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Emergência & UTI • Neurológico

Meningite e Encefalite

Meningite bacteriana aguda • meningoencefalite • encefalite herpética e autoimune

Duas emergências neurológicas em que o tempo até a primeira dose pesa mais do que qualquer refinamento diagnóstico posterior. Antibiótico e dexametasona na suspeita de meningite bacteriana, aciclovir na suspeita de encefalite — sempre antes do resultado do líquor, e nunca adiados por causa da tomografia.

Antibiótico em até 1 horaDexametasona antes ou juntoAciclovir empírico na encefaliteNotificação imediata (24 h)
18 min de leitura Atualizado em outubro de 2026

Em 30 segundos

O essencial de visão geral

  1. Meningite inflama as leptomeninges (febre, cefaleia, rigidez de nuca); encefalite inflama o parênquima (alteração do estado mental, crises, déficit focal) — e a sobreposição é frequente.
  2. A tríade clássica aparece em só cerca de metade dos adultos com meningite bacteriana: exigir a tríade para tratar é erro grave.
  3. Três decisões precedem o líquor: cobrir bactéria, cobrir herpes e definir se há critério de tomografia antes da punção.
  4. Hemocultura, dexametasona, antibiótico em até 1 hora e aciclovir se houver encefalopatia — o resto é diagnóstico.

Duas síndromes que se sobrepõem

Meningite é a inflamação das leptomeninges e do espaço subaracnóideo. Domina o quadro a síndrome de irritação meníngea: febre, cefaleia intensa, rigidez de nuca, fotofobia e vômitos, com o nível de consciência tipicamente preservado ou apenas discretamente rebaixado.

Encefalite é a inflamação do parênquima cerebral com disfunção neurológica correspondente. O marcador é a alteração do estado mental — confusão, mudança de personalidade e comportamento, rebaixamento — frequentemente acompanhada de crises epilépticas e de déficits focais.

A tríade clássica de febre, rigidez de nuca e alteração do estado mental está presente em apenas cerca de metade dos adultos com meningite bacteriana. Exigir a tríade completa para iniciar o tratamento é um erro que custa vidas.

Na prática, a separação é didática: a maioria dos pacientes graves apresenta algum grau de sobreposição, e falamos em meningoencefalite. O que muda a conduta não é o rótulo, e sim a decisão de cobrir bactéria, vírus, ou ambos, desde a primeira hora.

O que distingue

Nenhum sinal isolado separa as duas síndromes com segurança, mas o padrão de apresentação orienta a cobertura inicial. O tempo de instalação, o grau de toxemia e a presença de sinais parenquimatosos dizem mais do que qualquer manobra semiológica isolada — e devem ser registrados já na admissão, porque mudam ao longo das horas.

Predomínio meníngeo

Cefaleia, rigidez de nuca, fotofobia, vômitos; paciente lúcido ou levemente sonolento.

Predomínio parenquimatoso

Confusão, alteração de comportamento e de linguagem, crise epiléptica, déficit focal, movimentos anormais.

Sinais que apontam encefalite

Alucinações, alteração de memória, afasia, hemiparesia e crises de início focal.

Sinais que apontam bactéria

Instalação em horas, toxemia, rash petequial, choque e rebaixamento rápido.

Sinais que apontam vírus

Pródromo viral, quadro mais arrastado, líquor com predomínio linfocitário e glicose normal.

A pergunta prática à beira do leito

Diante de febre com alteração neurológica, três decisões precisam ser tomadas quase simultaneamente, e nenhuma depende do líquor. Elas definem o que entra na primeira prescrição e em que ordem a investigação acontece.

  1. Pode ser meningite bacteriana?

    Se sim, antibiótico agora — com imediatamente antes ou junto.

  2. Há encefalopatia associada?

    Se sim, agora, junto com o esquema antibacteriano.

  3. Existe critério para tomografia antes da punção?

    Se sim, colha hemocultura, trate e faça a punção depois da imagem, quando for segura.

A regra que não muda: nenhum exame — tomografia, líquor, painel molecular — justifica atraso na primeira dose. A coleta de líquor após o antibiótico perde sensibilidade da cultura, mas mantém celularidade, bioquímica e testes moleculares por horas.

Por que a pressa importa

A meningite bacteriana comunitária permanece com letalidade elevada e sequelas frequentes mesmo em serviços bem estruturados. O atraso na antibioticoterapia é um dos poucos fatores prognósticos sob controle direto da equipe. No Brasil, a vacina meningocócica C conjugada (2010) derrubou a incidência da doença meningocócica para menos de 1 caso por 100 mil habitantes, mas as crianças pequenas continuam sendo o grupo mais atingido, e os sorogrupos B, C e W predominam.

0,35/100 milIncidência de doença meningocócica no Brasil em 2023
1,42/100 milIncidência em menores de 5 anos (2023)
≈ 1 em 5Sobreviventes com sequela, sobretudo perda auditiva

Janela

Antibiótico dentro de 1 hora da suspeita, idealmente ainda na sala de emergência.

Letalidade

Alta na meningite pneumocócica; maior ainda quando há choque ou coma na admissão.

Encefalite herpética

Sem aciclovir, a letalidade é altíssima; com tratamento precoce, cai de forma dramática.

Saúde pública

Notificação compulsória imediata e quimioprofilaxia mudam o desfecho de outras pessoas.

Os primeiros 60 minutos

A primeira hora é organizada em três movimentos que se sobrepõem: estabilizar, colher e tratar, e só então puncionar. Pensar nessa ordem evita os dois erros mais comuns do plantão — esperar a imagem para tratar e puncionar um paciente que tinha critério de tomografia.

  1. Reconhecer e estabilizar

    Vias aéreas, oxigenação e perfusão. Choque com rash petequial em paciente jovem é meningococcemia até prova em contrário. Corrija hipoglicemia e trate crises.

  2. Colher e tratar

    Hemoculturas (duas amostras) e exames iniciais. imediatamente antes ou junto da primeira dose do antibiótico. se houver encefalopatia.

  3. Puncionar quando seguro

    Sem critérios para tomografia, faça a punção lombar já. Com critérios, faça a imagem depois de ter tratado — a ordem correta é tratar e depois puncionar.

Monte a bandeja mentalmente como um pacote único: hemocultura, dexametasona, ceftriaxona (mais ampicilina e vancomicina conforme o caso) e aciclovir se houver encefalopatia. Depois disso, o resto do plantão é diagnóstico.

Em 30 segundos

O essencial de etiologias

  1. Idade, comorbidade e porta de entrada definem quais agentes a primeira dose precisa cobrir.
  2. Meningococo e pneumococo dominam do lactente ao adulto; acima de 50–60 anos, na gestante e no imunossuprimido, a Listeria exige ampicilina.
  3. Meningite "asséptica" não exclui tuberculose, fungo, sífilis nem bacteriana parcialmente tratada.
  4. Herpes simples tipo 1 é a causa esporádica tratável mais importante de encefalite.

