Síndrome compartimental aguda de membros • hipertensão intra-abdominal e síndrome compartimental abdominal
Emergência cirúrgica em que a pressão dentro de um compartimento fechado supera a pressão de perfusão e o músculo começa a morrer — com o pulso distal ainda presente. O diagnóstico é clínico, o relógio corre em horas e o tratamento é um só: fasciotomia ampla e precoce.
Dor desproporcionalDelta P ≤ 30 mmHgPulso presente não excluiFasciotomia é o tratamento
16 min de leitura Atualizado em outubro de 2026
Em 30 segundos
O essencial de visão geral
Síndrome compartimental aguda é a pressão elevada num espaço osteofascial fechado a ponto de comprometer a perfusão do músculo e do nervo.
É emergência cirúrgica: músculo e nervo toleram poucas horas de isquemia, e a fasciotomia em até 6 horas tem o melhor prognóstico.
O pulso distal palpável é a regra — esperar que desapareça é esperar a amputação.
O que define a perfusão é o delta P (PAD − pressão intracompartimental); por isso a hipotensão agrava o quadro.
O que é
Síndrome compartimental aguda é o aumento da pressão dentro de um espaço osteofascial fechado a ponto de comprometer a perfusão e a viabilidade dos tecidos daquele compartimento. A fáscia é praticamente inelástica: pequenos aumentos de volume — sangue, edema, líquido de reperfusão — produzem grandes aumentos de pressão.
É emergência cirúrgica. O tempo entre o início da isquemia e a descompressão determina o desfecho: músculo e nervo toleram poucas horas de isquemia antes de lesão irreversível. E é uma das principais causas de litígio por diagnóstico tardio em ortopedia e emergência.
A presença de pulso distal palpável é a regra, não a exceção. O fluxo arterial se mantém enquanto a pressão do compartimento já ultrapassou a pressão de perfusão capilar. Esperar o pulso desaparecer é esperar a amputação.
A cascata
Tudo começa com aumento do conteúdo (hematoma, edema, extravasamento) ou redução do continente (gesso apertado, curativo circunferencial, queimadura em couraça). A pressão sobe, colaba primeiro as vênulas, o retorno venoso cai e a pressão sobe ainda mais — um ciclo que se retroalimenta.
Quando a pressão intracompartimental se aproxima da pressão diastólica, o gradiente que sustenta a perfusão capilar desaparece. O músculo entra em isquemia, libera mediadores, o edema aumenta e a pressão sobe outra vez. A artéria principal, de alta pressão, continua pérvia — e o pulso, palpável.
Volume ↑ ou continente ↓
Hematoma, edema, gesso.
Vênulas colabam
Retorno venoso cai.
Perfusão capilar cessa
PIC próxima da PAD.
Isquemia e edema
O ciclo se fecha.
Tempos de tolerância à isquemia
Nervo
Alteração funcional em cerca de 30 minutos; lesão irreversível a partir de 12 a 24 horas.
Músculo
Alterações em 2 a 4 horas; necrose progressiva a partir de 4 a 8 horas.
Fasciotomia em até 6 horas
Bom prognóstico funcional na maioria das séries.
Acima de 12 horas
Sequela funcional frequente e maior risco de infecção e amputação.
A conta que define tudo — delta P (pressão diferencial) = pressão arterial diastólica − pressão intracompartimental. Valor ≤ 30 mmHg indica descompressão. É por isso que a hipotensão agrava a síndrome compartimental: com a diastólica baixa, o delta P despenca mesmo sem grande aumento da pressão no compartimento.
Compartimentos que mais importam
Conhecer a anatomia é o que permite examinar corretamente e planejar a fasciotomia. A perna é o sítio mais frequente, e o compartimento anterior é o mais acometido.
Compartimento da perna
Conteúdo
Teste e déficit
Anterior — o mais acometido
Tibial anterior e extensores; nervo fibular profundo.
Dor à flexão plantar passiva; hipoestesia no primeiro espaço interdigital; perda da dorsiflexão (pé caído).
Lateral
Fibulares; nervo fibular superficial.
Dor à inversão passiva; hipoestesia no dorso do pé.
Posterior superficial
Gastrocnêmio e sóleo.
Dor à dorsiflexão passiva.
Posterior profundo
Flexores; nervo tibial.
Dor à extensão passiva dos dedos; hipoestesia plantar.
Antebraço — 3 compartimentos
Volar (flexor): o mais acometido; contém os nervos mediano e ulnar; dor à extensão passiva dos dedos. Dorsal (extensor): dor à flexão passiva dos dedos. Móvel lateral: braquiorradial e extensores radiais do carpo. Complicação temida: contratura isquêmica de Volkmann, com mão em garra e perda funcional definitiva.
Coxa e braço
Coxa — 3 compartimentos: anterior (quadríceps), posterior (isquiotibiais) e medial (adutores). Menos frequente, exige grande energia; associada a fratura de fêmur e esmagamento. Braço — 2 compartimentos: anterior e posterior. Associado a fratura de úmero e lesão vascular.
Mão, pé e glúteo
Mão: múltiplos compartimentos (interósseos, tenar, hipotenar); posição intrínseca-plus, dor à abdução passiva dos dedos. Pé: vários compartimentos descritos; associado a fratura de calcâneo e Lisfranc; indicação de fasciotomia mais debatida. Glúteo: após imobilização prolongada, intoxicação e uso de drogas — clássico do paciente encontrado caído.
As três perguntas da avaliação
Existe risco?
Mecanismo, fratura, esmagamento, reperfusão após isquemia arterial, gesso ou curativo circunferencial, coagulopatia. O risco define a intensidade da vigilância.
O exame é confiável?
Paciente alerta e comunicativo permite diagnóstico clínico com reavaliação seriada. Paciente sedado, intubado, com bloqueio regional, lesão medular ou criança pequena exige medida de pressão.
Já é hora de operar?
Diante de quadro clínico evolutivo ou delta P ≤ 30 mmHg, a resposta é sim. Na dúvida, o custo de uma fasciotomia desnecessária é muito menor que o de uma tardia.
A ferramenta de maior valor não é o manômetro: é o exame seriado documentado com horário pelo mesmo raciocínio clínico, comparando cada avaliação com a anterior. O padrão britânico (BOAST, atualizado em 2025) pede avaliação de hora em hora no paciente de risco, registrando horário e mecanismo do trauma, nível de consciência, estado neurovascular, intensidade da dor e resposta à analgesia.
Em 30 segundos
O essencial de causas e risco
Dois mecanismos: aumento do conteúdo (sangue, edema, reperfusão) ou redução do continente (gesso, curativo, escara).
Fratura de tíbia é a causa isolada mais frequente; a fratura fechada não protege.
Hipotensão, coagulopatia, reperfusão e ressuscitação volêmica agressiva aumentam o risco.
O paciente que não pode relatar dor exige medida de pressão.
Mecanismos: conteúdo aumentado ou continente reduzido
Mecanismo
Causas
Observação
Sangramento no compartimento
Fratura (sobretudo tíbia e antebraço), lesão vascular, coagulopatia, uso de anticoagulante, punção arterial.
A fratura de tíbia é a causa isolada mais frequente — e a fratura fechada não protege: pode ser mais perigosa que a exposta.
Acidente por serpente do gênero Bothrops pode causar edema volumoso — mas a maioria dos casos não evolui para síndrome compartimental verdadeira.
Reperfusão
Após revascularização, embolectomia, torniquete prolongado ou correção de isquemia arterial aguda.
O edema de reperfusão é intenso e precoce: considere fasciotomia profilática quando a isquemia foi prolongada.
Aumento de volume não traumático
Exercício extenuante, infiltração de fluido ou contraste, infusão intraóssea mal posicionada, infecção necrosante, trombose venosa extensa, nefropatia com edema volumoso.
A forma não traumática é subdiagnosticada justamente por não haver o gatilho esperado.
Redução do continente
Gesso ou tala circunferencial apertados, curativo compressivo, escara de queimadura circunferencial, roupas ou dispositivos constritivos, fechamento fascial sob tensão.
Causa iatrogênica e imediatamente reversível: abrir o gesso até a pele é a primeira medida.
Compressão prolongada
Paciente encontrado caído após intoxicação, coma ou uso de drogas; posicionamento cirúrgico prolongado (litotomia).
Clássico da síndrome compartimental de glúteo e coxa, quase sempre com rabdomiólise associada.
Fatores de risco que aumentam a vigilância
Fratura de tíbia
Principal causa. Fraturas diafisárias e do platô tibial são as de maior risco; a fratura fechada não é protetora.
Fratura de antebraço e supracondiliana
Alto risco em crianças e adolescentes, com risco de contratura de Volkmann.
Homem jovem
Maior massa muscular em compartimento de mesmo tamanho — grupo classicamente descrito como de maior risco.
