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Cetoacidose Diabética

Critérios D-K-A de 2024 • fluido, insulina e potássio • CAD euglicêmica • transição para insulina subcutânea

O consenso de 2024 reescreveu o tema: o corte de glicemia caiu para 200 mg/dL, o ânion gap saiu dos critérios, o beta-hidroxibutirato entrou no lugar da cetonúria e a CAD leve pode ser tratada com insulina subcutânea fora da UTI. O que não mudou: fluido, insulina e potássio — nessa ordem de importância.

Beta-hidroxibutirato ≥ 3,0Ânion gap saiu dos critériosPotássio antes da insulinaCAD euglicêmica por iSGLT2
22 min de leitura Atualizado em outubro de 2026

Em 30 segundos

O essencial de visão geral

  1. Cetoacidose diabética é a tríade hiperglicemia (ou diabetes conhecido), cetose e acidose metabólica, por deficiência absoluta ou relativa de insulina.
  2. O consenso de 2024 baixou o corte de glicemia para 200 mg/dL, trocou a cetonúria pelo beta-hidroxibutirato ≥ 3,0 mmol/L e tirou o ânion gap dos critérios.
  3. O tratamento tem três pilares — fluido, insulina e potássio — e o potássio abaixo de 3,5 mEq/L impede o início da insulina.
  4. A gravidade (cetonemia, pH, bicarbonato e consciência) define o local: CAD leve e moderada não complicada podem ser tratadas fora da UTI.

O que é cetoacidose diabética

A cetoacidose diabética é a emergência hiperglicêmica definida pela tríade hiperglicemia, cetose e acidose metabólica, decorrente da deficiência absoluta ou relativa de insulina associada ao excesso de hormônios contrarreguladores.

É a apresentação mais comum das crises hiperglicêmicas e a principal causa de morte relacionada ao diabetes em jovens. As internações por cetoacidose aumentaram substancialmente na última década, e o perfil mudou: ela deixou de ser uma doença exclusiva do diabetes tipo 1 e aparece cada vez mais no tipo 2, no diabetes propenso à cetose e nos usuários de inibidores do cotransportador sódio-glicose tipo 2.

O tratamento tem três pilares: fluido, insulina e potássio. A ordem de prioridade não é a ordem intuitiva — o volume vem antes da insulina, e o potássio pode impedir o início da insulina.

O que mudou no consenso de 2024

O documento conjunto de 2024 da Associação Americana de Diabetes, da Associação Europeia para o Estudo do Diabetes, das Sociedades Britânicas Conjuntas, da Associação Americana de Endocrinologia Clínica e da Sociedade de Tecnologia em Diabetes trouxe mudanças que alteram a prática diária.

ItemAntesNo consenso de 2024
GlicemiaAcima de 250 mg/dLIgual ou acima de 200 mg/dL, ou simplesmente história prévia de diabetes, independentemente da glicemia
CetoseCetonúria pelo nitroprussiatoBeta-hidroxibutirato ≥ 3,0 mmol/L, preferencialmente à beira do leito; cetonúria ≥ 2+ como alternativa
AcidosepH, bicarbonato e ânion gappH < 7,3 e/ou bicarbonato < 18 mmol/L — o ânion gap saiu dos critérios
ResoluçãoFechamento do ânion gapCetona plasmática < 0,6 mmol/L e pH ≥ 7,3 ou bicarbonato ≥ 18
FluidoSoro fisiológico a 0,9%Soro fisiológico ou cristaloide balanceado, 500–1.000 mL/h nas primeiras 2–4 h; balanceado associado a resolução mais rápida
PotássioAdiar insulina se K < 3,3; repor se K entre 3,3 e 5,2Adiar insulina se K < 3,5; repor 20–30 mEq/L quando K < 5,0, com meta de 4–5 mEq/L
Local de tratamentoUTI para a maioriaCAD leve e moderada não complicada podem ser tratadas fora da UTI, com insulina subcutânea
Insulina basalSó na transiçãoBasal subcutânea precoce (0,15–0,3 U/kg) pode ser associada à infusão endovenosa, reduzindo hiperglicemia de rebote
Bicarbonato e fosfatoUso mais liberalNão recomendados de rotina; bicarbonato apenas se pH < 7,0

A saída do ânion gap dos critérios tem motivo prático: a hidratação com grandes volumes de soro fisiológico produz acidose hiperclorêmica, que mantém o ânion gap alterado mesmo depois que a cetose já resolveu — levando a prolongar a insulina sem necessidade.

Classificação de gravidade

A gravidade define o local de tratamento e a intensidade da monitorização. Repare que ela combina cetonemia, acidose e nível de consciência.

ParâmetroLeveModeradaGrave
Beta-hidroxibutirato (mmol/L)3,0 a 6,03,0 a 6,0Acima de 6,0
pHAcima de 7,25 e abaixo de 7,307,0 a 7,25Abaixo de 7,0
Bicarbonato15 a 18 mmol/L10 a menos de 15Abaixo de 10
Nível de consciênciaAlertaAlerta ou sonolentoEstupor ou coma
Local sugeridoEnfermaria ou unidade de observaçãoUnidade semi-intensiva ou de cuidados intermediáriosTerapia intensiva

Independentemente da faixa, exigem terapia intensiva: estado hiperglicêmico hiperosmolar, instabilidade hemodinâmica, rebaixamento importante e doença crítica concomitante, como sepse, infarto ou hemorragia digestiva.

Contexto clínico

As internações cresceram de forma expressiva na última década, com custo elevado e readmissões em alta — e o paciente não é mais só o jovem com tipo 1: o tipo 2, o diabetes propenso à cetose e os usuários de iSGLT2 respondem por fatia crescente. A mortalidade é baixa quando o tratamento é adequado, mas sobe muito com idade avançada e doença crítica associada. Como episódio prévio é forte preditor de novo episódio, a alta faz parte do tratamento.

5–7 LDéficit de volume típico no adulto
3–5 mEq/kgDéficit corporal de potássio
0,2–1%Mortalidade hospitalar recente (tipo 1 → tipo 2)

As três perguntas na admissão

Na admissão, o impulso é iniciar a infusão de insulina por causa da glicemia alta. As três perguntas abaixo existem para frear esse impulso na ordem certa: confirmar que é mesmo cetoacidose, achar o que a desencadeou e conhecer o potássio antes da primeira unidade.

