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Atlas de Oftalmologia • Esclera

Abscesso escleral

Esclerite infecciosa supurativa • infectious scleritis / scleral abscess

Coleção purulenta na esclera, quase sempre após cirurgia ocular ou trauma. Parece uma esclerite necrosante, mas é infecciosa: corticoide e imunossupressor pioram o quadro. O tratamento combina antimicrobiano intensivo e, muitas vezes, desbridamento cirúrgico.

EscleraInfecção — Pseudomonas e fungosPós-cirurgia de pterígio, traumaUrgência oftalmológica
12–15 min de leitura Atualizado em outubro de 2026

Reconheça o achado

Imagem clínica

Abscesso escleral após excisão de pterígio: nódulo branco-amarelado com necrose e hiperemia intensa ao redor. Toque para ampliar.

Principais achados
  1. 1
    Nódulo escleral branco-amarelado, às vezes com secreção purulenta
  2. 2
    Área de necrose escleral, com ou sem calcificação
  3. 3
    Hiperemia intensa e dor desproporcional
  4. 4
    Úlcera conjuntival sobre a lesão; sutura ou explante exposto
  5. 5
    Ceratite periférica, uveíte ou endoftalmite associadas
  6. 6
    Piora com corticoide tópico ou sistêmico

Em 30 segundos

O essencial de visão geral

  1. É a forma supurativa da esclerite infecciosa: coleção de pus dentro da esclera.
  2. Principal fator de risco: cirurgia ocular prévia, sobretudo pterígio com mitomicina C ou betaterapia.
  3. Pseudomonas aeruginosa lidera no Ocidente; fungos (Aspergillus, Fusarium) em regiões tropicais.
  4. Microbiologia antes do tratamento; antimicrobiano intensivo + desbridamento; evitar corticoide.

O que é

A esclerite infecciosa responde por cerca de 5–10% das esclerites em séries ocidentais e por uma fração bem maior em países tropicais, como a Índia. O abscesso escleral é a sua expressão mais típica: uma coleção supurativa localizada, quase sempre com necrose do tecido vizinho.

Pode ser exógena (cirurgia, trauma, extensão de úlcera de córnea) ou, raramente, endógena (disseminação hematogênica em pacientes imunossuprimidos, como na tuberculose ou na endocardite).

Esclerite necrosante em olho operado ou traumatizado, ou que piora com corticoide: colher material e tratar como infecção.

Agentes

O perfil microbiológico varia com a região e a porta de entrada. Os dados abaixo vêm de revisão recente (Sharma et al., 2025).

Pseudomonas aeruginosa

O agente mais comum nas séries ocidentais (51–85%); destrói colágeno rapidamente.

Outras bactérias

Staphylococcus aureus, estreptococos, Nocardia (filamentosa, crônica).

Fungos

Aspergillus (sobretudo A. flavus) e Fusarium; até um terço dos casos em países tropicais. Pior prognóstico.

Micobactérias

M. tuberculosis e micobactérias não tuberculosas (após cirurgia); lesão nodular crônica.

Vírus

Herpes-zóster e herpes simples causam esclerite infecciosa, porém sem abscesso supurativo.

Outros

Acanthamoeba (extensão de ceratite), sífilis.

Em 30 segundos

O essencial de quadro clínico

  1. Dor intensa, hiperemia, lacrimejamento; baixa visual se houver ceratite ou endoftalmite.
  2. Lesão nodular branco-amarelada, frequentemente com úlcera conjuntival e secreção.
  3. Pode haver placa calcificada, sutura ou explante expostos.
  4. Início semanas a anos após a cirurgia.

Sinais e sintomas

O quadro lembra uma esclerite necrosante, mas alguns detalhes apontam para infecção: secreção, nódulo de aspecto purulento, localização exatamente no leito de uma cirurgia e resposta ruim (ou piora) ao corticoide.

Dor intensa

Profunda, contínua, piora à noite.

Nódulo amarelado

Abscesso elevado, com centro branco-amarelado.

