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Emergência & UTI • Trauma

Síndrome compartimental

Síndrome compartimental aguda de membros • hipertensão intra-abdominal e síndrome compartimental abdominal

Emergência cirúrgica em que a pressão dentro de um compartimento fechado supera a pressão de perfusão e o músculo começa a morrer — com o pulso distal ainda presente. O diagnóstico é clínico, o relógio corre em horas e o tratamento é um só: fasciotomia ampla e precoce.

Dor desproporcionalDelta P ≤ 30 mmHgPulso presente não excluiFasciotomia é o tratamento
16 min de leitura Atualizado em outubro de 2026

Em 30 segundos

O essencial de visão geral

  1. Síndrome compartimental aguda é a pressão elevada num espaço osteofascial fechado a ponto de comprometer a perfusão do músculo e do nervo.
  2. É emergência cirúrgica: músculo e nervo toleram poucas horas de isquemia, e a fasciotomia em até 6 horas tem o melhor prognóstico.
  3. O pulso distal palpável é a regra — esperar que desapareça é esperar a amputação.
  4. O que define a perfusão é o delta P (PAD − pressão intracompartimental); por isso a hipotensão agrava o quadro.

O que é

Síndrome compartimental aguda é o aumento da pressão dentro de um espaço osteofascial fechado a ponto de comprometer a perfusão e a viabilidade dos tecidos daquele compartimento. A fáscia é praticamente inelástica: pequenos aumentos de volume — sangue, edema, líquido de reperfusão — produzem grandes aumentos de pressão.

É emergência cirúrgica. O tempo entre o início da isquemia e a descompressão determina o desfecho: músculo e nervo toleram poucas horas de isquemia antes de lesão irreversível. E é uma das principais causas de litígio por diagnóstico tardio em ortopedia e emergência.

A presença de pulso distal palpável é a regra, não a exceção. O fluxo arterial se mantém enquanto a pressão do compartimento já ultrapassou a pressão de perfusão capilar. Esperar o pulso desaparecer é esperar a amputação.

A cascata

Tudo começa com aumento do conteúdo (hematoma, edema, extravasamento) ou redução do continente (gesso apertado, curativo circunferencial, queimadura em couraça). A pressão sobe, colaba primeiro as vênulas, o retorno venoso cai e a pressão sobe ainda mais — um ciclo que se retroalimenta.

Quando a pressão intracompartimental se aproxima da pressão diastólica, o gradiente que sustenta a perfusão capilar desaparece. O músculo entra em isquemia, libera mediadores, o edema aumenta e a pressão sobe outra vez. A artéria principal, de alta pressão, continua pérvia — e o pulso, palpável.

  1. Volume ↑ ou continente ↓

    Hematoma, edema, gesso.

  2. Vênulas colabam

    Retorno venoso cai.

  3. Perfusão capilar cessa

    PIC próxima da PAD.

  4. Isquemia e edema

    O ciclo se fecha.

Tempos de tolerância à isquemia

Nervo

Alteração funcional em cerca de 30 minutos; lesão irreversível a partir de 12 a 24 horas.

Músculo

Alterações em 2 a 4 horas; necrose progressiva a partir de 4 a 8 horas.

Fasciotomia em até 6 horas

Bom prognóstico funcional na maioria das séries.

Acima de 12 horas

Sequela funcional frequente e maior risco de infecção e amputação.

A conta que define tudo — delta P (pressão diferencial) = pressão arterial diastólica − pressão intracompartimental. Valor ≤ 30 mmHg indica descompressão. É por isso que a hipotensão agrava a síndrome compartimental: com a diastólica baixa, o delta P despenca mesmo sem grande aumento da pressão no compartimento.

Compartimentos que mais importam

Conhecer a anatomia é o que permite examinar corretamente e planejar a fasciotomia. A perna é o sítio mais frequente, e o compartimento anterior é o mais acometido.

Compartimento da pernaConteúdoTeste e déficit
Anterior — o mais acometidoTibial anterior e extensores; nervo fibular profundo.Dor à flexão plantar passiva; hipoestesia no primeiro espaço interdigital; perda da dorsiflexão (pé caído).
LateralFibulares; nervo fibular superficial.Dor à inversão passiva; hipoestesia no dorso do pé.
Posterior superficialGastrocnêmio e sóleo.Dor à dorsiflexão passiva.
Posterior profundoFlexores; nervo tibial.Dor à extensão passiva dos dedos; hipoestesia plantar.

Antebraço — 3 compartimentos

Volar (flexor): o mais acometido; contém os nervos mediano e ulnar; dor à extensão passiva dos dedos. Dorsal (extensor): dor à flexão passiva dos dedos. Móvel lateral: braquiorradial e extensores radiais do carpo. Complicação temida: contratura isquêmica de Volkmann, com mão em garra e perda funcional definitiva.

Coxa e braço

Coxa — 3 compartimentos: anterior (quadríceps), posterior (isquiotibiais) e medial (adutores). Menos frequente, exige grande energia; associada a fratura de fêmur e esmagamento. Braço — 2 compartimentos: anterior e posterior. Associado a fratura de úmero e lesão vascular.

Mão, pé e glúteo

Mão: múltiplos compartimentos (interósseos, tenar, hipotenar); posição intrínseca-plus, dor à abdução passiva dos dedos. Pé: vários compartimentos descritos; associado a fratura de calcâneo e Lisfranc; indicação de fasciotomia mais debatida. Glúteo: após imobilização prolongada, intoxicação e uso de drogas — clássico do paciente encontrado caído.