1. É mesmo cetoacidose?

Os três critérios D, K e A precisam estar presentes. Cetose de jejum, acidose lática e intoxicação por álcoois entram no diferencial, e nem toda hiperglicemia com acidose é cetoacidose.

2. Qual foi o precipitante?

Infecção, má adesão, diabetes de início recente, infarto, acidente vascular cerebral, pancreatite, gestação e fármacos. Não tratar o precipitante é garantir a recidiva.

3. Qual é o potássio?

É a pergunta que decide o momento de iniciar a insulina. Abaixo de 3,5 mEq/L, a insulina espera: primeiro se repõe potássio.

Peça já na admissão: glicemia, gasometria venosa, beta-hidroxibutirato, sódio, potássio, cloro, bicarbonato, ureia, creatinina, fósforo, magnésio, hemograma e eletrocardiograma — além da investigação dirigida do precipitante.

Volume primeiro, potássio antes da insulina, insulina até a cetose resolver — e não até a glicemia normalizar.

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O essencial de fisiopatologia

  1. Deficiência de insulina + excesso de contrarreguladores → hiperglicemia, diurese osmótica, lipólise e cetogênese.
  2. O beta-hidroxibutirato é o corpo cetônico dominante (até 10:1), e a fita urinária de nitroprussiato não o detecta.
  3. Cetonúria que piora durante o tratamento pode significar melhora: o beta-hidroxibutirato está virando acetoacetato.
  4. Identificar o precipitante faz parte do tratamento; dor abdominal que persiste após corrigir a acidose exige investigação cirúrgica.

A cascata metabólica

Tudo começa com a deficiência de insulina, absoluta ou relativa, somada ao excesso de glucagon, catecolaminas, cortisol e hormônio do crescimento.

  1. Hiperglicemia

    Aumento da gliconeogênese e da glicogenólise, com redução da captação periférica de glicose.

  2. Diurese osmótica

    A glicosúria arrasta água e eletrólitos, gerando desidratação profunda e perda de sódio, potássio, magnésio e fosfato.

  3. Lipólise descontrolada

    Sem insulina, o tecido adiposo libera ácidos graxos livres em grande quantidade.

  4. Cetogênese hepática

    Os ácidos graxos são oxidados a corpos cetônicos, principalmente beta-hidroxibutirato e acetoacetato.

  5. Acidose metabólica

    O acúmulo de cetoácidos consome bicarbonato e produz acidose com ânion gap elevado.

Por que o beta-hidroxibutirato importa

  • Na cetoacidose, a proporção entre beta-hidroxibutirato e acetoacetato chega a 10 para 1 — o beta-hidroxibutirato é o corpo cetônico dominante.
  • O teste de nitroprussiato, usado na cetonúria, detecta acetoacetato e acetona, mas não detecta o beta-hidroxibutirato.
  • Isso subestima a gravidade na admissão e produz um paradoxo no tratamento: com a melhora, o beta-hidroxibutirato se converte em acetoacetato e a cetonúria pode piorar justamente quando o paciente está melhorando.
  • Por isso o consenso de 2024 recomenda a dosagem quantitativa de beta-hidroxibutirato, venosa ou capilar, no diagnóstico, na classificação de gravidade e na definição de resolução.
A armadilha da fita urinária

Cetonúria que aumenta durante o tratamento não indica piora: indica conversão do beta-hidroxibutirato em acetoacetato. Se você guiar a conduta pela fita, vai prolongar a insulina sem necessidade.

Os precipitantes

Identificar e tratar o fator desencadeante é parte do tratamento, e não uma etapa posterior. Em uma parcela relevante dos casos há mais de um precipitante.

GrupoExemplosComo investigar
InfecçãoPneumonia, infecção urinária, infecção de pele e partes moles, abdome agudo, sepse de qualquer foco.Exame físico completo, hemograma, radiografia de tórax, urina e culturas. Atenção: a leucocitose da própria cetoacidose confunde.
Insulinoterapia inadequadaMá adesão, omissão de doses, falha de bomba de infusão, erro de técnica, custo do insumo, transtorno alimentar.Anamnese sem julgamento, revisão da técnica e do acesso ao insumo — é a causa mais frequente de recidiva.
Diabetes de início recentePrimeira manifestação do diabetes tipo 1, e às vezes do tipo 2 propenso à cetose.História de poliúria, polidipsia e emagrecimento nas semanas anteriores.
Evento cardiovascularInfarto agudo do miocárdio, acidente vascular cerebral, tromboembolismo pulmonar.Eletrocardiograma e troponina em todo paciente com fator de risco; o infarto pode ser silencioso.
FármacosInibidores do cotransportador sódio-glicose tipo 2, corticoides, antipsicóticos atípicos, tiazídicos, simpaticomiméticos, inibidores de checkpoint imunológico, cocaína.Revisão completa da prescrição e de substâncias de uso recreativo.
OutrosPancreatite aguda, gestação, cirurgia, trauma, abuso de álcool, jejum prolongado.Amilase e lipase quando houver dor abdominal, teste de gravidez em mulheres em idade fértil.

Dor abdominal ocorre em boa parte dos casos como manifestação da própria cetoacidose, e costuma melhorar com o tratamento. Mas se persistir após a correção da acidose, ou vier com sinais peritoneais, investigue causa cirúrgica. A amilase pode subir na própria CAD — a lipase é mais confiável.

Quadro clínico

Sintomas osmóticos

Poliúria, polidipsia, emagrecimento e fraqueza, geralmente com evolução de horas a poucos dias — mais rápida do que no estado hiperosmolar.

Respiração de Kussmaul

Hiperpneia profunda e regular, compensatória da acidose, com hálito cetônico característico.

Sintomas digestivos

Náusea, vômito e dor abdominal difusa, que podem simular abdome agudo e atrasar o diagnóstico.

Desidratação

Taquicardia, hipotensão, mucosas secas e turgor reduzido; o choque é possível nos casos graves.

Neurológico

Varia de alerta a coma, com correlação maior com a osmolaridade do que com o grau de acidose.

Temperatura

Normotermia ou hipotermia são comuns pela vasodilatação periférica — febre ausente não exclui infecção.