Agentes bacterianos por faixa etária

A escolha do esquema empírico decorre diretamente desta tabela. Idade, comorbidade e porta de entrada definem quais agentes precisam ser cobertos na primeira dose, e o erro mais caro é a omissão — sobretudo da cobertura de Listeria, que nenhuma cefalosporina oferece.

GrupoAgentes prováveisImplicação no esquema empírico
Neonato (até 1 mês)Streptococcus agalactiae (grupo B), Escherichia coli e outras enterobactérias, Listeria monocytogenes.Ampicilina associada a (ou a aminoglicosídeo, conforme o protocolo do serviço).
1 mês a 50 anosNeisseria meningitidis, Streptococcus pneumoniae; Haemophilus influenzae tipo b em não vacinados.Ceftriaxona (ou cefotaxima), com vancomicina onde há pneumococo resistente.
Acima de 50 anosPneumococo, meningococo, Listeria monocytogenes, bacilos gram-negativos aeróbios.Acrescentar ampicilina para cobrir Listeria.
Imunossupressão celularListeria, pneumococo, gram-negativos, Cryptococcus, micobactérias.Ampicilina obrigatória; considerar cobertura antipseudomonas e investigação fúngica.
GestanteMesmo perfil do adulto, com risco aumentado de Listeria.Incluir ampicilina; evitar quinolonas.
TCE, neurocirurgia, derivaçãoStaphylococcus aureus, estafilococos coagulase-negativos, gram-negativos incluindo Pseudomonas.Vancomicina associada a betalactâmico antipseudomonas (cefepima, ceftazidima ou meropenem).
Fístula liquórica / fratura de basePneumococo predominante, além de H. influenzae e estreptococos beta-hemolíticos.Cefalosporina de terceira geração associada a vancomicina.

O corte de 50 anos (IDSA e ESCMID) para incluir ampicilina é convenção operacional, não fronteira biológica — a diretriz da OMS de 2025 usa idade acima de 60 anos, gestação e imunossupressão como fatores de risco. Pacientes mais jovens com etilismo, neoplasia, corticoterapia ou outra imunossupressão também precisam de cobertura para Listeria.

Etiologias não bacterianas

A maior parte das meningites com líquor linfocitário é viral e benigna, mas é justamente nesse grupo que se escondem as causas que matam por atraso: herpes no parênquima, tuberculose e criptococo. Por isso o rótulo "viral" deve ser uma conclusão, não um ponto de partida.

Meningite viral (asséptica)

Enterovírus são a causa mais comum, seguidos de herpes-vírus, arbovírus e primoinfecção pelo HIV. Curso geralmente benigno e autolimitado, com líquor linfocitário e glicose normal.

Encefalite viral

Herpes simples tipo 1 é a causa esporádica tratável mais importante. Também enterovírus, varicela-zóster, arbovírus e, no Brasil, arboviroses regionais como dengue, zika, chikungunya e febre do Nilo Ocidental em áreas específicas.

Tuberculose meníngea

Instalação subaguda ao longo de semanas, com paralisia de nervos cranianos, hidrocefalia e vasculite. Líquor linfocitário com glicose baixa e proteína muito elevada.

Fúngica

Cryptococcus neoformans em imunossuprimidos, sobretudo HIV com contagem baixa de CD4: cefaleia arrastada, hipertensão intracraniana importante e tinta da China ou antígeno criptocócico positivo.

Encefalite autoimune

Anticorpo antirreceptor NMDA e outros: quadro subagudo com sintomas psiquiátricos, discinesias, disautonomia e crises. Pode surgir após encefalite herpética.

Meningite não infecciosa

Medicamentosa (anti-inflamatórios, sulfas, imunoglobulina), neoplásica (carcinomatose meníngea) e doenças autoimunes sistêmicas. Diagnóstico de exclusão, após afastar infecção.

"Meningite asséptica" descreve apenas a ausência de crescimento bacteriano em cultura convencional. Não exclui tuberculose, fungo, sífilis nem meningite bacteriana parcialmente tratada — situações em que o líquor pode ser linfocitário.

O cenário brasileiro atual

Segundo o Ministério da Saúde (Nota Técnica Conjunta nº 154/2024), os sorogrupos meningocócicos de maior relevância no país são o B, o C e o W, e em menor escala o Y. O período de incubação médio é de 4 dias (2 a 10), e a transmissibilidade termina, em geral, nas primeiras 24 horas de antibioticoterapia adequada — base dos prazos de isolamento e de definição de contato.

Com a vacinação contra Hib desde os anos 1990, a maior parte da doença invasiva por Haemophilus influenzae no Brasil passou a ser causada por cepas não tipáveis e pelo sorotipo a, e não mais pelo b. O laboratório precisa tipar o isolado, e a quimioprofilaxia é iniciada pela confirmação inicial de H. influenzae invasivo, sem esperar a tipagem.

Pneumococo não exige quimioprofilaxia de contatos, mas exige atenção ao perfil local de resistência: é ele que define se a vancomicina entra rotineiramente no esquema empírico do seu serviço.

Pistas epidemiológicas que mudam a conduta

A anamnese epidemiológica é rápida e muda a cobertura antes de qualquer exame. Pergunte ativamente por aglomeração, focos parameníngeos, imunossupressão, exposição a vetores e animais e procedimentos neurocirúrgicos recentes — cada resposta acrescenta ou retira um agente da lista.

  • Aglomeração e surto — alojamento coletivo, quartel e escola aumentam a probabilidade de meningococo e disparam a investigação de contactantes.
  • Rash petequial ou purpúrico — meningococcemia; a evolução para choque pode ocorrer em poucas horas.
  • Otite, sinusite ou pneumonia recente — porta de entrada pneumocócica; procure também abscesso e empiema subdural.
  • Etilismo, esplenectomia, mieloma e HIV — risco elevado de pneumococo e de agentes oportunistas.
  • Contato com tuberculose ou HIV avançado — considere tuberculose meníngea e criptococose desde o início.
  • Viagem, área rural e exposição a vetores — arboviroses; conheça a sazonalidade da sua região.
  • Mordedura de animal ou contato com morcegos — raiva, que é encefalite sem tratamento específico e com quase 100% de letalidade.
  • Neurocirurgia, derivação ventricular ou trauma recente — perfil hospitalar, com necessidade de cobertura para estafilococo e gram-negativos.

Em 30 segundos

O essencial de avaliação

  1. Sinais meníngeos (Kernig, Brudzinski) são específicos, mas pouco sensíveis; nos extremos de idade o quadro é atípico.
  2. Duas hemoculturas, glicemia pareada e exames de base antes do antibiótico — sem atrasá-lo.
  3. Tomografia antes da punção só com critério: imunossupressão grave, doença do SNC, crise recente, papiledema, rebaixamento importante, déficit focal.
  4. Cefaleia súbita e máxima desde o início é hemorragia subaracnóidea até prova em contrário.