As três perguntas da avaliação

  1. Existe risco?

    Mecanismo, fratura, esmagamento, reperfusão após isquemia arterial, gesso ou curativo circunferencial, coagulopatia. O risco define a intensidade da vigilância.

  2. O exame é confiável?

    Paciente alerta e comunicativo permite diagnóstico clínico com reavaliação seriada. Paciente sedado, intubado, com bloqueio regional, lesão medular ou criança pequena exige medida de pressão.

  3. Já é hora de operar?

    Diante de quadro clínico evolutivo ou delta P ≤ 30 mmHg, a resposta é sim. Na dúvida, o custo de uma fasciotomia desnecessária é muito menor que o de uma tardia.

A ferramenta de maior valor não é o manômetro: é o exame seriado documentado com horário pelo mesmo raciocínio clínico, comparando cada avaliação com a anterior. O padrão britânico (BOAST, atualizado em 2025) pede avaliação de hora em hora no paciente de risco, registrando horário e mecanismo do trauma, nível de consciência, estado neurovascular, intensidade da dor e resposta à analgesia.

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O essencial de causas e risco

  1. Dois mecanismos: aumento do conteúdo (sangue, edema, reperfusão) ou redução do continente (gesso, curativo, escara).
  2. Fratura de tíbia é a causa isolada mais frequente; a fratura fechada não protege.
  3. Hipotensão, coagulopatia, reperfusão e ressuscitação volêmica agressiva aumentam o risco.
  4. O paciente que não pode relatar dor exige medida de pressão.

Mecanismos: conteúdo aumentado ou continente reduzido

MecanismoCausasObservação
Sangramento no compartimentoFratura (sobretudo tíbia e antebraço), lesão vascular, coagulopatia, uso de anticoagulante, punção arterial.A fratura de tíbia é a causa isolada mais frequente — e a fratura fechada não protege: pode ser mais perigosa que a exposta.
Edema por lesão diretaEsmagamento, contusão muscular grave, queimadura, lesão elétrica, picada de animal peçonhento.Acidente por serpente do gênero Bothrops pode causar edema volumoso — mas a maioria dos casos não evolui para síndrome compartimental verdadeira.
ReperfusãoApós revascularização, embolectomia, torniquete prolongado ou correção de isquemia arterial aguda.O edema de reperfusão é intenso e precoce: considere fasciotomia profilática quando a isquemia foi prolongada.
Aumento de volume não traumáticoExercício extenuante, infiltração de fluido ou contraste, infusão intraóssea mal posicionada, infecção necrosante, trombose venosa extensa, nefropatia com edema volumoso.A forma não traumática é subdiagnosticada justamente por não haver o gatilho esperado.
Redução do continenteGesso ou tala circunferencial apertados, curativo compressivo, escara de queimadura circunferencial, roupas ou dispositivos constritivos, fechamento fascial sob tensão.Causa iatrogênica e imediatamente reversível: abrir o gesso até a pele é a primeira medida.
Compressão prolongadaPaciente encontrado caído após intoxicação, coma ou uso de drogas; posicionamento cirúrgico prolongado (litotomia).Clássico da síndrome compartimental de glúteo e coxa, quase sempre com rabdomiólise associada.

Fatores de risco que aumentam a vigilância

Fratura de tíbia

Principal causa. Fraturas diafisárias e do platô tibial são as de maior risco; a fratura fechada não é protetora.

Fratura de antebraço e supracondiliana

Alto risco em crianças e adolescentes, com risco de contratura de Volkmann.

Homem jovem

Maior massa muscular em compartimento de mesmo tamanho — grupo classicamente descrito como de maior risco.

Lesão vascular e reperfusão

Isquemia prolongada seguida de restauração do fluxo é um dos cenários de maior risco.

Coagulopatia e anticoagulação

Sangramento maior dentro do compartimento, às vezes após trauma banal.

Hipotensão

Reduz a diastólica e, com ela, o delta P: o paciente chocado desenvolve síndrome compartimental com pressões intracompartimentais menores.

Em politraumatizados e queimados, a ressuscitação volêmica agressiva é fator de risco adicional: o edema tecidual acumulado eleva a pressão em compartimentos já comprometidos.

O paciente que não pode contar

A dor é o sintoma mais precoce e mais confiável — e desaparece exatamente nos pacientes de maior risco. Sedado, intubado, com traumatismo cranioencefálico, intoxicado, com lesão medular, com bloqueio regional ou criança pequena: nenhum deles vai relatar dor desproporcional.

Nesses casos, a vigilância clínica isolada é insuficiente e a medida da pressão intracompartimental — de preferência contínua ou repetida — passa a ser parte obrigatória do cuidado. Registre a decisão de monitorizar (ou de não monitorizar) e a justificativa.

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O essencial de quadro clínico

  1. Os "6 P" aparecem em sequência temporal: os primeiros são úteis, os últimos indicam dano feito.
  2. Na sala, importam três: dor desproporcional, dor ao estiramento passivo e compartimento tenso.
  3. Examine cada compartimento separadamente, sem gesso, com horário registrado.
  4. Imagem não faz o diagnóstico — serve para os diferenciais.