Rebaixamento importante do nível de consciência com acidose apenas moderada deve levantar duas hipóteses: osmolaridade muito elevada, sugerindo componente hiperosmolar, ou outra causa neurológica concomitante.

Em 30 segundos

O essencial de diagnóstico

  1. D: glicemia ≥ 200 mg/dL ou diabetes conhecido. K: beta-hidroxibutirato ≥ 3,0 mmol/L ou cetonúria ≥ 2+. A: pH < 7,3 e/ou bicarbonato < 18.
  2. Os três critérios precisam estar presentes; gasometria venosa basta.
  3. O ânion gap segue útil no raciocínio da acidose, mas não é mais critério de diagnóstico nem de resolução.
  4. Formas mistas com o estado hiperosmolar são comuns (até um terço) e são tratadas contemplando as duas.

Os critérios D-K-A

O consenso de 2024 organizou o diagnóstico em três letras, e os três critérios precisam estar presentes simultaneamente.

D — Diabetes

Glicemia ≥ 200 mg/dL ou história prévia de diabetes. O corte caiu de 250 para 200 mg/dL, e a história de diabetes vale por si só — o que acomoda a cetoacidose euglicêmica.

K — Cetose

Beta-hidroxibutirato ≥ 3,0 mmol/L ou cetonúria ≥ 2+. A dosagem quantitativa de beta-hidroxibutirato, idealmente à beira do leito, é a preferida.

A — Acidose

pH < 7,3 e/ou bicarbonato < 18 mmol/L. Gasometria venosa é suficiente. O ânion gap não faz mais parte dos critérios diagnósticos.

O ânion gap continua sendo útil como ferramenta de raciocínio na acidose metabólica em geral — ele só deixou de ser critério de diagnóstico e de resolução da cetoacidose, porque a acidose hiperclorêmica da hidratação o mantém alterado depois que a cetose já resolveu.

Ferramenta — critérios, gravidade e cálculos de apoio

Informe os dados disponíveis. A primeira ferramenta verifica os três critérios e sinaliza cetoacidose euglicêmica e padrão compatível com estado hiperosmolar; a segunda classifica a gravidade e sugere o local de tratamento. Os cálculos de apoio (ânion gap corrigido pela albumina, sódio corrigido e osmolaridade efetiva) estão logo abaixo, com fórmula e exemplo.

Critérios D-K-A de 2024

D: glicemia ≥ 200 mg/dL ou diabetes conhecido • K: beta-hidroxibutirato ≥ 3,0 mmol/L ou cetonúria ≥ 2+ • A: pH < 7,3 e/ou bicarbonato < 18 mmol/L.

Selecione os três critérios e a pergunta sobre osmolaridade.

Ferramenta de apoio. Os três critérios precisam estar presentes simultaneamente; formas mistas com o estado hiperosmolar ocorrem em até um terço dos casos.

Gravidade e local de tratamento

Classificação do consenso de 2024: beta-hidroxibutirato, pH, bicarbonato e nível de consciência; o pior parâmetro define a categoria.

Preencha os cinco campos para ver a categoria.

Ferramenta de apoio. Na dúvida entre duas faixas, trate pela mais grave; reclassifique a cada controle laboratorial.

Cálculos de apoio — fórmulas com exemplo

CálculoFórmulaExemplo (Na 132, Cl 98, HCO₃ 11, glicemia 480, albumina 3,2)
Ânion gapNa − (Cl + HCO₃)132 − (98 + 11) = 23 mEq/L
Ânion gap corrigido pela albuminaAG + 2,5 × (4,0 − albumina em g/dL)23 + 2,5 × 0,8 = 25 mEq/L
Sódio corrigidoNa + 1,6 × (glicemia − 100) ÷ 100132 + 1,6 × 3,8 = ≈ 138 mEq/L
Osmolaridade efetiva2 × Na + glicemia ÷ 18 (sem ureia)264 + 26,7 = ≈ 291 mOsm/kg

O sódio corrigido usa o fator clássico de 1,6 mEq/L para cada 100 mg/dL de glicemia acima de 100 — alguns autores preferem 2,4 em glicemias muito altas. A osmolaridade efetiva não inclui a ureia. Contas automáticas: Ânion Gap, Osmolaridade efetiva na hiperglicemia e Interpretador de Gasometria.

Diagnósticos diferenciais

CondiçãoComo se pareceComo diferenciar
Cetoacidose alcoólica
Como se pareceCetose e acidose com ânion gap elevado, em etilista após libação e jejum.
Como diferenciarGlicemia normal ou baixa, história de etilismo e jejum. O tratamento inclui tiamina antes da glicose e soro glicosado, não insulina.
Cetose de jejum
Como se pareceCetonúria positiva em paciente em jejum prolongado.
Como diferenciarBeta-hidroxibutirato habitualmente abaixo de 3,0 e bicarbonato preservado — não preenche o critério A.
Acidose lática
Como se pareceAcidose metabólica com ânion gap alto em paciente grave.
Como diferenciarLactato elevado com cetonemia ausente; pode coexistir com a cetoacidose no choque.
Intoxicação por álcoois
Como se pareceAcidose com ânion gap alto e rebaixamento.
Como diferenciarGap osmolar elevado; metanol e etilenoglicol têm antídoto específico.
Uremia
Como se pareceAcidose com ânion gap elevado.
Como diferenciarCreatinina muito elevada, sem cetonemia significativa.
Estado hiperglicêmico hiperosmolar
Como se pareceHiperglicemia grave com rebaixamento.
Como diferenciarGlicemia habitualmente acima de 600, osmolaridade efetiva acima de 300, sem cetose e sem acidose significativas.

Formas mistas são comuns e não devem ser forçadas em uma caixa: até um terço dos pacientes apresenta características de cetoacidose e de estado hiperosmolar ao mesmo tempo, e o tratamento contempla as duas.

Gap osmolar — quando a suspeita é álcool tóxico

Acidose com ânion gap alto, cetonemia baixa ou desproporcional e rebaixamento: compare a osmolalidade medida com a calculada (2 × Na + glicose ÷ 18 + ureia ÷ 6 + etanol ÷ 4,6).

Osmolalidade calculada (mOsm/kg)—
Gap osmolar (mOsm/kg)—
Leitura—

A cetoacidose e a acidose lática também elevam discretamente o gap osmolar (acetona, lactato); gap acima de 20 reforça álcool tóxico.

