2 a V4
  • Onda P de baixa amplitude
  • QRS ainda estreito

Traçados esquemáticos gerados por computador (25 mm/s, 10 mm/mV) para estudo e comparação. Confirme sempre no ECG de 12 derivações do paciente.

Em 30 segundos

O essencial de técnica

  1. Videolaringoscópio é o padrão (DEVICE: sucesso na primeira tentativa 85,1% × 70,8%), com laringoscópio direto como reserva.
  2. Bougie ou estilete moldado na primeira tentativa; bougie sempre ao alcance para a visão parcial.
  3. Interrompa a tentativa se a saturação cair abaixo do limiar combinado: ventile, reoxigene e otimize antes de tentar de novo.
  4. Capnografia em onda com curva sustentada confirma o tubo; sem curva, o tubo está no esôfago até prova em contrário.

Videolaringoscopia ou laringoscopia direta?

A questão foi respondida de forma consistente pelos ensaios mais recentes. O estudo DEVICE, com mais de 1.400 pacientes críticos, demonstrou maior sucesso na primeira tentativa com videolaringoscópio (85,1% × 70,8%) em comparação com o laringoscópio direto, e as diretrizes atuais — incluindo a da Difficult Airway Society de 2025 — tratam o vídeo como método de primeira linha.

Vantagens do vídeo

  • Melhor visão glótica, sobretudo em pescoço imobilizado.
  • Maior sucesso na primeira tentativa em pacientes críticos.
  • Menos intubação esofágica não reconhecida.
  • Permite que a equipe veja a via aérea e ajude ativamente.
  • Valor didático e de supervisão em serviços com residentes.

Armadilhas do vídeo

  • "Vejo bem, mas não passo o tubo" — a visão melhora mais que a passagem; use bougie ou estilete moldado.
  • Sangue e secreção prejudicam a lente; aspire antes.
  • Embaçamento da lente em ambiente frio.
  • Dependência do equipamento — mantenha a habilidade em laringoscopia direta.
  • Lâminas hiperanguladas exigem estilete rígido com curvatura adequada.

Regra prática: videolaringoscópio como padrão, com laringoscópio direto disponível como reserva. E, sempre, o bougie ao alcance da mão — não guardado no carrinho.

Bougie ou estilete na primeira tentativa?

No ensaio BOUGIE (2021), com cerca de 1.100 adultos críticos, o uso rotineiro do bougie não aumentou o sucesso na primeira tentativa em comparação com o tubo montado em estilete. A leitura prática não é abandonar o bougie, e sim usá-lo onde ele faz diferença: visão parcial da glote, Cormack-Lehane II e III, e lâminas hiperanguladas quando o tubo não acompanha a imagem.

Escolha antes da indução se a primeira tentativa será com estilete ou com bougie, e deixe o outro dispositivo pronto. Trocar de estratégia no meio da tentativa, procurando material, consome os segundos que a reserva de oxigênio não tem.

A tentativa, passo a passo

A melhor tentativa é a primeira: cada nova laringoscopia aumenta edema, sangramento e tempo de apneia. Por isso o gesto deve ser planejado e executado com método, e não improvisado a partir do que se encontra.

  1. Confirme o relaxamento

    Confirme relaxamento adequado antes de introduzir a lâmina — laringoscopia precoce piora a visão e provoca tosse e vômito.

  2. Entre pela direita

    Introduza a lâmina pela direita, deslocando a língua para a esquerda, avançando de forma progressiva e controlada.

  3. Ache a epiglote

    Identifique a epiglote como referência; na lâmina curva, posicione a ponta na valécula.

  4. Tracione, não alavanque

    Tracione no sentido do cabo, sem alavancar sobre os dentes.

  5. Otimize a visão

    Use manipulação laríngea externa — a mão direita do operador ajusta e depois a equipe mantém.

  6. Passe sob visão

    Passe o tubo sob visão direta das cordas; se a visão for parcial, use o bougie.

  7. INTERROMPA se dessaturar

    Interrompa a tentativa se a saturação cair abaixo do limiar combinado ou se a tentativa se prolongar — ventile e reoxigene antes de tentar de novo.

  8. Balonete e capnografia

    Insufle o balonete com o mínimo necessário para vedar e confirme imediatamente com capnografia em onda.

  9. Fixe e registre

    Fixe o tubo e registre a profundidade em centímetros na arcada dentária.

Classificação de Cormack-Lehane e resgate da visão

A classificação de Cormack-Lehane descreve o que a laringoscopia mostra e, mais do que um registro, orienta o próximo movimento. Graus mais altos pedem bougie, troca de dispositivo e, no grau IV, a disposição de abandonar o plano A cedo.