Lesão vascular e reperfusão
Isquemia prolongada seguida de restauração do fluxo é um dos cenários de maior risco.
Coagulopatia e anticoagulação
Sangramento maior dentro do compartimento, às vezes após trauma banal.
Hipotensão
Reduz a diastólica e, com ela, o delta P: o paciente chocado desenvolve síndrome compartimental com pressões intracompartimentais menores.
Em politraumatizados e queimados, a ressuscitação volêmica agressiva é fator de risco adicional: o edema tecidual acumulado eleva a pressão em compartimentos já comprometidos.
O paciente que não pode contar
A dor é o sintoma mais precoce e mais confiável — e desaparece exatamente nos pacientes de maior risco. Sedado, intubado, com traumatismo cranioencefálico, intoxicado, com lesão medular, com bloqueio regional ou criança pequena: nenhum deles vai relatar dor desproporcional.
Nesses casos, a vigilância clínica isolada é insuficiente e a medida da pressão intracompartimental — de preferência contínua ou repetida — passa a ser parte obrigatória do cuidado. Registre a decisão de monitorizar (ou de não monitorizar) e a justificativa.
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O essencial de quadro clínico
Os "6 P" aparecem em sequência temporal: os primeiros são úteis, os últimos indicam dano feito.
Na sala, importam três: dor desproporcional, dor ao estiramento passivo e compartimento tenso.
Examine cada compartimento separadamente, sem gesso, com horário registrado.
Imagem não faz o diagnóstico — serve para os diferenciais.
Os "6 P" — e por que a ordem importa
Os sinais clássicos aparecem em sequência temporal. Os primeiros são os úteis; os últimos indicam que o dano já está feito.
Sinal
Momento
Valor prático
Dor (pain)
Precoce
Desproporcional ao achado, progressiva e refratária a analgésico. Dor ao estiramento passivo da musculatura do compartimento é o sinal mais sensível. Necessidade crescente de opioide é sinal de alarme.
Pressão (pressure)
Precoce
Compartimento tenso, endurecido e doloroso à palpação, com aumento visível do volume. Compare sempre com o membro contralateral.
Parestesia
Intermediário
Alteração da sensibilidade no território do nervo que atravessa o compartimento — primeira manifestação de sofrimento neurológico. Ainda reversível.
Paralisia
Tardio
Perda motora indica lesão neuromuscular estabelecida. Prognóstico funcional já comprometido.
Palidez (pallor)
Tardio
Sinal inconsistente; a pele frequentemente está normal ou até hiperemiada e tensa.
Ausência de pulso (pulselessness)
Muito tardio
Não use como critério. Quando o pulso some, o compartimento já está inviável — ou existe lesão arterial associada.
Regra prática: os três "P" que importam na sala são dor desproporcional, dor ao estiramento passivo e compartimento tenso. Os demais chegam tarde demais.
Como examinar corretamente
Palpe cada compartimento separadamente, comparando com o membro contralateral — não avalie "a perna" como um todo.
Estiramento passivo dirigido: na perna, flexão plantar passiva testa o compartimento anterior; dorsiflexão passiva testa o posterior superficial; extensão passiva dos dedos testa o posterior profundo; inversão passiva testa o lateral.
No antebraço, extensão passiva dos dedos testa o compartimento volar e flexão passiva testa o dorsal.
Teste a sensibilidade nos territórios específicos: primeiro espaço interdigital (fibular profundo), dorso do pé (fibular superficial), planta (tibial).
Retire o gesso, a tala e o curativo antes de examinar — não se avalia compartimento através de imobilização.
Registre com horário e reavalie em intervalos curtos (de hora em hora no paciente de risco), idealmente pelo mesmo examinador.
Anote o consumo de analgésico: escalada rápida de dose é dado objetivo de piora.
Bloqueio regional e analgesia peridural podem mascarar completamente a dor. Em membro de risco, discuta com a anestesia antes de indicá-los — e, se usados, monitorize a pressão.
Modelo de registro da reavaliação
Horário: __:__ | Trauma/mecanismo: ______ (hora: __:__)
Nível de consciência: ______ | Exame confiável? ( ) sim ( ) não
Dor (0–10): __ | Analgésico nas últimas horas: ______ | Resposta: ______
Compartimentos (tenso? dor ao estiramento passivo?): anterior __ lateral __ post. superficial __ post. profundo __
Sensibilidade/motricidade: ______ | Pulsos/enchimento capilar: ______
Gesso/curativo aberto até a pele? ( ) sim | Membro na altura do coração? ( ) sim
PAD: __ mmHg | PIC (se medida): __ mmHg | Delta P: __ mmHg
Conduta/próxima reavaliação: ______
Adapte ao segmento acometido.
Diagnósticos diferenciais
CondiçãoAchado-chaveComo diferenciar
Oclusão arterial aguda
Achado-chavePulso ausente desde o início, membro frio e pálido.
Como diferenciarPulso ausente desde o início, membro frio e pálido, dor de instalação súbita. Compartimentos habitualmente moles. Pode coexistir e evoluir para síndrome compartimental após a revascularização.
Trombose venosa profunda
Achado-chaveEdema difuso, dor menos intensa.
Como diferenciarSem dor ao estiramento passivo desproporcional. Ultrassonografia com doppler esclarece — mas TVP extensa também pode causar síndrome compartimental.
Como diferenciarNa fasciíte, dor desproporcional, crepitação, bolhas e evolução fulminante. Ambas podem ter compartimento tenso — a fasciíte também é emergência cirúrgica.
Lesão nervosa direta
Achado-chaveDéficit desde o momento do trauma.
Como diferenciarSem progressão e sem dor desproporcional ao estiramento.
Contusão muscular simples
Achado-chaveDor localizada, sem tensão compartimental.
Como diferenciarMelhora progressiva e boa resposta ao analgésico.
Síndrome compartimental crônica de esforço
Achado-chaveDor previsível durante o exercício, com alívio ao repouso, em atleta.
Como diferenciarDiagnóstico ambulatorial, com medida de pressão pós-esforço — não é emergência.
Exames de imagem não fazem o diagnóstico de síndrome compartimental aguda. Ultrassonografia e tomografia servem para avaliar diferenciais (trombose, hematoma, coleção), não para confirmar ou excluir a síndrome. Métodos não invasivos, como a espectroscopia no infravermelho próximo (NIRS), seguem em investigação e não substituem a medida de pressão.
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O essencial de medida de pressão
O diagnóstico é clínico; a medida é auxílio, obrigatória quando o exame não é confiável.
Delta P = PAD − PIC; ≤ 30 mmHg indica fasciotomia. PIC absoluta acima de 40 mmHg também leva a considerar descompressão urgente (BOAST 2025).
Meça até 5 cm do foco de fratura, em todos os compartimentos, com a PAD do mesmo momento.
Uma medida normal isolada não exclui; medidas repetidas ou contínuas são superiores.
Quando medir
O diagnóstico é clínico. A medida da pressão intracompartimental é um auxílio — indispensável em algumas situações, dispensável em outras.
Medir
Paciente não avaliável: sedado, intubado, com rebaixamento, intoxicado, com lesão medular ou criança pequena.
Bloqueio regional ou analgesia peridural em vigência.
Quadro clínico duvidoso ou achados equívocos.
Necessidade de monitorização repetida ou contínua em membro de alto risco.
Não é necessário medir
Quadro clínico evidente e evolutivo em paciente avaliável — leve à fasciotomia.
Quando a medida for atrasar a cirurgia já indicada.
Diante de dano neuromuscular irreversível estabelecido, em que a fasciotomia deixa de ser indicada.
Uma única medida normal não exclui o diagnóstico. A pressão varia com o tempo, com a distância do foco de fratura e com a técnica. Medidas repetidas ou monitorização contínua têm desempenho muito superior à medida isolada — a diretriz da AAOS (2018) considera evidência moderada para a monitorização contínua com pressão de perfusão abaixo de 30 mmHg.
Como medir
Dispositivo: manômetro de agulha dedicado (tipo Stryker) ou transdutor de pressão arterial acoplado a agulha e equipo — este último é a alternativa mais disponível na maioria dos serviços.
Zeragem do sistema ao nível do compartimento a ser medido, com o membro na altura do coração.
Local: até 5 cm do nível da fratura, onde a pressão é mais alta — medidas distantes subestimam o valor.
Meça todos os compartimentos do segmento, e não apenas o mais suspeito.
Registre a pressão diastólica no mesmo momento — o delta P depende dela.
Repita as medidas ao longo do tempo ou mantenha monitorização contínua nos pacientes de risco.
Documente valor, compartimento, horário, PAD simultânea e o delta P calculado.
Calculadora — pressão diferencial (delta P)
Informe a pressão arterial diastólica aferida no mesmo momento da medida e a pressão intracompartimental obtida. O limiar amplamente adotado é delta P ≤ 30 mmHg como indicação de fasciotomia; valores acima de 30 mmHg apoiam o afastamento do diagnóstico.