Quadro clínico

O exame clínico separa o predomínio meníngeo do parenquimatoso, mas nenhuma manobra afasta meningite. Kernig e Brudzinski são específicos e pouco sensíveis: sua ausência não tranquiliza, e a decisão de tratar se apoia na suspeita global — febre com cefaleia, alteração mental ou rash.

Sugere meningite

  • Febre com cefaleia holocraniana intensa e de instalação rápida.
  • Rigidez de nuca, fotofobia, náuseas e vômitos.
  • Sinais de Kernig e de Brudzinski — específicos, porém pouco sensíveis.
  • Rash petequial ou purpúrico, sugestivo de meningococo.
  • Nível de consciência preservado ou pouco alterado nas fases iniciais.

Sugere encefalite

  • Alteração do estado mental por 24 horas ou mais, sem outra causa.
  • Mudança de personalidade, comportamento bizarro e alucinações.
  • Crises epilépticas, sobretudo de início focal.
  • Déficits focais: afasia, hemiparesia e alteração de campo visual.
  • Movimentos anormais e disautonomia, que sugerem causa autoimune.

Nos extremos de idade o quadro é atípico. No lactente predominam irritabilidade, recusa alimentar, abaulamento de fontanela, hipotonia e convulsão, sem rigidez de nuca. No idoso, pode haver apenas confusão e queda do estado geral, muitas vezes sem febre.

Definição de caso suspeito (vigilância)

Em 2024 o Ministério da Saúde revisou a definição de caso suspeito de meningite usada para notificação. Ela é deliberadamente sensível: serve para acionar a vigilância e a investigação, não para decidir sozinha o tratamento — mas qualquer paciente que a preencha merece, no mínimo, avaliação médica imediata.

  • Febre com dois ou mais de: cefaleia intensa, vômito, confusão ou alteração mental, fotofobia, torpor, convulsão.
  • Febre com pelo menos um sinal de irritação meníngea (rigidez de nuca, Kernig ou Brudzinski).
  • Febre de início súbito com petéquias ou sufusões hemorrágicas.
  • Em menores de 2 anos, também febre com irritabilidade ou choro persistente, sonolência ou abaulamento de fontanela.
  • Em surto, a definição é ampliada: febre com um único sinal de alarme (alteração mental, convulsão, torpor, irritação meníngea ou petéquias).

Exames iniciais

Os exames iniciais têm três funções: preservar a chance de identificar o agente antes do antibiótico, medir a gravidade sistêmica e garantir a segurança da punção. Nenhum deles precisa ficar pronto para a primeira dose — eles são colhidos na mesma punção venosa, em minutos.

  • Duas hemoculturas antes do antibiótico — positivas em boa parte dos casos e podem salvar o diagnóstico quando a cultura do líquor já foi esterilizada.
  • Hemograma, PCR, lactato, função renal e hepática, eletrólitos e coagulograma — o coagulograma também orienta a segurança da punção. A OMS (2025) considera também procalcitonina, onde disponível.
  • Glicemia sérica pareada colhida próxima ao momento da punção: sem ela, a glicose liquórica é ininterpretável.
  • Gasometria e lactato em quem tem sinais de sepse ou choque.
  • Sorologia para HIV, com consentimento, em todo caso de meningite ou encefalite sem causa definida.
  • Tomografia de crânio apenas nas indicações listadas abaixo — e nunca como pré-requisito universal.
  • Ressonância magnética na suspeita de encefalite: é o exame de escolha e pode mostrar alterações em lobos temporais e sistema límbico.
  • Eletroencefalograma na encefalite e no rebaixamento inexplicado, para detectar crise não convulsiva e padrões sugestivos.

Calculadora — preciso de tomografia antes da punção?

Marque cada critério como presente ou ausente. A ausência de todos os critérios permite puncionar sem imagem prévia. A presença de qualquer um indica tomografia antes — e, nesse caso, hemocultura, e antibiótico vêm antes da imagem.

Tomografia antes da punção lombar — 6 critérios

Critérios clássicos da IDSA (derivados de Hasbun, 2001), compatíveis com os motivos de adiamento da punção da OMS (2025). Não atrasa a droga.

Marque os seis critérios como presentes ou ausentes.

Ferramenta de apoio. A tomografia normal não garante ausência de risco de herniação, e o julgamento clínico prevalece.

Contraindicações independentes à punção incluem coagulopatia significativa, plaquetopenia grave, uso de anticoagulante e infecção de pele no local — nesses casos, trate e discuta a coleta com a neurologia.

O que as diretrizes atuais acrescentam

A diretriz da OMS (2025) e a da ESCMID (2016) usam critérios um pouco mais restritivos que os da IDSA: o limiar de consciência é Glasgow abaixo de 10, a crise nova conta em adultos e a imunossupressão precisa ser grave. A OMS também separa os motivos para adiar a punção das contraindicações absolutas, e reforça que o tratamento não pode esperar nem a imagem nem a punção.

Adiar a punção (fazer imagem antes)

  • Glasgow abaixo de 10
  • Sinais neurológicos focais ou déficit de nervo craniano
  • Papiledema
  • Crise epiléptica nova (adultos)
  • Imunossupressão grave

Não puncionar (contraindicação absoluta)

  • Distúrbio de coagulação conhecido ou suspeito
  • Infecção de pele ou partes moles, ou abscesso epidural, no local ou próximo da punção
  • Instabilidade hemodinâmica ou respiratória que exige estabilização

Sem tomografia disponível e com algum motivo de adiamento, a OMS orienta não puncionar até que o fator se resolva — e manter o tratamento empírico completo enquanto isso.

Glasgow à beira do leito

O nível de consciência decide duas coisas neste paciente: se a punção precisa esperar a imagem e se a via aérea precisa ser protegida. Registre a escala por componentes e repita de forma seriada — a queda de dois pontos é sinal de alarme para hipertensão intracraniana, crise não convulsiva ou piora sistêmica.

Glasgow e Glasgow-Pupilas (GCS-P)

Escolha a melhor resposta de cada componente. A ferramenta mostra a soma, a notação por componentes (O, V, M), o GCS-P e o componente mais comprometido.

Escala de Coma de Glasgow—
GCS-P (Glasgow-Pupilas)—
Componente mais grave—
Via aérea—
Classificação—

Glasgow abaixo de 10 (OMS/ESCMID) ou abaixo de 11 (IDSA) indica imagem antes da punção. Glasgow ≤ 8 é o limiar clássico para considerar via aérea definitiva, mas a decisão é clínica.