GrauO que se vêConduta
IGlote inteira visível.Passagem direta do tubo.
IIPorção posterior da glote ou apenas aritenoides.Manipulação laríngea externa e bougie facilitam muito.
IIIApenas a epiglote.Bougie é a técnica de escolha; considere trocar para videolaringoscópio.
IVNem a epiglote é visível.Reposicionar, trocar operador ou dispositivo; considerar plano B precocemente.

Antes de declarar falha, percorra a lista de otimização: reposicionar a cabeça, aprofundar ou recuar a lâmina, manipulação laríngea externa, aspirar secreções, trocar o tamanho da lâmina, usar bougie e trocar o operador. Muitas "vias aéreas difíceis" são, na verdade, primeiras tentativas mal otimizadas.

Confirmação do posicionamento

Nenhum sinal clínico isolado confirma que o tubo está na traqueia — condensação no tubo, expansão torácica e ausculta enganam. A capnografia em onda é o único método recomendado como confirmação obrigatória em todas as diretrizes atuais; os demais complementam.

Capnografia em onda

Padrão-ouro. Curva sustentada por vários ciclos confirma posição traqueal. Em parada cardíaca o valor pode ser baixo, mas a presença de curva permanece informativa.

Visão direta

Ver o tubo passar entre as cordas é confirmação forte, porém sujeita a deslocamento posterior — não dispensa a capnografia.

Ausculta

Cinco pontos: epigástrio primeiro, depois as bases e os ápices. Útil para detectar intubação seletiva, mas insuficiente como confirmação isolada.

Radiografia de tórax

Confirma a profundidade, não a posição traqueal — um tubo esofágico também aparece na radiografia.

Ultrassom

Alternativa útil: visualização traqueal direta e deslizamento pleural bilateral, especialmente em parada cardíaca.

Pressão do balonete

Manter entre 20 e 30 cmH₂O: acima disso há risco de lesão isquêmica da mucosa; abaixo, risco de vazamento e microaspiração.

Sem curva de capnografia, o tubo está fora da traqueia até prova em contrário — retire e ventile.

A intubação esofágica não reconhecida continua sendo uma das causas mais evitáveis de morte e lesão neurológica em via aérea. Ausência de curva de capnografia significa tubo fora da traqueia até prova em contrário — retire e ventile, em vez de procurar explicações alternativas.

Em 30 segundos

O essencial de pós-iot e falha

  1. Nos primeiros dez minutos: confirmar e fixar, sedar e analgesiar, ventilar pelo peso predito e reavaliar a pressão.
  2. Deterioração súbita: roteiro DOPES — e a manobra mais valiosa é desconectar do ventilador e ventilar com bolsa.
  3. Falha: tentativas esgotadas (no máximo 3 + 1) ou incapacidade de oxigenar; a prioridade passa a ser oxigenar.
  4. Não intubo, não oxigeno: declare em voz alta e vá para a cricotireoidostomia sem hesitar.

Calculadora — tubo, profundidade e ventilação inicial

O volume corrente deve ser calculado pelo peso predito, que depende da altura e do sexo — nunca pelo peso real. Informe os dados para obter o tubo sugerido, a profundidade de referência e os parâmetros iniciais do ventilador. Para alturas intermediárias, use a calculadora Volume Corrente e Peso Predito.

Peso predito, volume corrente, tubo e profundidade

Peso predito pela fórmula do ARDS Network: homens 50 + 0,91 × (altura em cm − 152,4); mulheres 45,5 + 0,91 × (altura em cm − 152,4). Volume corrente protetor de 6 mL/kg (faixa de 4 a 8 mL/kg).

Escolha o sexo e a altura para ver o peso predito, o volume corrente, o tubo e a profundidade.

Ferramenta de apoio. A profundidade sugerida é apenas referência inicial e precisa ser confirmada por capnografia, ausculta e radiografia. Os parâmetros ventilatórios são um ponto de partida e devem ser ajustados à gasometria, à mecânica e à condição de base.

Parâmetros iniciais do ventilador

Com o volume corrente definido pelo peso predito — nunca pelo peso real —, os demais parâmetros partem de valores-padrão e são ajustados pela doença de base. Prefira tubo de calibre maior se houver previsão de broncoscopia ou de secreção espessa, e confira tudo na primeira gasometria.

Frequência respiratória

Iniciar entre 14 e 18 por minuto; mais alta se houver acidose metabólica, mais baixa na obstrução grave (ajustar pela gasometria).