Delta P = PAD − PIC • limiar de 30 mmHg
Exemplo: PAD 70 mmHg e PIC 45 mmHg → delta P = 70 − 45 = 25 mmHg → fasciotomia. Mesmo PIC com PAD 85 mmHg → delta P 40 mmHg → zona de vigilância. Mesmo PIC em paciente chocado com PAD 50 mmHg → delta P 5 mmHg. Faixas da PIC absoluta: < 20 mmHg; 20–29 mmHg limítrofe; ≥ 30 mmHg elevada (acima de 40 mmHg, o BOAST orienta considerar descompressão urgente).
Interpretar o delta P
Calcule PAD − PIC e escolha a faixa; informe também a PAD e a evolução clínica.
Preencha a PAD e a pressão intracompartimental (faixa do delta P) para ver a interpretação.
Ferramenta de apoio: o número não substitui o exame clínico. Quadro clínico evolutivo com delta P acima de 30 mmHg ainda pode indicar fasciotomia; e uma medida isolada normal não exclui o diagnóstico. Em paciente hipotenso, o delta P cai mesmo com pressões intracompartimentais moderadas — corrija a pressão arterial e reavalie.
Papel dos exames laboratoriais
Creatinoquinase (CPK)
Marcador de lesão muscular e de rabdomiólise. Útil para gravidade e seguimento, mas não diagnostica síndrome compartimental nem define a indicação cirúrgica.
Mioglobina e urina
Urina escura com fita positiva para sangue e sedimento sem hemácias sugere mioglobinúria. Orienta a hidratação, não a cirurgia.
Lactato
Elevação pode acompanhar quadros graves e não traumáticos, mas o desempenho como teste diagnóstico é limitado.
Eletrólitos e função renal
Essenciais no manejo: hipercalemia, hiperfosfatemia, hipocalcemia, acidose e lesão renal aguda acompanham a rabdomiólise.
Nenhum biomarcador sérico deve ser usado para decidir sobre a fasciotomia. A decisão é clínica e, quando necessário, apoiada na pressão intracompartimental.
Em 30 segundos
O essencial de conduta
Remova tudo o que é circunferencial até a pele e reavalie em até 30 minutos.
Membro na altura do coração, sem elevar; corrija a hipotensão; acione a cirurgia informando o horário de início.
Fasciotomia ampla, liberando todos os compartimentos do segmento — na perna, duas incisões e quatro compartimentos é o padrão do BOAST.
Diante de dano irreversível estabelecido, a fasciotomia deixa de ser indicada: suporte e discussão franca.
Medidas imediatas — antes da sala
Enquanto a equipe cirúrgica é acionada, algumas medidas podem reverter ou atenuar o quadro. Custam minutos e nada mais.
REMOVA tudo o que for circunferencial
Gesso, tala, curativo, faixa, atadura — abra até a pele, em toda a extensão, em ambos os lados. Reavalie em até 30 minutos ().
Membro na altura do coração
Não eleve: a elevação reduz a pressão arterial local e piora o delta P.
Corrija a hipotensão
A diastólica baixa é inimiga direta da perfusão do compartimento.
Oxigênio e analgesia
Ofereça oxigênio se houver hipoxemia e mantenha analgesia adequada, registrando o consumo.
Acione a ortopedia ou a cirurgia imediatamente
Informe o horário do início dos sintomas; o diagnóstico deve ser seguido de descompressão imediata.
Colha exames
Hemograma, função renal, eletrólitos, cálcio, fósforo, CPK, gasometria e urina.
Hidrate se houver suspeita de rabdomiólise
Inicie com controle de diurese.
Reavalie e documente
Em intervalos curtos, cada avaliação com horário.
Não eleve o membro
É um erro comum e intuitivo: elevar reduz o edema em outras situações, mas aqui diminui a pressão arterial local e piora a isquemia. Mantenha ao nível do coração (von Keudell, Lancet 2015). Atenção à divergência: o BOAST britânico (atualização de julho de 2025) diz literalmente que, após abrir os curativos, o membro deve ser "elevado" e reavaliado em 30 minutos. Pela fisiologia do delta P, a conduta mais segura continua sendo não ultrapassar a altura do coração.
Fasciotomia — princípios
É o único tratamento definitivo. O princípio é sempre o mesmo: descompressão completa de todos os compartimentos do segmento, por incisões amplas, com abertura da pele e da fáscia.
Amplitude: incisões extensas, ao longo de todo o compartimento. Incisões curtas são a causa mais frequente de descompressão inadequada.
Completude: liberar todos os compartimentos do segmento, mesmo os aparentemente menos tensos. O que importa é a descompressão completa, mais do que a escolha da técnica.
Pele: a pele também é constritiva — a fasciotomia subcutânea isolada, sem abertura cutânea, tende a ser insuficiente em pressões elevadas.
Avaliação muscular: cor, consistência, contratilidade e sangramento orientam a ressecção de tecido inviável.
Ferida aberta: curativo estéril ou terapia por pressão negativa, com reavaliação programada em 48 a 72 horas (o BOAST pede reexploração em até 72 h e discussão com a cirurgia plástica nas primeiras 24 h).
Fechamento: por aproximação progressiva, sutura tardia ou enxertia cutânea, conforme a evolução do edema.
Estabilização óssea: fraturas associadas devem ser estabilizadas, frequentemente com fixador externo na fase aguda.
Abordagem por segmento
Segmento
Técnica habitual
Pontos de atenção
Perna
Duas incisões (lateral e medial) liberando os quatro compartimentos — técnica recomendada pelo BOAST — ou incisão lateral única com acesso aos quatro.
Proteger o nervo fibular superficial na incisão lateral e a veia safena magna e o nervo safeno na medial. Confirmar a liberação do posterior profundo, frequentemente esquecido.
Antebraço
Incisão volar curvilínea (tipo Henry estendida) associada, quando necessário, a incisão dorsal.
Descomprimir também o túnel do carpo e o lacerto fibroso. Planejar cobertura do nervo mediano e das estruturas vasculares.
Coxa
Incisão lateral única liberando os compartimentos anterior e posterior; incisão medial adicional para o compartimento dos adutores, se necessário.
Grande volume muscular e sangramento importante — antecipe necessidade transfusional.
Braço
Incisões anterior e posterior conforme os compartimentos acometidos.
Atenção ao trajeto do nervo radial.
Mão
Incisões dorsais para os interósseos, com liberação das eminências tenar e hipotenar e do túnel do carpo, quando indicado.
Resultado funcional depende de descompressão precoce e de reabilitação da mão.
Pé
Incisões dorsais e, quando indicado, medial.
Indicação mais controversa: pondere o risco de complicações de ferida contra o benefício funcional.
A escolha entre uma ou duas incisões é menos importante do que garantir a descompressão completa de todos os compartimentos — princípio reafirmado nas diretrizes atuais (AAOS 2018; BOAST 2025, que prefere duas incisões na perna).
Rotas de tratamento
Condutas — como usar os cards: cada rota abre o detalhamento — indicação, técnica ou posologia, alvo e cuidados; o botão "Ver detalhes" abre a ficha completa. Do reconhecimento à sala: medidas que qualquer plantonista pode e deve executar, e o que esperar do tempo cirúrgico e do pós-operatório. Confira sempre o protocolo institucional e a apresentação disponível no seu serviço.
Quando esta rota entraToda suspeita de síndrome compartimental, ao mesmo tempo em que a cirurgia é acionada.
Medidas imediatas (todas)3 esquemas
Indicação
Dose
Frequência
Duração
Observações
1ª escolhaRetirada de constritores
Abrir até a pele, em toda a extensão
Imediata
Reavaliar em até 30 min
Gesso bivalvado com algodão e malha abertos; refazer imobilização não circunferencial.
PadrãoPosição do membro
Na altura do coração
Contínua
Até a descompressão
Nunca acima do coração: reduz a pressão arterial local.
PadrãoCorrigir a hipotensão
Conforme a causa (volume, hemocomponentes)
Imediata
Até PAD adequada
A diastólica baixa derruba o delta P.
Quando esta rota entraQuadro clínico evolutivo, delta P ≤ 30 mmHg ou PIC absoluta muito elevada — sem dano irreversível estabelecido.
Por segmento2 esquemas
Indicação
Dose
Frequência
Duração
Observações
PadrãoFasciotomia da perna
Quatro compartimentos
Duas incisões (lateral + medial)
Reabordagem em 48–72 h
Erro clássico: esquecer o posterior profundo.
PadrãoFasciotomia do antebraço
Volar ± dorsal ± móvel lateral
Henry estendida + túnel do carpo
Reabordagem em 48–72 h
Evitar a contratura de Volkmann.
