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Queimaduras

Grande queimado • lesão térmica, elétrica e química • choque do queimado

O que mata na primeira hora não é a pele: é a via aérea, o monóxido de carbono e o trauma associado. Depois disso, o desafio muda de nome — repor volume suficiente para perfundir sem afogar o paciente. A fórmula é um ponto de partida; quem manda é a diurese.

Via aérea primeiroSCQ pela regra dos noveTitular pela diuresePrevenir hipotermia
18 min de leitura Atualizado em outubro de 2026

Em 30 segundos

O essencial de visão geral

  1. A queimadura extensa é um trauma com resposta inflamatória sistêmica: acima de cerca de 20% de SCQ no adulto, há extravasamento capilar em todo o corpo.
  2. Na primeira hora, o que mata é a via aérea, o monóxido de carbono, o cianeto e o trauma associado — não a extensão da queimadura.
  3. A zona de estase pode ser salva ou perdida: hipotensão, hiper-hidratação, hipotermia e infecção aprofundam a lesão nas primeiras 48 a 72 horas.
  4. Queimado hipotenso nas primeiras horas tem outra causa até prova em contrário.

Queimadura é trauma sistêmico

A queimadura extensa não é apenas uma ferida: é um trauma com resposta inflamatória sistêmica. Acima de aproximadamente 20% da superfície corporal queimada no adulto, a liberação de mediadores produz aumento generalizado da permeabilidade capilar, com perda de plasma para o interstício em todo o corpo — inclusive em áreas não queimadas.

O resultado é o choque do queimado: componente hipovolêmico (perda para o terceiro espaço), distributivo (vasodilatação mediada por inflamação) e, nas primeiras horas, também cardiogênico, por depressão miocárdica. Por isso a reposição volêmica é o eixo do tratamento inicial — e por isso ela precisa ser bem dosada.

Hipovolêmico

Perda de plasma para o terceiro espaço, inclusive em pele não queimada.

Distributivo

Vasodilatação mediada pela resposta inflamatória.

Cardiogênico

Depressão miocárdica nas primeiras horas.

Na primeira hora, o que mata é a via aérea, a intoxicação por monóxido de carbono e cianeto e o trauma associado — não a extensão da queimadura. Trate o queimado como politraumatizado até prova em contrário.

Zonas de Jackson

A lesão térmica organiza-se em três zonas concêntricas, e entender isso muda a conduta:

Zona de coagulação

Centro da lesão, com necrose irreversível. Perdida desde o início.

Zona de estase

Ao redor, com perfusão comprometida mas tecido ainda viável. É a zona que se pode salvar — ou perder.

Zona de hiperemia

Periferia, com vasodilatação e recuperação espontânea.

Hipotensão, hipoperfusão, infecção, edema excessivo e resfriamento inadequado convertem a zona de estase em necrose — e a queimadura "aprofunda" nas primeiras 48 a 72 horas.

O que aprofunda a queimadura

  • Hipovolemia e hipotensão não corrigidas.
  • Hiper-hidratação, com edema que compromete a microcirculação.
  • Hipotermia — muito frequente e frequentemente iatrogênica.
  • Infecção da ferida.
  • Compressão por escara circunferencial.
A consequência prática

A profundidade avaliada nas primeiras horas não é definitiva. Reavalie a ferida em 48 a 72 horas antes de decidir sobre enxertia — e informe isso ao paciente e à família desde o início.

Epidemiologia

No Brasil, as queimaduras são causa frequente de atendimento de urgência, com predomínio de acidentes domésticos. Escaldadura por líquidos quentes é o mecanismo mais comum em crianças pequenas; chama direta, com frequência envolvendo álcool líquido, predomina em adolescentes e adultos. Queimaduras elétricas e químicas têm forte componente ocupacional.

Local

A maioria dos acidentes ocorre no ambiente doméstico.

Criança

Escaldadura por líquidos quentes é o mecanismo dominante.

Adulto

Chama direta, frequentemente com álcool líquido envolvido.

Ocupacional

Predomínio de lesões elétricas e químicas.

Prognóstico

Extensão, idade e lesão inalatória são os principais determinantes de mortalidade.

As três perguntas da primeira hora

  1. A via aérea está ameaçada?

    Ambiente fechado, explosão, queimadura de face, rouquidão, estridor, escarro carbonáceo ou edema de orofaringe. O edema progride nas horas seguintes e a intubação tardia pode se tornar impossível.

  2. Qual é a extensão e a profundidade?

    SCQ pela regra dos nove ou Lund-Browder, contando apenas segundo e terceiro graus. Esse número define volume, critérios de internação e necessidade de transferência.

  3. Há trauma ou intoxicação associados?

    Queda, explosão, colisão, fratura, intoxicação por monóxido de carbono ou cianeto. O queimado que chega hipotenso raramente está hipotenso só pela queimadura.

Hipotensão nas primeiras horas de uma queimadura não é explicada apenas pela queimadura. Procure sangramento, pneumotórax, tamponamento, lesão medular e intoxicação.

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O essencial de classificação

  1. A profundidade vai do 1º grau (epiderme) ao 4º grau (além da pele); só 2º e 3º graus entram na SCQ.
  2. Quanto mais profunda, menos dói: área indolor no meio de uma queimadura dolorosa é sinal de profundidade, não de melhora.
  3. O agente muda a conduta: a lesão elétrica esconde dano profundo e a química depende do tempo de contato.
  4. Qualquer critério de encaminhamento justifica contato precoce com o centro de queimados.