Secreção

Mucopurulenta sobre a lesão.

Necrose e afinamento

Úvea azulada à vista; risco de perfuração.

Placa calcificada

Esclera branca e endurecida após mitomicina/betaterapia.

Baixa visual

Indica ceratite, uveíte ou endoftalmite associadas.

Infecciosa × autoimune

Abscesso / esclerite infecciosa

  • Cirurgia ou trauma no local
  • Secreção, nódulo purulento
  • Geralmente unilateral
  • Piora com corticoide
  • Culturas positivas

Esclerite necrosante autoimune

  • AR, vasculite ANCA, LES
  • Sem pus; áreas avasculares
  • Pode ser bilateral
  • Melhora com imunossupressão
  • Culturas negativas

Em 30 segundos

O essencial de diagnóstico

  1. Colher material antes de iniciar antimicrobiano.
  2. Bacterioscopia (Gram), KOH/calcoflúor, Ziehl-Neelsen; culturas em ágar sangue, chocolate, Sabouraud e Löwenstein-Jensen.
  3. Biópsia escleral se cultura negativa ou sem resposta.
  4. Ultrassom B: extensão posterior e endoftalmite.

Investigação microbiológica

Como a esclera é densa, o raspado superficial pode ser negativo. Material de área profunda, pus puncionado, suturas e explantes removidos devem ir ao laboratório. PCR para fungos, micobactérias e herpes ajuda quando disponível.

ExameO que procura
GramBactérias (bacilos gram-negativos sugerem Pseudomonas)
KOH 10% / calcoflúor brancoHifas de fungos filamentosos
Ziehl-Neelsen / KinyounMicobactérias e Nocardia (álcool-ácido resistência)
CulturasÁgar sangue, chocolate, Sabouraud, Löwenstein-Jensen; incubação prolongada
Biópsia com histopatologiaQuando cultura negativa ou falha terapêutica
PCRFungos, micobactérias, herpesvírus (conforme disponibilidade)

Imagem

Ultrassom B

Espessamento escleral, coleção, extensão posterior e vitreíte (endoftalmite).

OCT de segmento anterior

Profundidade do abscesso e espessura escleral restante.

TC de órbita

Se suspeita de extensão orbitária ou explante infectado.

Diagnóstico diferencial

CondiçãoAchado-chaveComo diferenciar
Achado-chaveNecrose sem pus; doença sistêmica
Como diferenciarCulturas negativas; ANCA/FR; responde a imunossupressão.
Achado-chaveAfinamento sem dor nem inflamação
Como diferenciarAR de longa data; sem secreção.
Achado-chaveInfiltrado corneano junto ao limbo
Como diferenciarComeça na córnea; mesma investigação microbiológica.
Endoftalmite
Achado-chaveVitreíte, hipópio, baixa visual
Como diferenciarUltrassom B; punção vítrea.
Achado-chaveNódulo móvel, pouca dor
Como diferenciarSem pus nem necrose; clareia com fenilefrina.

Galeria oftalmológica

Procure o leito cirúrgico, o centro amarelado, a secreção e a necrose. Repare também na córnea vizinha: ceratite associada piora o prognóstico.

Abscesso após cirurgia de pterígio

Nódulo branco-amarelado na esclera nasal, exatamente no leito da excisão, cercado de hiperemia intensa. A localização e o aspecto purulento apontam para infecção, e não para esclerite autoimune.

Pós-pterígioNódulo purulento

Necrose escleral com úvea visível

Área de esclera destruída com fundo azul-escuro (úvea) e bordas amareladas. Há risco de perfuração: evitar pressão sobre o globo e programar desbridamento e reforço tectônico.

NecroseRisco de perfuração

Explante de introflexão exposto

Faixa de silicone visível sob conjuntiva ulcerada, com secreção. O explante colonizado mantém a infecção e geralmente precisa ser removido.