Depois da descompressão1 esquema
Indicação
Dose
Frequência
Duração
Observações
PadrãoManejo da ferida
Curativo estéril ou pressão negativa
Reexploração em até 72 h
Até o fechamento
Discutir com a cirurgia plástica em 24 h (BOAST).
Quando esta rota entraPerioperatório de toda fasciotomia, síndrome do esmagamento e rabdomiólise; tratar já diante de alteração no ECG.
Prevenir a lesão renal1 esquema
Indicação
Dose
Via / velocidade
Duração
Observações
1ª escolhaCristaloide isotônico
10–15 mL/kg/h nas primeiras horas
EV contínuo; no adulto de 70 kg ≈ 700–1.000 mL/h
Titular para diurese 200–300 mL/h
No esmagamento: SF 0,9% ≈ 1 L/h antes e durante a extricação.
Hipercalemia com alteração no ECG5 esquemas
Indicação
Dose
Via / velocidade
Duração
Observações
1ª escolhaGluconato de cálcio 10%
30 mL (3 g)
EV em 10 min
Efeito 30–60 min; repetir se persistir
Estabiliza membrana; não baixa o potássio.
1ª escolhaInsulina regular + glicose
10 U + 25 g de glicose
EV em 15 min
Efeito 4–6 h
Glicemia seriada por 6 h.
AdjuvanteSalbutamol nebulizado
10–20 mg
Nebulização
Efeito 4–6 h
Junto com a insulina, nunca isolado.
Só com acidoseBicarbonato de sódio 8,4%
Conforme o déficit
EV, via separada do cálcio
Horas
Papel limitado e não consensual.
ResgateDiálise
—
Urgência
—
Hipercalemia refratária, acidose grave, sobrecarga ou uremia.
Antecipe: avise a equipe da sala e da terapia intensiva de que o pico de potássio ocorre logo após a liberação do compartimento.
Quando esta rota entraQueimadura circunferencial de membro com perfusão comprometida, ou de tórax com restrição ventilatória.
Descompressão da pele1 esquema
Indicação
Dose
Frequência
Duração
Observações
PadrãoEscarotomia
Toda a espessura da escara
Linhas médio-lateral e médio-medial
Reavaliar perfusão/ventilação
Fasciotomia adicional se compartimento profundo (lesão elétrica).
Apresentação tardia — decisão difícil
Quando o paciente chega muitas horas ou dias após o início, com músculo já necrosado, insensibilidade e paralisia estabelecidas, a fasciotomia deixa de ser benéfica: abre uma ferida enorme sobre tecido inviável, com risco elevado de infecção, sepse e amputação.
Quando não operar
Evidência de dano neuromuscular irreversível: anestesia completa, paralisia estabelecida, ausência de contratilidade muscular e apresentação muito tardia. É opinião de especialistas (AAOS 2018) que a fasciotomia não está indicada nesse cenário.
O que fazer então
Suporte clínico, tratamento agressivo da rabdomiólise, vigilância de infecção e discussão franca com o paciente e a família — inclusive sobre a possibilidade de amputação.
Zona cinzenta
Quando há dúvida sobre a viabilidade, a decisão é individualizada, com exploração cirúrgica e avaliação direta do músculo.
Documentação
Registre o horário de início, os achados de cada reavaliação e o raciocínio que sustentou a decisão — é um cenário de alta exposição médico-legal.
Em 30 segundos
O essencial de rabdomiólise
A necrose muscular libera mioglobina, potássio, fosfato, ácido úrico e CPK: lesão renal aguda e hipercalemia são as ameaças.
Hidratação precoce com cristaloide é a única medida preventiva com respaldo; comece antes do resultado da CPK.
Bicarbonato, manitol e diuréticos não são recomendados de rotina para prevenir a lesão renal (DASAIM/DSIT 2019).
Monitorização cardíaca contínua no perioperatório: o potássio pode subir de forma abrupta após a descompressão.
Rabdomiólise — a complicação sistêmica
A necrose muscular libera na circulação mioglobina, potássio, fosfato, ácido úrico e creatinoquinase. As consequências são lesão renal aguda, hipercalemia com risco de arritmia, hipocalcemia, hiperfosfatemia, acidose metabólica e coagulopatia.
Diagnóstico
CPK elevada — habitualmente considerada significativa acima de cerca de 5 vezes o limite superior da normalidade, com risco renal crescente em valores muito altos.
Urina
Escurecida, com fita positiva para sangue e sedimento sem hemácias — o padrão sugestivo de mioglobinúria.
Hipercalemia
A complicação mais letal na fase aguda: monitorização cardíaca contínua e tratamento imediato diante de alterações no eletrocardiograma.
Lesão renal
Por vasoconstrição, obstrução tubular por cilindros e toxicidade direta da mioglobina. A hidratação precoce é a principal prevenção.
Após a fasciotomia e a reperfusão, a liberação sistêmica de potássio e de mediadores pode ser abrupta. Mantenha monitorização cardíaca contínua no perioperatório.
Potássio na reperfusão: o que o monitor mostra
Do primeiro sinal à forma grave — o salto pode ocorrer em minutos após a descompressão.
Hipercalemia inicial
Primeira alteração: ondas T altas, estreitas e simétricas, melhor vistas nas precordiais.
Onda T apiculada, de base estreita
QRS ainda estreito
Ritmo sinusal preservado
Hipercalemia grave
Perda da onda P e alargamento do QRS — indicação imediata de cálcio EV.
Ausência de onda P
QRS largo e bizarro
Frequência baixa (≈ 60 bpm)
Traçados esquemáticos gerados por computador (25 mm/s, 10 mm/mV) para estudo e comparação. Confirme sempre no ECG de 12 derivações do paciente.
Calculadora — hidratação inicial na rabdomiólise
A hidratação precoce e vigorosa é a medida mais eficaz para prevenir a lesão renal. Uma abordagem descrita é iniciar cristaloide isotônico em torno de 10–15 mL/kg/h nas primeiras horas (com bolus inicial em muitos protocolos), titulando para diurese de 200–300 mL/h no adulto (≈ 1–3 mL/kg/h) e reduzindo conforme a resposta. Soro fisiológico e Ringer lactato são aceitáveis; no esmagamento com potássio alto, prefira o SF 0,9%, sem potássio.
Volume por peso • alvo de diurese
Infusão (mL/h) = peso × taxa; volume em 6 h = infusão × 6. Exemplo: 70 kg × 10 mL/kg/h = 700 mL/h → 4.200 mL em 6 horas. Diurese-alvo: 200 mL/h (alvo mínimo usual no adulto), 300 mL/h (alvo mais agressivo) ou 2 mL/kg/h (referência por peso — 140 mL/h em 70 kg).
Hidratação inicial por peso
Digite o peso: a calculadora mostra a infusão horária para cada taxa e a diurese-alvo por peso.
Cristaloide 10 mL/kg/hTaxa inicial habitual
—
Cristaloide 15 mL/kg/hTaxa inicial mais agressiva
—
Volume em 6 horas (10 mL/kg/h)60 mL/kg
—
Diurese-alvo por peso2 mL/kg/h
—
Ferramenta de apoio. Titule pela diurese, pela hemodinâmica e pela tolerância: reduza a taxa em cardiopatas, nefropatas, idosos e diante de sinais de congestão. Monitorize eletrólitos, cálcio, fósforo, função renal e balanço hídrico de forma seriada. Alcalinização urinária e manitol não são recomendados de rotina.
Erros clássicos: esperar o pulso sumir, elevar o membro e confiar numa medida isolada.
Síndrome compartimental abdominal
Mesmo princípio fisiopatológico em outra cavidade. Define-se hipertensão intra-abdominal como pressão intra-abdominal sustentada igual ou superior a 12 mmHg, e síndrome compartimental abdominal como pressão sustentada acima de 20 mmHg associada a nova disfunção orgânica (WSACS 2013).
Graduação
Pressão intra-abdominal
Repercussão
Normal
5–7 mmHg no adulto crítico
Sem repercussão.
Grau I
12–15 mmHg
Início da hipertensão intra-abdominal; medidas clínicas de otimização.
Grau II
16–20 mmHg
Vigilância estreita e escalonamento das medidas clínicas.
Grau III
21–25 mmHg
Risco elevado de disfunção orgânica; considerar descompressão.
Grau IV
> 25 mmHg
Descompressão cirúrgica na presença de disfunção orgânica.
Pressão de perfusão abdominal: PPA = PAM − PIA. Assim como no membro, o que importa não é apenas a pressão da cavidade, e sim o gradiente de perfusão. Valores em torno de 60 mmHg são citados como alvo de ressuscitação em pacientes com hipertensão intra-abdominal.
Calculadora — pressão de perfusão abdominal
A pressão intra-abdominal é medida preferencialmente pela via intravesical, com o paciente em decúbito dorsal, ao final da expiração, com a musculatura abdominal relaxada, instilando um volume pequeno de solução salina (até 25 mL) e zerando o transdutor na linha axilar média, ao nível da crista ilíaca.