Em 30 segundos

O essencial de tratamento

  1. Fluido primeiro: cristaloide isotônico 500–1.000 mL/h nas primeiras 2–4 horas (balanceado resolve mais rápido).
  2. Cheque o potássio antes da insulina: abaixo de 3,5 mEq/L, reponha e adie; abaixo de 5,0, acrescente 20–30 mEq por litro.
  3. Insulina regular IV 0,1 U/kg/h; glicemia < 250 mg/dL → glicose a 5–10% e insulina 0,05 U/kg/h, mantendo ≈ 200 mg/dL até resolver a cetose.
  4. Bicarbonato só com pH < 7,0; fosfato só com hipofosfatemia grave sintomática; trate o precipitante em paralelo.

A ordem correta

Os três pilares são fluido, insulina e potássio — mas a ordem de execução não é a ordem em que costumam ser lembrados.

  1. ABC

    Avalie via aérea, ventilação e circulação; monitorização e acesso venoso calibroso.

  2. Volume

    Inicie a reposição volêmica com cristaloide isotônico — ela sozinha já reduz a glicemia e melhora a perfusão renal.

  3. CHEQUE O POTÁSSIO ANTES DA INSULINA

    Abaixo de 3,5 mEq/L, reponha potássio primeiro e adie a insulina.

  4. Insulina

    Com potássio igual ou acima de 3,5, inicie a endovenosa em infusão contínua a 0,1 U/kg/hora (bolus de 0,1 U/kg opcional).

  5. Potássio na solução

    Acrescente 20 a 30 mEq de potássio a cada litro de solução enquanto o potássio estiver entre 3,5 e 5,0 mEq/L.

  6. Glicose

    Quando a glicemia cair abaixo de 250 mg/dL, adicione à solução e reduza a insulina para 0,05 U/kg/hora.

  7. Precipitante

    Trate o precipitante desde a admissão, em paralelo — infecção, infarto, pancreatite ou má adesão.

  8. Monitorizar

    Glicemia horária e eletrólitos com gasometria e beta-hidroxibutirato a cada 2 a 4 horas, até a resolução.

A insulina não é o primeiro passo. Iniciar insulina em paciente hipovolêmico e hipocalêmico é a combinação clássica que produz colapso hemodinâmico e arritmia: a insulina desloca potássio para dentro da célula e a glicemia cai, arrastando água do intravascular.

Calculadora — fluidos, insulina e potássio

Informe o peso: a calculadora define o volume da primeira hora, a dose de insulina endovenosa ou subcutânea e as doses reduzidas. A regra do potássio e a sugestão de prescrição vêm logo abaixo.

Doses por peso na cetoacidose

Insulina regular IV: 100 U em 100 mL de SF 0,9% = 1 U/mL, logo U/h = mL/h. Exemplo, 70 kg: 7 U/h (7 mL/h); com glicemia abaixo de 250, 3,5 U/h.

Cristaloide — 1ª hora (10 mL/kg)Limite inferior; cardiopata, renal crônico ou idoso frágil: alíquotas de 250 mL
—
Cristaloide — 1ª hora (15 mL/kg)Limite superior; consenso: 500–1.000 mL/h nas 2–4 primeiras horas
—
Insulina regular IV — bolus opcional0,1 U/kg (ou IM se o acesso atrasar)
—
Insulina regular IV — infusão0,1 U/kg/h (a 1 U/mL = mesmo valor em mL/h)
—
Insulina regular IV — glicemia < 2500,05 U/kg/h + glicose 5–10%
—
Análogo rápido SC — dose inicial (CAD leve)0,3 U/kg
—
Análogo rápido SC — doses seguintes0,1 U/kg a cada 1 h (ou 0,2 U/kg a cada 2 h)
—
Insulina basal precoce (opcional)0,15–0,3 U/kg SC junto com a infusão IV (valor = 0,2 U/kg)
—

Ferramenta de apoio à decisão, não prescrição automática. A meta de queda glicêmica é de 50 a 75 mg/dL por hora: queda mais rápida aumenta o risco de edema cerebral e de hipoglicemia; queda mais lenta sugere hidratação insuficiente ou problema no acesso da infusão. Confira os protocolos do seu serviço.

Regra do potássio — posso iniciar a insulina?

Consenso ADA/EASD/JBDS/AACE/DTS 2024: insulina adiada se K < 3,5 mEq/L; reposição quando K < 5,0, com meta de 4–5 mEq/L.

Selecione o potássio e a diurese.

Protocolos anteriores (ADA 2009, SBD 2023) usavam 3,3 e 5,2 mEq/L; o consenso de 2024 subiu o limiar para 3,5 e passou a repor abaixo de 5,0. Confira o protocolo do seu serviço.

Sugestão de prescrição — CAD moderada a grave, 70 kg, glicemia 480, K 4,2

1) HIDRATAÇÃO — Ringer lactato (ou outro cristaloide balanceado; SF 0,9% é alternativa): 1.000 mL na primeira hora,
seguidos de 250 a 500 mL/h conforme o estado volêmico, o sódio corrigido e a diurese. Cardiopata, renal crônico ou idoso frágil: infundir mais devagar (alíquotas de 250 mL), com reavaliação clínica frequente.
2) INSULINA — insulina regular 100 U + SF 0,9% 100 mL (1 U/mL), em bomba de infusão a 7 mL/h (0,1 U/kg/h). Meta de queda glicêmica de 50 a 75 mg/dL por hora; se a queda for menor, reavalie a hidratação e o acesso.
3) POTÁSSIO — acrescentar 20 a 30 mEq de cloreto de potássio a cada litro de solução, mantendo a calemia entre 4 e 5 mEq/L, com dosagem 2 horas após o início da insulina e depois a cada 4 horas. Se K abaixo de 3,5: NÃO iniciar insulina; repor KCl 10 mEq/h até ultrapassar 3,5. Se K acima de 5,0: não repor; redosar em 2 horas.
4) GLICOSE — quando a glicemia cair abaixo de 250 mg/dL: associar soro glicosado a 5% ou 10% e reduzir a insulina para 3,5 mL/h (0,05 U/kg/h), mantendo a glicemia em torno de 200 mg/dL.
5) NÃO prescrever bicarbonato de rotina (considerar apenas com pH abaixo de 7,0) nem fosfato de rotina.
6) MONITORIZAÇÃO — glicemia capilar horária; eletrólitos, gasometria venosa e beta-hidroxibutirato a cada 2 a 4 horas; balanço hídrico e diurese horários; monitorização cardíaca nos casos graves.
7) INVESTIGAR E TRATAR O PRECIPITANTE: infecção, infarto, acidente vascular cerebral, pancreatite, gestação, má adesão, falha de bomba de insulina e uso de inibidor de SGLT2 (suspender).
8) Manter a insulina até a RESOLUÇÃO (cetona < 0,6 mmol/L e pH ≥ 7,3 ou bicarbonato ≥ 18), com sobreposição de 1 a 2 horas da insulina subcutânea antes de desligar a infusão.

