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Atlas de Histologia • Tecido Muscular

Tetania

Tetania hipocalcêmica • tetany

Contrações musculares involuntárias e sustentadas causadas pela hiperexcitabilidade das membranas de nervos e músculos, quase sempre por queda do cálcio ionizado. Com menos cálcio no líquido extracelular, os canais de sódio abrem com estímulos menores e os axônios motores disparam sozinhos. O músculo em si é normal na lâmina; a histologia que importa é a da paratireoide e da membrana.

HiperexcitabilidadeCálcio ionizado baixoEspasmo carpopodalParatireoide
15–18 min de leitura Atualizado em outubro de 2026

Reconheça o achado

Na tetania o tecido é normal: o problema está no íon. Por isso a imagem-chave é clínica — o espasmo carpopodal — e o esquema mostra a membrana e a paratireoide.

Histopatologia

Figura 1. Espasmo carpopodal (sinal de Trousseau): após inflar o manguito acima da pressão sistólica, punho e articulações metacarpofalângicas fletem, interfalângicas se estendem e o polegar se aduz — a "mão de parteiro".

Principais achados
  1. 1
    Parestesias periorais e nas extremidades
  2. 2
    Espasmo carpopodal ("mão de parteiro")
  3. 3
    Sinal de Trousseau positivo (manguito por 3 minutos)
  4. 4
    Sinal de Chvostek (percussão do nervo facial)
  5. 5
    Laringoespasmo, broncoespasmo, convulsões nos casos graves
  6. 6
    ECG com QT prolongado

Em 30 segundos

O essencial de visão geral

  1. Tetania = contrações involuntárias sustentadas por hiperexcitabilidade de nervos e músculos.
  2. Causa mais comum: hipocalcemia (cálcio ionizado baixo); também hipomagnesemia e alcalose.
  3. Mecanismo: menos Ca2+ extracelular → canais de Na+ abrem com estímulos menores → disparos espontâneos.
  4. Sinais de Trousseau e Chvostek; risco de laringoespasmo, convulsão e arritmia.

O que é a tetania

É um sinal de hiperexcitabilidade neuromuscular, não uma doença do músculo. As contrações nascem sobretudo nos axônios motores periféricos, que disparam salvas de potenciais de ação repetitivos; o músculo apenas obedece.

O cálcio extracelular "segura" os canais de sódio voltagem-dependentes fechados. Quando ele cai, a membrana fica mais perto do limiar e dispara sozinha. Por isso a tetania é o oposto do que se esperaria de "falta de cálcio para contrair".

Cálcio extracelular baixo = membrana mais excitável = tetania. O cálcio intracelular para a contração continua disponível no retículo sarcoplasmático.

Tetania não é tétano

Os nomes são parecidos, mas mecanismo, clínica e tratamento são opostos. Confundir os dois é erro clássico de prova.

Tetania

  • Distúrbio iônico (Ca2+, Mg2+, pH)
  • Nervo periférico hiperexcitável
  • Espasmo carpopodal, parestesias
  • Responde ao cálcio venoso

Tétano

  • Toxina do Clostridium tetani
  • Bloqueia a inibição (glicina, GABA) na medula
  • Trismo, riso sardônico, opistótono
  • Imunoglobulina, sedação, suporte

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O essencial de fisiopatologia

  1. Só o cálcio ionizado (cerca de metade do total) é ativo; o resto está ligado à albumina ou a ânions.
  2. Ca2+ extracelular neutraliza cargas negativas da membrana e eleva o limiar dos canais de Na+.
  3. Alcalose aumenta a ligação do cálcio à albumina: tetania com cálcio total normal.
  4. Hipomagnesemia reduz a secreção e a ação do PTH e também excita a membrana.

Cálcio e limiar da membrana

Os íons cálcio se ligam a cargas negativas na face externa da membrana e nos próprios canais de sódio. Com menos cálcio, o canal "sente" a membrana mais despolarizada e abre com estímulos menores.