PPA = PAM − PIA • graduação da HIA
PAM estimada = PAD + (PAS − PAD) / 3. Exemplo: PAS 110 e PAD 62 → PAM = 62 + 48/3 = 78 mmHg; com PIA de 22 mmHg → PPA = 78 − 22 = 56 mmHg (abaixo de 60: otimize a perfusão) e PIA em grau III. Use a calculadora abaixo para a PAM e subtraia a PIA.
PAM (para calcular a PPA)
Calcule a PAM e subtraia a PIA. O índice de choque ajuda a ler a hemodinâmica do paciente crítico.
PAM (mmHg)—
Índice de choque—
Leitura hemodinâmica—
PPA = PAM − PIA; alvo em torno de 60 mmHg.
Graduar a pressão intra-abdominal
Escolha a faixa da PIA medida e da PPA calculada.
Informe a pressão intra-abdominal para ver a graduação.
Ferramenta de apoio. A síndrome compartimental abdominal exige pressão sustentada acima de 20 mmHg associada a nova disfunção orgânica — o número isolado não fecha o diagnóstico. Uma única medida elevada deve ser confirmada com medidas seriadas.
Manejo da hipertensão intra-abdominal
O manejo segue a mesma lógica da equação: reduzir o conteúdo da cavidade, aumentar a complacência da parede e sustentar a perfusão. As medidas clínicas vêm primeiro e são escalonadas conforme o grau; a laparotomia descompressiva com abdome aberto fica para a síndrome compartimental abdominal estabelecida e refratária a elas — e, depois dela, é preciso vigiar perdas volêmicas, hipotermia, fístula e planejar o fechamento definitivo.
Esvaziar o conteúdo luminal: sonda gástrica, sonda retal, procinéticos e suspensão de dieta enteral quando necessário.
Drenar coleções: ascite, hematoma ou abscesso, por via percutânea quando viável.
Melhorar a complacência da parede: analgesia, sedação adequada, decúbito com cabeceira até 30° e, em casos selecionados, bloqueio neuromuscular.
Otimizar o balanço hídrico: evitar sobrecarga, considerar balanço negativo e ultrafiltração conforme a condição.
Sustentar a perfusão: manter a PPA com pressão arterial adequada, sem inundar o paciente de volume.
Quando o paciente não consegue contar a dor: criança e sedado
O diagnóstico clínico depende da dor desproporcional e da dor ao estiramento passivo — e esses dois grupos não as relatam de forma confiável. A criança expressa a isquemia pelos "3 A": agitação, ansiedade e necessidade crescente de analgesia, e a fratura supracondiliana de úmero é o cenário clássico. No politraumatizado sedado, o exame não é confiável e o quadro pode passar despercebido por horas.
Criança
Vigilância intensiva, limiar baixo para medida de pressão e para exploração cirúrgica.
Politraumatizado sedado
Medida de pressão repetida ou contínua nos membros de risco; inclua a inspeção dos compartimentos na avaliação diária.
Queimado e lesão elétrica
No queimado, a escara circunferencial atua como um continente rígido, e a própria ressuscitação volêmica agrava o edema: a precoce resolve a restrição da pele, e a fasciotomia entra se houver acometimento de compartimento profundo. Na lesão elétrica, o dano muscular profundo é desproporcional à lesão cutânea, com rabdomiólise intensa — a pele engana.
Lesão elétrica: alto índice de suspeição, monitorização de CPK e limiar baixo para exploração — a escarotomia isolada costuma não bastar.
Anticoagulado e esmagamento
No anticoagulado, o sangramento intracompartimental pode ser espontâneo ou surgir após trauma banal, então o limiar de suspeita é baixo: reverta a anticoagulação (guia de reversão) e peça avaliação cirúrgica precoce. No esmagamento e no soterramento, o perigo maior está no momento da extricação: a síndrome do esmagamento cursa com rabdomiólise maciça e liberação abrupta de potássio quando o membro é liberado.
Hidrate antes de liberar
Hidratação antes da liberação do membro quando possível — SF 0,9% em torno de 1 L/h no adulto (10–15 mL/kg/h), evitando soluções com potássio —, monitorização cardíaca e preparo para hipercalemia grave (recomendações ISN/ERA para vítimas de esmagamento).
Acidente ofídico e litotomia prolongada
São dois extremos opostos de erro. No acidente ofídico, edema volumoso é regra, mas a síndrome compartimental verdadeira é bem menos frequente do que se imagina — o risco é operar sem necessidade. Na posição de litotomia prolongada ("well-leg"), o membro sadio fica elevado por horas em cirurgia pélvica longa e a síndrome surge no pós-operatório, muitas vezes mascarada pela analgesia — o risco é não pensar nela.
Acidente ofídico
Soro antiveneno é o tratamento principal; medida de pressão antes de indicar fasciotomia, evitando cirurgia desnecessária.
Litotomia prolongada
Não manter as pernas elevadas por mais de 4 horas seguidas — baixá-las abaixo do nível do coração por pelo menos 15 minutos a cada 4 horas — e examinar as pernas no pós-operatório (diretriz multidisciplinar, BJS 2019).
Erros comuns
A maioria dos erros nasce de esperar por sinais tardios ou por um número que confirme o que a clínica já mostra. Ausência de pulso, CPK alta e paralisia aparecem quando o músculo já está perdido; o que salva o membro é a reavaliação seriada com horário registrado, a decisão precoce pela fasciotomia e uma fasciotomia completa, sem esquecer a rabdomiólise e o potássio depois dela.
Esperar a ausência de pulso para considerar o diagnóstico.
Elevar o membro acima do nível do coração.
Examinar o membro sem retirar gesso, tala ou curativo circunferencial.
Confiar em uma única medida normal de pressão intracompartimental.
Usar CPK ou lactato para decidir sobre a fasciotomia.
Indicar bloqueio regional em membro de risco sem discutir com a equipe.
Fazer incisões curtas ou deixar um compartimento sem liberar.
Não reavaliar em intervalos curtos e não registrar horários.
Atribuir a dor apenas à fratura e aumentar o opioide sem reexaminar.
Operar um membro com dano irreversível estabelecido, sem discussão de risco e benefício.
Esquecer a rabdomiólise e a hidratação precoce.
Não monitorizar o eletrocardiograma no perioperatório, quando o potássio pode subir abruptamente.
Resumo do fluxo
O fluxo inteiro gira em torno de uma decisão de tempo: a fasciotomia indicada pela clínica evolutiva ou por um delta P baixo, sem esperar sinais tardios. Os passos antes dela servem para não perder o diagnóstico e não piorar a perfusão; os depois, para não perder o paciente para a rabdomiólise.
Identifique o paciente de risco pelo mecanismo e pela lesão.
Retire tudo o que for circunferencial e mantenha o membro na altura do coração.
Examine cada compartimento, com estiramento passivo dirigido, e registre com horário.
Corrija a hipotensão — ela reduz o delta P.
Decisão
Quadro clínico evolutivo ou delta P ≤ 30 mmHg: acione a cirurgia para fasciotomia imediata.
No paciente não avaliável, monitorize a pressão intracompartimental de forma repetida ou contínua.
Faça a fasciotomia ampla, liberando todos os compartimentos do segmento.
Trate a rabdomiólise com hidratação precoce e vigilância de potássio e função renal.
Referências bibliográficas
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Ferramenta de apoio à decisão clínica, de caráter educacional. Não substitui a avaliação médica presencial, o julgamento clínico, os protocolos institucionais nem a consulta às bulas. Doses, diluições e velocidades de infusão devem ser conferidas antes da administração. Limiares, doses e condutas cirúrgicas devem ser sempre conferidos antes da aplicação; em caso de divergência, prevalecem os protocolos institucionais do seu serviço e as bulas vigentes.
Ver fatores de risco
Quando suspeitar
A fratura de tíbia é a causa isolada mais frequente, seguida por fratura de antebraço, esmagamento, lesão vascular com reperfusão, queimadura, lesão elétrica e compressão prolongada em paciente encontrado caído. Gesso, tala e curativos circunferenciais são causas iatrogênicas imediatamente reversíveis.
Homens jovens, pacientes anticoagulados ou coagulopatas e pacientes hipotensos têm risco aumentado. Atenção: a fratura fechada não protege, e pode inclusive ser mais perigosa que a exposta, porque a fáscia permanece íntegra.
Fratura de tíbia
Principal causa; diafisária e platô tibial.
Reperfusão
Após isquemia arterial prolongada.
Gesso apertado
Causa iatrogênica e reversível.
Ver quadro clínico
Reconhecer o quadro
Os sinais aparecem em sequência. Precoces e úteis: dor desproporcional ao achado, progressiva e com necessidade crescente de analgésico; dor ao estiramento passivo da musculatura do compartimento, que é o sinal mais sensível; e compartimento tenso e doloroso à palpação. Intermediário: parestesia no território do nervo que atravessa o compartimento.