Diagnósticos diferenciais

Febre com alteração neurológica tem diferenciais que exigem condutas opostas — anticoagular, drenar, operar ou tratar crise. A pergunta útil é qual deles muda a sequência de exames: a hemorragia subaracnóidea e as lesões com efeito de massa mudam, porque pedem imagem antes da punção.

CondiçãoComo diferenciarConduta
Como diferenciarCefaleia súbita e explosiva, no auge desde o início, com rigidez de nuca e sem febre nas primeiras horas.
CondutaTomografia sem contraste; se negativa e a suspeita persistir, punção com pesquisa de xantocromia.
Abscesso cerebral e empiema subdural
Como diferenciarFebre com déficit focal e sinais de efeito de massa; foco parameníngeo como otite ou sinusite.
CondutaImagem com contraste antes da punção; tratamento antimicrobiano prolongado e avaliação neurocirúrgica.
Como diferenciarFoco infeccioso extracraniano evidente, sem síndrome meníngea nem déficit focal.
CondutaTratar o foco; se houver dúvida, o líquor resolve — na dúvida real, cubra também o sistema nervoso central.
Como diferenciarRebaixamento flutuante, automatismos e desvio ocular, sem explicação sistêmica.
CondutaEletroencefalograma; tratamento antiepiléptico específico.
Como diferenciarHepática, urêmica, hiponatrêmica, hipoglicêmica, intoxicações e síndrome serotoninérgica.
CondutaExames laboratoriais dirigidos e correção; lembrar que também são causas de crise epiléptica.
Enxaqueca com meningismo
Como diferenciarHistória prévia semelhante, ausência de febre e de toxemia, exame neurológico normal.
CondutaDiagnóstico de exclusão — na primeira apresentação com febre, investigue.
Trombose venosa cerebral
Como diferenciarCefaleia progressiva, crises, déficits que não respeitam território arterial, fatores pró-trombóticos.
CondutaAngiorressonância ou angiotomografia venosa; anticoagulação.

Cefaleia súbita e de intensidade máxima desde o início não é meningite até que a hemorragia subaracnóidea seja afastada. E febre com déficit focal exige imagem antes da punção, pela possibilidade de lesão com efeito de massa.

Em 30 segundos

O essencial de líquor

  1. Colha 3 a 4 frascos e meça a pressão de abertura; a glicose só se interpreta com glicemia sérica pareada.
  2. Padrão bacteriano: neutrófilos, proteína alta, relação de glicose < 0,4 e lactato ≥ 3,5 mmol/L.
  3. PCR no líquor é recomendado pela OMS, mas não substitui cultura e antibiograma.
  4. Nenhum padrão isolado autoriza suspender o antibiótico em paciente grave.

O que pedir na punção

A punção lombar continua sendo o exame que fecha o diagnóstico. Colha em três a quatro frascos e distribua os pedidos de forma que nenhuma amostra seja desperdiçada. A OMS (2025) recomenda fortemente, além da citologia e da bioquímica, testes moleculares (PCR) para os patógenos relevantes — sem abrir mão da cultura e do antibiograma, que continuam sendo o padrão-ouro.

  • Pressão de abertura — com o paciente em decúbito lateral e pernas estendidas; valores muito elevados sugerem criptococose, tuberculose ou hipertensão intracraniana.
  • Citologia global e diferencial — número de células e predomínio de neutrófilos ou linfócitos.
  • Bioquímica — proteína e glicose, esta última sempre com glicemia sérica pareada.
  • Bacterioscopia pelo Gram e cultura — o Gram é rápido e razoavelmente sensível na meningite bacteriana não tratada.
  • Látex ou teste imunocromatográfico — útil quando o antibiótico já foi iniciado.
  • PCR ou painel molecular — herpes simples, enterovírus, meningococo, pneumococo e outros, conforme disponibilidade.
  • Pesquisa de BAAR, cultura para micobactérias e teste molecular rápido quando houver suspeita de tuberculose.
  • Tinta da China e antígeno criptocócico em imunossuprimidos.
  • Lactato liquórico, quando disponível, ajuda a separar padrão bacteriano de viral.

Punção traumática atrapalha a leitura. Uma correção prática é descontar cerca de 1 leucócito para cada 500 a 700 hemácias, mas a regra é imprecisa: diante de dúvida em paciente grave, decida pelo tratamento e não pela aritmética.

Painel multiplex não é PCR específico

Os painéis moleculares multiplex têm sensibilidade menor para herpes simples tipo 1 do que o PCR específico. Na suspeita de encefalite, peça o PCR dirigido para HSV e não aceite um painel negativo como exclusão — recomendação apresentada pela força-tarefa EAN–ESCMID de encefalite infecciosa (2025).

Padrões liquóricos típicos

A leitura do líquor é integrada: celularidade, predomínio, proteína, glicose e lactato precisam contar a mesma história. Quando um parâmetro destoa — por exemplo, linfócitos com glicose baixa — é aí que mora o diagnóstico diferencial mais importante, porque esse é o padrão da tuberculose, do fungo e da bacteriana parcialmente tratada.

ParâmetroNormalBacterianaViralTuberculosa / fúngica
AspectoLímpidoTurvo ou purulentoLímpidoLímpido ou opalescente
Células (por mm³)Até 5Habitualmente acima de 1000De 10 a 500De 50 a 500
PredomínioLinfócitosNeutrófilosLinfócitos (neutrófilos nas primeiras horas)Linfócitos
Proteína (mg/dL)De 15 a 45Elevada, frequentemente acima de 100Normal ou pouco elevadaMuito elevada, podendo passar de 200
GlicoseRelação com o soro em torno de 0,6Baixa, com relação abaixo de 0,4NormalBaixa
LactatoAbaixo de 2,1 mmol/LHabitualmente 3,5 mmol/L ou mais (antes do antibiótico)Normal ou pouco elevadoElevado

Padrões são probabilísticos, não determinísticos. Meningite bacteriana muito precoce pode ter poucas células; encefalite herpética costuma cursar com líquor linfocitário e discreto aumento de proteína, às vezes com hemácias. Nenhum padrão isolado autoriza suspender o antibiótico em paciente grave.

Calculadora — interpretação do líquor

Preencha as faixas do resultado. A relação de glicose é o valor do líquor dividido pela glicemia sérica pareada (por exemplo, 30 ÷ 100 = 0,30). A leitura sugere o padrão mais provável, sempre subordinada ao quadro clínico e ao uso prévio de antibiótico.

Padrão liquórico sugerido

Relação glicose líquor/soro • padrão citológico • proteína • lactato (opcional).

Preencha as faixas do resultado do líquor.

Ferramenta de apoio à interpretação, não substitui o julgamento clínico. Em paciente grave, mantenha a cobertura empírica mesmo com líquor atípico, até que a evolução e as culturas permitam decidir.

