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Atlas de Oftalmologia • Esclera

Esclerite

Inflamação da esclera • scleritis

Inflamação profunda e dolorosa da parede do olho. A dor intensa, que acorda o paciente à noite, e a cor violácea que não clareia com fenilefrina separam a esclerite da episclerite. Em até metade dos casos há doença sistêmica associada — e a forma necrosante pode perfurar o olho.

EscleraInflamatória / imunomediadaDoença sistêmica em ~50%AINE oral → corticoide → imunossupressor
16–20 min de leitura Atualizado em outubro de 2026

Reconheça o achado

Imagem clínica

Esclerite anterior difusa: hiperemia profunda de tom violáceo, com vasos esclerais congestos e edema da esclera. Toque para ampliar.

Principais achados
  1. 1
    Dor ocular profunda, noturna, irradiada para a face
  2. 2
    Hiperemia violácea, setorial ou difusa, melhor vista à luz do dia
  3. 3
    Vasos profundos congestos que não clareiam com fenilefrina 10%
  4. 4
    Nódulo escleral imóvel e doloroso à palpação (forma nodular)
  5. 5
    Áreas avasculares brancas e afinamento com úvea azulada (necrosante)
  6. 6
    Na posterior: pouca hiperemia, baixa visual, dobras de coroide e sinal do T no ultrassom

Em 30 segundos

O essencial de visão geral

  1. Esclerite é a inflamação da esclera, a camada fibrosa da parede do olho; é rara, mas grave.
  2. Dor intensa e profunda, que acorda o paciente, é a regra; a cor é vermelho-violácea.
  3. Formas anteriores: difusa, nodular e necrosante (com ou sem inflamação); e a posterior.
  4. Cerca de metade dos pacientes tem doença sistêmica (artrite reumatoide, vasculites ANCA, lúpus, policondrite); infecção deve ser sempre excluída.

O que é esclerite

É uma inflamação crônica, em geral imunomediada, da esclera. Na maioria das vezes há vasculite dos vasos que nutrem a esclera, com infiltrado de células inflamatórias e destruição do colágeno. Quando a vasculite oclui os vasos, a esclera fica isquêmica e necrosa.

Acomete mais mulheres, em geral entre a 4ª e a 6ª década. Pode ser uni ou bilateral e tende a recorrer. A incidência é muito menor que a da episclerite: em uma grande base populacional norte-americana, cerca de 3–4 casos por 100.000 pessoas-ano.

Episclerite incomoda; esclerite dói. Olho vermelho com dor que acorda o paciente exige exame no mesmo dia e investigação sistêmica.

Doenças associadas

Em grandes séries, 40–50% dos pacientes têm doença sistêmica conhecida ou descoberta durante a investigação; em uma parcela, a esclerite é a primeira manifestação. As causas infecciosas são minoria, mas mudam completamente o tratamento.

Artrite reumatoide

A associação mais comum; também causa escleromalácia perforante e ceratite ulcerativa periférica.

Granulomatose com poliangiite

Vasculite ANCA (c-ANCA/PR3); esclerite necrosante, sinusite, doença renal e pulmonar.

Lúpus e outras colagenoses

LES, poliarterite nodosa, policondrite recidivante, artrites soronegativas.

Doença inflamatória intestinal

Crohn e retocolite; também se associam a episclerite.

Infecciosa

Herpes-zóster, sífilis, tuberculose; bacteriana/fúngica após cirurgia ou trauma (ver Abscesso escleral).

Pós-cirúrgica

Esclerite necrosante induzida por cirurgia (pterígio com mitomicina, catarata, introflexão), sobretudo em portadores de doença autoimune.

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O essencial de quadro clínico

  1. Difusa: a mais comum e a mais benigna; hiperemia extensa com edema escleral.
  2. Nodular: nódulo escleral fixo, doloroso, que não se move sobre a esclera.
  3. Necrosante com inflamação: a mais grave; áreas brancas avasculares cercadas de inflamação intensa.
  4. Posterior: olho pouco vermelho, dor, baixa visual, proptose e diplopia; diagnóstico por ultrassom.

Sintomas

A dor é desproporcional ao que a conjuntiva mostra. Ela reflete a distensão de uma camada rica em terminações nervosas e piora com os movimentos oculares, porque os músculos extraoculares se inserem na esclera.