Os "6 P" — e por que a ordem importa

Os sinais clássicos aparecem em sequência temporal. Os primeiros são os úteis; os últimos indicam que o dano já está feito.

SinalMomentoValor prático
Dor (pain)PrecoceDesproporcional ao achado, progressiva e refratária a analgésico. Dor ao estiramento passivo da musculatura do compartimento é o sinal mais sensível. Necessidade crescente de opioide é sinal de alarme.
Pressão (pressure)PrecoceCompartimento tenso, endurecido e doloroso à palpação, com aumento visível do volume. Compare sempre com o membro contralateral.
ParestesiaIntermediárioAlteração da sensibilidade no território do nervo que atravessa o compartimento — primeira manifestação de sofrimento neurológico. Ainda reversível.
ParalisiaTardioPerda motora indica lesão neuromuscular estabelecida. Prognóstico funcional já comprometido.
Palidez (pallor)TardioSinal inconsistente; a pele frequentemente está normal ou até hiperemiada e tensa.
Ausência de pulso (pulselessness)Muito tardioNão use como critério. Quando o pulso some, o compartimento já está inviável — ou existe lesão arterial associada.

Regra prática: os três "P" que importam na sala são dor desproporcional, dor ao estiramento passivo e compartimento tenso. Os demais chegam tarde demais.

Como examinar corretamente

  • Palpe cada compartimento separadamente, comparando com o membro contralateral — não avalie "a perna" como um todo.
  • Estiramento passivo dirigido: na perna, flexão plantar passiva testa o compartimento anterior; dorsiflexão passiva testa o posterior superficial; extensão passiva dos dedos testa o posterior profundo; inversão passiva testa o lateral.
  • No antebraço, extensão passiva dos dedos testa o compartimento volar e flexão passiva testa o dorsal.
  • Teste a sensibilidade nos territórios específicos: primeiro espaço interdigital (fibular profundo), dorso do pé (fibular superficial), planta (tibial).
  • Retire o gesso, a tala e o curativo antes de examinar — não se avalia compartimento através de imobilização.
  • Registre com horário e reavalie em intervalos curtos (de hora em hora no paciente de risco), idealmente pelo mesmo examinador.
  • Anote o consumo de analgésico: escalada rápida de dose é dado objetivo de piora.

Bloqueio regional e analgesia peridural podem mascarar completamente a dor. Em membro de risco, discuta com a anestesia antes de indicá-los — e, se usados, monitorize a pressão.

Modelo de registro da reavaliação

Horário: __:__ | Trauma/mecanismo: ______ (hora: __:__) Nível de consciência: ______ | Exame confiável? ( ) sim ( ) não Dor (0–10): __ | Analgésico nas últimas horas: ______ | Resposta: ______ Compartimentos (tenso? dor ao estiramento passivo?): anterior __ lateral __ post. superficial __ post. profundo __ Sensibilidade/motricidade: ______ | Pulsos/enchimento capilar: ______ Gesso/curativo aberto até a pele? ( ) sim | Membro na altura do coração? ( ) sim PAD: __ mmHg | PIC (se medida): __ mmHg | Delta P: __ mmHg Conduta/próxima reavaliação: ______

Adapte ao segmento acometido.

Diagnósticos diferenciais

CondiçãoAchado-chaveComo diferenciar
Oclusão arterial aguda
Achado-chavePulso ausente desde o início, membro frio e pálido.
Como diferenciarPulso ausente desde o início, membro frio e pálido, dor de instalação súbita. Compartimentos habitualmente moles. Pode coexistir e evoluir para síndrome compartimental após a revascularização.
Trombose venosa profunda
Achado-chaveEdema difuso, dor menos intensa.
Como diferenciarSem dor ao estiramento passivo desproporcional. Ultrassonografia com doppler esclarece — mas TVP extensa também pode causar síndrome compartimental.
Achado-chaveSinais inflamatórios cutâneos, febre, toxemia.
Como diferenciarNa fasciíte, dor desproporcional, crepitação, bolhas e evolução fulminante. Ambas podem ter compartimento tenso — a fasciíte também é emergência cirúrgica.
Lesão nervosa direta
Achado-chaveDéficit desde o momento do trauma.
Como diferenciarSem progressão e sem dor desproporcional ao estiramento.
Contusão muscular simples
Achado-chaveDor localizada, sem tensão compartimental.
Como diferenciarMelhora progressiva e boa resposta ao analgésico.
Síndrome compartimental crônica de esforço
Achado-chaveDor previsível durante o exercício, com alívio ao repouso, em atleta.
Como diferenciarDiagnóstico ambulatorial, com medida de pressão pós-esforço — não é emergência.

Exames de imagem não fazem o diagnóstico de síndrome compartimental aguda. Ultrassonografia e tomografia servem para avaliar diferenciais (trombose, hematoma, coleção), não para confirmar ou excluir a síndrome. Métodos não invasivos, como a espectroscopia no infravermelho próximo (NIRS), seguem em investigação e não substituem a medida de pressão.

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O essencial de medida de pressão

  1. O diagnóstico é clínico; a medida é auxílio, obrigatória quando o exame não é confiável.
  2. Delta P = PAD − PIC; ≤ 30 mmHg indica fasciotomia. PIC absoluta acima de 40 mmHg também leva a considerar descompressão urgente (BOAST 2025).
  3. Meça até 5 cm do foco de fratura, em todos os compartimentos, com a PAD do mesmo momento.
  4. Uma medida normal isolada não exclui; medidas repetidas ou contínuas são superiores.