  • Padrão bacteriano: pleocitose acentuada com predomínio de neutrófilos, proteína elevada, relação de glicose abaixo de 0,4 e lactato de 3,5 mmol/L ou mais.
  • Padrão viral: pleocitose leve a moderada com predomínio de linfócitos, proteína normal ou pouco elevada e glicose preservada.
  • Padrão tuberculoso ou fúngico: pleocitose linfocitária, proteína muito elevada e glicose baixa, geralmente com instalação subaguda.
  • Sem pleocitose: celularidade normal, com bioquímica preservada.

Antibiótico prévio, punção traumática, neutropenia e fases muito precoces alteram o padrão. O lactato liquórico perde valor discriminativo depois que o antibiótico foi iniciado — interprete-o à luz do horário da primeira dose.

Calculadora — Bacterial Meningitis Score

Escore de Nigrovic, validado em crianças de 29 dias a 19 anos com pleocitose liquórica para estimar risco de meningite bacteriana. Não se aplica a menores de 29 dias, a pacientes criticamente enfermos, imunossuprimidos, com uso recente de antibiótico, portadores de derivação ventricular ou com púrpura.

Bacterial Meningitis Score (5 critérios)

Gram positivo vale 2 pontos; os demais critérios valem 1 ponto cada.

Responda aos cinco critérios.

Ferramenta de apoio. O escore foi desenvolvido para reduzir internações e antibioticoterapia desnecessárias em crianças de baixo risco, e não para autorizar alta em paciente com aspecto toxêmico. Qualquer sinal de gravidade sobrepõe-se ao resultado.

Em 30 segundos

O essencial de tratamento

  1. O tratamento empírico começa pela suspeita clínica, em até 1 hora; imagem e líquor servem para refinar depois.
  2. Base comunitária: 2 g de 12/12 h; conforme a resistência local; se houver risco de Listeria.
  3. 0,15 mg/kg (10 mg) de 6/6 h por 4 dias, antes ou junto da primeira dose.
  4. Doses de meningite são mais altas que as habituais — 1 g de ceftriaxona de 12/12 h é subdose.

Sequência de abordagem

O tratamento empírico é iniciado pela suspeita clínica. Todo o restante — imagem, líquor, painel molecular — serve para refinar depois, nunca para autorizar a primeira dose. A OMS (2025) trata a "janela de 1 hora" como o período de ouro e admite antibiótico parenteral antes da transferência quando ela vai demorar.

  1. Estabilize

    Reconheça a suspeita: via aérea, oxigenação, perfusão, glicemia e controle de crises.

  2. Colha em minutos

    Duas hemoculturas e os exames iniciais — sem que isso consuma mais do que poucos minutos.

  3. Critérios de imagem

    Aplique os critérios para tomografia antes da punção. Sem critérios, puncione agora.

  4. Se a punção for adiada

    Administre dexametasona e antibiótico IMEDIATAMENTE, antes da imagem, por qualquer motivo de adiamento.

  5. Dexametasona

    Logo antes ou junto da primeira dose do antibiótico.

  6. Antibiótico empírico

    Conforme idade, comorbidade e porta de entrada, com dose plena para o sistema nervoso central.

  7. Aciclovir

    Se houver encefalopatia, crise epiléptica ou déficit focal sugerindo encefalite.

  8. Reavalie em 24–48 h

    Com o resultado das culturas: descale, ajuste ou suspenda de forma deliberada.

A sequência mais cobrada e mais errada: hemocultura → dexametasona → antibiótico → tomografia → punção. Colher líquor antes é melhor apenas quando não há critério de imagem e a punção pode ser feita de imediato.

Esquema empírico do adulto

O esquema é montado por camadas: a cefalosporina de terceira geração cobre meningococo, pneumococo sensível e Haemophilus; a vancomicina entra pelo pneumococo resistente; a ampicilina, pela Listeria; e o aciclovir, pelo herpes. Cada camada tem indicação própria — e as doses detalhadas estão nas rotas abaixo.

CenárioEsquemaRacional
Adulto até 50 anos, imunocompetente associada a .Cobertura de meningococo e pneumococo, incluindo cepas com sensibilidade reduzida.
Acima de 50 anos, gestante, etilista ou imunossuprimidoCeftriaxona, vancomicina e .A ampicilina cobre Listeria monocytogenes, que não responde a cefalosporina.
Alergia grave a betalactâmicoVancomicina associada a ; no lugar da ampicilina para Listeria.Discuta com a infectologia — as alternativas têm penetração e evidência menos robustas.
Pós-neurocirurgia, derivação ou trauma penetranteVancomicina associada a , ou .Cobre estafilococo e gram-negativos incluindo Pseudomonas; avalie retirada do dispositivo.
Suspeita de encefaliteAcrescentar ao esquema antibacteriano.Herpes simples é a causa tratável mais importante e o atraso piora o prognóstico.

A inclusão sistemática de vancomicina depende da prevalência local de pneumococo com sensibilidade reduzida à cefalosporina — a OMS (2025) a recomenda, de forma condicional, apenas onde essa resistência é prevalente. Confira o protocolo da sua instituição e o perfil de resistência do seu serviço: este é o principal ponto de variação entre protocolos brasileiros.

Calculadora — doses por peso

As doses para infecção do sistema nervoso central são mais altas do que as habituais, pela barreira hematoencefálica. Informe o peso: no adulto, ceftriaxona (2 g de 12/12 h), ampicilina (2 g de 4/4 h), cefepima e meropenem (2 g de 8/8 h) são doses fixas; as calculadas por peso aparecem abaixo.

Adulto — drogas calculadas por peso

Vancomicina 15 a 20 mg/kg por dose (de 8/8 a 12/12 h); dexametasona 0,15 mg/kg de 6/6 h por 4 dias; aciclovir 10 mg/kg de 8/8 h.

— limite inferior15 mg/kg por dose, de 8/8 a 12/12 h (máx. 2 g por dose)
—
Vancomicina — limite superior20 mg/kg por dose, de 8/8 a 12/12 h (máx. 2 g por dose)
—
0,15 mg/kg de 6/6 h por 4 dias (máx. 10 mg por dose)
—
10 mg/kg de 8/8 h — se houver suspeita de encefalite
—

Pós-neurocirurgia ou derivação: vancomicina 15–20 mg/kg + cefepima, ceftazidima ou meropenem 2 g de 8/8 h; dexametasona não indicada de rotina e avaliação neurocirúrgica para retirada ou troca do dispositivo.

Criança acima de 1 mês

Ceftriaxona 100 mg/kg/dia (de 12/12 h); vancomicina 60 mg/kg/dia (de 6/6 h); ampicilina 300 mg/kg/dia (de 6/6 h) quando houver risco de Listeria; dexametasona 0,15 mg/kg; aciclovir 10 a 15 mg/kg.