Profundidade

GrauCamada atingidaAspecto clínicoEvolução
1º grau
Superficial
EpidermeEritema, dor, sem bolhas. Enchimento capilar preservado. Exemplo clássico: queimadura solar.Cura em 3 a 7 dias, sem sequela. Não entra no cálculo da SCQ.
2º grau superficialDerme papilarBolhas, base rósea e úmida, muito dolorosa, enchimento capilar rápido.Cura em 1 a 3 semanas, habitualmente sem cicatriz hipertrófica.
2º grau profundoDerme reticularBase pálida ou mosqueada, mais seca, dor reduzida, enchimento capilar lentificado.Cura lenta, acima de 3 semanas, com cicatriz. Frequentemente exige enxertia.
3º grau
Espessura total
Toda a dermeBranca nacarada, marrom ou carbonizada, seca, endurecida, indolor e sem enchimento capilar. Vasos trombosados visíveis.Não epiteliza a partir do leito: exige enxertia.
4º grauAlém da peleAtinge tecido subcutâneo, fáscia, músculo ou osso. Típica de lesão elétrica e de exposição prolongada à chama.Desbridamento extenso, retalhos e, por vezes, amputação.

Regra prática: quanto mais profunda, menos dói — a destruição das terminações nervosas explica a analgesia paradoxal do terceiro grau. Área indolor no meio de uma queimadura muito dolorosa é sinal de profundidade, não de melhora.

Classificação pelo agente

Térmica

Chama, escaldadura, contato com superfície quente, vapor. É a mais frequente. Vapor e líquidos aquecidos causam lesão mais profunda do que se costuma estimar à primeira vista.

Elétrica

A lesão cutânea subestima grosseiramente o dano profundo. Alto risco de rabdomiólise, síndrome compartimental, arritmia e lesão de órgãos internos.

Química

A gravidade depende do agente, da concentração e do tempo de contato. Álcalis penetram mais e causam lesão mais profunda que ácidos.

Por frio e radiação

Congelamento e queimadura por radiação seguem princípios próprios de manejo, com reavaliação seriada da profundidade.

Critérios de encaminhamento a centro de queimados

Baseados nos critérios da associação americana de queimados — atualizados em 2022 (ABA Guidelines for Burn Patient Referral) — e replicados na maioria dos protocolos brasileiros. A presença de qualquer um deles justifica contato com o serviço de referência.

  • Queimadura de segundo grau (espessura parcial) a partir de 10% da SCQ.
  • Queimadura de terceiro grau (espessura total) em qualquer extensão.
  • Acometimento profundo de face, mãos, pés, genitália, períneo ou articulações.
  • Queimadura elétrica, incluindo lesão por raio — todas as de alta voltagem (≥ 1.000 V); as de baixa voltagem pedem ao menos contato e seguimento.
  • Queimadura química.
  • Lesão inalatória associada ou suspeita.
  • Queimadura em paciente com comorbidades que possam complicar o tratamento ou prolongar a recuperação.
  • Queimadura com trauma associado — priorizando a condição de maior risco imediato.
  • Criança (até 14 anos ou menos de 30 kg) — sobretudo se atendida em serviço sem estrutura pediátrica adequada.
  • Dor de difícil controle ou necessidade de curativos complexos.
  • Paciente que exigirá suporte especial de reabilitação, social ou psicológico, incluindo suspeita de maus-tratos.

Contate o centro de referência cedo, ainda durante a estabilização — a orientação à distância sobre volume, via aérea e curativo melhora o transporte e evita hiper-hidratação no caminho.

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O essencial de cálculo da scq

  1. A SCQ define volume, internação e transferência: errar para mais leva à hiper-hidratação; para menos, ao choque não corrigido.
  2. Regra dos nove para a estimativa rápida no adulto; Lund-Browder para o cálculo definitivo, sobretudo em crianças.
  3. Palma do paciente com os dedos ≈ 1% — útil em queimaduras pequenas ou dispersas.
  4. Não conte o 1º grau e reavalie após limpar a ferida.

Como estimar a superfície corporal queimada

A SCQ é o número que define volume, critérios de internação e transferência. Errar para mais leva à hiper-hidratação; errar para menos, ao choque não corrigido.

MétodoQuando usarComo funciona
Regra dos noveAdulto, estimativa rápida na salaSegmentos corporais em múltiplos de 9%: cabeça e pescoço 9; cada membro superior 9; tronco anterior 18; tronco posterior 18; cada membro inferior 18; períneo 1.
Regra dos nove pediátricaCriança pequenaA cabeça representa proporção maior (cerca de 18%) e cada membro inferior, menor (cerca de 13,5%). A proporção muda com a idade.
Lund-BrowderPadrão de referência, sobretudo em criançasTabela que corrige as proporções corporais por faixa etária. É o método mais preciso e o recomendado para o cálculo definitivo.
Regra da palmaQueimaduras pequenas ou dispersasA superfície palmar do paciente, incluindo os dedos, corresponde a aproximadamente 1% da sua SCQ.

Não inclua queimaduras de primeiro grau no cálculo. Contar o eritema simples é a causa mais comum de superestimativa da SCQ — e, por consequência, de hiper-hidratação.

Calculadora — SCQ pela regra dos nove

Para cada segmento, estime quanto por cento daquele segmento está queimado (0 a 100) e multiplique pelo valor máximo do segmento; a soma é a SCQ total. Conte apenas segundo e terceiro graus. Exemplo: metade do tronco anterior (50% de 18 = 9%) + todo o membro superior direito (9%) = 18% de SCQ.