Quando medir

O diagnóstico é clínico. A medida da pressão intracompartimental é um auxílio — indispensável em algumas situações, dispensável em outras.

Medir

  • Paciente não avaliável: sedado, intubado, com rebaixamento, intoxicado, com lesão medular ou criança pequena.
  • Bloqueio regional ou analgesia peridural em vigência.
  • Quadro clínico duvidoso ou achados equívocos.
  • Necessidade de monitorização repetida ou contínua em membro de alto risco.

Não é necessário medir

  • Quadro clínico evidente e evolutivo em paciente avaliável — leve à fasciotomia.
  • Quando a medida for atrasar a cirurgia já indicada.
  • Diante de dano neuromuscular irreversível estabelecido, em que a fasciotomia deixa de ser indicada.

Uma única medida normal não exclui o diagnóstico. A pressão varia com o tempo, com a distância do foco de fratura e com a técnica. Medidas repetidas ou monitorização contínua têm desempenho muito superior à medida isolada — a diretriz da AAOS (2018) considera evidência moderada para a monitorização contínua com pressão de perfusão abaixo de 30 mmHg.

Como medir

  • Dispositivo: manômetro de agulha dedicado (tipo Stryker) ou transdutor de pressão arterial acoplado a agulha e equipo — este último é a alternativa mais disponível na maioria dos serviços.
  • Zeragem do sistema ao nível do compartimento a ser medido, com o membro na altura do coração.
  • Local: até 5 cm do nível da fratura, onde a pressão é mais alta — medidas distantes subestimam o valor.
  • Meça todos os compartimentos do segmento, e não apenas o mais suspeito.
  • Registre a pressão diastólica no mesmo momento — o delta P depende dela.
  • Repita as medidas ao longo do tempo ou mantenha monitorização contínua nos pacientes de risco.
  • Documente valor, compartimento, horário, PAD simultânea e o delta P calculado.

Calculadora — pressão diferencial (delta P)

Informe a pressão arterial diastólica aferida no mesmo momento da medida e a pressão intracompartimental obtida. O limiar amplamente adotado é delta P ≤ 30 mmHg como indicação de fasciotomia; valores acima de 30 mmHg apoiam o afastamento do diagnóstico.

Delta P = PAD − PIC • limiar de 30 mmHg

Exemplo: PAD 70 mmHg e PIC 45 mmHg → delta P = 70 − 45 = 25 mmHg → fasciotomia. Mesmo PIC com PAD 85 mmHg → delta P 40 mmHg → zona de vigilância. Mesmo PIC em paciente chocado com PAD 50 mmHg → delta P 5 mmHg. Faixas da PIC absoluta: < 20 mmHg; 20–29 mmHg limítrofe; ≥ 30 mmHg elevada (acima de 40 mmHg, o BOAST orienta considerar descompressão urgente).

Interpretar o delta P

Calcule PAD − PIC e escolha a faixa; informe também a PAD e a evolução clínica.

Preencha a PAD e a pressão intracompartimental (faixa do delta P) para ver a interpretação.

Ferramenta de apoio: o número não substitui o exame clínico. Quadro clínico evolutivo com delta P acima de 30 mmHg ainda pode indicar fasciotomia; e uma medida isolada normal não exclui o diagnóstico. Em paciente hipotenso, o delta P cai mesmo com pressões intracompartimentais moderadas — corrija a pressão arterial e reavalie.

Papel dos exames laboratoriais

Creatinoquinase (CPK)

Marcador de lesão muscular e de rabdomiólise. Útil para gravidade e seguimento, mas não diagnostica síndrome compartimental nem define a indicação cirúrgica.

Mioglobina e urina

Urina escura com fita positiva para sangue e sedimento sem hemácias sugere mioglobinúria. Orienta a hidratação, não a cirurgia.

Lactato

Elevação pode acompanhar quadros graves e não traumáticos, mas o desempenho como teste diagnóstico é limitado.

Eletrólitos e função renal

Essenciais no manejo: hipercalemia, hiperfosfatemia, hipocalcemia, acidose e lesão renal aguda acompanham a rabdomiólise.

Nenhum biomarcador sérico deve ser usado para decidir sobre a fasciotomia. A decisão é clínica e, quando necessário, apoiada na pressão intracompartimental.

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O essencial de conduta

  1. Remova tudo o que é circunferencial até a pele e reavalie em até 30 minutos.
  2. Membro na altura do coração, sem elevar; corrija a hipotensão; acione a cirurgia informando o horário de início.
  3. Fasciotomia ampla, liberando todos os compartimentos do segmento — na perna, duas incisões e quatro compartimentos é o padrão do BOAST.
  4. Diante de dano irreversível estabelecido, a fasciotomia deixa de ser indicada: suporte e discussão franca.

Medidas imediatas — antes da sala

Enquanto a equipe cirúrgica é acionada, algumas medidas podem reverter ou atenuar o quadro. Custam minutos e nada mais.

  1. REMOVA tudo o que for circunferencial

    Gesso, tala, curativo, faixa, atadura — abra até a pele, em toda a extensão, em ambos os lados. Reavalie em até 30 minutos ().