PEEP inicial

5 cmH₂O na maioria; maior na hipoxemia grave e menor na obstrução com hiperinsuflação (titular pela oxigenação e pela hemodinâmica).

FiO₂

Iniciar em 100% e reduzir rapidamente para alvo de saturação entre 92% e 96% (evitar hiperóxia prolongada).

Alvos de mecânica

Pressão de platô abaixo de 30 cmH₂O e pressão de distensão abaixo de 15 cmH₂O (conferir na primeira reavaliação).

Balonete

Pressão entre 20 e 30 cmH₂O, medida com cuffômetro (não estimar pela palpação do balão-piloto).

Volume corrente

6 mL/kg de peso predito, faixa aceitável de 4 a 8 mL/kg (nunca calcular pelo peso real).

Os primeiros dez minutos após o tubo

Passar o tubo encerra a laringoscopia, não o procedimento. Os minutos seguintes concentram hipotensão pós-indução, consciência sob bloqueio, hiperóxia e volumes correntes inadequados — erros silenciosos que só aparecem se alguém os procurar ativamente.

  • Confirme e fixe — capnografia mantida, profundidade registrada e fixação segura.
  • Sedação e analgesia imediatas — sobretudo se foi usado bloqueador de longa duração; analgesia antes de aprofundar a sedação.
  • Ventilação protetora desde o início — volume corrente por peso predito, pressão de platô controlada e PEEP adequada.
  • Reavalie a pressão arterial em ciclos curtos: a hipotensão pós-indução é frequente e tratável.
  • Ajuste a FiO₂ para baixo assim que a saturação permitir, evitando hiperóxia prolongada.
  • Cabeceira elevada a 30 graus para reduzir risco de aspiração e de pneumonia associada à ventilação.
  • Sonda gástrica conforme indicação, sobretudo após ventilação com bolsa prolongada.
  • Radiografia de tórax para confirmar profundidade e afastar complicações.
  • Registre o procedimento: número de tentativas, dispositivo usado, grau de visão e dificuldades — informação decisiva para quem vier depois.

Deterioração súbita após a intubação

Diante de queda de saturação, hipotensão ou aumento de pressões no paciente recém-intubado, use um roteiro fixo. O mnemônico DOPES organiza a busca em segundos.

LetraCausaConduta imediata
DDeslocamento do tuboVerifique capnografia, profundidade e ausculta; considere extubação acidental ou intubação seletiva.
OObstruçãoAspire o tubo, verifique dobras e mordedura; passe sonda de aspiração para testar a patência.
PPneumotóraxAusculta assimétrica, hipotensão e aumento de pressões; ultrassom à beira do leito e drenagem imediata se hipertensivo.
EEquipamentoDesconecte do ventilador e ventile com bolsa e oxigênio a 100% — isso separa problema do ventilador de problema do paciente.
SStacking — hiperinsuflaçãoTípico do asmático: desconecte, comprima o tórax para permitir a expiração e reduza a frequência e o volume.

A manobra mais valiosa e mais esquecida é desconectar do ventilador e ventilar com bolsa. Ela resolve ou esclarece a maioria dos casos em segundos, e é a única que trata imediatamente a hiperinsuflação dinâmica.

O que o monitor mostra quando o paciente piora

A bradicardia durante a laringoscopia é, até prova em contrário, sinal de hipoxemia — ou, mais raramente, reflexo vagal ou efeito da succinilcolina. Se progride para ritmo organizado sem pulso, trata-se de parada periprocedimento: inicie compressões e procure hipoxemia, hipovolemia, pneumotórax hipertensivo e hiperinsuflação.

Da bradicardia ao colapso

Dois ritmos que exigem interromper a tentativa e oxigenar.

Bradicardia sinusal

Durante a apneia, a bradicardia é o último aviso antes da parada hipoxêmica: pare, ventile e reoxigene.

  • Onda P antes de cada QRS
  • QRS estreito
  • FC ≈ 45 bpm

Traçados esquemáticos gerados por computador (25 mm/s, 10 mm/mV) para estudo e comparação. Confirme sempre no ECG de 12 derivações do paciente.

Via aérea falha

Falha não é a primeira tentativa malsucedida. Define-se falha quando as tentativas otimizadas se esgotam — no máximo três, mais uma por operador mais experiente, segundo a Difficult Airway Society 2025, e menos no paciente que dessatura — ou quando não é possível manter a oxigenação. A partir daí, a prioridade deixa de ser o tubo e passa a ser oxigenar.