50 mg/kg por dose de 12/12 h (máx. 4 g/dia)
—
15 mg/kg por dose de 6/6 h, com monitorização sérica
—
(se indicada)75 mg/kg por dose de 6/6 h
—
0,15 mg/kg de 6/6 h por 4 dias
—
10 a 15 mg/kg de 8/8 h (aqui calculado a 10 mg/kg)
—

Ferramenta de apoio ao cálculo. Ajuste para função renal e hepática, confira as doses máximas por dose e por dia, e siga o protocolo institucional e a bula. A vancomicina exige monitorização sérica e ajuste conforme a meta do serviço.

Dexametasona: quando e como

A dexametasona reduz a resposta inflamatória desencadeada pela lise bacteriana — por isso precisa chegar antes ou junto do antibiótico. A OMS (2025) recomenda iniciá-la com a primeira dose em toda suspeita de meningite bacteriana aguda fora de epidemias. Se ela atrasou, o NICE (2024) orienta dar assim que possível até 12 horas após o antibiótico; depois disso, discutir com a infectologia.

Usar

  • Suspeita de meningite bacteriana comunitária em adulto e em criança acima de 1 mês.
  • Criança com suspeita de meningite por Haemophilus influenzae tipo b.
  • Sempre imediatamente antes ou junto da primeira dose do antibiótico.
  • Manter por 4 dias se for confirmado pneumococo ou Haemophilus.

Suspender ou não iniciar

  • Antibiótico administrado há mais de 12 horas — benefício não demonstrado; decidir com a infectologia.
  • Etiologia identificada sem benefício demonstrado, como meningococo, conforme o protocolo local.
  • Diagnóstico final de meningite viral não complicada.
  • Meningite associada a derivação ou pós-neurocirúrgica, em que não há evidência de benefício.

O benefício mais consistente é a redução de perda auditiva e de sequelas neurológicas, com redução de mortalidade na meningite pneumocócica do adulto. Na Listeria, uma coorte nacional holandesa (2023) associou o esquema padrão a melhor desfecho — não suspenda a dexametasona só porque a Listeria foi isolada. Na tuberculose meníngea o corticoide também é indicado, mas em esquema e duração diferentes.

Rotas de tratamento

Cada rota é um cenário clínico. Esquemas combinados aparecem com todos os componentes; o nome de cada fármaco abre a ficha completa (apresentação, diluição, velocidade, ajustes e cuidados). Doses para adultos com função renal preservada, salvo indicação — confira o protocolo institucional, a função renal e a apresentação disponível no seu serviço.

Duração do tratamento

A duração é definida pelo agente isolado e pela resposta clínica, não por um número fixo. Quando nenhum agente é identificado, a OMS (2025) admite, fora de epidemias, suspender o antibiótico empírico após 7 dias no paciente clinicamente recuperado — e lembra que culturas e antibiograma devem sempre guiar o descalonamento.

AgenteDuração usualObservação
Neisseria meningitidis5 a 7 diasResposta habitualmente rápida.
Haemophilus influenzae7 a 10 diasVerificar produção de betalactamase.
Streptococcus pneumoniae10 a 14 diasAjustar conforme sensibilidade e evolução.
Streptococcus agalactiae14 a 21 diasComum no neonato.
Listeria monocytogenes21 dias ou maisConsiderar associação com gentamicina.
Bacilos gram-negativos aeróbios21 diasFrequente no perfil hospitalar.
Encefalite por herpes simples14 a 21 diasAciclovir intravenoso; considerar PCR de controle.
Tuberculose meníngea12 mesesEsquema conforme o Ministério da Saúde, com corticoide associado.

Durações são orientativas e dependem da resposta clínica, do agente e das complicações. Punção de controle é indicada quando há má resposta em 48 horas, agente gram-negativo, neonato ou dúvida quanto à esterilização do líquor.

Suporte nas primeiras horas

O antibiótico não trabalha sozinho: hipotensão, hipoglicemia, crises e hipertensão intracraniana aumentam a lesão secundária. A OMS (2025) acrescentou recomendações práticas de suporte que corrigem hábitos antigos, como a restrição hídrica de rotina e o uso de glicerol.

Fluidos

Não restringir líquidos de rotina. Manutenção preferencialmente por via oral ou enteral; se intravenosa, solução isotônica (Ringer lactato ou SF 0,9%).

Glicerol

Não usar de rotina como adjuvante na meningite bacteriana.

Pressão intracraniana

Salina hipertônica ou manitol como medida temporária, com cabeceira elevada e normocapnia.

Crises

Tratar de forma agressiva; anticrise após crise sintomática aguda por no máximo 3 meses, se não houver recorrência.

Em 30 segundos

O essencial de encefalite

  1. Critério maior: alteração do estado mental por 24 horas ou mais, sem causa alternativa.
  2. Inicie empírico em toda encefalopatia febril, idealmente nas primeiras 6 horas.
  3. PCR para HSV negativo nas primeiras 72 horas não exclui o diagnóstico: mantenha a droga e repita em 3 a 7 dias.
  4. Encefalite autoimune (anti-NMDA, límbica) pode seguir a herpética; não imunossuprima sem cobrir infecção.

Quando pensar em encefalite

O critério maior é alteração do estado mental por 24 horas ou mais — rebaixamento, letargia ou mudança de personalidade — sem causa alternativa identificada. A partir daí, critérios menores aumentam a probabilidade: pelo consenso do International Encephalitis Consortium (2013), dois critérios menores tornam a encefalite possível e três ou mais a tornam provável.

  • Febre documentada de 38 °C ou mais nas 72 horas anteriores ou posteriores ao início.
  • Crise epiléptica generalizada ou focal não atribuível a epilepsia prévia.
  • Novo achado neurológico focal ao exame.
  • Pleocitose liquórica (≥ 5 células/mm³), geralmente linfocitária.
  • Alteração de neuroimagem sugestiva de acometimento parenquimatoso, sobretudo em lobos temporais.
  • Alteração eletroencefalográfica compatível, não explicada por outra causa.

Diante de encefalopatia febril, inicie aciclovir empírico junto com o esquema antibacteriano — idealmente nas primeiras 6 horas da chegada, como propõe a força-tarefa EAN–ESCMID (2025) — e só suspenda com base em critérios definidos. Cada hora de atraso na encefalite herpética se traduz em pior desfecho funcional.

Encefalite herpética

É a causa esporádica tratável mais importante, em qualquer idade e sem sazonalidade. O acometimento preferencial é do lobo temporal e do sistema límbico, o que explica o quadro: alterações de memória, de comportamento e de linguagem, alucinações olfativas e crises focais.