Tardios e inúteis para o diagnóstico precoce: paralisia, palidez e ausência de pulso. A presença de pulso distal palpável é a regra na síndrome compartimental — jamais use sua presença para afastar o diagnóstico.
Dor + estiramento
Precoce e útil.
Compartimento tenso
Precoce.
Parestesia
Ainda reversível.
Paralisia, sem pulso
Tarde demais.
Ver medida de pressão
Medir a pressão intracompartimental
O diagnóstico é clínico; a medida é um auxílio, indispensável quando o exame não é confiável — paciente sedado, intubado, com rebaixamento, intoxicado, com lesão medular, sob bloqueio regional ou criança pequena. Calcule a pressão diferencial, ou delta P, subtraindo a pressão intracompartimental da pressão arterial diastólica aferida no mesmo momento. Delta P igual ou inferior a 30 mmHg indica fasciotomia.
Meça até 5 centímetros do foco da fratura, avalie todos os compartimentos do segmento e lembre que uma única medida normal não exclui o diagnóstico: medidas repetidas ou contínuas têm desempenho muito superior.
Delta P = PAD − PIC. Ex.: PAD 70 e PIC 45 → delta P 25 mmHg → fasciotomia.
Ver conduta
Descomprimir
Antes da sala, remova tudo que for circunferencial — gesso, tala, curativo e ataduras — abrindo até a pele em toda a extensão, e reavalie em até 30 minutos. Posicione o membro na altura do coração e nunca elevado acima dele, porque a elevação reduz a pressão arterial local e piora o gradiente de perfusão. Corrija a hipotensão, já que a diastólica baixa derruba o delta P.
O tratamento definitivo é a fasciotomia ampla, com abertura da pele e da fáscia e descompressão completa de todos os compartimentos do segmento. Em paralelo, previna e trate a rabdomiólise com hidratação precoce e vigilância de potássio e função renal.
Abrir o gesso
Até a pele.
Altura do coração
Corrigir a PA.
Fasciotomia
Todos os compartimentos.
Rabdomiólise
Volume e potássio.
Medida imediata (procedimento à beira do leito)
Retirada de constritores
Gesso, tala, ataduras e curativos circunferenciais
Gesso circularAbrir (bivalvar) em toda a extensão · Imediato · Reavaliar em até 30 min
Papel no tratamento
Primeira medida, executável por qualquer plantonista em minutos. Em parte dos casos, reverte completamente o quadro.
Ficha de consulta rápida
Classe
Medida imediata (procedimento à beira do leito)
Apresentação
Gesso, tala, ataduras e curativos circunferenciais
Posologia principal
Abrir (bivalvar) em toda a extensão · Imediato · Reavaliar em até 30 min
Atenção neste contexto
Nunca examine um compartimento através do gesso ou do curativo. Retire primeiro, examine depois.
Esquemas de uso1 esquema
Indicação
Dose
Frequência
Duração
Observações
Gesso circular
Abrir (bivalvar) em toda a extensão
Imediato
Reavaliar em até 30 min
Nos dois lados, incluindo o algodão e a malha — o gesso apenas cortado sem abrir o acolchoamento continua constritivo.
Como administrar
Gesso circular
Abrir (bivalvar) em toda a extensão, nos dois lados, incluindo o algodão e a malha — o gesso apenas cortado sem abrir o acolchoamento continua constritivo.
Tala e ataduras
Remover completamente; refazer a imobilização de forma não circunferencial.
Curativo compressivo
Retirar e substituir por curativo frouxo.
Efeito esperado
A abertura do gesso reduz de forma significativa a pressão intracompartimental — reavalie logo após (BOAST: em até 30 minutos).
Posição
Membro na altura do coração; não elevar.
Reavaliação
Exame clínico completo imediatamente após, com registro de horário.
Se não melhorar
Persistindo o quadro após a retirada, considere medida de pressão e acione a cirurgia.
Procedimento cirúrgico — descompressão dos quatro compartimentos
Fasciotomia da perna
Centro cirúrgico; compartimentos anterior, lateral, posterior superficial e posterior profundo
Técnica de duas incisõesLateral + medial · Quatro compartimentos · Reabordagem em 48–72 h
Papel no tratamento
Segmento mais frequentemente acometido. O objetivo é liberar os quatro compartimentos — anterior, lateral, posterior superficial e posterior profundo.
Ficha de consulta rápida
Classe
Procedimento cirúrgico — descompressão dos quatro compartimentos
Apresentação
Centro cirúrgico; compartimentos anterior, lateral, posterior superficial e posterior profundo
Posologia principal
Lateral + medial · Quatro compartimentos · Reabordagem em 48–72 h
Atenção neste contexto
O que define o sucesso não é a escolha entre uma ou duas incisões, e sim a descompressão completa de todos os compartimentos.
Esquemas de uso1 esquema
Indicação
Dose
Frequência
Duração
Observações
Técnica de duas incisões
Lateral + medial
Quatro compartimentos
Reabordagem em 48–72 h
Técnica recomendada pelo BOAST (2025) para a perna.
Como administrar
Técnica de duas incisões
Incisão lateral (libera anterior e lateral) e incisão medial (libera posterior superficial e profundo), com ponte cutânea adequada entre elas. É a técnica recomendada pelo BOAST.
Técnica de incisão única
Incisão lateral ampla com acesso aos quatro compartimentos — alternativa descrita, com relatos de menor taxa de infecção em alguns cenários.
Extensão
Incisões amplas, ao longo de todo o compartimento; incisões curtas são causa frequente de descompressão insuficiente.
Erro clássico
Deixar o compartimento posterior profundo sem liberar — confirme explicitamente.
Avaliação muscular
Cor, consistência, contratilidade e sangramento orientam a ressecção de tecido inviável.
Após a cirurgia
Ferida aberta com curativo estéril ou terapia por pressão negativa; reabordagem em 48–72 horas.
Monitoramento
Estrutura em risco (lateral)
Nervo fibular superficial, que emerge da fáscia no terço distal — identifique e proteja.
Estrutura em risco (medial)
Veia safena magna e nervo safeno; a incisão fica cerca de 1–2 cm posterior à borda medial da tíbia.
Como administrar
Técnica de duas incisões
Incisão lateral (libera anterior e lateral) e incisão medial (libera posterior superficial e profundo), com ponte cutânea adequada entre elas. É a técnica recomendada pelo BOAST.
Técnica de incisão única
Incisão lateral ampla com acesso aos quatro compartimentos — alternativa descrita, com relatos de menor taxa de infecção em alguns cenários.
Extensão
Incisões amplas, ao longo de todo o compartimento; incisões curtas são causa frequente de descompressão insuficiente.
Erro clássico
Deixar o compartimento posterior profundo sem liberar — confirme explicitamente.
Avaliação muscular
Cor, consistência, contratilidade e sangramento orientam a ressecção de tecido inviável.
Após a cirurgia
Ferida aberta com curativo estéril ou terapia por pressão negativa; reabordagem em 48–72 horas.
Procedimento cirúrgico — volar, dorsal e túnel do carpo
Fasciotomia do antebraço
Centro cirúrgico; compartimentos volar, dorsal e móvel lateral
Compartimento volarIncisão curvilínea tipo Henry estendida · Do cotovelo ao punho · Reabordagem em 48–72 h
Papel no tratamento
Objetivo é evitar a contratura isquêmica de Volkmann, que produz perda funcional definitiva da mão.
Ficha de consulta rápida
Classe
Procedimento cirúrgico — volar, dorsal e túnel do carpo
Apresentação
Centro cirúrgico; compartimentos volar, dorsal e móvel lateral
Posologia principal
Incisão curvilínea tipo Henry estendida · Do cotovelo ao punho · Reabordagem em 48–72 h
Atenção neste contexto
Em criança com fratura supracondiliana de úmero, mantenha índice de suspeição alto: é o cenário clássico de Volkmann.
Esquemas de uso1 esquema
Indicação
Dose
Frequência
Duração
Observações
Compartimento volar
Incisão curvilínea tipo Henry estendida
Do cotovelo ao punho
Reabordagem em 48–72 h
Libera a fáscia superficial e profunda; associar incisão dorsal se necessário.
Como administrar
Compartimento volar
Incisão curvilínea ampla (tipo Henry estendida), do cotovelo ao punho, liberando a fáscia superficial e profunda.
Lacerto fibroso
Liberar na região do cotovelo — ponto de constrição frequentemente esquecido.
Túnel do carpo
Descomprimir no mesmo tempo cirúrgico quando houver acometimento distal.
Compartimento dorsal
Incisão dorsal adicional quando o compartimento permanecer tenso após a liberação volar.