Ajuste ao peso real, ao potássio e à tolerância a volume. CAD leve não complicada: substitua o item 2 por análogo rápido SC 0,3 U/kg seguido de 0,1 U/kg/h ou 0,2 U/kg a cada 2 h, ajustado pela glicemia capilar.

O potássio no ECG — ele muda durante o tratamento

Na admissão, a acidose e a falta de insulina podem produzir hipercalemia; horas depois da insulina, o mesmo paciente pode estar hipocalêmico. O ECG antes da insulina e a monitorização contínua nos casos graves pegam as duas pontas.

Do potássio alto ao baixo

Compare com o ECG normal: o que muda na onda T, no QRS e na repolarização.

ECG normal (referência)

Ponto de partida para comparar: ondas T de amplitude moderada e assimétricas, sem onda U evidente.

  • Ritmo sinusal, FC ≈ 72 bpm
  • QRS estreito
  • Onda T assimétrica, de amplitude proporcional ao QRS

Traçados esquemáticos gerados por computador (25 mm/s, 10 mm/mV) para estudo e comparação. Confirme sempre no ECG de 12 derivações do paciente.

Rotas de tratamento

Cada rota é um cenário do tratamento. O nome de cada item abre a ficha completa: apresentação brasileira, diluição, concentração e velocidade máximas, dose e cuidados. Confira sempre o protocolo institucional e a bula vigente antes de prescrever.

Tratar o precipitante

Corrigir a bioquímica sem identificar a causa é garantir a recidiva. A investigação do precipitante começa na admissão, não depois da estabilização.

PrecipitanteO que procurar
InfecçãoPneumonia, infecção urinária, pele e partes moles, abdome agudo. Atenção: a leucocitose da própria cetoacidose confunde, e a febre pode estar ausente.
Insulinoterapia inadequadaMá adesão, omissão, custo do insumo, erro de técnica, falha de bomba. É a causa mais frequente de recidiva.
Evento cardiovascularInfarto e acidente vascular cerebral podem ser silenciosos — eletrocardiograma e troponina em pacientes de risco.
FármacosInibidores de SGLT2, corticoides, antipsicóticos atípicos, tiazídicos e simpaticomiméticos.
Diabetes de início recentePoliúria, polidipsia e emagrecimento nas semanas anteriores em paciente sem diagnóstico prévio.
OutrosPancreatite aguda, gestação, cirurgia, trauma, abuso de álcool e jejum prolongado.
Dor abdominalComum na própria cetoacidose e costuma melhorar com o tratamento; se persistir após a correção, investigue causa cirúrgica.
RegistroDocumentar o precipitante no sumário de alta é o que permite prevenir o próximo episódio.

Em episódios de repetição, a causa costuma ser social ou psiquiátrica — prescrever mais insulina, isoladamente, não resolve.

Em 30 segundos

O essencial de resolução

  1. Resolução = cetona plasmática < 0,6 mmol/L e pH ≥ 7,3 ou bicarbonato ≥ 18; glicemia < 200 é desejável, não obrigatória.
  2. Normoglicemia não é resolução, e o ânion gap não serve de critério.
  3. Transição com sobreposição de 1 a 2 horas: basal 0,15–0,3 U/kg; dose total 0,5–0,6 U/kg/dia no virgem de insulina.
  4. A alta é parte do tratamento: precipitante, insumo, técnica, regras de dias de doença e seguimento em 2–4 semanas.

Critérios de resolução

Este é um dos pontos em que mais se erra na prática: normalizar a glicemia não é resolver a cetoacidose. O que define a resolução é o desaparecimento da cetose e a correção da acidose.

Cetona plasmática abaixo de 0,6 mmol/L

Critério principal, medido pelo beta-hidroxibutirato. Substitui o antigo fechamento do ânion gap.

pH ≥ 7,3 ou bicarbonato ≥ 18 mmol/L

Basta um dos dois. A gasometria venosa é suficiente para o acompanhamento.

Idealmente glicemia abaixo de 200 mg/dL

Desejável, mas não obrigatório — e, sozinha, não caracteriza resolução.

Não use o ânion gap como critério de resolução. A hidratação com grandes volumes de soro fisiológico produz acidose hiperclorêmica, que mantém o ânion gap elevado depois que a cetose já resolveu — e leva a prolongar a infusão de insulina sem necessidade.

A insulina trata a cetose; a glicose existe para que a insulina possa continuar. Desligue a infusão só depois dos critérios — e com 1 a 2 horas de sobreposição.

Ferramenta — resolução e transição para insulina subcutânea

Informe os dados atuais para verificar se os critérios de resolução foram atingidos e, em caso afirmativo, estruturar a transição para a insulina subcutânea com a sobreposição necessária.

A cetoacidose resolveu?

Critérios de 2024: cetona < 0,6 mmol/L e pH ≥ 7,3 ou bicarbonato ≥ 18 mmol/L.

Selecione os quatro campos.

Ferramenta de apoio. A dose basal estimada aplica-se ao paciente virgem de insulina; quem já usava esquema domiciliar deve retomar o próprio esquema. A sobreposição de 1 a 2 horas é obrigatória — sem ela, a cetoacidose recorre em horas.

Doses de transição por peso (virgem de insulina)

Exemplo, 70 kg: dose total 35–42 U/dia; basal ≈ 17–21 U; o restante dividido antes das refeições.