  1. Ca2+ ionizado cai

    Menos cargas neutralizadas.

  2. Limiar desce

    Canais de Na+ abrem mais fácil.

  3. Disparos

    Axônios motores e sensitivos.

  4. Tetania

    Parestesias e espasmos.

Frações do cálcio e o papel do pH

A albumina tem cargas negativas que se ligam ao cálcio. Na alcalose, ela libera H+ e liga mais cálcio, baixando a fração ionizada sem mudar o total. É o que acontece na hiperventilação da crise de ansiedade.

SituaçãoCálcio totalCálcio ionizado
HipoalbuminemiaBaixoNormal (sem tetania)
Alcalose respiratória (hiperventilação)NormalBaixo (tetania)
HipoparatireoidismoBaixoBaixo
Transfusão maciça (citrato)Normal ou baixoBaixo

Cálcio total corrigido ≈ cálcio medido + 0,8 × (4 − albumina em g/dL). Na dúvida, medir o ionizado.

Causas de hipocalcemia e tetania

A pergunta-chave é: o PTH está baixo (a glândula falhou) ou alto (a glândula tenta compensar)?

PTH baixo

Pós-tireoidectomia ou paratireoidectomia (a mais comum), autoimune, DiGeorge, infiltração, hipomagnesemia grave.

PTH alto

Deficiência de vitamina D, doença renal crônica, pseudo-hipoparatireoidismo (resistência ao PTH).

Cálcio "sequestrado"

Pancreatite aguda, síndrome da fome óssea, hiperfosfatemia (lise tumoral, rabdomiólise), citrato.

Sem hipocalcemia total

Alcalose (hiperventilação, vômitos), hipomagnesemia, hipocalemia com alcalose.

A paratireoide e o PTH

As células principais têm um receptor sensor de cálcio na membrana. Quando o cálcio cai, liberam PTH, que age em três frentes: retira cálcio do osso, aumenta a reabsorção renal de cálcio (e a excreção de fosfato) e ativa a vitamina D, que aumenta a absorção intestinal. Sem PTH, o cálcio cai e o fosfato sobe.

Magnésio

A secreção de PTH depende de magnésio. Na hipomagnesemia grave, a hipocalcemia não corrige só com cálcio: é preciso repor o magnésio.

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O essencial de quadro clínico

  1. Parestesias periorais e acrais são os primeiros sintomas.
  2. Cãibras, espasmo carpopodal e, nos graves, laringoespasmo e convulsões.
  3. Tetania latente: só aparece com provocação (Trousseau, Chvostek, hiperventilação).
  4. Hipocalcemia crônica: catarata, calcificação dos núcleos da base, pele seca, unhas frágeis.

Manifestações

A gravidade depende do nível e da velocidade de queda do cálcio ionizado: quedas rápidas (pós-operatório) dão mais sintomas que quedas lentas.

Sensitivas

Formigamento ao redor da boca, nas mãos e nos pés.

Motoras

Cãibras, espasmo carpopodal, rigidez; fadiga muscular.

Vias aéreas

Laringoespasmo (estridor) e broncoespasmo.

SNC e coração

Convulsões, confusão; QT longo, arritmias, insuficiência cardíaca.

Sinais de Trousseau e Chvostek

Os dois revelam a tetania latente. O de Trousseau é mais específico: a isquemia do manguito aumenta a excitabilidade do nervo já sensibilizado. O de Chvostek pode ser positivo em parte das pessoas normais.

Trousseau

  • Manguito acima da sistólica por 3 minutos
  • Espasmo carpopodal
  • Mais específico

Chvostek

  • Percussão do nervo facial à frente da orelha
  • Contração do lábio e da face do mesmo lado
  • Pode ocorrer em pessoas normais
Exame físico

Sinal de Chvostek

Percussão sobre o trajeto do nervo facial, anterior ao trágus, produz contração do canto da boca, do nariz ou da pálpebra do mesmo lado.