Compartimento móvel lateral
Liberar quando envolvido.
Mão associada
Considerar liberação dos interósseos e das eminências tenar e hipotenar se houver acometimento.
Pós-operatório
Posicionamento funcional, reabilitação precoce e acompanhamento da mão.
Monitoramento
Estruturas em risco
Nervos mediano e ulnar e artéria radial — planeje cobertura de partes moles para protegê-los.
Como administrar
Compartimento volar
Incisão curvilínea ampla (tipo Henry estendida), do cotovelo ao punho, liberando a fáscia superficial e profunda.
Lacerto fibroso
Liberar na região do cotovelo — ponto de constrição frequentemente esquecido.
Túnel do carpo
Descomprimir no mesmo tempo cirúrgico quando houver acometimento distal.
Compartimento dorsal
Incisão dorsal adicional quando o compartimento permanecer tenso após a liberação volar.
Compartimento móvel lateral
Liberar quando envolvido.
Mão associada
Considerar liberação dos interósseos e das eminências tenar e hipotenar se houver acometimento.
Pós-operatório
Posicionamento funcional, reabilitação precoce e acompanhamento da mão.
Crianças
Em criança com fratura supracondiliana de úmero, mantenha índice de suspeição alto: é o cenário clássico de Volkmann.
Papel neste contexto
Objetivo é evitar a contratura isquêmica de Volkmann, que produz perda funcional definitiva da mão.
Cuidados pós-operatórios — curativo, reabordagem e fechamento
Manejo da ferida de fasciotomia
Curativo estéril úmido ou terapia por pressão negativa
ReabordagemProgramada em 48–72 h · Reavaliar viabilidade e desbridar · Até o fechamento
Papel no tratamento
As feridas são amplas e permanecem abertas por dias. O manejo define o risco de infecção e o resultado estético e funcional.
Ficha de consulta rápida
Classe
Cuidados pós-operatórios — curativo, reabordagem e fechamento
Apresentação
Curativo estéril úmido ou terapia por pressão negativa
Posologia principal
Programada em 48–72 h · Reavaliar viabilidade e desbridar · Até o fechamento
Atenção neste contexto
Registre em prontuário a viabilidade muscular observada em cada tempo cirúrgico — é informação prognóstica e médico-legal.
Esquemas de uso1 esquema
Indicação
Dose
Frequência
Duração
Observações
Reabordagem
Programada em 48–72 h
Reavaliar viabilidade e desbridar
Até o fechamento
BOAST: discutir com a cirurgia plástica nas primeiras 24 h e reexplorar em até 72 h.
Como administrar
Curativo inicial
Curativo estéril úmido ou terapia por pressão negativa, que reduz o edema e facilita a aproximação progressiva das bordas.
Reabordagem
Programada em 48–72 horas para reavaliação da viabilidade muscular e desbridamento adicional.
Fechamento
Por aproximação progressiva (fios elásticos, técnicas de tração cutânea), sutura tardia ou enxerto de pele parcial.
Prazo
Quanto mais precoce o fechamento, menor o risco de infecção e melhor o resultado — sem forçar sob tensão.
Estabilização óssea
Fraturas associadas devem ser estabilizadas, frequentemente com fixador externo na fase aguda.
Reabilitação
Fisioterapia precoce para prevenir contraturas e recuperar amplitude de movimento.
Monitoramento
Monitoramento
Infecção, osteomielite, retardo de consolidação e perda funcional.
Como administrar
Curativo inicial
Curativo estéril úmido ou terapia por pressão negativa, que reduz o edema e facilita a aproximação progressiva das bordas.
Reabordagem
Programada em 48–72 horas para reavaliação da viabilidade muscular e desbridamento adicional.
Fechamento
Por aproximação progressiva (fios elásticos, técnicas de tração cutânea), sutura tardia ou enxerto de pele parcial.
Prazo
Quanto mais precoce o fechamento, menor o risco de infecção e melhor o resultado — sem forçar sob tensão.
Estabilização óssea
Fraturas associadas devem ser estabilizadas, frequentemente com fixador externo na fase aguda.
Reabilitação
Fisioterapia precoce para prevenir contraturas e recuperar amplitude de movimento.
Procedimento — descompressão da escara circunferencial
Escarotomia na queimadura
Bisturi ou eletrocautério; à beira do leito ou no centro cirúrgico
MembroIncisão em toda a espessura da escara · Linhas médio-lateral e médio-medial · Até o subcutâneo se afastar
Papel no tratamento
Na queimadura circunferencial de espessura total, a escara rígida funciona como um continente inelástico — o problema está na pele, não na fáscia.
Indicação em membro
Queimadura circunferencial com edema progressivo, perfusão distal comprometida, dor crescente ou perda de sinal ao doppler.
Indicação em tórax
Queimadura circunferencial torácica com restrição ventilatória, elevação das pressões de via aérea e dificuldade de ventilação.
Ficha de consulta rápida
Classe
Procedimento — descompressão da escara circunferencial
Apresentação
Bisturi ou eletrocautério; à beira do leito ou no centro cirúrgico
Posologia principal
Incisão em toda a espessura da escara · Linhas médio-lateral e médio-medial · Até o subcutâneo se afastar
Atenção neste contexto
Na lesão elétrica, o dano muscular profundo é desproporcional ao achado cutâneo: escarotomia isolada pode ser insuficiente.
Esquemas de uso1 esquema
Indicação
Dose
Frequência
Duração
Observações
Membro
Incisão em toda a espessura da escara
Linhas médio-lateral e médio-medial
Até o subcutâneo se afastar
Estender além das margens da escara, cruzando articulações quando necessário.
Como administrar
Técnica
Incisão longitudinal através de toda a espessura da escara, nas linhas médio-lateral e médio-medial do membro, até o tecido subcutâneo se afastar.
Extensão
Estender além das margens da escara, cruzando articulações quando necessário.
Escarotomia x fasciotomia
A escarotomia libera a pele; a fasciotomia pode ser necessária adicionalmente, sobretudo na lesão elétrica e no acometimento muscular profundo.
Anestesia
A escara de espessura total é insensível, mas as bordas não — providencie analgesia.
Hemostasia
Sangramento nas margens é esperado; controle com eletrocautério.
Solução de reposição volêmica
Cristaloide isotônico (SF 0,9% ou Ringer lactato)
Cloreto de sódio 0,9% e Ringer lactato — bolsas de 250, 500 e 1.000 mL
Evite soluções com potássio (Ringer) enquanto houver risco de hipercalemia (ISN/ERA).
Como administrar
Cálculo rápido
70 kg × 10 mL/kg/h = 700 mL/h; em 6 h, 4.200 mL. A 15 mL/kg/h: 1.050 mL/h.
Administração
Acesso calibroso; Ringer lactato ou SF 0,9% são aceitáveis — na hipercalemia, prefira SF 0,9%.
Contraindicações e quando evitar
Continuar volume vigoroso na anúria estabelecida sem resposta (pensar em diálise).
Efeitos adversos
Sobrecarga volêmica e edema pulmonar.
Acidose hiperclorêmica com grandes volumes de SF 0,9%.
Piora do edema compartimental com ressuscitação excessiva.
Monitoramento
Monitoramento
Diurese horária (sonda vesical), balanço hídrico, sinais de congestão, eletrólitos, cálcio, fósforo e função renal seriados.
Como administrar
Cálculo rápido
70 kg × 10 mL/kg/h = 700 mL/h; em 6 h, 4.200 mL. A 15 mL/kg/h: 1.050 mL/h.
Administração
Acesso calibroso; Ringer lactato ou SF 0,9% são aceitáveis — na hipercalemia, prefira SF 0,9%.
Idosos
Reduza a taxa em cardiopatas, nefropatas, idosos e diante de sinais de congestão.
Antes de prescrever, confira
Continuar volume vigoroso na anúria estabelecida sem resposta (pensar em diálise).
Efeitos adversos mais relevantes
Sobrecarga volêmica e edema pulmonar.
Acidose hiperclorêmica com grandes volumes de SF 0,9%.
Piora do edema compartimental com ressuscitação excessiva.
Papel neste contexto
Hidratação precoce e vigorosa é a medida mais eficaz para prevenir a lesão renal da rabdomiólise; também corrige a hipotensão que derruba o delta P.
Estabilizador de membrana (sal de cálcio)
Gluconato de cálcio 10%
Ampola 10 mL a 10% (1 g de gluconato ≈ 2,3 mmol de cálcio elementar)
Hipercalemia com ECG alterado30 mL (3 g) EV · Em 10 minutos · Efeito 30–60 min
Papel no tratamento
Primeira medida diante de hipercalemia com alteração no ECG após a reperfusão: protege o miocárdio, mas não reduz o potássio.
Quando usar
Hipercalemia com alteração eletrocardiográfica; hipocalcemia sintomática.