Dor profunda

Contínua, "em broca", irradia para fronte, têmpora e mandíbula; acorda de madrugada.

Sensibilidade ao toque

O globo dói à palpação através da pálpebra.

Lacrimejamento e fotofobia

Leves; sem secreção purulenta.

Baixa visual

Pouco comum na anterior não complicada; frequente na posterior e com uveíte ou ceratite.

Diplopia e proptose

Esclerite posterior com miosite ou inflamação orbitária associada.

Recorrência

Crises repetidas no mesmo olho ou alternando entre os olhos.

Classificação de Watson e Hayreh

A classificação clínica, de 1976, continua a orientar o prognóstico e o tratamento. A forma tende a se manter, mas uma difusa ou nodular pode evoluir para necrosante.

Mais comum

Anterior difusa

Hiperemia ampla, setorial ou de todo o segmento anterior, com edema escleral e perda do padrão radial dos vasos. Melhor prognóstico.

Nódulo fixo

Anterior nodular

Nódulo vermelho-escuro, duro e doloroso, imóvel sobre a esclera (o nódulo da episclerite desliza). Pode ser múltiplo.

Mais grave

Necrosante com inflamação

Placas brancas avasculares cercadas por esclera inflamada; a necrose deixa a úvea azul-escura à vista. Forte associação com vasculite sistêmica.

FormaFrequência aproximadaPistas
Anterior difusaA mais comum (cerca de 3/4 em grandes séries)Dor, hiperemia ampla, edema; responde a AINE com frequência
Anterior nodularCerca de 1 em 5Nódulo fixo e doloroso; pode recorrer
Necrosante com inflamaçãoPoucos %Dor muito intensa, áreas avasculares; vasculite, AR, pós-cirúrgica
Necrosante sem inflamação (escleromalácia perforante)RaraPouca dor; placas amarelo-acinzentadas; AR de longa data
PosteriorMenos de 10%Olho pouco vermelho; dor, baixa visual, dobras de coroide, descolamento seroso

Proporções aproximadas de séries de centros de referência (Watson & Hayreh 1976; Sainz de la Maza et al. 2012); variam entre populações.

Esclerite posterior

Acomete a esclera atrás da ora serrata e é a forma mais subdiagnosticada, porque o segmento anterior pode estar quase branco. Pense nela diante de dor ocular com baixa visual, dobras de coroide, descolamento seroso de retina ou edema de disco, sobretudo em mulheres jovens ou de meia-idade.

Achado característico

Sinal do T no ultrassom B

Espessamento da parede posterior com líquido no espaço de Tenon; o líquido ao redor do nervo óptico forma um "T" com a sombra do nervo.

  • Parede posterior espessada (> 2 mm)
  • Líquido sub-Tenon hipoecoico
  • Pode haver descolamento seroso e dobras de coroide
Ultrassonografia modo B — toque para ampliar.

Em 30 segundos

O essencial de diagnóstico

  1. Examine à luz do dia: o tom violáceo é difícil de ver sob luz artificial.
  2. Fenilefrina 10%: clareia o plexo superficial (episclerite), não o profundo (esclerite).
  3. Luz anerita (verde) da lâmpada de fenda realça áreas avasculares.
  4. Todo paciente com esclerite precisa de rastreio sistêmico e exclusão de infecção.

Exame oftalmológico

O objetivo é identificar qual camada está inflamada e qual forma clínica está presente. A esclera inflamada fica edemaciada e desloca o feixe profundo da lâmpada de fenda para fora; na episclerite, o feixe profundo fica plano.

  1. Inspeção à luz natural

    Com o paciente olhando em várias direções: cor (vermelho-vivo × violáceo), extensão, nódulos, áreas brancas avasculares e úvea azulada.

  2. Palpação suave

    Através da pálpebra fechada: dor à palpação favorece esclerite.

  3. Lâmpada de fenda

    Feixe fino: edema escleral desloca o feixe profundo; luz verde (anerita) mostra áreas de não perfusão.

  4. Teste da fenilefrina 10%

    1 gota e reavaliar em 10–15 min. Se a hiperemia clareia, é superficial (episclerite); se persiste, é esclerite.