SegmentoAdulto — regra dos nove clássicaCriança pequena — proporções pediátricas
Cabeça e pescoço9%18%
Tronco anterior18%18%
Tronco posterior18%18%
Membro superior direito9%9%
Membro superior esquerdo9%9%
Membro inferior direito18%13,5%
Membro inferior esquerdo18%13,5%
Períneo e genitália1%1%

Contribuição de cada segmento = valor máximo × (% do segmento queimado ÷ 100).

Leitura da SCQ calculada

Informe a faixa de SCQ (só 2º e 3º graus), a faixa etária e se há critério especial para ver a conduta sugerida.

Preencha os campos — conte apenas queimaduras de segundo e terceiro graus.

Ferramenta de apoio: a regra dos nove é uma estimativa. Para o cálculo definitivo, sobretudo em crianças, use a tabela de Lund-Browder, que corrige as proporções por faixa etária. Reavalie a SCQ após a limpeza da ferida — fuligem e sujidade induzem a erro.

Armadilhas na estimativa

  • Contar eritema de primeiro grau — o erro mais frequente e o de maior impacto.
  • Estimar antes de limpar a ferida: fuligem e sujidade simulam áreas queimadas.
  • Usar a regra dos nove do adulto em criança pequena, subestimando a cabeça e superestimando os membros inferiores.
  • Usar a palma do examinador em vez da palma do paciente.
  • Não reavaliar a extensão e a profundidade nas primeiras 48 a 72 horas.
  • Arredondar generosamente para cima "por segurança" — em queimados, o excesso de volume também mata.

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O essencial de avaliação inicial

  1. O queimado é avaliado como politraumatizado, pelo xABCDE: a queimadura impressiona, mas não é o que mata primeiro.
  2. Oxigênio a 100% em toda exposição a fumaça; via aérea definitiva precoce se houver sinais de lesão inalatória.
  3. Acessos calibrosos — puncione através da pele queimada se preciso —, analgesia venosa e sonda vesical nas queimaduras extensas.
  4. Exponha para medir a SCQ e cubra e aqueça logo em seguida.

Os primeiros dez minutos

O queimado é avaliado como politraumatizado. A queimadura é impressionante e rouba atenção — o xABCDE evita que ela esconda o que mata mais rápido.

  1. Interrompa a queimadura

    Retire roupas, joias e anéis; remova material aderido apenas se soltar sem trauma.

  2. A — via aérea

    Avalie a via aérea buscando sinais de lesão inalatória e edema. Diante de risco, intube CEDO, com o tubo de maior calibre disponível. Na sequência rápida, a é segura nas primeiras 24 horas; depois disso, prefira o .

  3. B — ventilação

    por máscara com reservatório em toda suspeita de exposição a fumaça; avalie escara circunferencial torácica restringindo a ventilação.

  4. C — circulação

    Dois acessos venosos calibrosos, preferindo pele não queimada, mas puncione através da queimadura se necessário; considere intraósseo. Colha exames e inicie a reposição.

  5. D — neurológico

    Glasgow e pupilas; rebaixamento sugere hipóxia, intoxicação por monóxido de carbono ou cianeto, ou trauma craniano.

  6. E — exposição

    Exponha totalmente para estimar a SCQ e depois cubra e aqueça imediatamente; o queimado perde calor com enorme facilidade.

  7. Analgesia

    Venosa e titulada — a dor é intensa e a via intramuscular é imprevisível no queimado.

  8. Sondas

    Sonda vesical em queimaduras extensas, para medir a diurese horária; sonda gástrica se houver íleo ou SCQ elevada.

  9. Tétano e referência

    Profilaxia antitetânica conforme o histórico vacinal e contato com o centro de referência.

Hipotermia é a complicação iatrogênica mais comum

Na sala de emergência do queimado, resfrie a queimadura, não o paciente: água corrente por poucos minutos, depois cobrir, aquecer a sala, usar manta térmica e aquecer os fluidos.

Queimado hipotenso: procure outra causa

O choque do queimado se instala ao longo de horas. Hipotensão ou índice de choque elevado na chegada apontam para sangramento, pneumotórax, tamponamento, lesão medular ou intoxicação por cianeto — e mudam a prioridade do atendimento.

PAM estimada e índice de choque

PAM = PAD + (PAS − PAD) / 3. Índice de choque = FC ÷ PAS. No queimado, a medida não invasiva pode ser difícil em membros queimados — use o membro poupado ou a pressão invasiva.

PAM estimada (mmHg)—
Índice de choque—
Leitura rápida—

Taquicardia é comum pela dor e pela ansiedade; hipotensão precoce não é. Calculadora completa: Índice de Choque do MedFoco.

Resfriamento e primeiro curativo

Como resfriar

Água corrente em temperatura ambiente por até cerca de 20 minutos, idealmente nas primeiras 3 horas. Reduz a dor e limita o aprofundamento da lesão.

O que não fazer

Nunca use gelo ou água muito fria: causa vasoconstrição, aprofunda a lesão e provoca hipotermia. Em queimaduras extensas, limite o tempo de resfriamento.

Nada de receitas caseiras

Pasta de dente, manteiga, borra de café, pó de café e clara de ovo aumentam infecção e dificultam a avaliação. Oriente ativamente contra.

Cobertura inicial

Pano limpo e seco ou compressa estéril, sem produtos, até a avaliação definitiva. Curativos específicos vêm depois do exame completo.