  2. Membro na altura do coração

    Não eleve: a elevação reduz a pressão arterial local e piora o delta P.

  3. Corrija a hipotensão

    A diastólica baixa é inimiga direta da perfusão do compartimento.

  4. Oxigênio e analgesia

    Ofereça oxigênio se houver hipoxemia e mantenha analgesia adequada, registrando o consumo.

  5. Acione a ortopedia ou a cirurgia imediatamente

    Informe o horário do início dos sintomas; o diagnóstico deve ser seguido de descompressão imediata.

  6. Colha exames

    Hemograma, função renal, eletrólitos, cálcio, fósforo, CPK, gasometria e urina.

  7. Hidrate se houver suspeita de rabdomiólise

    Inicie com controle de diurese.

  8. Reavalie e documente

    Em intervalos curtos, cada avaliação com horário.

Não eleve o membro

É um erro comum e intuitivo: elevar reduz o edema em outras situações, mas aqui diminui a pressão arterial local e piora a isquemia. Mantenha ao nível do coração (von Keudell, Lancet 2015). Atenção à divergência: o BOAST britânico (atualização de julho de 2025) diz literalmente que, após abrir os curativos, o membro deve ser "elevado" e reavaliado em 30 minutos. Pela fisiologia do delta P, a conduta mais segura continua sendo não ultrapassar a altura do coração.

Fasciotomia — princípios

É o único tratamento definitivo. O princípio é sempre o mesmo: descompressão completa de todos os compartimentos do segmento, por incisões amplas, com abertura da pele e da fáscia.

  • Amplitude: incisões extensas, ao longo de todo o compartimento. Incisões curtas são a causa mais frequente de descompressão inadequada.
  • Completude: liberar todos os compartimentos do segmento, mesmo os aparentemente menos tensos. O que importa é a descompressão completa, mais do que a escolha da técnica.
  • Pele: a pele também é constritiva — a fasciotomia subcutânea isolada, sem abertura cutânea, tende a ser insuficiente em pressões elevadas.
  • Avaliação muscular: cor, consistência, contratilidade e sangramento orientam a ressecção de tecido inviável.
  • Ferida aberta: curativo estéril ou terapia por pressão negativa, com reavaliação programada em 48 a 72 horas (o BOAST pede reexploração em até 72 h e discussão com a cirurgia plástica nas primeiras 24 h).
  • Fechamento: por aproximação progressiva, sutura tardia ou enxertia cutânea, conforme a evolução do edema.
  • Estabilização óssea: fraturas associadas devem ser estabilizadas, frequentemente com fixador externo na fase aguda.

Abordagem por segmento

SegmentoTécnica habitualPontos de atenção
PernaDuas incisões (lateral e medial) liberando os quatro compartimentos — técnica recomendada pelo BOAST — ou incisão lateral única com acesso aos quatro.Proteger o nervo fibular superficial na incisão lateral e a veia safena magna e o nervo safeno na medial. Confirmar a liberação do posterior profundo, frequentemente esquecido.
AntebraçoIncisão volar curvilínea (tipo Henry estendida) associada, quando necessário, a incisão dorsal.Descomprimir também o túnel do carpo e o lacerto fibroso. Planejar cobertura do nervo mediano e das estruturas vasculares.
CoxaIncisão lateral única liberando os compartimentos anterior e posterior; incisão medial adicional para o compartimento dos adutores, se necessário.Grande volume muscular e sangramento importante — antecipe necessidade transfusional.
BraçoIncisões anterior e posterior conforme os compartimentos acometidos.Atenção ao trajeto do nervo radial.
MãoIncisões dorsais para os interósseos, com liberação das eminências tenar e hipotenar e do túnel do carpo, quando indicado.Resultado funcional depende de descompressão precoce e de reabilitação da mão.
PéIncisões dorsais e, quando indicado, medial.Indicação mais controversa: pondere o risco de complicações de ferida contra o benefício funcional.

A escolha entre uma ou duas incisões é menos importante do que garantir a descompressão completa de todos os compartimentos — princípio reafirmado nas diretrizes atuais (AAOS 2018; BOAST 2025, que prefere duas incisões na perna).

Rotas de tratamento

Condutas — como usar os cards: cada rota abre o detalhamento — indicação, técnica ou posologia, alvo e cuidados; o botão "Ver detalhes" abre a ficha completa. Do reconhecimento à sala: medidas que qualquer plantonista pode e deve executar, e o que esperar do tempo cirúrgico e do pós-operatório. Confira sempre o protocolo institucional e a apresentação disponível no seu serviço.

Apresentação tardia — decisão difícil

Quando o paciente chega muitas horas ou dias após o início, com músculo já necrosado, insensibilidade e paralisia estabelecidas, a fasciotomia deixa de ser benéfica: abre uma ferida enorme sobre tecido inviável, com risco elevado de infecção, sepse e amputação.

Quando não operar

Evidência de dano neuromuscular irreversível: anestesia completa, paralisia estabelecida, ausência de contratilidade muscular e apresentação muito tardia. É opinião de especialistas (AAOS 2018) que a fasciotomia não está indicada nesse cenário.

O que fazer então

Suporte clínico, tratamento agressivo da rabdomiólise, vigilância de infecção e discussão franca com o paciente e a família — inclusive sobre a possibilidade de amputação.

Zona cinzenta

Quando há dúvida sobre a viabilidade, a decisão é individualizada, com exploração cirúrgica e avaliação direta do músculo.