  • Clínica — febre, cefaleia, alteração de comportamento, alucinações olfativas ou gustativas, afasia, alteração de memória e crises focais.
  • Líquor — pleocitose linfocitária, proteína pouco elevada, glicose normal; pode haver hemácias pela natureza necrótico-hemorrágica.
  • PCR para herpes simples — exame de escolha, com sensibilidade alta a partir das primeiras 24 a 48 horas.
  • Ressonância — hipersinal em lobo temporal medial, ínsula e giro do cíngulo, tipicamente assimétrico.
  • Eletroencefalograma — lentificação focal temporal e descargas epileptiformes lateralizadas periódicas.

Armadilhas do PCR e quando suspender

Um resultado negativo colhido muito precocemente, nas primeiras 24 a 72 horas, não afasta o diagnóstico. Se a suspeita permanecer alta, mantenha o aciclovir e repita a coleta em 3 a 7 dias, sobretudo quando a imagem mostra alteração temporal. Painéis multiplex têm sensibilidade menor para HSV-1 do que o PCR específico, e o corticoide de rotina na encefalite herpética não mostrou benefício.

Quando suspender o aciclovir

Considere a suspensão quando o PCR for negativo em amostra colhida após as primeiras 72 horas de sintomas, com ressonância sem alteração sugestiva, quadro clínico alternativo explicado e evolução favorável. Fora dessa combinação, mantenha a droga.

Encefalite autoimune

Cada vez mais reconhecida, sobretudo em jovens. A apresentação subaguda, ao longo de semanas, com sintomas psiquiátricos proeminentes, costuma passar pelo psiquiatra antes de chegar ao neurologista. Os critérios clínicos de Graus (2016) permitem iniciar imunoterapia antes do resultado dos anticorpos, desde que a infecção tenha sido razoavelmente afastada.

Antirreceptor NMDA

Sintomas psiquiátricos, alteração de memória, crises, discinesias orofaciais, disautonomia e hipoventilação. Buscar teratoma de ovário e outras neoplasias.

Encefalite límbica

Alteração subaguda de memória, crises temporais e alteração de humor, com hipersinal límbico bilateral na ressonância. Anticorpos como LGI1 e CASPR2.

Pós-herpética

Recaída após encefalite herpética tratada, com PCR negativo e novo quadro comportamental ou discinético: pensar em anticorpo anti-NMDA secundário.

Tratamento

Imunoterapia de primeira linha com corticoide, imunoglobulina e plasmaférese; rituximabe e ciclofosfamida como segunda linha, além do tratamento do tumor associado.

Encefalite autoimune é diagnóstico de equipe, com neurologia e, muitas vezes, reumatologia e oncologia. Enquanto os anticorpos não voltam, mantenha a cobertura infecciosa: iniciar imunossupressão sobre uma infecção não tratada é o pior desfecho possível.

Suporte na terapia intensiva

Boa parte da morbidade da encefalite vem de complicações tratáveis: crise não convulsiva que passa despercebida, hipertensão intracraniana, distúrbios do sódio e broncoaspiração. O suporte intensivo bem feito protege o cérebro enquanto o antiviral ou a imunoterapia agem.

Via aérea

Indicação precoce de intubação em rebaixamento importante, com risco de broncoaspiração.

Crises epilépticas

Tratamento agressivo; eletroencefalograma contínuo quando houver rebaixamento desproporcional.

Hipertensão intracraniana

Cabeceira elevada, normocapnia, controle de temperatura e avaliação neurocirúrgica quando há hidrocefalia.

Sódio

Hiponatremia é frequente, por secreção inapropriada de hormônio antidiurético ou por perda cerebral de sal, com manejos opostos.

Glicemia, temperatura e oxigenação

Evitar hipoglicemia, febre e hipoxemia, todas associadas a lesão secundária.

Reabilitação precoce

Sequelas cognitivas e de linguagem são frequentes, e a fonoaudiologia e a terapia ocupacional devem entrar cedo.

Em 30 segundos

O essencial de profilaxia e erros

  1. Notifique já na suspeita, em até 24 horas; precaução para gotículas por 24 horas após o antibiótico eficaz.
  2. Contato próximo: exposição direta a gotículas do caso nos 10 dias antes dos sintomas até 24 h após o início da ceftriaxona.
  3. Quimioprofilaxia o mais cedo possível (idealmente em 24 h): é a primeira escolha; na gestante.
  4. Antes da alta: avaliação auditiva, seguimento neurológico e vacinação.

Notificação e isolamento

A meningite é um problema de saúde pública antes mesmo de ter etiologia. A notificação na suspeita dispara a investigação dos contatos, o bloqueio vacinal quando indicado e a coleta oportuna de amostras para tipagem — por isso não deve esperar a confirmação laboratorial.

  • Notificação compulsória imediata — "doença meningocócica e outras meningites" estão na lista nacional (Portaria GM/MS nº 5.201/2024) com notificação em até 24 horas, já no caso suspeito.
  • Precaução para gotículas — manter por 24 horas após o início do antibiótico eficaz na suspeita de meningococo ou de Haemophilus influenzae.
  • Máscara cirúrgica para a equipe durante procedimentos com contato próximo, inclusive na intubação e na aspiração.
  • Investigação de contactantes — a vigilância define o bloqueio e a extensão da quimioprofilaxia.
  • Avaliação auditiva antes da alta ou em até 4 semanas em todo caso de meningite bacteriana (OMS 2025), especialmente na criança.
  • Vacinação — atualizar o calendário e considerar vacina pneumocócica e meningocócica conforme indicação, sobretudo em asplênicos e imunossuprimidos.

Quem é contato próximo

A Nota Técnica Conjunta nº 154/2024 do Ministério da Saúde redefiniu contato próximo de doença meningocócica e de doença invasiva por Hib. A janela vai de 10 dias antes do início dos sintomas do caso até 24 horas depois do início da cefalosporina de terceira geração ou da rifampicina — e a mera proximidade transitória não conta.

Ambiente doméstico

Mesmo domicílio ou dormitório.

Secreções nasofaríngeas

Beijo ou compartilhamento de objetos que permitam troca de saliva.

≥ 4 horas a até 1 metro

Ambiente fechado: viagem longa sentado ao lado, reuniões, sala de aula, creche.

≥ 5 dias de convivência

Turma de creche ou ensino infantil, ambiente de trabalho.

Procedimento sem EPI

Intubação, aspiração, sonda nasogástrica ou boca a boca antes de 24 h de tratamento do caso.

Quimioprofilaxia de contactantes

Indicada nos casos de doença meningocócica e de doença invasiva por Haemophilus influenzae tipo b, para os contatos próximos. Deve ser feita o mais precocemente possível, idealmente nas primeiras 24 horas; após 10 dias da exposição, seu valor é mínimo no meningococo, mas no Hib pode ser feita em até 30 dias. O próprio paciente só precisa de profilaxia se não foi tratado com ceftriaxona ou cefotaxima.