Ficha de consulta rápida
Classe
Estabilizador de membrana (sal de cálcio)
Apresentação
Ampola 10 mL a 10% (1 g de gluconato ≈ 2,3 mmol de cálcio elementar)
Posologia principal
30 mL (3 g) EV · Em 10 minutos · Efeito 30–60 min
Atenção neste contexto
Cálcio compra 30 a 60 minutos — associe insulina com glicose e programe a eliminação do potássio.
Antes de prescrever, confira
Repor cálcio na hipocalcemia assintomática da rabdomiólise: favorece deposição no músculo lesado.
IV lento1 esquema
Indicação
Dose
Frequência
Duração
Observações
Hipercalemia com ECG alterado
30 mL (3 g) EV
Em 10 minutos
Efeito 30–60 min
Repetir se as alterações persistirem após 5–10 min ou retornarem.
Como administrar
Velocidade
30 mL em 10 min = 3 mL/min (UKKA 2023). O esquema antigo de 10 mL em 2–5 min foi revisto por risco de subdose.
Diluição
Puro em veia periférica ou diluído em 50–100 mL de SG 5% ou SF 0,9%.
Administração
Não misturar com bicarbonato na mesma via (precipita). O cloreto de cálcio (10 mL a 10%) é alternativa na parada, de preferência em acesso central — o extravasamento causa necrose.
Digitálico
Cálcio com cautela em uso de digitálicos — administre diluído e lentamente.
Contraindicações e quando evitar
Repor cálcio na hipocalcemia assintomática da rabdomiólise: favorece deposição no músculo lesado.
Efeitos adversos
Bradicardia e arritmias se infundido rápido demais.
Flushing e sensação de calor.
Monitoramento
Monitoramento
ECG contínuo; repetir o ECG após a dose.
Como administrar
Velocidade
30 mL em 10 min = 3 mL/min (UKKA 2023). O esquema antigo de 10 mL em 2–5 min foi revisto por risco de subdose.
Diluição
Puro em veia periférica ou diluído em 50–100 mL de SG 5% ou SF 0,9%.
Administração
Não misturar com bicarbonato na mesma via (precipita). O cloreto de cálcio (10 mL a 10%) é alternativa na parada, de preferência em acesso central — o extravasamento causa necrose.
Digitálico
Cálcio com cautela em uso de digitálicos — administre diluído e lentamente.
Deslocador de potássio para o intracelular
Insulina regular com glicose
Insulina regular 100 U/mL; glicose 50% ampola 10 mL e glicose 10% bolsa
Hipercalemia10 U EV + 25 g de glicose · Em 15 minutos · Efeito 4–6 h; repetir se necessário
Papel no tratamento
Desloca o potássio liberado na reperfusão para dentro da célula; habitualmente com 25 g de glicose.
Quando dispensar a glicose
Glicemia acima de 250 mg/dL.
Ficha de consulta rápida
Classe
Deslocador de potássio para o intracelular
Apresentação
Insulina regular 100 U/mL; glicose 50% ampola 10 mL e glicose 10% bolsa
Posologia principal
10 U EV + 25 g de glicose · Em 15 minutos · Efeito 4–6 h; repetir se necessário
Antes de prescrever, confira
Usar sem plano para eliminar o potássio (diurese mantida ou diálise).
Efeitos adversos mais relevantes
Hipoglicemia (a complicação mais frequente).
IV1 esquema
Indicação
Dose
Frequência
Duração
Observações
Hipercalemia
10 U EV + 25 g de glicose
Em 15 minutos
Efeito 4–6 h; repetir se necessário
25 g = 50 mL de glicose 50% ou 250 mL de glicose 10%.
Como administrar
Início e duração
Efeito em 15 a 30 minutos; duração de 4 a 6 horas, com rebote.
Antes de prescrever, confira
Usar sem plano para eliminar o potássio (diurese mantida ou diálise).
Contraindicações e quando evitar
Usar sem plano para eliminar o potássio (diurese mantida ou diálise).
Efeitos adversos
Hipoglicemia (a complicação mais frequente).
Monitoramento
Monitoramento
Glicemia capilar seriada por 6 horas; potássio seriado.
Como administrar
Início e duração
Efeito em 15 a 30 minutos; duração de 4 a 6 horas, com rebote.
Papel neste contexto
Desloca o potássio liberado na reperfusão para dentro da célula; habitualmente com 25 g de glicose.
Beta-2 agonista (deslocador de potássio)
Salbutamol (nebulização)
Solução para nebulização 5 mg/mL
Hipercalemia10–20 mg · Nebulização (2–4 mL da solução 5 mg/mL) · Efeito 4–6 h
Papel no tratamento
Adjuvante da insulina no tratamento da hipercalemia de reperfusão, em dose alta.
Quando usar
Sempre associado à insulina com glicose, nunca como monoterapia na forma grave.
Ficha de consulta rápida
Classe
Beta-2 agonista (deslocador de potássio)
Apresentação
Solução para nebulização 5 mg/mL
Posologia principal
10–20 mg · Nebulização (2–4 mL da solução 5 mg/mL) · Efeito 4–6 h
Antes de prescrever, confira
Cautela em coronariopatia e taquiarritmias.
Efeitos adversos mais relevantes
Taquicardia, tremor.
Inalatória1 esquema
Indicação
Dose
Frequência
Duração
Observações
Hipercalemia
10–20 mg
Nebulização (2–4 mL da solução 5 mg/mL)
Efeito 4–6 h
4 a 8 vezes a dose da crise asmática.
Antes de prescrever, confira
Cautela em coronariopatia e taquiarritmias.
Contraindicações e quando evitar
Cautela em coronariopatia e taquiarritmias.
Efeitos adversos
Taquicardia, tremor.
Monitoramento
Monitoramento
Frequência cardíaca e ritmo.
Papel neste contexto
Adjuvante da insulina no tratamento da hipercalemia de reperfusão, em dose alta.
Alcalinizante
Bicarbonato de sódio 8,4%
Ampola 10 mL ou frasco 250 mL a 8,4% (1 mEq/mL)
Acidose metabólica com hipercalemiaConforme o déficit · EV, em via separada do cálcio · Guiado por gasometria
Papel no tratamento
Papel limitado e não consensual: considere apenas na acidose metabólica associada à hipercalemia. Não é recomendado para alcalinizar a urina na rabdomiólise.
Quando usar
Acidose metabólica associada; não de rotina.
Ficha de consulta rápida
Classe
Alcalinizante
Apresentação
Ampola 10 mL ou frasco 250 mL a 8,4% (1 mEq/mL)
Posologia principal
Conforme o déficit · EV, em via separada do cálcio · Guiado por gasometria
Antes de prescrever, confira
Alcalinização urinária de rotina na rabdomiólise (DASAIM/DSIT 2019).
Efeitos adversos mais relevantes
Hipernatremia, sobrecarga de volume, alcalose, queda do cálcio ionizado.
IV1 esquema
Indicação
Dose
Frequência
Duração
Observações
Acidose metabólica com hipercalemia
Conforme o déficit
EV, em via separada do cálcio
Guiado por gasometria
50 mEq em bolus apenas na parada por hipercalemia.
Como administrar
Administração
Não misturar com cálcio na mesma via.
Antes de prescrever, confira
Alcalinização urinária de rotina na rabdomiólise (DASAIM/DSIT 2019).
Contraindicações e quando evitar
Alcalinização urinária de rotina na rabdomiólise (DASAIM/DSIT 2019).
Efeitos adversos
Hipernatremia, sobrecarga de volume, alcalose, queda do cálcio ionizado.
Monitoramento
Monitoramento
Gasometria, sódio, cálcio ionizado.
Como administrar
Administração
Não misturar com cálcio na mesma via.
Papel neste contexto
Papel limitado e não consensual: considere apenas na acidose metabólica associada à hipercalemia. Não é recomendado para alcalinizar a urina na rabdomiólise.
Informações rápidas
Síndrome compartimental
Resumo
Delta P
PAD − pressão intracompartimental. Fasciotomia se ≤ 30 mmHg.
Janela
Fasciotomia em até 6 horas tem o melhor prognóstico funcional.
Sítio mais comum
Perna, compartimento anterior, após fratura de tíbia.
Posição
Membro na altura do coração — nunca elevado.
Abdominal
PIA > 20 mmHg com nova disfunção orgânica; PPA = PAM − PIA.
Não esqueça
Pulso engana
Pulso presente não exclui o diagnóstico.
Sinal precoce
Dor ao estiramento passivo é o sinal mais precoce.
A banca adora o paciente com fratura de tíbia, dor desproporcional e pulso presente — e a alternativa errada é sempre "aguardar a ausência de pulso" ou "elevar o membro".
Decore: delta P = PAD − PIC, com corte em 30 mmHg; dor ao estiramento passivo é o sinal mais precoce; o compartimento anterior da perna é o mais acometido.
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