Documentação

Registre o horário de início, os achados de cada reavaliação e o raciocínio que sustentou a decisão — é um cenário de alta exposição médico-legal.

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O essencial de rabdomiólise

  1. A necrose muscular libera mioglobina, potássio, fosfato, ácido úrico e CPK: lesão renal aguda e hipercalemia são as ameaças.
  2. Hidratação precoce com cristaloide é a única medida preventiva com respaldo; comece antes do resultado da CPK.
  3. Bicarbonato, manitol e diuréticos não são recomendados de rotina para prevenir a lesão renal (DASAIM/DSIT 2019).
  4. Monitorização cardíaca contínua no perioperatório: o potássio pode subir de forma abrupta após a descompressão.

Rabdomiólise — a complicação sistêmica

A necrose muscular libera na circulação mioglobina, potássio, fosfato, ácido úrico e creatinoquinase. As consequências são lesão renal aguda, hipercalemia com risco de arritmia, hipocalcemia, hiperfosfatemia, acidose metabólica e coagulopatia.

Diagnóstico

CPK elevada — habitualmente considerada significativa acima de cerca de 5 vezes o limite superior da normalidade, com risco renal crescente em valores muito altos.

Urina

Escurecida, com fita positiva para sangue e sedimento sem hemácias — o padrão sugestivo de mioglobinúria.

Hipercalemia

A complicação mais letal na fase aguda: monitorização cardíaca contínua e tratamento imediato diante de alterações no eletrocardiograma.

Lesão renal

Por vasoconstrição, obstrução tubular por cilindros e toxicidade direta da mioglobina. A hidratação precoce é a principal prevenção.

Após a fasciotomia e a reperfusão, a liberação sistêmica de potássio e de mediadores pode ser abrupta. Mantenha monitorização cardíaca contínua no perioperatório.

Potássio na reperfusão: o que o monitor mostra

Do primeiro sinal à forma grave — o salto pode ocorrer em minutos após a descompressão.

Hipercalemia inicial

Primeira alteração: ondas T altas, estreitas e simétricas, melhor vistas nas precordiais.

  • Onda T apiculada, de base estreita
  • QRS ainda estreito
  • Ritmo sinusal preservado

Traçados esquemáticos gerados por computador (25 mm/s, 10 mm/mV) para estudo e comparação. Confirme sempre no ECG de 12 derivações do paciente.

Calculadora — hidratação inicial na rabdomiólise

A hidratação precoce e vigorosa é a medida mais eficaz para prevenir a lesão renal. Uma abordagem descrita é iniciar cristaloide isotônico em torno de 10–15 mL/kg/h nas primeiras horas (com bolus inicial em muitos protocolos), titulando para diurese de 200–300 mL/h no adulto (≈ 1–3 mL/kg/h) e reduzindo conforme a resposta. Soro fisiológico e Ringer lactato são aceitáveis; no esmagamento com potássio alto, prefira o SF 0,9%, sem potássio.

Volume por peso • alvo de diurese

Infusão (mL/h) = peso × taxa; volume em 6 h = infusão × 6. Exemplo: 70 kg × 10 mL/kg/h = 700 mL/h → 4.200 mL em 6 horas. Diurese-alvo: 200 mL/h (alvo mínimo usual no adulto), 300 mL/h (alvo mais agressivo) ou 2 mL/kg/h (referência por peso — 140 mL/h em 70 kg).

Hidratação inicial por peso

Digite o peso: a calculadora mostra a infusão horária para cada taxa e a diurese-alvo por peso.

Cristaloide 10 mL/kg/hTaxa inicial habitual
—
Cristaloide 15 mL/kg/hTaxa inicial mais agressiva
—
Volume em 6 horas (10 mL/kg/h)60 mL/kg
—
Diurese-alvo por peso2 mL/kg/h
—

Ferramenta de apoio. Titule pela diurese, pela hemodinâmica e pela tolerância: reduza a taxa em cardiopatas, nefropatas, idosos e diante de sinais de congestão. Monitorize eletrólitos, cálcio, fósforo, função renal e balanço hídrico de forma seriada. Alcalinização urinária e manitol não são recomendados de rotina.

Para o volume de reposição em outros cenários, use o Guia de Fluidoterapia.

Manejo da rabdomiólise

FrenteCondutaObservação
Hidratação precoce e vigoroso, titulado pela diurese e pela hemodinâmica.Principal medida preventiva da lesão renal. Comece antes mesmo do resultado da CPK.
HipercalemiaMonitorização contínua; diante de alteração eletrocardiográfica, para estabilização de membrana, seguido de e .É a causa mais frequente de morte precoce na rabdomiólise grave.
CálcioRepor apenas se houver hipocalcemia sintomática ou hipercalemia com alteração no eletrocardiograma.A hipocalcemia é habitualmente transitória; a reposição excessiva favorece deposição de cálcio no músculo lesado.
Distúrbio ácido-baseCorrigido pela restauração da perfusão e da diurese. de rotina não é recomendado.
Alcalinização e manitolNão recomendados de rotina para prevenir lesão renal (recomendações fracas contra, DASAIM/DSIT 2019).Evidência de baixa qualidade; o manitol exige volemia adequada e diurese estabelecida — evite na anúria.
Terapia renal substitutivaIndicada pelas indicações habituais: hipercalemia refratária, acidose grave, sobrecarga volêmica e uremia.A diálise não remove mioglobina de forma eficiente com as técnicas convencionais; não é usada como prevenção.
NefrotóxicosSuspender ou evitar sempre que possível.Reavalie a prescrição inteira, incluindo anti-inflamatórios e contraste.