SituaçãoQuem recebeOpções habituais
Doença meningocócicaTodos os contatos próximos do caso suspeito ou confirmado (definição acima). por 2 dias (1ª escolha); IM em dose única (1ª escolha na gestante); em dose única a partir de 18 anos.
Profissional de saúdeApenas quem realizou manobras com exposição direta a secreções sem EPI, antes de 24 h de tratamento do caso (intubação, aspiração, ventilação com máscara).Mesmos esquemas; a simples assistência ao paciente não indica profilaxia.
Haemophilus influenzae tipo bContatos domiciliares quando no domicílio há imunocomprometido ou criança menor de 2 anos (independentemente da vacina), ou menor de 4 anos não vacinada ou com esquema incompleto; creche conforme a vigilância.Rifampicina 1x/dia por 4 dias; ceftriaxona por 2 dias só se houver contraindicação à rifampicina.
Pneumococo e demais agentesNão há indicação de quimioprofilaxia de contactantes.Reforçar vacinação quando indicada.

Doses, faixas etárias e indicações seguem a Nota Técnica Conjunta nº 154/2024-DPNI/SVSA/MS, que revisou o Guia de Vigilância em Saúde (6ª ed., 2023), e as orientações da vigilância local, que também define a vacinação de bloqueio. A azitromicina 500 mg em dose única é reservada à resistência ao ciprofloxacino quando as demais opções não podem ser usadas.

Rotas de tratamento

Esquemas da Nota Técnica Conjunta nº 154/2024 do Ministério da Saúde. Administre a todos os contatos próximos simultaneamente e confirme que o esquema foi completado. Se surgir novo caso no mesmo grupo em até 30 dias, use um antibiótico alternativo na profilaxia de repetição.

Complicações a antecipar

As complicações seguem o agente e o tempo de doença: hidrocefalia na tuberculose e no criptococo, crises no pneumococo e no herpes, choque e coagulopatia no meningococo. Antecipá-las muda o plano de monitorização desde a admissão.

Perda auditiva

Sequela mais comum na criança. A dexametasona precoce reduz o risco, e a avaliação audiológica precisa ser programada antes da alta.

Hidrocefalia

Mais frequente na tuberculose e na criptococose. Considere derivação e punções de alívio conforme o caso.

Crises epilépticas

Comuns no pneumococo e na encefalite herpética; tratar de forma agressiva e investigar crise não convulsiva no rebaixamento inexplicado.

Hiponatremia

Por secreção inapropriada de hormônio antidiurético ou por perda cerebral de sal; o tratamento é oposto nos dois casos, e a volemia é a chave.

Empiema e abscesso

Suspeite diante de febre persistente, novo déficit ou má resposta em 48 a 72 horas; peça imagem com contraste.

Choque séptico e coagulopatia

Típicos da meningococcemia, com púrpura fulminante e necrose de extremidades; suporte hemodinâmico imediato.

Piora ou ausência de melhora após 48 horas de tratamento adequado não é evolução esperada: reavalie o agente, a dose, a penetração, a possibilidade de coleção intracraniana e a hipótese de diagnóstico alternativo.

Seguimento e sequelas

A primeira diretriz da OMS sobre meningite (2025) dedicou um capítulo inteiro às sequelas, porque perda auditiva, déficits cognitivos, epilepsia e alterações de comportamento costumam ser descobertos tarde. O plano de alta precisa sair da enfermaria já escrito.

  • Avaliar sequelas antes da alta e no seguimento ambulatorial.
  • Triagem audiológica antes da alta ou em até 4 semanas; reabilitação auditiva precoce quando houver perda (implante coclear pode ser urgente pela ossificação da cóclea).
  • Reabilitação precoce (fisioterapia, fonoaudiologia, terapia ocupacional) para quem tem sequela.
  • Anticrise por no máximo 3 meses após crise sintomática aguda, se não houver recorrência.
  • Criança que teve doença invasiva por Hib antes dos 2 anos: completar o esquema ou receber dose adicional de vacina com componente Hib, a partir de 30 dias do início da doença.

Erros comuns

Quase todos os erros graves desta doença são de tempo ou de omissão: esperar um exame, esquecer uma droga, usar dose de outra infecção. Eles se repetem justamente porque a meningite é rara no plantão de cada um — vale revisá-los antes de precisar.

  • Esperar a tomografia para iniciar o antibiótico.
  • Esperar o resultado do líquor para iniciar o antibiótico.
  • Exigir a tríade clássica completa antes de suspeitar de meningite.
  • Esquecer a dexametasona ou administrá-la horas depois do antibiótico.
  • Omitir a ampicilina em paciente acima de 50 anos, gestante ou imunossuprimido.
  • Usar dose de antibiótico não meníngea, insuficiente para o sistema nervoso central.
  • Não colher glicemia sérica pareada e ficar sem interpretar a glicose do líquor.
  • Não iniciar aciclovir em paciente com encefalopatia febril.
  • Suspender o aciclovir por um único PCR negativo colhido muito precocemente.
  • Chamar de "meningite viral" todo líquor linfocitário, sem considerar tuberculose, fungo, sífilis e tratamento antibiótico prévio.
  • Não notificar o caso nem acionar a vigilância epidemiológica.
  • Prescrever quimioprofilaxia a toda a equipe do plantão, sem critério de exposição.
  • Restringir líquidos de rotina ou usar glicerol como adjuvante.
  • Dar alta sem programar avaliação auditiva e seguimento neurológico.

Resumo do fluxo

O fluxo abaixo resume o artigo em nove passos, da porta à alta. Ele vale para o adulto e para a criança acima de 1 mês; muda a escolha das drogas, não a ordem das decisões.

  1. Suspeitou

    Acione o time, monitorize e garanta acesso venoso.

  2. Colha

    Duas hemoculturas e os exames iniciais, incluindo glicemia sérica.

  3. Critérios de imagem

    Verifique os critérios para tomografia antes da punção.

  4. Trate em até 1 hora

    Dexametasona e antibiótico — antes da imagem se a punção for adiada.

  5. Aciclovir

    Se houver encefalopatia, crise ou déficit focal.

  6. Puncione

    Assim que for seguro; envie citologia, bioquímica, Gram, cultura e biologia molecular.

  7. Ajuste

    Com o resultado do líquor e das culturas, definindo a duração pelo agente.

  8. Saúde pública

    Notifique, mantenha gotículas por 24 horas e organize a quimioprofilaxia dos contactantes.

  9. Antes da alta

    Avaliação auditiva, seguimento neurológico e atualização vacinal.

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Aviso importante

Ferramenta de apoio à decisão clínica, de caráter educacional. Não substitui a avaliação médica presencial, o julgamento clínico, os protocolos institucionais nem a consulta às bulas. Doses, diluições e velocidades de infusão devem ser conferidas antes da administração. Doses para adultos com função renal preservada, salvo indicação. Em caso de divergência, prevalecem os protocolos institucionais do seu serviço, as normas da vigilância epidemiológica e as bulas vigentes.

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