Dose total diária — 0,5 U/kgLimite inferior usual
—
Dose total diária — 0,6 U/kgLimite superior usual
—
Dose total diária — 0,3 U/kgIdoso, DRC ou risco de hipoglicemia
—
Basal — 0,25 U/kgFaixa do consenso: 0,15–0,3 U/kg
—

A basal é aplicada pelo menos 1 a 2 horas antes de desligar a infusão (ou desde o início, como basal precoce). Glicemia capilar antes das refeições e ao deitar nas primeiras 24 horas.

Plano de transição — modelo

CRITÉRIOS DE RESOLUÇÃO ATINGIDOS: cetona ___ mmol/L (< 0,6) com pH ≥ 7,3 ou bicarbonato ≥ 18.
1) Insulina basal (glargina, detemir, degludeca ou NPH conforme o serviço): ___ U SC (0,15–0,3 U/kg; ≈ metade da dose total diária de 0,5–0,6 U/kg) — ou retomar o esquema domiciliar, reavaliado.
2) Insulina prandial de ação rápida antes das refeições, com o restante da dose total diária fracionado, mais correção pela glicemia capilar.
3) SOBREPOSIÇÃO OBRIGATÓRIA: manter a infusão endovenosa por 1 a 2 horas após a aplicação da insulina subcutânea. Desligar antes disso é a causa clássica de recorrência da cetoacidose em poucas horas.
4) Paciente ainda sem aceitar dieta: manter aporte de glicose endovenosa e usar apenas a basal, adiando a prandial até a liberação da dieta.
5) Glicemia capilar antes das refeições e ao deitar; manter atenção nas primeiras 24 horas após a transição.
6) Antes da alta: documentar o precipitante, revisar técnica de aplicação e acesso ao insumo, orientar as regras de dias de doença e garantir seguimento em 2 a 4 semanas.

Monitorização durante o tratamento

ParâmetroFrequênciaO que observar
Glicemia capilarA cada 1 horaMeta de queda de 50 a 75 mg/dL por hora. Queda mais lenta sugere hidratação insuficiente ou falha no acesso da infusão.
Eletrólitos e gasometriaA cada 2 a 4 hPotássio (2 h após iniciar a insulina), sódio, cloro, bicarbonato e pH. O potássio é o que mais muda e o que mais mata.
Beta-hidroxibutiratoA cada 2 a 4 hMarcador de resolução; queda esperada de cerca de 0,5 mmol/L por hora.
Balanço hídrico e diureseHorárioGuia a reposição e detecta sobrecarga em cardiopatas e renais.
Nível de consciênciaContínuoPiora neurológica durante o tratamento levanta a hipótese de edema cerebral.
Monitorização cardíacaContínua nos gravesAlterações do potássio e arritmias, sobretudo durante a reposição.

A gasometria venosa é suficiente para o acompanhamento: o pH venoso é cerca de 0,03 unidade menor que o arterial, diferença sem relevância clínica. Punção arterial repetida é desnecessária na maioria dos casos.

Antes da alta

A alta é parte do tratamento. Grande parte das readmissões é evitável e decorre de lacunas identificáveis na internação.

  • Identifique o precipitante e documente-o no sumário de alta — sem isso, a recidiva é provável.
  • Revise o acesso ao insumo: insulina, seringas, agulhas e fitas de glicemia. Custo e desabastecimento são causas frequentes de omissão de dose.
  • Reeduque a técnica de aplicação, rodízio de locais e conservação da insulina.
  • Ensine as regras de dias de doença: nunca suspender a insulina basal, monitorizar glicemia com mais frequência, manter hidratação e checar cetonas.
  • Forneça fitas de cetona para uso domiciliar em pacientes de risco, especialmente usuários de bomba e de iSGLT2.
  • Reavalie a indicação do iSGLT2 quando ele tiver participado do episódio — a reintrodução não é recomendada de rotina, e no tipo 1 o uso é contraindicado.
  • Rastreie transtorno alimentar e depressão, sobretudo em jovens com episódios repetidos.
  • Garanta seguimento precoce, idealmente em 2 a 4 semanas, com a equipe de diabetes.

Em 30 segundos

O essencial de euglicêmica e ehh

  1. CAD euglicêmica: cetoacidose com glicemia abaixo de 200 mg/dL — cerca de 10% dos casos e sistematicamente subdiagnosticada.
  2. Diabético com acidose de ânion gap alto e glicemia "normal": dose cetonas, sobretudo se usa iSGLT2.
  3. Tratamento: suspender o iSGLT2, hidratar e iniciar insulina já com solução glicosada; acompanhar pelo beta-hidroxibutirato.
  4. EHH: glicemia ≥ 600, osmolaridade efetiva > 300 (ou total > 320), sem cetose ou acidose; o volume é ainda mais central e a osmolaridade cai devagar.

Cetoacidose euglicêmica

Definida como cetoacidose com glicemia abaixo de 200 mg/dL, ocorre em cerca de 10% dos casos e é sistematicamente subdiagnosticada — porque a glicemia "normal" tranquiliza a equipe e o exame de cetona não é pedido.

Inibidores de SGLT2

A causa mais discutida atualmente. A glicosúria induzida pelo fármaco mantém a glicemia baixa enquanto a cetogênese avança. O risco aumenta em jejum, cirurgia, doença aguda e dieta cetogênica; no tipo 1, o risco é 5 a 17 vezes maior.

Gestação

A gestante tem maior propensão à cetose, e a cetoacidose pode ocorrer com glicemias surpreendentemente baixas, com risco fetal importante.

Jejum e desnutrição

Baixa reserva de glicogênio reduz a hiperglicemia esperada; comum em transtorno alimentar e em pós-operatório com jejum prolongado.

Álcool e doença hepática

Comprometem a gliconeogênese e mascaram a hiperglicemia.

Por isso o critério "D" de 2024 aceita a história prévia de diabetes independentemente da glicemia. Diante de acidose metabólica com ânion gap elevado em diabético — mesmo com glicemia normal — dose as cetonas, sobretudo se ele usa inibidor de SGLT2.

Prevenção na cirurgia eletiva

Pela rotulagem da FDA (2020), suspenda canagliflozina, dapagliflozina e empagliflozina pelo menos 3 dias antes de cirurgia programada, e ertugliflozina pelo menos 4 dias; reintroduza só com ingestão normal e sem outros fatores de risco para cetose.