Complicações da síndrome compartimental

Contratura isquêmica

A contratura de Volkmann no antebraço é a sequela mais emblemática: fibrose muscular com mão em garra e perda funcional definitiva.

Déficit neurológico

Parestesia, hipoestesia e paralisia permanentes no território dos nervos do compartimento acometido.

Infecção

Feridas de fasciotomia são amplas e permanecem abertas: risco de infecção, osteomielite e retardo de consolidação da fratura.

Amputação

Desfecho possível na apresentação tardia, na necrose extensa e na infecção incontrolável.

Lesão renal aguda

Por rabdomiólise; pode exigir terapia renal substitutiva e evoluir com disfunção residual.

Consequência médico-legal

O diagnóstico tardio é uma das principais fontes de litígio na área — o que reforça a importância do registro seriado.

Em 30 segundos

O essencial de formas especiais

  1. Hipertensão intra-abdominal: PIA sustentada ≥ 12 mmHg; síndrome compartimental abdominal: PIA > 20 mmHg com nova disfunção orgânica.
  2. PPA = PAM − PIA; alvo citado em torno de 60 mmHg.
  3. Criança, sedado, queimado, lesão elétrica, anticoagulado, esmagamento e acidente ofídico exigem ajustes.
  4. Erros clássicos: esperar o pulso sumir, elevar o membro e confiar numa medida isolada.

Síndrome compartimental abdominal

Mesmo princípio fisiopatológico em outra cavidade. Define-se hipertensão intra-abdominal como pressão intra-abdominal sustentada igual ou superior a 12 mmHg, e síndrome compartimental abdominal como pressão sustentada acima de 20 mmHg associada a nova disfunção orgânica (WSACS 2013).

GraduaçãoPressão intra-abdominalRepercussão
Normal5–7 mmHg no adulto críticoSem repercussão.
Grau I12–15 mmHgInício da hipertensão intra-abdominal; medidas clínicas de otimização.
Grau II16–20 mmHgVigilância estreita e escalonamento das medidas clínicas.
Grau III21–25 mmHgRisco elevado de disfunção orgânica; considerar descompressão.
Grau IV> 25 mmHgDescompressão cirúrgica na presença de disfunção orgânica.

Pressão de perfusão abdominal: PPA = PAM − PIA. Assim como no membro, o que importa não é apenas a pressão da cavidade, e sim o gradiente de perfusão. Valores em torno de 60 mmHg são citados como alvo de ressuscitação em pacientes com hipertensão intra-abdominal.

Calculadora — pressão de perfusão abdominal

A pressão intra-abdominal é medida preferencialmente pela via intravesical, com o paciente em decúbito dorsal, ao final da expiração, com a musculatura abdominal relaxada, instilando um volume pequeno de solução salina (até 25 mL) e zerando o transdutor na linha axilar média, ao nível da crista ilíaca.

PPA = PAM − PIA • graduação da HIA

PAM estimada = PAD + (PAS − PAD) / 3. Exemplo: PAS 110 e PAD 62 → PAM = 62 + 48/3 = 78 mmHg; com PIA de 22 mmHg → PPA = 78 − 22 = 56 mmHg (abaixo de 60: otimize a perfusão) e PIA em grau III. Use a calculadora abaixo para a PAM e subtraia a PIA.

PAM (para calcular a PPA)

Calcule a PAM e subtraia a PIA. O índice de choque ajuda a ler a hemodinâmica do paciente crítico.

PAM (mmHg)—
Índice de choque—
Leitura hemodinâmica—

PPA = PAM − PIA; alvo em torno de 60 mmHg.

Graduar a pressão intra-abdominal

Escolha a faixa da PIA medida e da PPA calculada.

Informe a pressão intra-abdominal para ver a graduação.

Ferramenta de apoio. A síndrome compartimental abdominal exige pressão sustentada acima de 20 mmHg associada a nova disfunção orgânica — o número isolado não fecha o diagnóstico. Uma única medida elevada deve ser confirmada com medidas seriadas.

Manejo da hipertensão intra-abdominal

O manejo segue a mesma lógica da equação: reduzir o conteúdo da cavidade, aumentar a complacência da parede e sustentar a perfusão. As medidas clínicas vêm primeiro e são escalonadas conforme o grau; a laparotomia descompressiva com abdome aberto fica para a síndrome compartimental abdominal estabelecida e refratária a elas — e, depois dela, é preciso vigiar perdas volêmicas, hipotermia, fístula e planejar o fechamento definitivo.

  • Esvaziar o conteúdo luminal: sonda gástrica, sonda retal, procinéticos e suspensão de dieta enteral quando necessário.
  • Drenar coleções: ascite, hematoma ou abscesso, por via percutânea quando viável.
  • Melhorar a complacência da parede: analgesia, sedação adequada, decúbito com cabeceira até 30° e, em casos selecionados, bloqueio neuromuscular.
  • Otimizar o balanço hídrico: evitar sobrecarga, considerar balanço negativo e ultrafiltração conforme a condição.
  • Sustentar a perfusão: manter a PPA com pressão arterial adequada, sem inundar o paciente de volume.