Sinais de gravidade

  • Estridor ou dispneia (laringoespasmo, broncoespasmo).
  • Convulsões ou rebaixamento de consciência.
  • QT prolongado, arritmias, hipotensão.
  • Queda rápida após tireoidectomia ou paratireoidectomia.

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O essencial de histopatologia e diagnóstico

  1. O diagnóstico é clínico e laboratorial; não há lesão muscular na lâmina.
  2. Medir cálcio ionizado (ou total corrigido), magnésio, fósforo, PTH, 25-OH-vitamina D, creatinina e gasometria.
  3. A histologia relevante é a da paratireoide: ausente, lesada ou infiltrada.
  4. ECG: QT prolongado pela fase de platô alongada.

Paratireoide na lâmina

Reconhecer a paratireoide normal ajuda a entender as causas de hipocalcemia. A glândula é encapsulada, com cordões de células epiteliais entre capilares e adipócitos, que aumentam com a idade.

SituaçãoAchadoComo reconhecer
NormalCélulas principais e oxífilas; adipócitosPrincipais: pequenas, núcleo central, citoplasma claro. Oxífilas: maiores, citoplasma rosa granuloso
Pós-tireoidectomiaGlândula removida, isquêmica ou com fibroseParatireoide encontrada na peça de tireoide; necrose ou cicatriz
AutoimuneInfiltrado linfocitário e atrofiaLinfócitos entre cordões escassos; fibrose
DiGeorge (22q11.2)Aplasia ou hipoplasiaParatireoides e timo ausentes ou mínimos (3ª e 4ª bolsas faríngeas)

E o músculo?

Fibras esqueléticas e axônios têm aspecto normal ao microscópio. A alteração é elétrica: a eletroneuromiografia pode mostrar descargas repetitivas (dupletos e tripletos) de unidades motoras, originadas no nervo periférico.

Hipocalcemia crônica

Pode haver calcificação de tecidos moles e dos núcleos da base, visível na TC de crânio, e catarata subcapsular.

Investigação passo a passo

Primeiro, confirmar que o cálcio ionizado está baixo; depois, usar magnésio, PTH e fósforo para chegar à causa.

  1. Cálcio

    Ionizado; ou total corrigido pela albumina. Excluir pseudo-hipocalcemia.

  2. Magnésio

    Baixo: repor antes de qualquer conclusão.

  3. PTH

    Baixo ou inapropriadamente normal: hipoparatireoidismo. Alto: vitamina D, rim, resistência ao PTH.

  4. Fósforo

    Alto no hipoparatireoidismo e na DRC; baixo na deficiência de vitamina D.

  5. Gasometria e ECG

    Alcalose; QT prolongado.

Diagnóstico diferencial

Espasmos e contrações involuntárias têm várias origens. Parestesias, sinal de Trousseau e cálcio ionizado baixo apontam para tetania.

CondiçãoAchado-chaveComo diferenciar
Tétano
Achado-chaveTrismo, opistótono, espasmos a estímulos
Como diferenciarFerimento contaminado, cálcio normal; toxina bloqueia a inibição medular.
Distonia aguda por fármacos
Achado-chaveTorcicolo, crise oculógira
Como diferenciarUso de antipsicótico ou antiemético; cálcio normal; melhora com anticolinérgico.
Cãibras benignas
Achado-chaveContração dolorosa localizada
Como diferenciarPanturrilha, à noite ou após esforço; sem parestesias perorais; sem Trousseau.
Achado-chaveDistúrbio da junção neuromuscular
Como diferenciarFraqueza fatigável, não espasmo; cálcio normal.
Achado-chavePode causar hipocalcemia inicial
Como diferenciarMialgia, urina escura, CK muito elevada.

Galeria

Da glândula ao sinal clínico: o que a lâmina mostra e o que o exame físico revela.

Paratireoide normal

HE, aumento médio. Procure cordões de células principais pequenas e claras, ninhos de células oxífilas maiores e rosadas e adipócitos entremeados. A cápsula separa a glândula da tireoide vizinha, com seus folículos de coloide.