Como tratar a forma euglicêmica

O princípio é o mesmo, com um ajuste importante: como a glicemia já está baixa, a insulina só pode ser mantida se houver aporte de glicose desde o início.

  1. Suspender o iSGLT2

    Suspenda imediatamente o inibidor de SGLT2 e registre o evento no prontuário.

  2. Volume

    Reponha volume com cristaloide isotônico, como em qualquer cetoacidose.

  3. INSULINA JUNTO COM SOLUÇÃO GLICOSADA

    Inicie desde o começo — a insulina é o que interrompe a cetogênese, e sem glicose ela causaria hipoglicemia.

  4. Glicose

    Use conforme a glicemia, mantendo-a entre 150 e 200 mg/dL durante a infusão.

  5. Potássio

    Mantenha o potássio dentro das mesmas regras da forma clássica.

  6. Acompanhar

    Acompanhe pelo beta-hidroxibutirato e pela gasometria, não pela glicemia.

  7. Paciência

    Espere resolução mais lenta: o efeito do inibidor de SGLT2 persiste por vários dias após a suspensão.

  8. Orientar

    Oriente o paciente e a equipe sobre a suspensão do fármaco antes de cirurgias, jejum prolongado e doença aguda.

Cetoacidose × estado hiperglicêmico hiperosmolar

São extremos de um espectro, e formas mistas são comuns. O consenso de 2024 também redefiniu os critérios do estado hiperosmolar.

CaracterísticaCetoacidose diabéticaEstado hiperosmolar
Glicemia≥ 200 mg/dL, ou diabetes conhecido≥ 600 mg/dL
CetonasBeta-hidroxibutirato ≥ 3,0 mmol/LBeta-hidroxibutirato < 3,0 mmol/L (ou cetonúria < 2+)
AcidosepH < 7,3 e/ou bicarbonato < 18pH ≥ 7,3 e bicarbonato ≥ 15
OsmolaridadeVariávelEfetiva > 300 mOsm/kg ou total > 320
InstalaçãoHoras a poucos diasDias a semanas
Perfil típicoMais jovem, tipo 1, com dor abdominal e KussmaulIdoso, tipo 2, com rebaixamento e desidratação profunda
Déficit de volume5 a 7 litros8 a 10 litros — reposição ainda mais central
Insulina0,1 U/kg/h0,05 U/kg/h se cetonemia ausente ou leve; 0,1 U/kg/h nas formas mistas
MortalidadeBaixa quando bem tratadaSubstancialmente maior, sobretudo em idosos e com comorbidades

No estado hiperosmolar, a prioridade é ainda mais deslocada para a reposição volêmica, e a queda deve ser gradual: osmolaridade em cerca de 3 a 8 mOsm/kg por hora, glicemia em no máximo 90 a 120 mg/dL por hora e sódio em no máximo 10 mEq/L em 24 horas, pelo risco de edema cerebral e de desmielinização osmótica. O consenso de 2024 não fixa faixa-alvo glicêmica própria para o EHH: considera-o resolvido com osmolaridade < 300 mOsm/kg, glicemia < 250 mg/dL, diurese adequada e recuperação da consciência (a faixa de 250–300 mg/dL vem do consenso de 2009).

Em 30 segundos

O essencial de complicações

  1. A maior parte das complicações é iatrogênica e previsível: hipoglicemia, hipocalemia, acidose hiperclorêmica, sobrecarga e recorrência por desligar a insulina cedo.
  2. Edema cerebral é raro no adulto (< 0,1%), mais comum em crianças: piora neurológica durante o tratamento exige imagem e tratamento imediato.
  3. Gestação, DRC, insuficiência cardíaca, bomba de insulina, idoso e episódios de repetição pedem ajustes específicos.
  4. Os erros clássicos giram em torno de insulina antes do volume e do potássio, e de desligar a insulina antes da resolução.

Complicações metabólicas do tratamento

A maior parte das complicações da cetoacidose é iatrogênica e previsível — decorre da velocidade da correção, e não da doença em si. As quatro mais frequentes nascem da própria insulina e do fluido: a glicemia cai antes da cetose, o potássio entra na célula, o cloro do soro se acumula e a infusão é desligada antes da hora. Todas se previnem com monitorização seriada e regras simples de ajuste.

ComplicaçãoMecanismoComo prevenir
HipoglicemiaInsulina mantida sem aporte de glicose depois que a glicemia caiu.Adicionar glicose quando a glicemia cair abaixo de 250 mg/dL e reduzir a infusão para 0,05 U/kg/hora, com glicemia capilar horária.
HipocalemiaA insulina desloca potássio para dentro da célula sobre um déficit corporal já grande.Checar o potássio antes da insulina (adiar se < 3,5), repor 20 a 30 mEq por litro e dosar a cada 2 a 4 horas.
Acidose hiperclorêmicaGrandes volumes de soro fisiológico a 0,9%.Preferir cristaloide balanceado; não usar o ânion gap como critério de resolução.
Recorrência da cetoacidoseInsulina endovenosa desligada sem sobreposição com a subcutânea.Sobrepor 1 a 2 horas antes de desligar a infusão e só fazer a transição após os critérios de resolução.

Edema cerebral

É a complicação mais temida, embora rara no adulto (< 0,1% dos episódios) e mais frequente em crianças e adolescentes. O mecanismo é a queda rápida da osmolaridade, que desvia água para o intracelular. O sinal de alarme é o paciente que piora neurologicamente quando deveria estar melhorando.

Corrigir glicemia e osmolaridade de forma gradual; vigiar cefaleia, vômito e piora do nível de consciência; limiar baixo para imagem e tratamento osmótico (manitol ou salina hipertônica) imediato.

Volume: excesso, falta e trombose

O déficit de 5 a 7 litros precisa ser reposto, mas a velocidade certa depende de quem recebe: reposição tímida mantém a hipoperfusão renal, e reposição agressiva congestiona o cardiopata, o renal crônico e o idoso. A desidratação, somada à inflamação e à imobilidade, ainda favorece trombose.

Sobrecarga volêmica

Reposição agressiva em cardiopata, renal crônico ou idoso. Ajustar a velocidade, monitorizar balanço e reavaliar clinicamente com frequência.