  5. Córnea, câmara anterior e fundo

    Ceratite ulcerativa periférica, uveíte, PIO; fundo de olho com midríase (dobras de coroide, descolamento seroso, edema de disco).

O teste da fenilefrina

A fenilefrina é vasoconstritora e age nos vasos mais superficiais. Conjuntiva e plexo episcleral superficial empalidecem; o plexo profundo, encostado na esclera, quase não muda. É o teste mais simples e útil à beira do leito para separar episclerite de esclerite.

Antes × depois

Hiperemia que não clareia

Na esclerite, a vermelhidão violácea persiste 10–15 minutos após a fenilefrina 10%; na episclerite, o olho fica quase branco.

Investigação sistêmica

Uma história clínica dirigida (articulações, pele, seios da face, pulmões, rins, aftas, cartilagens de orelha e nariz) orienta os exames. Um painel básico costuma ser pedido em todos e ampliado conforme a suspeita, junto com a reumatologia.

ExamePara quê
Hemograma, VHS, PCRAtividade inflamatória sistêmica
Fator reumatoide, anti-CCPArtrite reumatoide
ANCA (PR3 e MPO)Granulomatose com poliangiite e outras vasculites
FAN, anti-DNA, complementoLúpus e colagenoses
Sorologia treponêmica e não treponêmicaSífilis
IGRA ou prova tuberculínica; radiografia ou TC de tóraxTuberculose, sarcoidose, GPA
Urina tipo 1 e creatininaGlomerulonefrite (vasculites, LES)
Ácido úrico, HLA-B27, ECA (conforme o caso)Gota, espondiloartrites, sarcoidose

Em suspeita de infecção (pós-cirúrgica, úlcera, secreção, resposta paradoxal ao corticoide): raspado/biópsia com culturas antes de imunossuprimir.

Exames de imagem

Ultrassom B

Essencial na esclerite posterior: espessamento da parede, líquido sub-Tenon, sinal do T.

TC / RM de órbita

Espessamento escleral com realce; exclui massa orbitária e avalia seios da face (GPA).

OCT de segmento anterior

Mede espessura escleral e acompanha afinamento.

Angiografia (fluoresceína/ICG)

Na posterior: vazamentos e pontos hiperfluorescentes; na anterior, não perfusão na necrosante.

Diagnóstico diferencial

CondiçãoAchado-chaveComo diferenciar
Achado-chaveVermelho-vivo, desconforto leve
Como diferenciarClareia com fenilefrina; vasos móveis; sem dor à palpação.
Achado-chaveCirurgia ou trauma prévio, pus, necrose
Como diferenciarRaspado e culturas; piora com corticoide.
Conjuntivite
Achado-chaveSecreção, hiperemia que move com a conjuntiva
Como diferenciarHiperemia maior nos fundos de saco; sem dor profunda.
Uveíte anterior
Achado-chaveHiperemia perilímbica, fotofobia
Como diferenciarCélulas e flare na câmara anterior; pode coexistir com esclerite.
Glaucoma agudo
Achado-chaveDor, PIO muito elevada, pupila média fixa
Como diferenciarTonometria e gonioscopia; córnea edemaciada.
Achado-chaveProptose, dor, diplopia
Como diferenciarDiferencial da esclerite posterior; imagem de órbita.
Achado-chaveMassa ou descolamento posterior
Como diferenciarEsclerite posterior nodular simula tumor; ultrassom diferencia.

Galeria oftalmológica

Observe a cor (vermelho-vivo × violáceo), a profundidade dos vasos, a presença de nódulos fixos e, principalmente, as áreas brancas avasculares — elas mudam a gravidade e o tratamento.

Esclerite anterior difusa

Hiperemia extensa de tom vermelho-azulado, com vasos profundos congestos e entrelaçados. Repare que os vasos não têm o padrão radial organizado e não se movem com a conjuntiva. Esta coloração é mais evidente à luz natural.

DifusaTom violáceoPlexo profundo

Esclerite nodular

Nódulo elevado, vermelho-escuro, na esclera temporal. Ao tentar deslizá-lo com cotonete após anestésico, ele não se move — o nódulo da episclerite, ao contrário, é móvel. Dor à palpação é a regra.