Exames iniciais

ExamePor que pedir
Gasometria com co-oximetriaMede carboxi-hemoglobina — a oximetria de pulso é falsamente normal na intoxicação por monóxido de carbono. Avalia também acidose e lactato.
LactatoMarcador de gravidade; elevação desproporcional (sobretudo ≥ 8–10 mmol/L) levanta a suspeita de intoxicação por cianeto em vítimas de incêndio em ambiente fechado.
Hemograma e coagulogramaHemoconcentração é esperada nas primeiras horas; anemia precoce sugere sangramento associado.
Eletrólitos e função renalBase para o acompanhamento da reposição e da função renal.
CPK e urinaRabdomiólise, especialmente em queimadura elétrica e em lesões profundas extensas. Urina escura orienta hidratação mais agressiva.
GlicemiaObrigatória em qualquer rebaixamento; hipoglicemia é diferencial e é comum em crianças.
ECGIndispensável na queimadura elétrica; monitorização prolongada conforme o mecanismo e os achados. Acrescente troponina na lesão elétrica.
ImagemRadiografia de tórax e demais exames conforme o mecanismo — explosão, queda e colisão pedem avaliação de trauma completa.

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O essencial de reposição volêmica

  1. Reposição formal no adulto com SCQ ≥ 20% (alguns serviços, 15%) e na criança a partir de 10 a 15%.
  2. Inicie com a 2 mL/kg/%SCQ em 24 h no adulto (3 mL/kg/%SCQ na criança; 4 mL/kg/%SCQ na lesão elétrica de alta voltagem), metade nas primeiras 8 h contadas do acidente.
  3. A diurese manda: 0,5 mL/kg/h no adulto, 1 mL/kg/h na criança; ajuste a taxa em cerca de 20% a cada hora.
  4. Volume demais também mata: fluid creep causa edema pulmonar, síndrome compartimental e aprofundamento da queimadura.

Princípios

A reposição é indicada em adultos com SCQ igual ou superior a 20% (alguns serviços adotam 15%) e em crianças a partir de aproximadamente 10 a 15%. Abaixo desses limiares, hidratação oral ou de manutenção costuma bastar.

ElementoRecomendaçãoObservação
SoluçãoRinger lactatoCristaloide balanceado é o padrão; o soro fisiológico em grande volume causa acidose hiperclorêmica.
Fórmula inicial (adulto)2 mL/kg/%SCQ nas primeiras 24 horasA diretriz de ressuscitação do choque do queimado da ABA (Cartotto, 2023/2024) recomenda iniciar com 2 mL/kg/%SCQ para reduzir o volume total infundido. A fórmula de Parkland (4 mL) tende a superestimar.
Fórmula inicial (criança)3 mL/kg/%SCQ (ABLS) + manutençãoCrianças pequenas também precisam de fluido de manutenção com glicose, somado ao volume de ressuscitação.
Lesão elétrica de alta voltagem4 mL/kg/%SCQ (ABLS)O dano profundo não aparece na SCQ; com mioglobinúria, o alvo de diurese sobe para 1–1,5 mL/kg/h (≈ 75–100 mL/h no adulto) até a urina clarear.
DistribuiçãoMetade nas primeiras 8 horas, metade nas 16 horas seguintesAs 8 horas contam a partir do momento do acidente, não da chegada ao hospital.
Alvo de diurese (adulto)0,5 mL/kg/h — habitualmente 30–50 mL/hÉ o principal parâmetro de titulação; a ABA recomenda guiar pela diurese e não por monitorização invasiva de volemia.
Alvo de diurese (criança)1 mL/kg/h (abaixo de 30 kg)Some a manutenção com glicose e monitore a glicemia.
AjusteReavaliar a cada hora, aumentando ou reduzindo em torno de 20% conforme a diureseA fórmula é ponto de partida, não prescrição fixa.
AlbuminaConsiderar nas primeiras 24 horasA ABA sugere para melhorar o débito urinário e reduzir o volume total, sobretudo em queimaduras extensas e em situações de resgate.
Sem recomendaçãoPlasma fresco, vitamina C em dose alta, vasopressor precoceA diretriz da ABA não recomenda plasma fresco de rotina e não conseguiu recomendar vitamina C em dose alta (diurese osmótica, nefropatia por oxalato).
Fluid creep

É o excesso progressivo de volume que se acumula quando se segue a fórmula sem titular. As consequências são edema pulmonar, síndrome compartimental abdominal e de membros, necessidade de escarotomia e aprofundamento da queimadura.

Calculadora — reposição volêmica

Volume das primeiras 24 horas = fórmula × peso × %SCQ. Metade nas primeiras 8 horas contadas a partir do acidente, metade nas 16 horas seguintes. Para a taxa atual, divida o volume restante da fase pelo tempo que falta.

Exemplo: 70 kg, 30% de SCQ, 2 horas desde o acidente, fórmula de 2 mL. Volume em 24 h = 2 × 70 × 30 = 4.200 mL; primeiras 8 h = 2.100 mL; restam 6 h da primeira fase → 350 mL/h. Diurese alvo: 35 mL/h (adulto). Com Parkland clássica (4 mL), o mesmo paciente receberia 8.400 mL — o dobro.

Volume de Ringer lactato nas primeiras 24 h

Digite o peso: cada linha mostra o volume de 24 h para a SCQ e a fórmula indicadas (2 mL/kg/%SCQ — recomendação atual para iniciar; 3 mL — criança/intermediária; 4 mL — Parkland clássica ou elétrica). Metade nas primeiras 8 h do acidente.