  1. Declare

    Diga em voz alta: "falha de intubação, indo para o plano B" — a verbalização quebra a fixação da equipe.

  2. Supraglótico

    Insira um dispositivo supraglótico de segunda geração para oxigenar e ventilar.

  3. Máscara facial

    Se o supraglótico falhar, oxigene com bolsa-válvula-máscara, duas mãos, cânula orofaríngea e válvula de PEEP — e prepare o plano D.

  4. Se oxigenar bem

    Ganhe tempo e reorganize: intubar através do supraglótico com fibroscópio, manter e transportar, despertar quando possível ou proceder à via aérea cirúrgica eletivamente.

  5. NÃO INTUBO, NÃO OXIGENO

    Declare a situação e vá para a cricotireoidostomia sem hesitação — a hesitação é o que causa a lesão neurológica.

  6. Após o resgate

    Reavalie sedação, ventilação e planeje a via aérea definitiva em ambiente controlado.

Não intubo, não oxigeno: declare em voz alta e vá para o pescoço. A hesitação, e não a técnica, é o que lesa o cérebro.

O padrão descrito em análises de eventos catastróficos é sempre o mesmo: tentativas repetidas de intubação enquanto o paciente dessatura, com a decisão cirúrgica adiada até que a lesão já esteja instalada. Combine o gatilho antes de começar e cumpra-o.

Erros comuns antes e durante a indução

Os erros que levam à parada periprocedimento raramente são exóticos. Repetem-se de serviço em serviço e quase todos acontecem antes de o laringoscópio entrar na boca — na decisão, na pré-oxigenação e no preparo hemodinâmico.

  • Adiar a intubação de um paciente que ainda tem reserva, para intubá-lo depois em condições muito piores.
  • Pré-oxigenar de forma insuficiente, com máscara mal acoplada e por tempo curto.
  • Não usar oxigenação apneica por cateter nasal durante a laringoscopia.
  • Induzir um paciente hipotenso sem vasopressor preparado.
  • Manter a dose plena do indutor no paciente em choque.
  • Reduzir a dose do bloqueador neuromuscular junto com a do indutor.
  • Iniciar a laringoscopia antes do relaxamento adequado.
  • Não identificar a membrana cricotireóidea antes de precisar dela.

Erros comuns na tentativa e depois do tubo

A segunda metade dos erros acontece com o tubo na mão ou já na traqueia: insistência no plano que falhou, confirmação inadequada e o abandono do paciente paralisado, sem sedação, com parâmetros de ventilador que ninguém revisou.

  • Insistir em tentativas repetidas com o mesmo operador e o mesmo dispositivo.
  • Não ter bougie e aspiração ao alcance imediato da mão.
  • Confirmar o tubo apenas pela ausculta, sem capnografia em onda.
  • Não reconhecer a intubação esofágica diante de capnografia ausente.
  • Deixar o paciente paralisado sem sedação e analgesia adequadas.
  • Programar volume corrente pelo peso real em vez do peso predito.
  • Manter FiO₂ de 100% por horas depois do procedimento.
  • Não registrar as dificuldades encontradas para quem for reintubar depois.

Resumo do fluxo

O protocolo inteiro cabe em dez passos. A ordem importa: a maior parte deles acontece antes da indução, e é ali que se decide se a intubação será tranquila ou catastrófica.

  1. Indicação

    Confirme a indicação e verifique se existe alternativa razoável ao tubo.

  2. Dificuldade

    Avalie a dificuldade anatômica e a fisiológica — a segunda costuma ser a que mata.

  3. Preparo

    Prepare material, equipe e drogas; verbalize os planos A, B, C e D com gatilhos numéricos.

  4. PRÉ-OXIGENE

    Com VNI por pelo menos 3 minutos, cabeceira elevada, e mantenha oxigenação apneica.

  5. Hemodinâmica

    Otimize: volume quando indicado e vasopressor preparado ou em curso.

  6. Indução

    Induza com dose ajustada ao estado hemodinâmico e bloqueie com dose plena.

  7. Primeira tentativa

    Posicione, aguarde o relaxamento e faça a melhor primeira tentativa possível, com videolaringoscópio e bougie ou estilete.

  8. Confirmação

    Confirme com capnografia em onda, fixe e registre a profundidade.

  9. Pós-intubação

    Inicie sedação e analgesia, programe ventilação protetora por peso predito e reavalie a pressão.

  10. Falha

    Oxigene primeiro, siga os planos combinados e não adie a via aérea cirúrgica quando indicada.

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Aviso importante

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