NodularNódulo fixoDor à palpação

Esclerite necrosante com inflamação

Área branca, avascular, cercada de esclera muito inflamada; no centro, afinamento com reflexo azulado da úvea. É uma emergência oftalmológica e um marcador de vasculite sistêmica: investigar ANCA e iniciar imunossupressão.

NecrosanteÁrea avascularVasculite

Sequela: afinamento escleral

Após crises repetidas, a esclera fica fina e translúcida, deixando a úvea aparecer como mancha cinza-azulada. O afinamento sem inflamação ativa não exige tratamento por si, mas eleva o risco de perfuração em trauma ou cirurgia.

SequelaÚvea visívelAfinamento

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O essencial de tratamento

  1. O tratamento é sistêmico; colírios de corticoide, sozinhos, não controlam a esclerite.
  2. Difusa ou nodular: AINE oral em dose plena é a primeira linha.
  3. Sem resposta, posterior ou necrosante: corticoide oral (1 mg/kg/dia) ou pulso endovenoso.
  4. Necrosante, vasculite ou dependência de corticoide: imunossupressor ou biológico, com a reumatologia.

Antes de tratar: excluir infecção

Imunossupressão numa esclerite infecciosa é desastrosa. Desconfie de infecção quando houver cirurgia ou trauma prévio, secreção, abscesso, úlcera escleral, ceratite associada ou piora com corticoide. Nesses casos, raspado, biópsia e culturas vêm antes de qualquer corticoide.

Corticoide periocular

Injeção subconjuntival ou sub-Tenon de corticoide é evitada na esclerite necrosante (risco de afinamento e perfuração). Pode ser considerada por especialista em formas não necrosantes selecionadas.

Rotas de tratamento

Cada rota é um degrau da escada terapêutica. Doses são de referência para adultos; a imunossupressão é conduzida com reumatologia e exige monitoramento laboratorial.

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O essencial de complicações

  1. A esclerite pode atingir as estruturas vizinhas: córnea, úvea, retina, nervo óptico.
  2. Ceratite ulcerativa periférica associada a esclerite indica vasculite ativa.
  3. Afinamento e perfuração escleral são as complicações mais temidas da forma necrosante.

Complicações oculares

As complicações aumentam com a gravidade e a duração da inflamação. Elas explicam por que a esclerite é tratada de forma agressiva, mesmo quando a visão ainda está boa.

Ceratite ulcerativa periférica

Afinamento corneano junto ao limbo; marcador de vasculite sistêmica ativa.

Uveíte anterior

Comum nas formas graves; pode causar sinéquias e catarata.

Glaucoma

Por inflamação, fechamento angular (efusão ciliocoroidal) ou uso de corticoide.

Afinamento e perfuração

Estafiloma, exposição da úvea e risco de ruptura em trauma mínimo.

Posterior

Descolamento seroso, edema macular, edema de disco e neuropatia óptica.

Catarata

Pela inflamação crônica e pelo corticoide.

Referências bibliográficas

  1. 1
    Livro-texto2025
    American Academy of Ophthalmology. Basic and Clinical Science Course (BCSC), Section 8: External Disease and Cornea. San Francisco: AAO; 2024–2025.
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    Livro-texto2025
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    Artigo2025
    Sharma S, Sheth JU, Murthy SI. Infectious scleritis: a review of etiologies, clinical features, and management strategies. Front Ophthalmol (Lausanne). 2025;5:1493831. doi:10.3389/fopht.2025.1493831.
  10. 10
    Revisão online2026
    EyeWiki — American Academy of Ophthalmology. Scleritis. Atualizado em 2026. Acesso em 2026.

Fontes das imagens

As imagens deste atlas têm finalidade educacional e foram produzidas a partir de referências clínicas reais e de representações anatômicas didáticas.

Parte delas pode ter sido editada ou aprimorada digitalmente para destacar as estruturas e os achados descritos no texto.

Aviso importante

Material educacional. Não substitui a avaliação oftalmológica, os protocolos institucionais nem a consulta às bulas. Imunossupressores e biológicos devem ser prescritos e monitorados em conjunto com a reumatologia; as doses são de referência para adultos.

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