SCQ 20% · 2 mL/kg/%40 mL/kg em 24 h
—
SCQ 30% · 2 mL/kg/%60 mL/kg em 24 h
—
SCQ 40% · 2 mL/kg/%80 mL/kg em 24 h
—
SCQ 50% · 2 mL/kg/%100 mL/kg em 24 h
—
SCQ 60% · 2 mL/kg/%120 mL/kg em 24 h
—
SCQ 20% · 3 mL/kg/% (criança)60 mL/kg em 24 h + manutenção com glicose
—
SCQ 30% · 3 mL/kg/% (criança)90 mL/kg em 24 h + manutenção com glicose
—
SCQ 30% · 4 mL/kg/% (Parkland / elétrica)120 mL/kg em 24 h
—

Ferramenta de apoio. Para outras SCQ: volume = fórmula × peso × SCQ. A taxa calculada é um ponto de partida que deve ser reajustado a cada hora pela diurese; desconte o volume já infundido no pré-hospitalar. Em criança, some o fluido de manutenção com glicose. Abaixo de 20% de SCQ no adulto, reavalie a indicação de reposição formal. Guia completo: Guia de Fluidoterapia.

Diurese alvo por hora

Digite o peso para ver a diurese horária que deve guiar a titulação.

Adulto0,5 mL/kg/h (≈ 30–50 mL/h)
—
Criança (< 30 kg)1 mL/kg/h
—
Mioglobinúria / lesão elétrica1–1,5 mL/kg/h até a urina clarear
—

Diurese muito acima do alvo não é margem de segurança: reduza a taxa em cerca de 20%. Após 24 horas do acidente, transicione para fluido de manutenção.

Como titular na prática

  1. Programe a bomba

    Calcule o volume inicial e programe a bomba — anote o horário do acidente, não o da admissão.

  2. Desconte o que já entrou

    Desconte o volume já infundido no pré-hospitalar e em outro serviço.

  3. Diurese horária

    Meça a diurese de hora em hora por sonda vesical.

  4. Abaixo do alvo

    Aumente a taxa em cerca de 20% e reavalie na hora seguinte.

  5. Acima do alvo

    Reduza a taxa em cerca de 20% — não mantenha o excesso "por segurança".

  6. Parâmetros complementares

    Reavalie perfusão, nível de consciência, lactato e base excess.

  7. Sem resposta

    Apesar de volumes crescentes: reveja o diagnóstico, procure sangramento, considere de resgate e discuta vasopressor. Gatilho comum nos protocolos: projeção de volume acima de cerca de 6 mL/kg/%SCQ em 24 h.

  8. Após 24 horas

    Transicione para manutenção e planeje balanço negativo conforme a evolução.

Diurese muito acima do alvo não é um bom sinal: significa que você está infundindo mais do que o necessário. Em queimados, o excesso de volume é iatrogenia, não margem de segurança.

Em 30 segundos

O essencial de lesão inalatória

  1. São três lesões com o mesmo nome: térmica supraglótica, química por fumaça e intoxicação sistêmica por monóxido de carbono e cianeto.
  2. O edema supraglótico progride com a ressuscitação: intube cedo, com o maior tubo disponível.
  3. Oximetria de pulso é falsamente normal na intoxicação por CO: desde o primeiro contato e co-oximetria.
  4. Acidose láctica desproporcional em vítima de incêndio fechado sugere cianeto: sem esperar a dosagem.

Três lesões diferentes com o mesmo nome

Lesão térmica de via aérea superior

Acima das cordas vocais. O ar quente é rapidamente resfriado pela via aérea, então a lesão térmica é quase sempre supraglótica. Produz edema progressivo nas primeiras horas — o grande motivo de intubação precoce.

Lesão química por fumaça

Abaixo das cordas, causada pelos produtos da combustão. Provoca broncoespasmo, descamação da mucosa, tampões e insuficiência respiratória, frequentemente com piora em 24 a 72 horas.

Intoxicação sistêmica

Monóxido de carbono e cianeto, liberados na combustão. Causam hipóxia tecidual sem alterar a oximetria de pulso.

Impacto no prognóstico

A lesão inalatória aumenta de forma independente a mortalidade e a necessidade de volume na ressuscitação.

Sinais de alerta e indicação de via aérea

Nenhum sinal isolado é definitivo; a combinação com o mecanismo é o que decide. Diante de dúvida em queimadura extensa ou de face, a intubação precoce é a decisão mais segura.

  • Mecanismo: incêndio em ambiente fechado, explosão, perda de consciência no local, tempo prolongado de exposição à fumaça.
  • Face e vias aéreas: queimadura facial, vibrissas nasais chamuscadas, edema de língua e orofaringe, queimadura intraoral.
  • Voz e respiração: rouquidão, disfonia, estridor, tosse persistente, sibilância, dispneia.
  • Secreções: escarro carbonáceo, fuligem em narinas e boca.
  • Neurológico: rebaixamento do nível de consciência ou agitação inexplicada.
  • Extensão: queimadura muito extensa, em que o edema de ressuscitação por si só compromete a via aérea.

O edema da via aérea progride com a ressuscitação volêmica. Uma laringoscopia fácil na chegada pode ser impossível quatro horas depois. Use o tubo de maior calibre disponível — a via aérea do queimado exige aspirações repetidas e broncoscopia.

Bloqueador neuromuscular

A é segura nas primeiras 24 horas. A partir de 24 a 48 horas, a proliferação de receptores de acetilcolina extrajuncionais causa hipercalemia potencialmente fatal — use e evite a succinilcolina por meses após a queimadura extensa. Guia: Guia de Intubação Rápida.