IntroflexãoCorpo estranho

Esclerite infecciosa com ceratite

Infiltrado corneano periférico que se continua com abscesso escleral junto ao limbo. A extensão córnea-esclera é típica de Pseudomonas e de fungos.

CeratiteLimbo

Em 30 segundos

O essencial de tratamento

  1. Empírico de amplo espectro após coleta; ajustar pela cultura.
  2. Colírios fortificados em alta frequência + antibiótico sistêmico com boa penetração (ex.: ciprofloxacino oral para Pseudomonas).
  3. Desbridamento cirúrgico precoce (em 2–3 semanas) e repetido, com remoção de suturas e explantes.
  4. Corticoide só depois de infecção controlada, e com cautela.

O papel da cirurgia

Na revisão de Sharma et al. (2025), só uma minoria respondeu ao tratamento clínico isolado; a combinação com desbridamento precoce teve melhores resultados. A cirurgia remove tecido necrótico e microrganismos, fornece material para cultura e melhora a penetração do antimicrobiano.

  1. Desbridamento e irrigação

    Remover tecido necrótico; irrigar com antibiótico; repetir se necessário.

  2. Retirar corpo estranho

    Suturas, explantes de introflexão, placas calcificadas.

  3. Reforço tectônico

    Enxerto de esclera, córnea, membrana amniótica ou pericôndrio quando há afinamento com úvea exposta.

  4. Crioterapia adjuvante

    Usada em alguns serviços nas formas fúngicas e por Pseudomonas.

Rotas de tratamento

Esquemas de referência, adaptados dos usados na ceratite infecciosa; colírios fortificados são manipulados em farmácia hospitalar. Ajuste sempre pela microbiologia e pela resposta clínica.

O que evitar

  • Corticoide tópico, periocular ou sistêmico antes do controle da infecção.
  • Imunossupressores para "esclerite necrosante" sem culturas.
  • Pressão sobre o globo afinado (exame cuidadoso, sem tonometria de aplanação sobre a lesão).

Referências bibliográficas

  1. 1
    Artigo2025
    Sharma S, Sheth JU, Murthy SI. Infectious scleritis: a review of etiologies, clinical features, and management strategies. Front Ophthalmol (Lausanne). 2025;5:1493831. doi:10.3389/fopht.2025.1493831.
  2. 2
    Livro-texto2025
    American Academy of Ophthalmology. Basic and Clinical Science Course (BCSC), Section 8: External Disease and Cornea. San Francisco: AAO; 2024–2025.
  3. 3
    Diretriz2024
    American Academy of Ophthalmology Cornea/External Disease Panel. Bacterial Keratitis Preferred Practice Pattern®. Ophthalmology. 2024;131(4):P87–P133.
  4. 4
    Livro-texto2020
    Bowling B. Kanski’s Clinical Ophthalmology: A Systematic Approach. 9. ed. Elsevier; 2020.
  5. 5
    Livro-texto2021
    Gervasio KA, Peck TJ, eds. The Wills Eye Manual. 8. ed. Philadelphia: Wolters Kluwer; 2021.
  6. 6
    Artigo2012
    Sainz de la Maza M, Molina N, Gonzalez-Gonzalez LA, et al. Clinical characteristics of a large cohort of patients with scleritis and episcleritis. Ophthalmology. 2012;119(1):43–50.

Fontes das imagens

As imagens deste atlas têm finalidade educacional e foram produzidas a partir de referências clínicas reais e de representações anatômicas didáticas.

Parte delas pode ter sido editada ou aprimorada digitalmente para destacar as estruturas e os achados descritos no texto.

Aviso importante

Material educacional. Não substitui a avaliação oftalmológica, os protocolos institucionais nem a consulta às bulas. Colírios fortificados e antifúngicos sistêmicos devem ser prescritos pelo oftalmologista, preferencialmente com apoio de infectologia; esquemas variam entre serviços.

Atlas MedFoco de Oftalmologia • Conteúdo para educação médica. O diagnóstico e a conduta dependem da avaliação clínica individual.
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