Quando o paciente não consegue contar a dor: criança e sedado

O diagnóstico clínico depende da dor desproporcional e da dor ao estiramento passivo — e esses dois grupos não as relatam de forma confiável. A criança expressa a isquemia pelos "3 A": agitação, ansiedade e necessidade crescente de analgesia, e a fratura supracondiliana de úmero é o cenário clássico. No politraumatizado sedado, o exame não é confiável e o quadro pode passar despercebido por horas.

Criança

Vigilância intensiva, limiar baixo para medida de pressão e para exploração cirúrgica.

Politraumatizado sedado

Medida de pressão repetida ou contínua nos membros de risco; inclua a inspeção dos compartimentos na avaliação diária.

Queimado e lesão elétrica

No queimado, a escara circunferencial atua como um continente rígido, e a própria ressuscitação volêmica agrava o edema: a precoce resolve a restrição da pele, e a fasciotomia entra se houver acometimento de compartimento profundo. Na lesão elétrica, o dano muscular profundo é desproporcional à lesão cutânea, com rabdomiólise intensa — a pele engana.

Lesão elétrica: alto índice de suspeição, monitorização de CPK e limiar baixo para exploração — a escarotomia isolada costuma não bastar.

Anticoagulado e esmagamento

No anticoagulado, o sangramento intracompartimental pode ser espontâneo ou surgir após trauma banal, então o limiar de suspeita é baixo: reverta a anticoagulação (guia de reversão) e peça avaliação cirúrgica precoce. No esmagamento e no soterramento, o perigo maior está no momento da extricação: a síndrome do esmagamento cursa com rabdomiólise maciça e liberação abrupta de potássio quando o membro é liberado.

Hidrate antes de liberar

Hidratação antes da liberação do membro quando possível — SF 0,9% em torno de 1 L/h no adulto (10–15 mL/kg/h), evitando soluções com potássio —, monitorização cardíaca e preparo para hipercalemia grave (recomendações ISN/ERA para vítimas de esmagamento).

Acidente ofídico e litotomia prolongada

São dois extremos opostos de erro. No acidente ofídico, edema volumoso é regra, mas a síndrome compartimental verdadeira é bem menos frequente do que se imagina — o risco é operar sem necessidade. Na posição de litotomia prolongada ("well-leg"), o membro sadio fica elevado por horas em cirurgia pélvica longa e a síndrome surge no pós-operatório, muitas vezes mascarada pela analgesia — o risco é não pensar nela.

Acidente ofídico

Soro antiveneno é o tratamento principal; medida de pressão antes de indicar fasciotomia, evitando cirurgia desnecessária.

Litotomia prolongada

Não manter as pernas elevadas por mais de 4 horas seguidas — baixá-las abaixo do nível do coração por pelo menos 15 minutos a cada 4 horas — e examinar as pernas no pós-operatório (diretriz multidisciplinar, BJS 2019).

Erros comuns

A maioria dos erros nasce de esperar por sinais tardios ou por um número que confirme o que a clínica já mostra. Ausência de pulso, CPK alta e paralisia aparecem quando o músculo já está perdido; o que salva o membro é a reavaliação seriada com horário registrado, a decisão precoce pela fasciotomia e uma fasciotomia completa, sem esquecer a rabdomiólise e o potássio depois dela.

  • Esperar a ausência de pulso para considerar o diagnóstico.
  • Elevar o membro acima do nível do coração.
  • Examinar o membro sem retirar gesso, tala ou curativo circunferencial.
  • Confiar em uma única medida normal de pressão intracompartimental.
  • Usar CPK ou lactato para decidir sobre a fasciotomia.
  • Indicar bloqueio regional em membro de risco sem discutir com a equipe.
  • Fazer incisões curtas ou deixar um compartimento sem liberar.
  • Não reavaliar em intervalos curtos e não registrar horários.
  • Atribuir a dor apenas à fratura e aumentar o opioide sem reexaminar.
  • Operar um membro com dano irreversível estabelecido, sem discussão de risco e benefício.
  • Esquecer a rabdomiólise e a hidratação precoce.
  • Não monitorizar o eletrocardiograma no perioperatório, quando o potássio pode subir abruptamente.

Resumo do fluxo

O fluxo inteiro gira em torno de uma decisão de tempo: a fasciotomia indicada pela clínica evolutiva ou por um delta P baixo, sem esperar sinais tardios. Os passos antes dela servem para não perder o diagnóstico e não piorar a perfusão; os depois, para não perder o paciente para a rabdomiólise.

  1. Identifique o paciente de risco pelo mecanismo e pela lesão.

  2. Retire tudo o que for circunferencial e mantenha o membro na altura do coração.

  3. Examine cada compartimento, com estiramento passivo dirigido, e registre com horário.

  4. Corrija a hipotensão — ela reduz o delta P.

  5. Decisão

    Quadro clínico evolutivo ou delta P ≤ 30 mmHg: acione a cirurgia para fasciotomia imediata.

  6. No paciente não avaliável, monitorize a pressão intracompartimental de forma repetida ou contínua.

  7. Faça a fasciotomia ampla, liberando todos os compartimentos do segmento.

  8. Trate a rabdomiólise com hidratação precoce e vigilância de potássio e função renal.

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