Monóxido de carbono e cianeto

AspectoMonóxido de carbonoCianeto
MecanismoLiga-se à hemoglobina com afinidade muito superior à do oxigênio, formando carboxi-hemoglobina e desviando a curva de dissociação.Bloqueia a citocromo-oxidase, impedindo o uso mitocondrial do oxigênio — hipóxia citotóxica.
QuadroCefaleia, náusea, tontura, confusão, rebaixamento, convulsão e coma. A clássica coloração "vermelho-cereja" é rara e tardia.Rebaixamento súbito, instabilidade hemodinâmica, apneia e acidose láctica desproporcional.
DiagnósticoCarboxi-hemoglobina na gasometria com co-oximetria. A oximetria de pulso é falsamente normal.Suspeita clínica: incêndio em ambiente fechado, rebaixamento e lactato muito elevado (≥ 8–10 mmol/L é sugestivo). A dosagem não fica pronta a tempo.
Tratamento por máscara com reservatório ou via tubo; câmara hiperbárica em casos selecionados, conforme disponibilidade e critérios locais. 5 g EV em 15 min (criança 70 mg/kg), podendo repetir 5 g, associada a oxigênio a 100% e suporte. Evite nitritos em vítimas de incêndio, pela metemoglobinemia somada à intoxicação por monóxido.
Detalhe práticoA meia-vida da carboxi-hemoglobina cai de forma expressiva com oxigênio a 100% — por isso ele é iniciado antes mesmo do resultado.A hidroxocobalamina cora urina e pele de vermelho e pode interferir em exames colorimétricos — avise a equipe e colha os exames antes, se possível.

Toda vítima de incêndio em ambiente fechado recebe oxigênio a 100% desde o primeiro contato, independentemente da saturação exibida no monitor. Orientação toxicológica: Guia de Antídotos e Intoxicações e CIATox.

Manejo respiratório

Ventilação protetora

Volume corrente de 6 mL/kg de peso predito, pressão de platô controlada e PEEP conforme a oxigenação — a lesão inalatória evolui frequentemente para síndrome do desconforto respiratório agudo.

Higiene brônquica

Aspiração frequente, fisioterapia e broncoscopia terapêutica para remoção de tampões e de fuligem.

Broncodilatador

para o broncoespasmo, que é frequente na lesão química por fumaça.

O que não fazer

Corticoide e antibiótico profiláticos não são recomendados de rotina na lesão inalatória — aumentam complicações sem benefício demonstrado.

Volume corrente pelo peso predito: calculadora de Volume Corrente e Peso Predito.

Em 30 segundos

O essencial de ferida e especiais

  1. Limpeza, curativo adequado à profundidade, analgesia antes de cada troca e nutrição precoce, de preferência enteral.
  2. Antibiótico sistêmico profilático não é indicado; profilaxia antitetânica conforme a vacinação.
  3. Escara circunferencial de membro ou tórax pede escarotomia; a lesão elétrica pode exigir fasciotomia.
  4. Química: irrigação prolongada, sem neutralizar; ácido fluorídrico exige .

Tratamento da ferida

Depois da estabilização, a ferida passa a ser o foco por semanas: o objetivo é mantê-la limpa, proteger o leito para que a epitelização aconteça e preservar a função das áreas nobres. O curativo não é padronizado — depende da profundidade, do produto disponível e do protocolo do serviço —, mas os princípios abaixo valem para todos.

  • Limpeza com água e clorexidina degermante ou sabão neutro, removendo sujidade e tecido desvitalizado solto.
  • Bolhas: as íntegras e pequenas podem ser mantidas; as tensas, muito grandes ou em áreas de articulação são habitualmente desbridadas — a conduta varia entre serviços.
  • Curativo: cobertura adequada à profundidade e ao serviço, com troca conforme o produto escolhido e a evolução da ferida.
  • Face: frequentemente tratada de forma aberta, com pomada, sem oclusão.
  • Mãos: curativo que permita mobilização precoce dos dedos, com posicionamento funcional — a rigidez se instala rápido.

A pele queimada perde a barreira, mas isso não justifica antibiótico sistêmico profilático: ele não reduz infecção e seleciona resistência, ficando reservado à infecção documentada. A queimadura é ferimento de alto risco para tétano, então a profilaxia antitetânica segue o histórico vacinal ( e, se indicada, ). A analgesia deve ser feita antes de cada troca de curativo, em esquema planejado e não apenas "se necessário", e a nutrição precoce, preferencialmente enteral e com aporte proteico e calórico elevado, responde ao hipermetabolismo intenso e prolongado do queimado.

A segue amplamente usada no Brasil, mas há questionamento sobre atraso na epitelização e dificuldade de reavaliação da ferida. Siga o protocolo do seu serviço e do centro de referência.

Rotas de tratamento

Cada rota reúne os fármacos de um cenário, com dose, via e cuidados; o botão "Ver detalhes" abre a ficha completa. Confira sempre o protocolo institucional e a apresentação disponível no seu serviço.

Escarotomia — queimadura circunferencial

Na queimadura circunferencial de espessura total, a escara rígida funciona como um garrote que aperta progressivamente com o edema da ressuscitação. O momento típico é entre 4 e 12 horas do acidente, quando o edema atinge o pico — mas a escarotomia pode ser necessária antes. A escara de espessura total é insensível, mas as bordas não: providencie analgesia antes de incisar.

AspectoConduta
Indicação em membroQueimadura circunferencial com edema progressivo, dor crescente, parestesia, perfusão distal comprometida ou perda do sinal ao doppler.
Indicação em tóraxQueimadura circunferencial torácica com restrição da expansão, elevação das pressões de via aérea e dificuldade de ventilação.
TécnicaIncisão longitudinal através de toda a espessura da escara, nas linhas médio-lateral e médio-medial do membro, até o tecido subcutâneo se afastar.
ExtensãoEstender além das margens da escara, cruzando articulações quando necessário; no tórax, incisões nas linhas axilares anteriores unidas por incisão transversal subcostal.
Após o procedimentoReavaliar a perfusão distal e a mecânica ventilatória; hemostasia das bordas com eletrocautério.