HEParatireoideCélulas principais

Células principais e oxífilas

Grande aumento. Células principais: núcleo redondo central, citoplasma pálido. Oxífilas: maiores, citoplasma eosinofílico granuloso (cheio de mitocôndrias), núcleo pequeno e escuro. São as principais que secretam PTH.

HE400xPTH

Músculo esquelético normal

HE, corte transversal. Fibras poligonais com núcleos periféricos e sem necrose ou inflamação. Na tetania o músculo é estruturalmente normal: a alteração é da excitabilidade da membrana.

HEMúsculo esqueléticoNormal

Sinal de Trousseau

Espasmo carpopodal após 3 minutos de manguito insuflado acima da sistólica: flexão do punho e das metacarpofalângicas, extensão das interfalângicas e adução do polegar.

Exame físicoEspasmo carpopodal
Exame complementar

QT prolongado na hipocalcemia

O segmento ST se alonga e o intervalo QT aumenta, com onda T de aspecto normal. Corrige com a reposição de cálcio.

Em 30 segundos

O essencial de tratamento

  1. Tetania sintomática ou hipocalcemia grave: gluconato de cálcio IV, com monitor cardíaco.
  2. Repor magnésio se estiver baixo; sem isso a hipocalcemia volta.
  3. Hiperventilação: tratar a causa (orientação, respiração lenta), não dar cálcio.
  4. Hipoparatireoidismo crônico: cálcio oral + calcitriol, mirando cálcio no limite inferior do normal.

Estratégia

Primeiro, tirar o paciente do risco (vias aéreas, convulsão, arritmia). Depois, manter o cálcio estável enquanto se trata a causa. Pacientes com sintomas leves e cálcio pouco baixo podem receber cálcio oral.

Cálcio venoso

  • Tetania, laringoespasmo, convulsão
  • QT longo ou arritmia
  • Queda rápida pós-operatória

Cálcio oral

  • Parestesias leves
  • Hipocalcemia leve e estável
  • Manutenção após a fase aguda

Rotas de tratamento

Cada rota é um cenário de cuidado. O nome do medicamento abre a ficha.

Tetania por hiperventilação

Na crise de ansiedade, o cálcio total é normal e o ionizado cai pela alcalose. O tratamento é tranquilizar e orientar respiração lenta; cálcio venoso não está indicado. Sempre excluir causas orgânicas de hiperventilação (hipoxemia, acidose, dor).

Referências bibliográficas

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    Livro-texto2021
    Kumar V, Abbas AK, Aster JC. Robbins & Cotran Patologia: bases patológicas das doenças. 10. ed. Rio de Janeiro: Elsevier; 2021.
  2. 2
    Livro-texto2021
    Ross MH, Pawlina W. Histologia: texto e atlas — correlações com biologia celular e molecular. 8. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan; 2021.
  3. 3
    Livro-texto2023
    Junqueira LC, Carneiro J. Histologia Básica: texto e atlas. 14. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan; 2023.
  4. 4
    Livro-texto2021
    Hall JE, Hall ME. Guyton & Hall Tratado de Fisiologia Médica. 14. ed. Rio de Janeiro: Elsevier; 2021.
  5. 5
    Artigo2008
    Cooper MS, Gittoes NJ. Diagnosis and management of hypocalcaemia. BMJ. 2008;336(7656):1298–1302.

Fontes das imagens

As imagens deste atlas têm finalidade educacional e foram produzidas a partir de lâminas histológicas reais e de representações didáticas.

Parte delas pode ter sido editada ou aprimorada digitalmente para destacar as estruturas e os achados descritos no texto.

Aviso importante

Material educacional. Não substitui o laudo anatomopatológico, a avaliação clínica, os protocolos institucionais nem a consulta às bulas. Doses de cálcio e de vitamina D ativa devem ser ajustadas pela calcemia seriada, pela função renal e pelo protocolo local.

Atlas Astrenmed de Histologia • Conteúdo para educação médica. O diagnóstico e a conduta dependem da avaliação clínica individual.
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