Lesão renal aguda

Hipovolemia grave e prolongada. Reposição volêmica precoce e adequada, com controle de diurese.

Tromboembolismo

Desidratação, estado inflamatório e imobilidade. Profilaxia conforme o risco individual, com atenção redobrada no estado hiperosmolar.

Gestação

Na gestante, a cetoacidose ocorre com glicemias mais baixas — a gestação é um estado de cetogênese acelerada — e traz risco fetal significativo. Glicemia "pouco alterada" não afasta o diagnóstico, e o tratamento envolve dois pacientes.

Limiar diagnóstico mais baixo, monitorização fetal, decúbito lateral esquerdo, alíquotas menores de fluido e manejo conjunto com a obstetrícia; insulina IV (não usar o protocolo subcutâneo).

Rim e coração doentes

Na doença renal crônica, a diurese osmótica é limitada e o déficit de volume costuma ser menor; na insuficiência cardíaca, a necessidade de volume conflita com o risco de congestão. Nos dois, o volume é dado em alíquotas, com reavaliação a cada etapa — e o potássio do renal pode subir rápido.

Doença renal crônica ou diálise

Risco de sobrecarga. Reposição mais cautelosa, com reavaliação frequente; atenção redobrada ao potássio, que pode subir rapidamente.

Insuficiência cardíaca

Infundir mais devagar, com monitorização hemodinâmica e reavaliação clínica frequente.

Idoso e usuário de bomba de insulina

No idoso, a mortalidade é maior, as comorbidades são muitas e a apresentação é frequentemente atípica — o precipitante pode ser um infarto silencioso. No usuário de bomba, falha de cateter ou de reservatório causa cetoacidose em poucas horas, porque não há insulina basal de depósito.

Idoso

Investigação ativa de infarto, infecção e evento cerebrovascular; correção mais gradual.

Usuário de bomba de insulina

Suspender a bomba durante o tratamento endovenoso e revisar o sistema antes de reiniciar; investigar falha técnica como precipitante.

Depois da alta: repetição e reserva de insulina

Dois perfis exigem olhar para além do episódio. Quem volta repetidamente com cetoacidose costuma esbarrar em barreiras sociais, custo do insumo, transtorno alimentar ou depressão. Já o diabetes propenso à cetose — fenótipo de tipo 2 que abre o quadro com cetoacidose — muitas vezes recupera a reserva de insulina depois.

Episódios de repetição

Abordagem multiprofissional com serviço social e saúde mental — prescrever mais insulina, isoladamente, não resolve.

Diabetes propenso à cetose

Reavaliar a necessidade de insulina ao longo do seguimento; muitos conseguem retornar a agentes orais.

Erros comuns

Os erros clássicos giram em torno de dois momentos: o início (insulina antes do volume e do potássio) e o fim (desligar a insulina pela glicemia, prolongá-la pelo ânion gap ou desligá-la sem sobreposição). No meio, o erro típico é guiar-se por exames que enganam — a cetonúria, que parece piorar quando o paciente melhora.

  • Iniciar insulina antes de repor volume e antes de checar o potássio.
  • Iniciar insulina com potássio abaixo de 3,5 mEq/L.
  • Não acrescentar potássio às soluções quando a calemia está entre 3,5 e 5,0 mEq/L.
  • Desligar a insulina quando a glicemia normaliza, antes da resolução da cetose.
  • Usar o ânion gap como critério de resolução, prolongando a infusão desnecessariamente.
  • Guiar a conduta pela cetonúria, que piora aparentemente quando o paciente melhora.
  • Não adicionar glicose à solução quando a glicemia cai abaixo de 250 mg/dL.
  • Desligar a infusão sem sobrepor a insulina subcutânea por 1 a 2 horas.
  • Prescrever bicarbonato de rotina, sem acidose extrema.
  • Repor fosfato de rotina, sem indicação específica.
  • Não investigar o precipitante, garantindo a recidiva.
  • Não pensar em cetoacidose euglicêmica no usuário de inibidor de SGLT2.

Resumo do fluxo

O fluxo cabe em três verbos — hidratar, checar o potássio, insulinizar — e em um critério de parada que não é a glicemia. Entre o início e a transição, o trabalho é de vigilância: glicose na solução quando a glicemia cai, potássio reposto enquanto entra insulina e cetona medida até resolver.

  1. Diagnóstico

    Confirme o diagnóstico pelos critérios D, K e A, e classifique a gravidade para definir o local de tratamento.

  2. Volume

    Inicie a reposição volêmica com cristaloide isotônico, preferindo solução balanceada.

  3. CHEQUE O POTÁSSIO

    Abaixo de 3,5 mEq/L, reponha antes de iniciar a insulina.

  4. Insulina

    Insulina regular endovenosa em infusão contínua a 0,1 U/kg/hora, com meta de queda de 50 a 75 mg/dL por hora.

  5. Potássio na solução

    Acrescente 20 a 30 mEq de potássio por litro enquanto a calemia estiver entre 3,5 e 5,0 mEq/L.

  6. Glicose

    Com glicemia abaixo de 250 mg/dL, adicione glicose e reduza a insulina para 0,05 U/kg/hora.

  7. Precipitante e monitorização

    Trate o precipitante e monitorize glicemia horária, eletrólitos e beta-hidroxibutirato a cada 2 a 4 horas.

  8. Resolução e transição

    Cetona abaixo de 0,6 mmol/L e pH ≥ 7,3 ou bicarbonato ≥ 18: faça a transição com sobreposição de 1 a 2 horas e planeje a alta.

Quase toda complicação da CAD é velocidade errada: insulina antes do volume e do potássio, glicemia que cai rápido demais, infusão desligada cedo demais.

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Aviso importante

Ferramenta de apoio à decisão clínica, de caráter educacional. Não substitui a avaliação médica presencial, o julgamento clínico, os protocolos institucionais nem a consulta às bulas. Doses, diluições e velocidades de infusão devem ser conferidas antes da administração. Doses para adultos. Os limiares de potássio seguem o consenso de 2024 (3,5 e 5,0 mEq/L); protocolos institucionais mais antigos podem usar 3,3 e 5,2 mEq/L. Em caso de divergência, prevalecem os protocolos do seu serviço e as bulas vigentes.

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