A escarotomia libera a pele; a fasciotomia pode ser adicionalmente necessária, sobretudo na lesão elétrica e no acometimento muscular profundo. Reavalie a perfusão dos membros de forma seriada durante toda a ressuscitação: o edema continua aumentando enquanto o volume é infundido.

Queimadura elétrica — o dano que não se vê

A lesão cutânea subestima grosseiramente o dano: a corrente atravessa tecidos profundos e destrói músculo entre os pontos de entrada e saída. Por isso, identifique esses pontos e presuma dano muscular extenso mesmo com lesão cutânea pequena. A rabdomiólise é muito frequente — dose CPK, avalie a urina e mantenha hidratação mais agressiva que a calculada pela SCQ: o ABLS sugere iniciar com 4 mL/kg/%SCQ na alta voltagem, com alvo de diurese em torno de 1–1,5 mL/kg/h (≈ 75–100 mL/h no adulto) enquanto houver mioglobinúria.

Monitorização cardíaca

ECG na admissão e monitorização contínua; arritmias podem ocorrer, sobretudo em alta voltagem e após passagem transtorácica da corrente.

Síndrome compartimental

Risco elevado; examine os compartimentos de forma seriada e considere fasciotomia, não apenas escarotomia.

Lesões associadas

Queda e trauma por contração muscular: fraturas, luxação de ombro e lesão de coluna.

Outras avaliações

Exame neurológico seriado, avaliação oftalmológica e auditiva conforme o mecanismo.

Lesão por raio

Padrão próprio, com parada cardiorrespiratória imediata e lesões cutâneas em figura de samambaia.

Os ritmos que a corrente e a rabdomiólise produzem

Corrente alternada de baixa voltagem tende a causar fibrilação ventricular; a rabdomiólise e a succinilcolina fora da janela de 24 horas causam hipercalemia.

FV

Fibrilação ventricular após choque elétrico: desfibrilação imediata pelo algoritmo habitual de PCR.

  • Ondas caóticas, irregulares em amplitude e forma
  • Sem complexos QRS identificáveis
  • Sem ondas P nem linha de base estável

Traçados esquemáticos gerados por computador (25 mm/s, 10 mm/mV) para estudo e comparação. Confirme sempre no ECG de 12 derivações do paciente.

Na queimadura elétrica, a SCQ visível não deve ser usada isoladamente para calcular volume: o dano profundo exige reposição maior, titulada pela diurese. Hipercalemia: veja o artigo de Hipercalemia.

Queimadura química — irrigação prolongada e exceções

A gravidade depende do agente, da concentração e, sobretudo, do tempo de contato — por isso a irrigação precoce e prolongada é a intervenção mais eficaz, e cada minuto conta. Os álcalis penetram mais profundamente que os ácidos e exigem irrigação ainda mais prolongada. Não use agentes neutralizantes: a reação é exotérmica e pode agravar a lesão.

  1. Proteger a equipe

    Equipamento de proteção individual antes de qualquer contato — o agente pode contaminar quem atende.

  2. Remover

    Retire roupas contaminadas e, se o agente for um pó seco, escove antes de irrigar.

  3. Irrigar

    Água corrente abundante e prolongada — habitualmente por 20 a 30 minutos ou mais, guiando-se pelo alívio da dor e pelo pH cutâneo quando disponível.

  4. Olhos

    Irrigação imediata e prolongada com soro fisiológico e avaliação oftalmológica urgente.

Ácido fluorídrico

Causa hipocalcemia grave: exige tópico (gel 2,5%), infiltrado ou intra-arterial, com monitorização de cálcio e do ECG.

Alguns agentes (como sódio metálico e cal virgem em pó) são exceções à água e exigem cuidados específicos. Identifique o agente e acione o centro de informação toxicológica (CIATox): a conduta específica pode mudar completamente conforme a substância.

Analgesia — dor de fundo e dor de procedimento

A dor do queimado é intensa, contínua e agravada a cada curativo; subtratá-la é um erro frequente e evitável. Na fase aguda, use a via endovenosa — a absorção intramuscular e subcutânea é imprevisível pela alteração da perfusão. A dor de fundo pede opioide em esquema fixo ( ou ) com doses de resgate, associado a analgésico simples () e anti-inflamatório conforme a indicação e as contraindicações; a dor de procedimento pede analgesia potente antes de cada troca de curativo, planejada e não apenas se necessário.

Adjuvantes

em dose analgésica é opção descrita para procedimentos; gabapentinoides para o componente neuropático.

Ansiedade

Componente importante: abordagem não farmacológica, explicação do procedimento e ansiolítico quando indicado.

Monitorização

Nível de consciência e ventilação, sobretudo em doses altas de opioide e em associações.

Reavaliação

Escala de dor sistemática e ajuste diário; a necessidade muda ao longo da internação.

Prurido e dor neuropática são queixas frequentes na fase de cicatrização e merecem abordagem específica.

Criança queimada — particularidades e maus-tratos

Proporções corporais diferentes mudam a conta: use Lund-Browder, porque a cabeça representa proporção maior e os membros inferiores, menor, com variação por idade. A reposição começa habitualmente a partir de 10 a 15% de SCQ, conforme o protocolo do serviço, com fórmula inicial de 3 mL/kg/%SCQ (ABLS) somada a um fluido de manutenção com glicose — o estoque de glicogênio é limitado —, e alvo de diurese de 1 mL/kg/h.

A relação superfície-massa torna o risco de hipotermia muito maior: aqueça a sala, os fluidos e o paciente de forma ativa, e considere a via intraóssea precocemente diante de dificuldade de punção. E há um diferencial que nunca pode ser esquecido — maus-tratos. Desconfie diante destes sinais:

  • História incompatível ou mutável.
  • Atraso na busca por atendimento.
  • Queimadura em luva ou em meia com margens nítidas.
  • Lesões simétricas; queimadura de nádegas e períneo.
  • Marcas de contato com padrão definido.
  • Lesões em estágios diferentes de cicatrização.

A suspeita de maus-tratos exige notificação obrigatória e proteção — não confrontação —, com avaliação do serviço social e da equipe de proteção à criança. Documente objetivamente os achados e a história relatada.

Transferência — como preparar o transporte

O transporte de um queimado extenso é um período de risco: hipotermia, perda de via aérea e reposição inadequada acontecem com frequência no caminho. Ligue para o centro de queimados antes de transferir e alinhe volume, via aérea e curativo. Diante de qualquer dúvida sobre lesão inalatória, intube antes do transporte — não durante.

  • Acessos: dois calibrosos bem fixados, com fixação alternativa em pele queimada (sutura ou fixador).
  • Volume: bomba de infusão programada, com registro do horário do acidente e do volume já infundido.
  • Diurese: sonda vesical com coletor graduado para medida horária durante o trajeto.
  • Temperatura: manta térmica, ambiente aquecido e fluidos aquecidos — a hipotermia se instala rapidamente na ambulância.
  • Curativo: cobertura limpa e seca, sem produtos, salvo orientação específica do serviço receptor.
  • Documentação: horário do acidente, mecanismo, SCQ estimada, volume infundido, medicações, exames e evolução do exame neurológico.

Envie fotografias das lesões quando o serviço receptor solicitar: ajudam no planejamento e reduzem manipulação repetida da ferida.

Erros comuns

Quase todos os erros no queimado vêm de olhar só para a pele: a ferida é a parte mais visível e a menos urgente nas primeiras horas. Os que mais custam são os de via aérea e de volume — a intubação adiada e a fórmula seguida sem titulação —, seguidos pelos que subestimam o que não se vê, como o monóxido de carbono, a lesão elétrica profunda e os maus-tratos.

  • Focar na queimadura e não avaliar via aérea, monóxido de carbono e trauma associado.
  • Adiar a intubação em paciente com sinais de lesão inalatória — a janela se fecha com o edema.
  • Confiar na oximetria de pulso na suspeita de intoxicação por monóxido de carbono.
  • Incluir queimaduras de primeiro grau no cálculo da SCQ.
  • Contar as 8 horas a partir da chegada ao hospital, e não do acidente.
  • Seguir a fórmula rigidamente sem titular pela diurese — fluid creep.
  • Usar gelo ou água muito fria para resfriar, causando hipotermia e aprofundamento.
  • Deixar o paciente exposto e resfriar durante o atendimento.
  • Prescrever antibiótico sistêmico profilático de rotina.
  • Não avaliar escara circunferencial de membro e de tórax.
  • Subestimar a queimadura elétrica pela aparência da lesão cutânea.
  • Usar succinilcolina após 24–48 horas de uma queimadura extensa.
  • Não considerar maus-tratos diante de padrão de lesão incompatível com a história.

Resumo do fluxo

A ordem importa: a queimadura só é tratada depois que a via aérea, a intoxicação por fumaça e o trauma associado foram afastados, e o volume é guiado pela diurese, não pela fórmula. O registro abaixo ajuda a garantir que o horário do acidente e o volume já infundido acompanhem o paciente.

  1. Interromper e resfriar

    Interrompa a queimadura, retire roupas e adornos e resfrie com água em temperatura ambiente.

  2. xABCDE

    Via aérea com atenção à lesão inalatória, oxigênio a 100% se houver exposição a fumaça.

  3. Acessos e monitorização

    Acessos calibrosos, exames, analgesia venosa e sonda vesical nas queimaduras extensas.

  4. SCQ

    Calcule a SCQ contando apenas segundo e terceiro graus.

  5. Ressuscitação

    Inicie o Ringer lactato a 2 mL/kg/%SCQ (criança 3; elétrica 4), contando o tempo a partir do acidente, e titule pela diurese a cada hora.

  6. Aquecer

    Cubra a ferida, aqueça o paciente e previna a hipotermia ativamente.

  7. Escara

    Avalie escara circunferencial de membro e de tórax e indique escarotomia quando necessário.

  8. Encaminhar

    Aplique os critérios de encaminhamento e contate o centro de queimados cedo.

Modelo de registro — admissão do queimado

Horário do acidente: __:__ • Mecanismo: (chama / escaldadura / elétrica __ V / química: agente __) • Ambiente fechado: sim/não Via aérea: sinais de lesão inalatória (sim/não: __) • Conduta: O2 100% / IOT às __:__ (tubo nº __) COHb: __% • Lactato: __ mmol/L • Hidroxocobalamina: sim/não SCQ (2º e 3º graus): __% (regra dos nove / Lund-Browder) • Áreas especiais: __ • Escara circunferencial: __ Peso: __ kg • Fórmula: __ mL/kg/%SCQ → __ mL em 24 h; __ mL até 8 h do acidente; taxa atual __ mL/h • Volume pré-hospitalar: __ mL Diurese alvo: __ mL/h • Temperatura: __ °C • Analgesia: __ • Tétano: __ Centro de queimados contatado às __:__ com __

Adapte ao protocolo do seu serviço.

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